Irmão do Meio – Glenlivet 15 anos

Sou filho único. O que, para falar a verdade, não quer dizer muita coisa. Crescer sem irmãos não significa que tenha conseguido tudo que quero. Nem que seja mimado ou estragado, e tampouco egoísta. Quer dizer, exceto com comida. Comida é algo realmente difícil de dividir. Ser filho único, porém, significa que tive que responder mais de um sem fim de vezes a clássica indagação. Se eu não sinto falta de ter irmãos. E minha resposta, desde a mais tenra idade, sempre foi a mesma. É claro que não, afinal, não poderia sentir falta de algo que nunca tive.

Minha mãe, no entanto, possui irmãos. E ela está na pior posição possível. Ela é a irmã do meio. O que, para ela, significava ter as refeições roubadas pelo irmão mais velho enquanto era solenemente ignorada pelos pais, em favor do irmão mais novo. Significava não ter idade para fazer algumas coisas que o primogênito fazia, mas ser velha demais para se envolver com as atividades de criancinha do caçula. Segundo ela, galgar espaço como a irmã do meio não era nada, nada fácil.

Relembrei disso ao experimentar novamente, após bastante tempo, o Glenlivet 15 anos. O Glenlivet 15 é a expressão intermediária do portfólio permanente da destilaria, e está posicionado entre o 12 anos – ou, em alguns mercados, o Founder’s Reserve – e o 18 anos. E como o irmão do meio da família de single malts mais vendida no mundo, o Glenlivet 15 anos realmente não recebe a atenção devida. Um exemplo claro disso é que ele foi o derradeiro a ter uma prova neste blog.

Glenlivet 15 à esquerda.

A maturação do Glenlivet 15 anos é um tanto incomum. Ela ocorre predominantemente em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Porém, parte do destilado é transferido para barricas de carvalho francês – ou seja, carvalho europeu – da região de Limousin. E isso não teria nada de muito especial, não fosse um pequeno e quase imperceptível detalhe. As barricas de carvalho francês utilizadas pela Glenlivet são virgens. Algo bastante incomum no mundo do scotch whisky, que prefere fazer uso de madeiras que já tenham sido utilizadas para maturar outra bebida.

Este processo, batizado pela destilaria de selective maturation (maturação seletiva, seja lá o que for isso) dá ao Glenlivet 15 anos um sabor bastante picante e frutado, mas ao mesmo tempo adocicado. Algo que, na minha singela e canídea opinião, o coloca em bastante destaque frente às demais expressões do portfólio permanente da Glenlivet, mesmo se comparado àqueles mais maturados, como o Glenlivet 18 e o 21 anos.

Ele é claramente mais complexo e profundo que seus irmãos mais jovens. O real fogo amigo vem do Glenlivet 18, com maturação e perfil de sabor semelhantes. Porém, em comparação com seu irmão maior de idade, o Glenlivet 15 anos é mais pungente, menos seco e mais adocicado. Há mais baunilha – provavelmente resultado do emprego das barricas virgens. Ele é mais adocicado, enquanto o dezoito anos possui mais taninos.

O The Glenlivet é, atualmente, o single malt mais vendido do mundo. Após uma acirrada batalha pela supremacia do mercado, a The Glenlivet superou sua rival Glenfiddich em meados de 2015. Atualmente, a destilaria vende mais de doze milhões de garrafas por ano. Seu whisky mais vendido é o Glenlivet Founder’s Reserve. Parte de sua produção também é utilizada nos blended whiskies pertencentes à Pernod Ricard, sua detentora, como Chivas Regal e Ballantine’s.

Alambiques da Glenlivet. Feio né?

O Glenlivet 15 anos recebeu prêmio de Liquid Gold (Ouro Líquido) pela Jim Murray Whisky Bibile de 2014, e ouro pela International Wine & Spirit Competition em 2017 na categoria de Single Malt de Speyside. Também faturou o ouro pela The Scotch Whisky Masters em 2015 e 2014, na categoria de single malts entre 13 e 19 anos.

Se você já deu seus primeiros passos no mundo dos single malts e agora procura algo com bom “custo-benefício”, ou se – assim como este Cão – você preferiu pular alguns degraus e agora deseja retomá-los, o Glenlivet 15 anos é uma excelente alternativa. Este é um irmão do meio como muitos outros. Basta um pouco de atenção para que mostre seu brilhantismo.

GLENLIVET 15 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 15 anos

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado e adocicado. Baunilha com uma certa pimenta.

Sabor: frutado, com maçã, baunilha e caramelo. O final traz mais baunilha e uma certa canela.

Com água: o sabor fica mais adocicado e menos picante.

Preço: R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais)

 

Drops – Nikka Taketsuru 21 anos

O drops desta semana fala de um whisky japonês. O Nikka Taketsuru 21 anos. Para introduzi-lo, eu poderia cair na tentação de falar sobre a disciplina japonesa. Sobre o conceito de Yin-Yang, emprestado do taoísmo chinês, que influenciou grande parte do Japão, e como este conceito está presente mesmo em coisas tão mundanas quanto um whisky. Poderia apontar que Yin é o símbolo da terra, escuridão e passividade, enquanto o Yang é seu direto oposto. E desembocaria, finalmente, no Dô – o caminho, entre as duas forças opostas. Sempre, claro, fazendo um paralelo com uma belíssima dose deste blended malt. Eu poderia, mas não vou, porque isso seria bem brega. Mesmo.

Então, introduzirei este texto simplesmente dizendo que o Nikka Taketsuru 21 anos é um whisky absolutamente e reconhecidamente incrível. Ele foi inúmeras vezes premiado. Recebeu quatro vezes o título de melhor blended malt do mundo pela World Whisky Awards, nos anos de 2007, 2009, 2010 e 2011. Recebeu ouro pelo International Spirits Challenge nos anos de 2008, 2009 e 2010. Com um currículo como este, e mesmo para alguém que nunca foi um grande apreciador da marca criada por Masataka Taketsuru, o Nikka 21 é redenção.

Como você pode ter presumido, o nome do whisky é uma homenagem ao fundador da marca, Masataka Taketsuru. Masataka foi um dos personagens centrais da história do whisky no Japão. Foi ele, com o auxílio de Shinjiro Torii, que trouxe àquele país as técnicas de destilação e produção de whisky, aprendidas na Escócia durante os anos em que lá viveu. Taketsuru trabalhou com Torii – o fundador da Suntory – para, anos mais tarde, fundar sua destilaria e criar sua própria marca.

Taketsuru e Rita, sua esposa, com a última moda em trajes de banho dos anos 30 (fonte: Nikka Whisky)

O Nikka Taketsuru 21 anos é composto por dois maltes diferentes. O primeiro da destilaria de Yoichi, conhecida por produzir um malte oleoso e enfumaçado. O segundo, da Miyagikyo, cujo perfil do destilado é mais leve e frutado. Maltes complementares, que certamente produziriam algo excelente se reunidos com sabedoria. Mas não, eu ainda não estou aqui falando sobre o equilíbrio ou sobre forças opostas, como o Yin e Yang.

Como na Escócia, a idade é do componente mais novo em sua composição. Neste caso, vinte e um anos. Porém, ao contrário do que acontece naquele país, no Japão quase não há intercâmbio de barricas entre empresas concorrentes. A maioria dos blended whiskies é produzida totalmente in-house. Por isso as destilarias são muito maiores do que as Escocesas, e possuem diversos formatos diferentes de alambiques, distintos limites de corte do destilado e várias espécies diferentes de leveduras. É justamente este o caso da Nikka, e de seu Taketsuru 21 anos.

O aroma do Nikka Taketsuru 21 é bastante frutado. Há um certo aroma de frutas secas. Algo que remonta, de longe, os maltes da linha Sherry Oak da The Macallan e os Aberlour. O sabor é bastante frutado, com ameixas secas, e apenas com um toque de fumaça ao fundo. O corpo é médio, e seu final bastante longo. O álcool está absolutamente integrado e é quase imperceptível.

Infelizmente, o Taketsuru 21 anos não está à venda no Brasil. E para falar bem a verdade, assim como muitos whiskies japoneses, ele não está à venda em quase lugar nenhum. Assim, se você cruzar com uma garrafa destas, experimente. Você até pode trilhar o caminho do equilíbrio,  mas vale a pena sair dele por alguns instantes por um whisky como este.

NIKKA TAKETSURU 21 ANOS

Tipo: Blended Malt Whisky com idade definida – 21 anos

Marca: Nikka

País: Japão

ABV: 43% (poderia ser mais!)

Notas de prova:

Aroma: Frutado e levemente azedo, com frutas secas. Fumaça discreta.

Sabor: Mais frutas secas. Ameixas secas talvez. Ou damasco. Final longo e frutado, com fumaça e álcool perfeitamente integrados. Corpo médio.

Com água: A agua ressalta o sabor de frutas secas. Porém, este é um malte que pode ser provado sem água tranquilamente.

Preço: 300 Libras (trezentas libras!)

NOTA: Agradecimentos especiais ao Sr. Sylas Rocha, do Riviera Bar, por ceder este malte mágico para a apreciação deste Cão!

 

 

Drink do Cão – Rusty Nail

A simplicidade é o tom de toda verdadeira elegância

A frase acima, atribuída a Coco Chanel – sim, a da grife de moda – provavelmente tinha como objeto algum artigo de alta costura. Um belo vestido, um chapéu ou uma bela bolsa. Se este Cão não soubesse melhor, porém, poderia afirmar que a frase fora dita pela estilista ao preparar e provar um Rusty Nail.

Composto por apenas dois ingredientes – Drambuie e whisky – o coquetel é a liquefação da citação de Chanel. Um drink simples, facílimo de ser preparado, mas um clássico atemporal. Tanto é que atualmente, o Rusty Nail figura entre os “inesquecíveis” da International Bartender’s Association (a Associação Internacional de Bartenders) e está entre os cem mais do Difford’s Guide. O engraçado é que até hoje, a origem de seu nome, que significa “prego enferrujado” em inglês, é desconhecida.

O sucesso do Rusty Nail, porém, demorou um pouco para – perdão pela metáfora oportunista – pregar. De acordo com David Wondrich, historiador especializado em coquetelaria, nas quase três décadas iniciais de vida do Drambuie, nenhuma referência foi feita a ele. Segundo Wondrich, sua primeira aparição foi em 1937, pelas mãos de certo  F. Benniman, sob a alcunha de  B.I.F. O coquetel teria sido criado para comemorar a British Industry Fair – literalmente, uma feira de produtos industriais britânicos. Quem dera todas as feiras possuírem um coquetel próprio!

Vamos encher a cara e operar maquinário pesado!

De lá em diante, o drink assumiu diversas outras identidades, como Little Club No.1, Mig-21 e Knucklehead.  Em 1967, contudo, Gina MacKinnon, presidente da Drambuie Liqueur Company o consagrou oficialmente ao declarar que seu nome deveria ser, daquele dia em diante, Rusty Nail.

O coquetel tornou-se praticamente viral na década de setenta, graças ao Rat Pack, o grupo de artistas americanos – cantores e atores – que contava com nomes de peso, como Humphrey Bogart, Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Joey Bishop, Lauren Bacall, David Niven e Peter Lawford. Artistas talentosíssimos, que, em comum, possuíam a incrível habilidade de consumir doses leviatanescas de álcool. Naquela década, o Rat Pack enamorou-se com o coquetel. E como aqueles famosos artistas transpiravam a elegância etílica de outrora, o drink rapidamente caiu nas graças do povo.

Mais recentemente o coquetel foi relembrado pela série Better Call Saul. Na cena, Goodman – o famosíssimo advogado de ética duvidosa – prepara um Rusty Nail antes de uma sessão de vídeos nostálgicos de suas glórias passadas.

Reconhecem as mãos de Saul?

 

Apesar da facilidade de preparo, a maior polêmica ao redor do Rusty Nail é a proporção. Muitos afirmam que o ideal seja meio-a-meio (ou seja, uma parte de whisky para uma parte de Drambuie). Essas pessoas não sabem o que falam. David Wondrich, mais ajuizado, recomenda que o ponto de partida seja 2 doses de whisky para 1/2 dose de Drambuie.

A ideia é que cada um ajuste as proporções da forma que mais gosta, partindo da receita de Wondrich. Se você prefere um coquetel mais seco e menos adocicado, use maior proporção de whisky. Entretanto, se gostar do sabor mais adocicado e licoroso do Drambuie, eleve sua participação no drink. A receita abaixo é uma sugestão – a que este Cão mais gosta.

Assim, caros, preparem-se para contemplar a elegância da simplicidade aplicada à coquetelaria. Um coquetel um terço mais fácil de fazer do que um Boulevardier. O singelo, mas delicioso, Rusty Nail.

RUSTY NAIL

INGREDIENTES

  • 3/4 dose de Drambuie
  • 2 doses de whisky (use um bom blended whisky, como um Johnnie Walker Black Label ou Famous Grouse Finest. Lembre-se que dependendo do whisky utilizado, a proporção deverá ser adaptada. Um whisky mais adocicado como o Chivas 12 pedirá menos Drambuie do que algo mais seco, como um Black Label).
  • casca de laranja (totalmente opcional)
  • Gelo

PREPARO

  1. Em um copo baixo, adicione o gelo (uma pedra grande ou algumas menores)
  2. Adicione o whisky e o drambuie e mexa vagarosamente.

Na foto, este cão adicionou uma pequena fatia da casca de um limão siciliano. Note que isto não faz parte da receita clássica do coquetel, tampouco da versão de Wondrich. Porém, ao que parece, é uma adição bastante comum. Se gostar de um leve aroma cítrico, vá em frente e arrisque. No limite da razoabilidade, claro.

 

 

Drops – Aultmore 18 anos

A Escócia possui muitas destilarias. Algumas delas são amplamente conhecidas, como Ardbeg, Laphroaig, Macallan, Glenfiddich e Glenlivet. Estas brilham com single malts já bastante renomados e conhecidos até mesmo do público que não é assim, tão fascinado por whiskies.

Outras, porém, não são tão conhecidas. E sair da obscuridade para cair nas graças do público não é exatamente uma tarefa simples, ainda que, certas vezes, aconteça. É o caso da Mortlach, que adquiriu fama com seu Flora & Fauna 16 anos, a ponto de ser reposicionada pela Diageo – sua detentora – como um malte super premium, precificado ombro a ombro com The Macallan.

Às vezes é preciso um pouco mais do que um bom malte. Um empurrãozinho do pessoal de marketing, por exemplo, ajuda bastante. E aí é que está o Aultmore. Mais especificamente, o Aultmore 18 anos. O Aultmore era – quer dizer, ainda é – um malte bastante usado nos blended whiskies da Bacardi, como o Dewars, mas que não aparecia muito em voo solo. Até que aquela resolveu que o destacaria também como um single malt.

Reunindo outras destilarias sob seu comando, a Bacardi criou um grupo com um nome bastante modesto. Os  The Last Great Malts of Scotland (os últimos grandes maltes da Escócia), formado por Aultmore, Glen Deveron, Craigellachie, Aberfeldy e Royal Brackla. A cada um deles foi dada uma certa personalidade e identidade visual bastante próprias. Há mais de uma expressão de cada uma das destilarias. O portfólio da Aultmore, por exemplo, além do ora comentado Aultmore 18 anos, conta com um 12, um 21 e outro 25 anos.

O grupinho

A Aultmore está localizada em Keith, Banffshire, bem no coração da região de Speyside. A destilaria foi construída em 1895 por um cavalheiro chamado Alexander Edward, outrora proprietário também da Benrinnes. Ela foi vendida para a John Dewar’s & Sons em 1923, posteriormente adquirida pela United Distillers – que mais tarde tornou-se a Diageo – em 1987. Por fim, terminou nas mãos da Bacardi.

A garrafa do Aultmore já vêm com quase tudo que você precisa saber sobre o malte. Ela diz que a água utilizada pela destilaria provém de uma fonte conhecida como Foggie Moss. O Aultmore 18 é bastante adocicado e delicado, e não há qualquer traço de defumação. Reza a lenda – ou talvez o marketing – que apesar de pouco conhecido, o whisky era bastante consumido pelos pescadores de Buckie, que se referiam a ele como “uma dose daquele na estrada de Buckie”.

O Aultmore 18 anos é claramente distinto de seus irmãos já revistos por aqui – o Craigellachie 13 anos e o Royal Brackla 16 anos – e perfeito para aqueles que apreciam um whisky leve e bastante floral. Se você gosta de maltes delicados, ou se é um fã dos Dewar’s, este desconhecido certamente lhe agradará.

AULTMORE 18 ANOS

Tipo: Single malt com idade definida (18 anos)

Destilaria: Aultmore

Região: Speyside

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Floral, cítrico, ervas (as lícitas…).

Sabor: Herbáceo, levemente cítrico. Floral. Final médio e floral.

Disponibilidade: Duty Free de embarque internacional/lojas internacionais

Homenagens – Cutty Sark

O que une poema, um navio e um whisky? Uma improvável série de homenagens.

A história começa com Robert Burns, provavelmente o mais importante poeta escocês da história. Bobby era um cara simples, que amava beber, comer salsichão de bode e se comovia com pequenos desastres mundanos. Como certo episódio em que, distraído durante uma caminhada, esmagou uma margarida da montanha. A obra de Robert é extensa, mas um de seus mais famosos poemas é Tam O’ Shanter. Que, aliás, é também um dos maiores.

Tam O’ Shanter foi escrito em 1791, e conta a história de Tam, um fazendeiro que gosta de embriagar-se com seus amigos e fugir de sua esposa controladora. Em umas dessas noites de esbórnia, Tam sai do bar notavelmente bêbado e alegre. Sobe em sua égua Meg – afinal, não havia multa para conduzir equinos sob efeito de álcool – e segue para sua casa. No caminho, Tam se depara com uma estranha visão. Bruxos e bruxas dançando ao redor de uma fogueira. Uma das feiticeiras lhe chama a atenção, especialmente pela micro-saia que usava. E como um bêbado inconveniente, Tam resolve evocar o espírito misógino em seu coração e gritar “weel done, cutty sark” – algo como “parabéns, que saiazinha curta“.

Tam, que até então passava despercebido, é finalmente notado pelos hierofantes, que resolvem persegui-lo para se vingar. Ocorre que sua égua – Meg – o salva, perdendo apenas parte de seu rabo, que é agarrado e violentamente arrancado justamente pela bruxa notada pelo rapaz.  E esta obra seria apenas um poema sobre um bêbado ridículo que fez um comentário machista, não fosse uma série de improváveis homenagens.

A primeira delas foi um navio. Em 1869 foi inaugurado o famosíssimo Cutty Sark, um veleiro – clipper – com quase três mil metros quadrados de pano, distribuídos em mais de quarenta velas. Sua carranca – a figura de proa – é a bruxa do poema de Burns. O Cutty Sark  ganhou fama rapidamente, em especial por conta de sua velocidade. Após quase cinquenta anos de serviço – transportando chá, lã e outras mercadorias para diversas nações – ele foi aposentado, restaurado e tornou-se uma atração turística. Atualmente, o Cutty Sark é a única embarcação de sua classe que ainda existe, e pode ser visitado em Greenwich.

A bruxa na proa do navio (saia curta?)

A segunda foi, na realidade, um tributo àquele primeiro laurel. Naquele ano foi criado o blended whisky Cutty Sark pela Berry Bros & Rudd. A ideia do nome teria partido do artista escocês James McBey. O rótulo do whisky, que até hoje sofreu pouquíssimas alterações, porta a imagem do navio, desenhada pelo artista sueco Carl Georg August Wallin. Reza a lenda que o amarelo no fundo do rótulo teria sido um acidente. Desenhado com uma cor mais pálida, a gráfica responsável teria se enganado, mas os proprietários – Francis e Walter Berry e Hugh Rudd – gostaram do resultado, e resolveram mantê-lo.

A história deste singelo whisky, porém, não termina por aí. O Cutty Sark ganhou notoriedade internacional durante uma época que dificilmente uma bebida alcoólica poderia alcançar tal feito. A era da Lei Seca nos Estados Unidos. Foi naquele período, contrabandeado por um distinto capitão chamado William McCoy, que o Cutty Sark ficou conhecido. Seu sabor leve e coloração mais pálida caíram no gosto dos americanos, acostumados com rye whiskeys pouco maturados e bastante secos. Essa história ficou imortalizada por mais uma homenagem. Um rótulo lançado pela Cutty Sark em 2013 – O Cutty Sark Prohibition, desenhado à moda das garrafas da época.

O Cutty Sark tradicional, à venda em nosso mercado, possui 40% de graduação alcoólica. Ainda que a informação não esteja disponível oficialmente, podemos conjecturar que os principais single malts em sua composição são  The Macallan e Highland Park, pertencentes ao Edrintgon Group, que adquiriu a marca da Berry Bros & Rudd em 2010. Originalmente, seu single malt base era The Glenrothes, que permaneceu com a companhia após a venda da marca de blended whiskies em 2010. Muitos acreditam que, apesar da separação corporativa, The Glenrothes continua desempenhando papel central no blend.

A Glenrothes

O Cutty Sark é um blended whisky polêmico. Certos críticos o consideram unidimensional e pobre. Outros, porém, pensam que o whisky cumpre bem sua função como um blend barato e suave. Este Cão segue a segunda corrente. Porque da mesma forma que há espaço e tempo para single malts e blended whiskies premium carregados de sabor e camadas de complexidade, há sempre oportunidades para algo honesto, simples e agradável. Se o Cutty Sark rivalizasse em preço com o Chivas Extra ou o Johnnie Walker Black Label, talvez minha visão fosse diferente. Mas a verdade é que, pela metade do preço daqueles, ele entrega aquilo que promete.

A singeleza do blend está (literalmente) estampada em sua caixa. A embalagem traz a receita de dois drinks refrescantes como sugestão de consumo. Além disso, ao visitar o website internacional da marca, nota-se uma clara inclinação para o uso na coquetelaria. Há um cocktail explorer, que fornece as mais variadas receitas – de clássicos revistos a criações completamente novas – com o whisky.

Se você gosta de whiskies adocicados e suaves e possui um orçamento apertado, ou se simplesmente quer algo despretensioso para usar em seus coquetéis caseiros, o Cutty Sark é seu whisky. Quem sabe não é você que presta o próximo tributo desta corrente?

CUTTY SARK BLENDED SCOTCH WHISKY

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Cutty Sark

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: vegetal, floral. Muito suave.

Sabor: mel, malte, frutas cristalizadas. Final médio e seco, levemente picante.

Com água: A água torna o whisky menos picante e ainda mais suave. O aroma floral fica mais evidente.

Quatro dos whiskies mais caros a venda no Brasil

Essa semana assisti um filme que há tempos queria ver. Brewster’s Millions. Brewster’s Millions é uma comédia dirigida por Walter Hill, com Richard Pryor e John Candy. De forma bem resumida, ela conta a história de um rapaz – Monty Brewster – que precisa torrar trinta milhões de dólares para herdar trezentos milhões. A tarefa, que parece fácil no começo, torna-se hercúlea. Brewster percebe que gastar tanto dinheiro é bem difícil. No final do filme, ele só consegue atingir seu objetivo ao entrar para a vida política e concorrer a prefeito de Nova Iorque. Faz sentido, realmente,  porque se tem uma coisa que não dá dinheiro, é política.

O filme é bem divertido, mas uma coisa que não consigo entender direito é a dificuldade de Monty. Torrar dinheiro é tão fácil quanto esbarrar em pornografia na internet. Basta ter um pouquinho de criatividade e uma pletora de possibilidades se abre. Tudo bem que no filme havia regras que o impediam de comprar certas coisas. Mas pense em máquinas de fazer pão, restaurante japonês a-la-carte, roupinha de cachorro da Burberry e fones de ouvido do Dr. Dre. Elevando um pouco o ticket, é até mais simples. Uma Bugatti folheada a ouro, uma cama que flutua magneticamente ou um iate com dois motores de caça supersônico Harrier.  E se o gosto for pelo mundo corporativo, invista em uma linha aérea ou de um hotel. Consigo sonhar com um sem-fim de alternativas.

Sim, o iate, a Bugatti e a cama existem.

Eu, no entanto, não torraria em nada disso. Talvez seu poder de dedução já tenha chegado naquilo que usaria para esta árdua tarefa. Whisky. O mundo do whisky fornece a incrível possibilidade de transformar centenas de milhares de dinheiros em xixi, literalmente. Mas não sem enorme satisfação e alegria. E o melhor de tudo isso é que a bebida – ao contrário de bens mais duráveis como automóveis e embarcações – acabam. Assim a necessidade de se comprar algo pornograficamente caro se renova periodicamente, evitando que você acumule muito dinheiro indesejado com esses malditos rendimentos.

Se você já é insanamente rico, este post é praticamente uma lista de compras de fim de semana para você. Acorde mais cedo no sábado, desvencilhe-se de seus lençóis com fios de ouro. Abra mão do café da manhã com Louis Roederer Crystal e coloque a 488 para funcionar.  A vida é curta e seu patrimônio só aumenta. Desaplique seu dinheiro. Cada hora passada é uma oportunidade perdida de gastar tudo aquilo que você acumulou nos últimos sessenta minutos. Exerça as opções de seu stock option e vá as compras.

Mas se sua conta bancária ainda não atingiu a obesidade mórbida, não se preocupe. Continue comigo. Aí vão cinco whiskies tão caros quanto pão de queijo em aeroporto. E o melhor – todos estão à venda em nosso país. Nada de desperdiçar dinheiro em viagens. O foco aqui são os whiskies. Sonhe um pouco. É como escreveu uma vez Oscar Wilde “qualquer um que viva dentro de suas possibilidades sofre de falta de imaginação“.

Note que esta lista não pretende enumerar os whiskies mais caros a venda em nosso país. Isso é uma tarefa quase impossível. Mas apenas apontar algumas das mais onerosas compras neste incrível universo etílico.

Johnnie Walker Odyssey

O Odyssey é até hoje é o whisky mais caro já revisto nestas infames páginas. Ele foi o o protagonista da épica viagem inaugural do John Waker & Sons Voyager, um humilde iate de cento e cinquenta e sete pés, desenhado à moda da década de vinte, pertencente à Johnnie Walker. Tudo que há no Odyssey transpira exclusividade. Seu belo decanter de cristal possui uma base arredondada, que permite que o whisky balance. A – peculiar – ideia é que a garrafa não caia com o movimento do mar. Seu estojo também possui um conjunto de roldanas que permite que a garrafa permaneça sempre na posição vertical.

Ele é composto de apenas três single malts, cujas identidades são mantidas no mais absoluto segredo. Sua idade também não é revelada. A ideia aqui não é ser o whisky mais maturado. Mas aquele que oferece a mais luxuosa experiência para seu afortunado – literalmente – apreciador. Ele é, na verdade, uma perfeita materialização do luxo que a Johnnie Walker emana. Uma garrafa deste maravilhoso blended malt scotch whisky sai pela pechincha de R$ 7.500,00 (sete mil e quinhentos reais). Pense pelo lado bom – é menos do que custa a roda de uma Lamborghini. Eu acho.

Se quiser saber mais sobre ele, veja a prova completa aqui.

Glenfiddich 26 anos – Excellence

 

No Brasil, é realmente difícil encontrar um single malt com preço astronômico, capaz de fazer frente aos blends super exclusivos da Johnnie Walker e Royal Salute. O mercado de single malts ainda é um nicho, e poucas empresas possuem a coragem de se aventurar nestes mares.

O Glenfiddich 26 anos é maturado em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Segundo a destilaria, o whisky “é vibrante, com um equilíbrio entre os taninos secos, açúcar mascavo e o adocicado da baunilha. Um sabor profundo de carvalho surge gradualmente, entremeado por notas de especiarias e alcaçuz.” Assim como atrizes e críticas de cinema brasileiras, este Cão não poderia opinar. Tudo que ele fez foi tirar uma foto da garrafa e depois devolvê-la, vagarosa e cuidadosamente, para a prateleira da loja.

Esta bela espécime custa, em média, R$ 4.500,00 (quatro mil e quinhentos reais).

Royal Salute 38 anos Stone of Destiny

Royal Salute 38 Stone of Destiny

Nome brega, rótulo folheado a ouro, número três na segunda casa decimal. O Stone of Destiny cumpre com louvor todos os prerrequisitos de um clássico whisky astronomicamente caro. Seu decanter de cerâmica é feito a mão pela marca francesa Révol. A idade denota que o whisky mais jovem em sua composição passou três décadas e oito anos em barricas de carvalho. E assim como o Odyssey, sua composição é secreta.

O Stone of Destiny é um exercício de perfeição da Royal Salute. Ele é um whisky equilibradíssimo, mas, ao mesmo tempo bastante profundo. Não há qualquer sabor dissonante. É quase contraditório. Um whisky tão bem elaborado, mas tão fácil de se beber despreocupadamente. Quer dizer, despreocupadamente se você tiver alguns milhares de reais sobrando. Uma garrafa da belezinha custa R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos reais). Isso significa que que cada dose do Stone of Destiny corresponde a mais de uma garrafa de Chivas 12. Melhor beber com mais calma.

Se quiser saber mais, veja a prova dele aqui.

The Macallan Rare Cask

Perto dos demais da lista, o Rare Cask – com seu preço de quatro dígitos com um número dois à esquerda – parece até uma pechincha. Mas convenhamos, uma lista de whiskies caros sem um The Macallan perde toda a credibilidade. A destilaria é sinônimo de exclusividade no mundo dos single malts.

Nas palavras da The Macallan”muito menos do que 1% das barricas maturando na destilaria foram identificadas como capazes de receber o nome Rare Cask. Com raridade como sua essencia, este é um whisky produzido de barricas tão raras que jamais serão usadas para outro whisky da The Macallan. A combinação de barricas de carvalho americano e espanhol de ex-jerez, sendo grande parte delas de primeiro uso, dão origem a um whisky com coloração esplêndida e incontestavelmente amadeirado (…)

O Rare Cask custa em torno de R$ 2.200,00 (dois mil e duzentos reais). Se quiser saber mais sobre esta maravilha, clique aqui.

 

 

Drops – Ardbeg Dark Cove

Ontem li uma reportagem sobre fobias. Há umas que eu nem sabia que existiam. Por exemplo, a mirmecofobia, que é o medo de formigas. Ou uma que muita gente tem e nem sabe, a fronemofobia, ou medo de pensar. Há algumas bem específicas, como a Anatidaefobia, definida como o pavor de ser observado por patos, e a Estruminofobia, que é o medo de morrer defecando. Há, porém, outras bem comuns. Eu por exemplo tenho uma certa fobia social, que é auto explicativa. Duas que eu definitivamente não sofro, no entanto, são a Dipsofobia e a Metifobia – respectivamente, o medo de beber e o de álcool.

Uma das mais comuns é a Nictofobia, ou medo do escuro. Ele é muito comum em crianças, mas algumas vezes se estende para a vida adulta. Porém, mesmo os mais tementes da escuridão – se não sofrerem da dipsofobia e metiofobia, claro – ficarão admirados com o brilhantismo da última edição limitada da Ardbeg, o Dark Cove.

O Dark Cove é um tributo da Ardbeg aos alambiques ilegais e ao contrabando de whisky do século XIX, que ocorriam na escuridão da noite, na costa próxima à destilaria. Há inclusive uma animação romanceada, com cenas ao estilo de Sin City, que contam o passado obscuro da melhor bebida do mundo. Soma-se a isso uma afirmação feita pela Ardbeg que gerou bastante polêmica. Segundo eles, o Dark Cove seria o “mais escuro Ardbeg até então”.

O Dark Cove faz parte dos conhecidos lançamentos anuais limitados da Ardbeg. São whiskies criados ao redor de certo tema – um storytelling etílico – escolhido pela destilaria. Em 2014, por exemplo, o tema foi a Copa do Mundo no Brasil. Naquele ano, a destilaria lançou o Auriverdes, que, na cabeça do pessoal de marketing da Ardbeg, era o nome de guerra do time de futebol brasileiro (Auri – ouro e verdes – verde). Algo tão corretamente aportuguesado quanto o queridíssimo Nespresso Dulsão do Brazil.

Bom, aqui eles acertaram…

Para o ano de 2016, no entanto, a Ardbeg levou o tema de escuro a sério. A sério até demais. Porque quase nenhum detalhe sobre a concepção do Dark Cove foi revelado. Tudo que se sabe é que ele foi maturado em uma combinação de barricas de carvalho americano de ex-bourbon e em “dark sherry casks”. O que, ambiguamente, poderia significar “barricas escuras de jerez” ou “barricas de jerez escuro”. Se for a primeira opção, a cor justifica-se por barricas altamente torradas. Este Cão, porém, crê na segunda alternativa. As barricas utilizadas pela Ardbeg para maturar seu Dark Cove provavelmente contiveram jerez Pedro Ximénez, bastante escuro e adocicado (saiba mais sobre jerez aqui). A proporção de barricas ou o tempo de maturação, porém, não são revelados.

Produzir whiskies defumados com maturação em barricas de jerez não é um trabalho fácil. Corre-se o risco de criar algo desequilibrado, muito voltado para a fumaça. Ou, pior, esconder o aroma e sabor enfumaçado, exagerando na influência da madeira, criando algo sem graça. O Dark Cove, porém, é bastante equilibrado. É um whisky claramente defumado, com sabor de carvão e medicinal, balanceado por um certo dulçor de frutas, proporcionado pelas barricas de vinho jerez. Nada se sobressai e o conjunto funciona bem.

O Dark Cove, como você deve ter presumido, não está disponível em nosso país. Porém, nas lojas internacionais seu preço é de aproximadamente 90 libras. E se esbarrar com uma garrafa por aí e decidir comprá-la, esconda-a muito bem. Esconda-a na escuridão do fundo de um armário, ou em algum canto escuro e protegido. Porque é bem provável que ele nem seja o Ardbeg mais escuro de todos. Mas que é excelente, ah, isso ele é.

ARDBEG DARK COVE

Tipo: Single sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Ardbeg

Região: Islay

ABV: 46,5% (há uma versão exclusiva do Ardbeg Committee com 55%)

Notas de prova:

Aroma: Predominantemente enfumaçado, com um certo aroma de gengibre.

Sabor: Mais defumado que medicinal. Gengibre, algo próximo a ameixas secas, frutas vermelhas. Final longo e progressivamente mais enfumaçado e menos frutado. Equilíbrio interessantíssimo entre o defumado e o frutado.

 Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

 

 

O Cão Didático – Copos e taças para whisky

O uso de ferramentas. Por muito tempo, acreditava-se que essa era nossa principal diferença com os animais. Nós, seres racionais, teríamos o poder de moldar elementos ao nosso redor para servir de utensílio para certo fim. Atualmente, sabemos que alguns outros bichos fazem isso. Primatas utilizam gravetos de bengala e vara.

Essa história é bem ilustrada no filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Kubrick. Na primeira cena do filme, um macacão – na verdade, um hominídeo pré-histórico – tem a brilhante ideia de utilizar um osso como porrete. Uma ferramenta rudimentar, que, ao longo do tempo, foi se tornando cada vez mais especializada e específica. Atualmente, há milhares de instrumentos que podemos usar para arrebentar coisas. Tacos de beisebol, martelos, espadas, machados. Enfim, qualquer coisa com uma haste e, de preferência, com algo bem dolorido ou afiado na outra ponta.

Milênios de evolução

A evolução do ferramental humano é incrível. A cozinha é outro exemplo claro disso. Há cinquenta anos, jamais poderíamos sonhar com a especificidade de utensílios que temos hoje. Há cortadores para tudo – maçãs, abacaxis e até manteiga. E se sua ideia não for cortar, mais sim conservar, você sabia que existe um recipiente desenhado especialmente para guardar bananas? E que ele só serve para isso. Se você tentar colocar um pepino lá dentro, por exemplo, não vai dar certo. Para isso, existe um guardador específico para pepinos.

Tamanha especialização se refletiu também no mundo da bebida alcoólica. Há taças ou copos para todo tipo de líquido. No mundo do vinho, por exemplo, há tipos diferentes de taça para uvas diferentes. Isso sim, é bem específico. No entanto, até pouquíssimo tempo, não havia qualquer copo ou taça desenhado exclusivamente para o consumo de whisky. A bebida era servida dentro de qualquer coisa – de copos baixos e largos a taças altas e bojudas. Recipientes que, muitas vezes, atrapalhavam bastante a tarefa de perceber os aromas do destilado.

A degustação analítica de whiskies era feita, muito frequentemente, nas taças ISO. Seu formato e tamanho foi padronizado pela International Organization of Standardization em 1977 como taças especializadas para degustação de vinho.

Padrões da ISO

As taças ISO são uma excelente escolha para padronização de degustações. Em provas com mais de um tipo de bebida – rum, brandy, whisky – elas são perfeitas. E até mesmo para degustação de um único tipo, frequentemente são utilizadas. São taças que geralmente possuem bom preço e entregam um ótimo resultado. Porém, são como um tupperware. Ótimo para guardar tanto bananas quanto pepinos, mas não absolutamente voltadas para cada tarefa específica. ISOs são fáceis de serem encontradas, inclusive online, como aqui.

Assim, até  2001 não havia qualquer copo para whisky, e para whisky apenas. No entanto, naquele ano, a Glencairn Crystal resolveu este problema. Ela identificou o copo ideal para a bebida, desenvolvido por Raymond Davidson há mais de vinte e cinco anos daquela data. O desenvolvimento contou com a participação de alguns dos mais respeitados master blenders do mundo do whisky, de forma a tornar seu desenho inicial perfeito.

O Glencairn Whisky Glass permite apreciar todos os sabores e aromas do whisky. Ele não ressalta qualquer característica específica, mas potencializa o conjunto de elementos que formam a bebida. Eles são excelentes para qualquer single malt, blended whisky, irish whisky ou mesmo bourbon. Suas bordas estreitas concentram os aromas, e permitem perceber todas as nuances do whisky. Atualmente, o Glencairn é o copo oficial para degustações de whisky, e é utilizado nos mais respeitados bares e destilarias ao redor do mundo. Por aqui, ele foi recentemente importado pela Single Malt Brasil, e pode ser encontrado aqui.

Instruções de uso do Glencairn.

Recentemente um outro copo foi lançado no mercado. O Norlan Glass. Ele surgiu de um projeto no Kickstarter em 2015 que obteve enorme sucesso. O Norlan possui parede dupla de vidro com isolamento de ar entre a parte externa e a interna, semelhante àquele de uma garrafa térmica. Ao contrário do Glencairn, as bordas do copo se voltam discretamente para fora. Seu interior possui quatro pequenas reentrâncias, que servem para aerar o whisky. O copo é um belíssimo trabalho de engenharia, não há como negar.

O desenho todo do Norlan – segundo a empresa baseado em bio-mímica, seja lá o que for isso – é focado em potencializar o aroma do whisky e tirar o álcool do caminho. Nas palavras da Norlan “a segunda maior característica é o formato das paredes internas, que se fecham a medida que sobem, mas depois divergem novamente, para não bater no nariz. A altura e diâmetro da menor abertura foca no aroma, enquanto, simultaneamente, difundem o etanol para longe do rosto, fantasticamente melhorando o sabor do whisky“.

O marketing ao redor do Norlan é tão intenso que às vezes parece exagerado. O site chega ao ponto de dizer que os demais copos e taças de whisky são antissociais, porque obrigam o apreciador a desviar o olhar para experimentar a bebida – problema que seria resolvido pelo Norlan e suas bordas abertas. Este Cão, não consegue imaginar algo mais desesperador do que não ter nenhum pretexto para desviar o olhar das outras pessoas. E que, portanto, este é um problema que não precisa ser resolvido.

Nem sempre é uma boa fazer contato visual.

Apesar de ser um copo belíssimo, este Cão não ficou apaixonado pelo Norlan. Ele realmente tem sucesso no que se propõe – volatilizar o whisky e reduzir a agressividade do álcool no aroma. Porém, também acaba mascarando algumas características da bebida. E pior, ao analisar whiskies menos alcoólicos ou delicados, compará-los com os mais robustos e alcoólicos torna-se mais difícil. Os Norlan não são importados para nosso país.

Além destes, outros copos e taças foram desenvolvidos nas últimas décadas. Há, por exemplo, o copo NEAT. Um nome bem cretino, que significa em inglês “puro” e, ao mesmo tempo, é a sigla para Naturally Engineered Aroma Technology (Tecnologia de Aromas Naturalmente Desenvolvida), outra coisa que não faço idéia do que seja. Há um belo copo para single malts produzida pela famosa Riedel, e uma caríssimo e exclusiva taça de cristal lapidado da The Macallan, feita pela Lalique.

Atualmente, é vastíssima a variedade de copos e taças criados para a melhor bebida do mundo. Escolher entre um e outro dependerá, essencialmente, de sua preferência. Este Cão tem como favorito absoluto o Glencairn, seguido pela ISO. Porém, seja qual for sua escolha, lembre-se sempre da mais essencial regra de toda degustação caseira de whiskies: aproveite. Seja sozinho ou ao lado dos amigos – com ou sem contato visual – o importante é agarrar o momento e divertir-se.

 

Dádiva Odonata #5 – Nossa própria cerveja maturada em barris de single malt!

Quando comecei a escrever o Cão Engarrafado, não sabia muito o que havia pela frente. Mas imaginava algumas coisas. Previa que – se tudo desse certo – em algum ponto do percurso guiaria alguma degustação de whiskies. Imaginava também que, invariavelmente, conheceria muita gente. O que não é necessariamente bom, porque como uma vez disse Sartre, o inferno são os outros. Sabia, no entanto, que – em certos casos excepcionais – teria contato com gente bacana.

Tinha certeza de que descobriria uma centena de maltes apaixonantes, e provaria outros que não seriam muito além de medíocres. Sabia que beberia um pouco demais e gastaria além da conta. Em meus delírios mais sofisticados, antevia que poderia elaborar a carta de whiskies de certo bar ou restaurante. Todas essas coisas, apesar de bastante longínquas há três anos, me pareciam estágios do desenvolvimento de um blog sobre um assunto tão incrível quanto whisky.

Mas uma coisa que jamais poderia prever, nem em meus devaneios mais estratosféricos, é que assinaria e faria parte do desenvolvimento de uma cerveja. Mas foi exatamente isso que aconteceu recentemente com este Cão. Há alguns meses fui convidado por Victor Marinho – mestre cervejeiro da Dádiva – para participar de um dos projetos mais empolgantes que já tive a oportunidade de estar envolvido. A produção de uma Russian Imperial Stout que passa por barricas de whisky.

O resultado foi a Dadiva Odonata #5, maturada em barricas de single malt scotch whisky das highlands – que eu jurei de pé junto não contar qual é. A maturação, que levou em torno de dois meses, trouxe à cerveja um sabor adocicado de baunilha e madeira, que complementa perfeitamente suas notas amargas, de chocolate e de café. Há um certo mel residual, bem característico do whisky. Quando pude prová-la, antes de seu lançamento, fiquei estarrecido. Naquela oportunidade a cerveja ainda não estava nem carbonatada, mas já parecia um produto acabado e excepcional.

Deu sede só de ver a foto.

Mas a história é ainda mais surpreendente. Acontece que a Odonata #5 – como o número de sobrenome pode denunciar – não é filha única. Junto com ela, a cervejaria lançou mais duas Odonatas. A #4, que utiliza malte defumado por folha de charuto e é maturada em barricas de carvalho americano que antes contiveram rum; e a #6, maturada em barricas de carvalho europeu de cachaça. As meio-irmãs de minha Odonata são filhas, respectivamente, dos especialistas César Adames e Dinah Paula. E se você estiver se perguntando porque a numeração começa em quatro, eu explico. Não é uma homenagem a Star Wars. É que no ano passado foram lançadas outras três edições especiais desta incrível Russian Imperial Stout.

Para as Odonatas deste ano, serão feitos quatro lançamentos. Um geral, no Empório Alto de Pinheiros, no dia 17 de julho, e outros três, específicos para cada uma das cervejas. Estes acontecerão em locais com tradição no tema de cada uma. Assim, a cerveja de Adames será lançada no Cateto Pinheiros (anfitrião das conhecidas Smokey Mondays), no dia 18 de julho. A de Dinah, em sua Quinta das Castanheiras, no dia 20 do mesmo mês. E, finalmente, a deste Cão, no Admiral’s Place – referência de bar quando o assunto é whisky.

Odonatas

As Odonatas estarão disponíveis em garrafa e chope, em locais selecionados. Nos dias dos lançamentos, haverá garrafas a venda, que poderão ser adquiridas pelos presentes. No dia 17 de julho, este Cão estará no Empório Alto dos Pinheiros, junto com os demais padrinhos, para autografar as cervejas compradas no evento – ainda que eu não consiga ver qualquer boa razão para querer um autógrafo meu. Para saber mais sobre o evento, clique aqui. É uma oportunidade para experimentar uma cerveja incrível e conhecer muita gente. Eu sei, o inferno são os outros. Mas quem gosta de cerveja e whisky é exceção.

Veja abaixo o vídeo que gravei – com toda desenvoltura que me é natural – sobre o lançamento:

 

DÁDIVA ODONATA #5 – MAURÍCIO PORTO

Cervejaria: Dádiva

País: Brasil

Estilo: Russian Imperial Stout

ABV: 12%

IBU: 60

Notas de Prova:

Aroma: café, chocolate, um certo fundo vínico muito suave.

Sabor: Encorpada e com pouca carbonatação. Sabor predominantemente de chocolate, com mel, baunilha e frutas vermelhas. Final progressivamente mais adocicado, puxado para o chocolate e a influência da madeira.

 

Chivas Extra – Juntos e Extraordinários – Final

Qual seu programa de domingo? Bem, em um domingo qualquer, um domingo ordinário, eu provavelmente acordaria tarde, almoçaria e veria um filme em casa. Talvez prepararia algum texto para este blog. Ou acordaria cedo e sairia com a Cãzinha para algum parque ou museu. E a tarde, quando ela dormisse, me afundaria no sofá ao confortável e constante som da rota de aviões que passa próxima à minha casa. O que, convenhamos, é ótimo.

Mas este domingo – dia 09 de julho – foi um dia extraordinário. Não, não é por conta do feriado da revolução constitucionalista. Mas porque este Cão foi convidado para participar, como jurado, do primeiro campeonato de coquetelaria do whisky Chivas Extra. Um convite decerto extraordinário.

O Concurso,  batizado de “Juntos & Extraordinários” marcou o lançamento do Chivas Extra para os bares brasileiros. A ideia é mostrar a versatilidade do whisky também do lado de lá do balcão. Assim, o bartender deveria elaborar um coquetel que tivesse como base o Chivas Extra, dentro do tema “Quais ingredientes que juntos formam um drink extraordinário” e divulgá-lo via Instagram. Dentre os competidores, cinco de cada região foram selecionados.

Para a  segunda etapa de São Paulo, que aconteceu neste extraordinário domingo no The View, os bartenders selecionados foram Royter Correia, do Barê, Silas Rocha do Riviera, Ivo Rangel do próprio The View, Thiago Pereira do Sala Especial e Vladimir Cabral do SubAstor. Estes tiveram que improvisar, na hora, um coquetel com o tema “como você comemoraria um momento especial com Chivas?“. Os jurados foram Mijung Kim, embaixadora da Chivas Regal, Marcelo Sant’Iago e Jairo Gama, além deste Cão, que pela primeira vez ocupava uma cadeira de julgador.

The view from the view

Antes de começar o campeonato, imaginava que o trabalho seria fácil. Afinal – pensava eu – não seria nada além de beber coquetéis e escolher um favorito. Mas a realidade, como sempre, foi bem diferente da expectativa. Porém, dessa vez, a superou extraordinariamente. Em primeiro lugar porque os coquetéis apresentados foram incríveis. Contos de fadas, cafés, pães, bolas de fogo, tampas voadoras, copos com luz própria, fumaça – aliás, muita fumaça – e ceviches cuidadosamente preparados foram os insólitos ingredientes daquela extraordinária noite. Em segundo, porque a tarefa de julgar trabalhos tão incríveis não era nada, nada fácil.

No entanto, após numerosas idas e vindas nas fichas de avaliação, um pouco de reflexão e muitas rasuras, já tinha meu resultado. Resultado que, somado àquele dos demais jurados, enviaria o vencedor a Lima, para participar da Clase Maestra 2017, um dos maiores eventos de coquetelaria do mundo. E – não sem um pouco de suspense – o ganhador foi finalmente anunciado. Sylas Rocha, do Riviera Bar. Seu coquetel, “O Momento” contou com uma apresentação literalmente mágica, além de uma garrafa surpresa, preparada com antecedência e cheia do drink, para que todos na festa pudessem compartilhá-lo.

O Momento de Sylas (fonte: Elton Araújo Fotografia)

“Juntos & Extraordinários” foi, para este Cão, uma grande experiência. Respondendo a pergunta “Como você comemoraria um momento especial com Chivas?” Bem, um ótimo whisky num domingo extraordinário, com coquetéis e pessoas incríveis certamente seriam parte dessa resposta.