Sobre as novas regras do whisky Japonês

Portugal e Japão possuem uma ligação muito mais profunda do que se imagina. Os portugueses foram o primeiro povo ocidental a ter contato e travar relações comerciais com os japoneses. E como qualquer contato, dali surgiram curiosas influências para os dois lados. Os portugueseses herdaram algumas palavras do vocabulário nipônico, como, por exemplo, catana e biombo.

Já os japoneses passaram a utilizar uma série de palavras de origem portuguesa, adaptadas para a sonoridade de sua língua. Por exemplo, pan, koppu, tabako e arkoru – que seu poder de dedução etimológico já deve ter indicado que são respectivamente pão, copo, tabaco e álcool. Aliás, uma combinação de palavras que demonstrava que havia também certa afinidade entre as culturas quando o assunto era estabelecer prioridades e se divertir.

Na verdade, a cultura japonesa possui uma característica belíssima. Essa, de incorporar elementos de outras culturas, e transmutá-las em algo essencialmente japonês. O Tempurá – sim, a fritura – é um exemplo. Os japoneses não conheciam a técnica até a chegada dos portugueses. E, claro, o whisky. O Whisky no Japão possui aproximadamente um século de idade. A técnica foi aprendida com os escoceses, mas o líquido japonês já possui uma identidade toda própria. Tanto é que virou uma enorme febre no mundo.

Uma febre sem leis. Até agora. Porque em fevereiro de 2021 a Japan Spirits & Liqueur Makers Association (JSLMA) anunciou novos padrões de identificação para Whisky Japonês. Uma medida que, convenhamos, era há muito tempo necessária. Antes de entrarmos nos pormenores legais, entretanto, creio que seja importante uma recapitulação básica sobre o cenário do whisky japonês.

Até hoje, quase não havia leis no Japão relativas à produção e comercialização de whisky. E, por conta disso, era permitido – ou melhor, não era ilegal – que um whisky destilado e maturado em outro país e engarrafado no Japão fosse rotulado como whisky japonês. Ou seja, determinado produtor poderia comprar cem por cento de whiskies escoceses, enviar para o Japão, engarrafar lá e chamar de whisky Japonês.

California Roll – mais japonês que muito whisky japonês

Essa prática pode parecer absurda, mas, historicamente, fazia sentido. Primeiro porque, antigamente, o whisky japonês não era a febre que é hoje. O país possuía poucas destilarias na aurora de sua produção. E, importar o produto a granel, pronto, e misturar com whisky japonês feito no Japão (não, isso não é um pleonasmo) ajudava a baixar os custos e aumentar a riqueza sensorial.

Ocorre que, com o tempo, o cenário mudou. O whisky japonês se tornou inacreditavelmente cobiçado. Consequentemente, o estoque de whiskies verdadeiramente japoneses mais maturados quase zerou. E, os que restaram, passaram a ser vendidos a preços astronômicos. Além disso, a falta de regulamentação de mercado – antes benéfica por permitir riqueza sensorial – deu espaço para o oportunismo. Certas empresas passaram a se aproveitar desta permissividade histórica para ludibriar o consumidor. Comprar whiskies baratos e engarrafar no Japão, rotulando-os como whisky japonês.

Com a ascensão à fama do whisky japonês, as antigas regras se tornaram obsoletas. ou melhor, não se tornaram nada, porque não havia regras neste faroeste oriental que era o whisky japonês. Até agora. Porque, a partir da sugestiva data de 1 de Abril de 2021, a Japan Spirits & Liqueur Makers Association (JSLMA) – uma espécie de SWA japonesa – finalmente anunciou novas diretrizes para rotulagem de whiskies no Japão.

É verdade.

O PONTO DA JSLMA

Talvez, neste ponto do texto, seja preciosismo. Mas resolvemos traduzir parte da declaração que antecede a regulamentação da Japan Spirits & Liqueur Makers Association, e que esclarece as razões por trás de tão desejada regra.

“É lamentável que nos ultimos anos tenha havido casos de marcas que usam apenas whiskies importados e os vendam como “Whisky Japonês”, e casos de produtos que nem mesmo se qualificam como “whisky” de acordo com as leis fiscais japonesas, mas que são vendidos como tal em outros países, semeando confusão entre os consumidores

Olhando em retrospecto para a história da produção de whisky no Japão, é importante notar que nossa jornada começou por aprender as artes e ofícios dos produtores de Whisky Escocês, à medida que nossos antecessores começaram a criar um tipo distinto de whisky, aperfeiçoado pela natureza do Japão, estabelecendo uma técnica singularmente japonesa ao longo dos anos.

Na Escócia, é uma prática comum que empresas façam intercâmbio de estoques de whisky. Isso permite que estas empresas blendem os whiskies comprados com whiskies produzidos por suas próprias destilarias, para fins tanto de desenvolvimento quanto para manter a qualidade das marcas existentes. No entanto, no Japão, esta prática não é familiar. Produtores de whisky no Japão tiveram que ser autossuficientes, desenvolvendo técnicas para criar vários tipos de whisky em suas próprias destilarias, adquirindo destilarias no exterior ou utilizando whisky importado para criar um produto adequado para o paladar japonês.

Não é preciso dizer que esses desenvolvimentos fazem parte da história, tradição e cultura da produção de whisky no Japão. Os produtos criados por meio desse processo enriqueceram a cultura do whisky no Japão, e contam com o apoio de muitas pessoas ao redor do mundo. Nós, membros da JSLMA, somos gratos pelos esforços de nossos antepassados.

(…) ao claramente definir o que é ‘Japanese Whisky”, e ao divulgar e tornar disponível essa informação para o público no Japão e exterior, buscamos esclarecer a situação confusa para os consumidores. “

Yamazaki – 100% adaptada

AS NOVAS REGRAS DE ROTULAGEM DE WHISKY DA JSLMA

Vamos a um esclarecimento prévio. A Japan Spirits & Liqueur Makers Association (JSLMA) não é um órgão governamental japonês. Mas, sim, uma associação privada, aprovada pelo governo nipônico. É uma espécie de entidade de autorregulação, semelhante ao que seria a BSM ou a ANBIMA no Mercado de Capitais Brasileiro. É, por essa você não esperava, né Gordon Gekko?

De acordo com a JSLMA, os novos padrões têm o propósito (…) de contribuir para a seleção apropriada de whiskies pelos consumidores no Japão e no exterior, e proteger os interesses dos consumidores, bem como garantir a competição justa e melhorar a qualidade“. e continua “estes padrões se aplicam aos whiskies vendidos no Japão, ou vendidos a partir do Japão para o exterior, por operadores de negócios (ou seja, empresas)”

A regulamentação da JSLMA traz uma tabela com as regras a serem seguidas pelos produtores de whisky no Japão, para que possam rotular seus produtos como “japanese whisky” ou “whisky japonês”. A primeira delas é que as matérias primas devem ser limitadas a grãos maltados, ou outros cereais, e água deve ser extraída do Japão. Grãos maltados sempre devem ser utilizados.

A segunda determinação diz respeito à produção em si. A sacarificação, fermentação e destilação devem ser feitas por uma destilaria no Japão. Aqui, há um ponto importante. A maltagem, ou malteação, é uma espécie de sacarificação. O que significa que, aqui, há uma divergência entre Escócia e Japão. E que as novas regras nipônicas são ainda mais restritivas que as escocesas da SWA. Na versão oriental, a malteação deve ser feita no Japão. Não é permitido comprar cevada maltada de outros países. Adicionalmente, a graduação alcoólica após a destilação não deve superar 95% – para que depois seja, obviamente, cortado com água.

A terceira se refere à maturação, e é quase um espelho da regra escocesa. Quase. O new-make spirit deve ser colocado em barris de madeira no máximo setecentos litros por, no mínimo três anos. Caso você tenha lido rápido, talvez tenha olvidado de um detalhe. Ou, talvez, estejamos apenas lost in translation, como o Bill Murray. Mas é curioso o uso da palavra “madeira” – não fica claro se carvalho é o único barril permitido. Deveremos aguardar novidades.

Não entendi.

Por fim, o engarrafamento deve acontecer no Japão, e a graduação alcoólica deve ser de no mínimo 40%. Esta regra é também mais restritiva que a escocesa, que permite que blended scotch whiskies sejam engarrafados fora da Escócia. Pela regra da Scotch Whisky Association, apenas single malts devem ser obrigatoriamente engarrafados em seu país de origem. Adicionalmente, apenas corante caramelo simples pode ser usado nos Japanese Whiskies.

A regra determina também que não deve haver quaisquer expressões ou termos entre as palavras “japanese” e “whisky”, exceto para indicar o tipo de whisky – por exemplo, single malt ou blended. E para os espertinhos, sinônimos também estão abarcados pela regra. Então, nada de um whisky nipônico, por exemplo. A regulamentação vai além, e também diz que não vale fazer um whisky com cara de japonês, com ideogramas, nomes e expressões claramente japonesas. Nada de “Hokusai Whisky” ou “Mount Fuji“.

Todas esssas diretrizes, entretanto, tem um prazo de adaptação. A partir de primeiro de abril, produtos novos (lançados após referida data) devem seguir as regras publicadas. Entretanto, whiskies que não seguiam a regra antes poderão continuar rebeldes até 31 de março de 2024, como é – surpreendentemente – o caso do Nikka From the Barrel. Ou seja, até lá, nem todo whisky japonês será japonês de verdade.

É importante apontar que, ao contrário da Escócia e sua Scotch Whisky Association, as regras da JSLMA não tem força de lei. Mas, são válidas para os integrantes da associação. O que, na prática, não significa o fim do whisky japonês não japonês. Mas é um passo importante na transparência de um mercado já há anos carente de alguma transparência. E mais transparência e isonomia trazem mais segurança ao consumidor – e ajudam a manter o bom nome do japanese whisky no mundo. Kampai a isso.

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