Whiskey Smash – Derivação

Quando em 1799, o biólogo britânico George Shaw recebeu um ornitorrinco para estudo, pensou que estivessem lhe pregando uma peça. “Acho que é uma preparação enganosa, por meios artificiais” descreveu. Shaw imaginou que algum maluco tivesse grudado o bico de um pato no corpo de um castor, e enviado de frete naval internacional da Austrália para a Grã-bretanha, numa estranha espécie de pegadinha interoceânica. A veracidade da espécime só realmente se revelou por meio de um exame bem mais detalhado.

Para nós, hoje em dia, pode parecer ingenuidade de Shaw. Mas, temos que concordar em uma coisa. O Ornitorrinco é um bicho bem esquisito. Ele tem nadadeiras, pelos, bico e não tem estômago. Os filhotes bebem leite direto do pelo das fêmeas. Aliás, falado em filhotes, apesar de serem mamíferos e amamentarem as crias, os ornitorrincos botam ovo – uma special feature que levou mais uns cem anos para ser descoberta pelos cientistas.

Por fim, e para coroar – perdão pela ambiguidade um pouco escatológica – os ornitorrincos são monotremes. O que significa, literalmente em grego “único buraco”, em referência a, bem, uma abertura abdominal que serve para uma porção de coisas na vida íntima dos ornitorrincos. Mas é curioso como o bicho, apesar de parecer uma coleção aleatória de partes de outros animais, é extremamente bem adaptado.

E o mundo dos coquetéis tem também seus ornitorrincos. Aqueles que mais parecem a improvável combinação de dois coquetéis de verdade – mas que tem uma personalidade toda própria. Um destes casos é o singelamente batizado Whiskey Smash – um híbrido entre o Whiskey Sour e o Mint Julep com um quê de caipirinha. Um clássico do século dezenove, que leva limão, hortelã, açúcar e, claro, whiskey.

A receita de Whiskey Smash apareceu pela primeira vez no livro How To Mix Drinks do mítico Jerry Thomas, em 1862 – ainda sem referência ao nome da invenção. Lá, ele foi definido simplesmente como uma variação de mint julep. O que faz sentido, porque a única coisa que separa um do outro é a adição de limão siciliano. Em 1888, no entanto, Harry Johnson em seu Bartenders’ Manual batizou a combinação de “Old Style Whiskey Smash“, e recomendou seu preparo com açúcar, hortelã, gelo picado, frutas da estação – sejam lá que frutas forem essas – e “uma taça de vinho de whiskey”.

Com o tempo, os smashes evoluíram e passaram a incluir uma gama maior de destilados – ainda que sempre bem próximos aos juleps. Como, por exemplo, no Savoy Cocktail Book de 1930 – quando apareceram como variação daqueles. A receita recomendada por Craddock em sua publicação sugeria o uso de “barcardi rum, brandy, gim, irish whiskey ou scotch whisky“.

Independente da discussão quase acadêmica sobre sua classificação, o whiskey smash é uma belíssima criação. Poucos coquetéis de whiskey trazem tamanha drinkability. Talvez ele seja um whiskey sour com hortelã. Ou, talvez, um julep com limão. Mas a parte importante é que ele é, realmente, delicioso. Afinal, pouco importa se um ornitorrinco é um pato com corpo de castor, ou um castor com corpo de pato, não é mesmo?

WHISKEY SMASH

INGREDIENTES

  • 60ml bourbon ou rye whiskey
  • 15ml de xarope de açúcar 1:1
  • 2 dashes (isso são sacodidelas) de Angustura Orange Bitters
  • 2 rodelas de limão
  • hortelã (bastante – eu sei, isso é uma medida discricionária)
  • gelo
  • copo baixo
  • parafernália para misturar

PREPARO

  1. Num copo baixo, macere (amasse) o hortelã com o xarope de açúcar. Isso fará com que os oleos essenciais do hortelã sejam liberados.
  2. Adicione as rodelas de limão, e amasse novamente.
  3. Adicione gelo picado, ou pequenos cubos de gelo e coloque o bourbon por cima.
  4. misture cuidadosamente, tentando evitar que tudo fique sujo, grudento e molhado com os pedaços de gelo com whiskey e açúcar que você vai derrubar para fora do copo por conta de sua imperícia.
  5. decore com um ramo de hortelã.

2 thoughts on “Whiskey Smash – Derivação

  1. Caro Maurício,
    Um sujeito chamado Jörg Meyer colocou um chifre no ornitorrinco quando criou o gin basil smash. Acho uma delícia e quando preparo me utilizo do processo adotado por Erik Adkins na fazer seu whiskey smash, que não macera as folhas de hortelã. Simplifico a execução de ambos deixando que as pedras de gelo façam o trabalho no resfriamento com o shaker. Para ambos também utilizo o coador de malha mais fechada para filtrar os fragmentos.
    Abraços

    1. Caro Socrates, como sempre, contribuições valiosas.

      Faz sentido. Você pode dar um tapa nas folhas – como dizem, para ativar os aromas. Vou tentar sem macerar e deixar que o shake-shake faça seu trabalho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *