Sobre Prodígios – Talisker 10 anos

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Envelhecer é algo curioso. A tendência é que ficamos menos dispostos. As coisas passam a não funcionar tão bem quanto funcionavam antes. Temos dores improváveis em locais quem nem sabíamos que existiam, e tudo vai se tornando progressivamente mais amargo. Inclusive nosso gosto.

As manias se agravam e a boa vontade diminui. Tornamo-nos mais metódicos, cerimoniosos e nostálgicos. Mesmo quando não temos nenhum motivo para sentir nostalgia. O tempo tende a atenuar as dores e potencializar os momentos alegres do passado. O que, ainda que assim o pareça, não é necessariamente bom.

O whisky era tão melhor quando eu era mais jovem!
O whisky era tão melhor quando eu era mais jovem!

A idade, na verdade, não nos torna piores, mas nos faz mais complexos. E nisso, seres humanos e whiskies costumam se assemelhar bastante. Só que, para a maioria de nós, o avançar da idade é temeroso. Já no caso da melhor bebida do mundo, ele costuma ser às vezes até mesmo supervalorizado.

Temos a falsa impressão de que o whisky mais amadurecido é necessariamente melhor. E que, numa situação em que há dois produtos de idades diferentes e preço semelhante, o jovem deve ser preterido em favor do mais maturado. Acontece que, dentro desta lógica pouco razoável, acabamos negligenciando os prodígios. Prodígios como o Talisker 10 anos, que acaba de desembarcar no Brasil pelas mãos de sua importadora oficial, a Diageo.

Para um single malt de apenas um decênio, o Talisker 10 anos é inacreditavelmente complexo. Com sabor levemente defumado, de especiarias e com um certo aroma medicinal que surge no sabor residual, o single malt se passa por algo muito mais maturado com facilidade.

Ao contrário de seus primos de Islay, o Talisker é apenas levemente defumado. Há um equilíbrio interessante entre o turfado e o sabor proveniente de sua maturação, algo bem incomum para whiskies com sua maturação. Maturação que, aliás, ocorre, principalmente, em barricas de carvalho americano que antes contiveram Bourbon whiskey – ainda que a própria Talisker faça bastante segredo sobre isso.

A Talisker é a única destilaria ativa em uma das mais belas paisagens naturais da Escócia. A Ilha de Skye. Famosa pela costa rochosa e geografia dramática, Skye é um dos destinos preferidos de lua de mel para os escoceses que não querem sair de seu país. A ilha é a maior porção de terra das hébridas internas, e a quarta mais populosa – com pouco mais de dez mil habitantes.

Imagine beber um Talisker com esta vista!
Imagine beber um Talisker com esta vista!

Ela foi fundada 1830 por Hugh e Kenneth MacAskill, dois irmãos que criavam ovelhas e estavam dispostos a diversificar os negócios familiares para atingir – literalmente – mais liquidez. A escolha pouco usual para aumentar o leque de negócios familiar atraiu a ira do pároco local, que, por muitos anos, proferiu sermões sobre a maldição que seria a destilaria. Entretanto, apesar da oposição clerical, a destilaria prosperou, e, inclusive, trouxe novos habitantes para a ilha.

Atualmente, a Talisker faz parte da Classic Malts Collection da Diageo, juntamente com single malts como Lagavulin, e Cardhu. Mas ao contrário destas – que possuem um portfólio bem enxuto – a destilaria de Skye tem uma boa variedade de expressões. Há whiskies sem idade declarada, como as jovens Port Ruighe e Dark Storm, já revistas nestas páginas caninas, e outros bem maturados, como o 25 e 30 anos. Além disso, Talisker é também um componente importante de diversos blends da Diageo, dentre eles, o Johnnie Walker Green Label.

O Talisker 10 anos, porém, é a espinha dorsal de todas as expressões da destilaria. É o denominador comum, e a prova de que um whisky não precisa ser necessariamente muito maturado ou caro para atingir complexidade e equilíbrio.

Se você gosta de whiskies levemente defumados e bastante equilibrados, ou se está começando a experimentar o mundo dos single malts esfumadaçados, o Talisker 10 anos não lhe decepcionará. Porque até pode ser que fiquemos mais chatos ao envelhecer, mas, para apreciar um bom whisky, não há idade máxima.

TALISKER 10 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida (10 anos)

Destilaria: Talisker

Região: Islands

ABV: 45.8%

Notas de prova:

Aroma: Defumado, com algas marinhas e sal. Frutado

Sabor: Frutado, talvez com maçã, final progressivamente defumado e apimentado. Algas, herbal.

Com água: A agua ressalta o defumado e reduz o dulçor do whisky

Semana Internacional do Jerez (ou O Que é Jerez?)

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Qual o ponto em comum entre The Dalmore, a linha 1824 da The Macallan, Whyte and Mackay, a maioria dos Glenfarclas, o Glenmorangie Lasanta e uma região da Espanha conhecida como Andalucia?É que todos estes whiskies passam parte de sua maturação – ou toda – em barricas que antes continham vinho jerez. E este vinho é, justamente, produzido em Andalucia.

Aliás, talvez você já tenha se perguntado o que afinal é vinho jerez, ao ler este blog. Porque eu falo tanto sobre barricas de ex-jerez e nunca parei para explicar o que é, realmente, essa bebida. Bem, talvez essa seja a oportunidade perfeita para isso.

É que começou essa semana o Sherry Wine Week, por aqui conhecida também como a Semana Internacional do Jerez. O objetivo é mostrar – em eventos públicos em bares, restaurantes, hotéis  – a versatilidade deste vinho, tanto para coquetelaria quanto na harmonização com pratos.

E o Cão teve a sorte de ser convidado, justamente, para um workshop de coquetelaria com o ilustre bartender Laércio Zulu, que apresentou drinks que poderiam ser feitos com o vinho fortificado. Mais especificamente, o jerez fino Tio Pepe, produzido pela Gonzalez Byass – a mesma que fornece barricas para a destilaria The Dalmore. A degustação foi apresentada por Antonio Palacios, embaixador da vinícola.

Aurora Tio Pepe
Antonio Palacios e uma garrafa de Tio Pepe bem vestida.

VOCÊ DISSE COQUETÉIS?

Sim. Incrivelmente, o Tio Pepe funciona muito bem para coquetéis. Inclusive, coquetéis com whiskey. A prova disso foram os drinks produzidos por Laércio Zulu, e provados pelos convidados no recém-aberto Boteco São Conrado, na Vila Madalena. Cada um com uma proposta diferente, mas todos com jerez em evidência.

Foram feitos quatro coquetéis, todos eles com o jerez Tio Pepe como vedete. Um, chamado Penélope, com o vinho fortificado, vodka, licor de pitanga, mel e suco de limão. Outro – o God Save the Sherry – com gim, Tio Pepe, açúcar, cerveja e angostura. O terceiro como uma releitura do clássico Daikiri (Daiquipepe) com Kraken Rum, jerez, suco de grapefruit e açúcar. E, por fim, o preferido deste Cão (por motivos óbvios), um sour com bourbon whiskey, jerez, abacaxi, suco de limão e angostura, batizado de Frontera.

Laércio Zulu fazendo mágica
Laércio Zulu fazendo sua mágica

Além deles, Zulu presenteou os convidados com coquetéis improvisados com o jerez da Gonzales Byass, de acordo com o que cada um mais gostava. Meus brindes foram um bloody mary que levava também Glenfiddich 12 anos e uma espécie de boulevardier, com Amaro Lucano e Tio Pepe. Ambos fantásticos. Tudo isso combinado com ótimos tapas da cozinha do São Conrado, um dos mais bonitos bares da Vila Madalena.

E AFINAL, O QUE É JEREZ?

Vamos então ao papo técnico. Jerez é um vinho fortificado, produzido no conhecido triangulo do Jerez, na região de Andalucia, Espanha. O triângulo é formado por Jerez de la Frontera, Sanlúcar de Marrameda e El Puerto de Santa María. Essa região possui solo rico em calcário, e é excelente para o cultivo das uvas utilizadas na produção de jerez: Palomino, Pedro Ximenes e – com bem menos frequência – Moscatel. Um dos maiores produtores de vinho jerez do mundo é a Gonzalez Byass, que possui, entre outros, o jerez Tio Pepe.

Existe uma infinidade de tipos diferentes de jerez. Mas, de uma forma simplificada, podemos dividi-los nos seguintes tipos: Fino, Manzanilla, Amontillado, Palo Cortado, Oloroso, Pedro Ximénez, Moscatel e Dulce. A diferença entre eles – de uma forma porcamente simplista – está no tipo de uva usada, na técnica de fermentação, na maturação, na adição de álcool ou no fato de serem ou não adoçados posteriormente. Para evitar que isto se torne um enfadonho texto de seis páginas, deixarei de descrever cada um deles, e focarei na parte do whisky.

No universo do whisky – afinal, este não é um blog sobre vinho jerez – os tipos mais populares são Pedro Ximénez e Oloroso. Populares porque as barricas previamente utilizadas para armazenar estes vinhos é bastante usada pela indústria do whisky para maturação. Como disse acima, toda a Série 1824 da The Macallan é maturada em barricas de ex-oloroso e PX. O Glenmorangie Lasanta também é finalizado em barris dos dois tipos de sherry, e a maioria dos whiskies da Glenfarclas também. No entanto, há também whiskies com finalizações em outros tipos de jerez, como é o caso do Glenmorangie Dornoch, que usa barricas de ex-amontillado.

Ruby, maturado em barricas de jerez.
Ruby, maturado em barricas de jerez.

O Jerez Oloroso é produzido utilizando um mosto de uvas mais pesado do que outros tipos de Jerez – como o conhecido Fino. O vinho é então fortificado (ou seja, um destilado é adicionado) até atingir graduação alcoólica de aproximadamente dezoito por cento. O vinho resultante, porém, chega a atingir graduação de vinte e quatro por cento, graças à evaporação. Para um whisky-geek, isso é interessantíssimo. É uma espécie de Angel Share que aumenta a concentração de alcool!

Já o Jerez PX, ou Pedro Xímenez, Jimenez ou qualquer outra variação com “s”, “z”, “x” ou “j”, é um vinho de sobremesa, produzido com ao menos oitenta e cinco por cento das uvas homônimas. Este tipo de Jerez é muito mais adocicado do que Oloroso. Como a uva utilizada como matéria prima possui, naturalmente, mais açucares do que aquelas tradicionalmente usadas para Oloroso, pode-se chegar a uma graduação alcoólica alta sem a necessidade de adição de qualquer destilado.

O Tio Pepe, por sua vez, é um fino. Jerez Fino é produzido com a uva Palomino, e é biologicamente maturado sob uma camada de levedura. Essa camada protege o vinho do contato com o ar, e lhe empresta um certo sabor herbal e de amêndoas.

Se você quiser saber mais sobre – e claro, provar – essa bebida tão importante para o mundo do whisky, esta é a sua chance. Para ficar por dentro dos eventos que já foram registrados na página internacional do festival, clique aqui. E fique ligado, em breve divulgaremos a receita do coquetel preferido deste Cão, o Frontera.

 

Guest Post – Mulheres do Whisky

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O texto de hoje é dedicado às mulheres do mundo do whisky. Para tanto, nada melhor do que convidar Carolina Ronconi, co-fundadora do Blog Meninas no Boteco, para escrever a introdução e conclusão desta lista de incríveis mulheres.

INTRODUÇÃO

Seis histórias envolventes e inspiradoras sobre mulheres apaixonadas por whisky, que dedicaram (e algumas ainda dedicam) suas vidas à produção e inovação da bebida que é tão querida e apreciada no mundo inteiro.

Foi com muito talento, confiança, dedicação, olfato, suor, destemor, esforço, charme, magnetismo, cooperação, criatividade, perfeccionismo e persistência, que elas superaram o machismo e o preconceito, para realizar projetos indefectíveis e surpreendentes, e mudar o destino de algumas das mais importantes destilarias do mundo.

Preparem-se para serem abduzidos para o universo feminino do whisky e encontrarem heroínas de verdade, com histórias que valem a pena serem contadas e recontadas.

Carolina Ronconi

Co-Fundadora do blog Meninas no Boteco

meninasnoboteco.com.br

Instagram/Facebook: meninasnoboteco


BESSIE WILLIAMSON

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Não poderia começar a lista de outra forma. Bessie é a razão pela qual atualmente ainda temos, entre nós, o querido single malt Laphroaig.

Sua trajetória começou em 1932, quando aceitou um trabalho de verão na destilaria. E ainda que planejasse passar apenas alguns parcos meses, acabou ficando até 1972, quando se aposentou. Bessie tornou-se diretora da Laphroaig durante a Segunda Guerra Mundial. E foi somente graças à sua inflexão e esforço, que aquela lenda de Islay não foi completamente desmontada para tornar-se um depósito secreto de armas, como teria ocorrido com tantas outras destilarias da época.

Bessie convenceu o ministério da defesa do Reino Unido a utilizar apenas parte de seus armazéns para estocar a munição. Aliás, muito mais do que isso. Williamson tanto fez que conseguiu que aquele ministério construísse novos armazéns para guardar o armamento bélico. Estes prédios, mais tarde, se tornariam armazéns da própria destilaria.

De quebra, ela também foi uma das precursoras na divulgação dos whiskies single malt no mundo, especialmente nos Estados Unidos. Isso sim que é um trabalho de verão produtivo.

RACHEL BARRIE

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Rachel é uma pioneira. Ela é a primeira mulher a ocupar a posição de master blender da indústria do whisky. Se você já foi agraciado com a possibilidade de experimentar algum Glen Garioch, Auchentoshan ou Bowmore, é altamente provável que sua criação tenha vindo das mãos – ou melhor, do nariz – desta senhora.

Rachel é formada em química, e possui mais de vinte e um anos de experiência na criação de whiskies extraordinários. Em 1991, Barrie foi admitida no Scotch Whisky Research Institute depois de, durante sua entrevista de emprego, ter identificado perfeitamente mais de vinte fragrâncias diferentes, de piche a zimbro. De lá pra cá, trabalhou na Glenmorangie, e hoje capitaneia a criação dos whiskies das três destilarias sob o comando da Morrison Bowmore.

GEORGIE CRAWFORD

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Georgie é a mulher por trás da mais querida – e cult – destilaria de Islay desde 2010. A Lagavulin. Nascida naquela ilha, Georgie diz que conseguir seu trabalho aconteceu quase de forma orgânica. Ela teria começado na Scotch Malt Whisky Society, mudado para a gerência de um bar e, depois, de uma loja de whiskies. Por fim, lançou suas raízes onde sua vida começara: Islay.

ALISSON PATEL

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Allison é uma espécie de porta-voz das mulheres no mundo do whisky. Além disso, ela é a fundadora e idealizadora do whisky Brenne, um single malt produzido na – prepare-se para a surpresa – França, mais especificamente, no coração da região de Cognac. Ao assistir suas entrevistas, é fácil perceber que seu destemor e esforço somente podem ser comparados a seu charme e magnetismo.

De acordo com Allison “Quando eu comecei, não havia muitas mulheres – especialmente nas posições mais altas – e isso facilmente poderia ter criado competição e ciúmes entre nós, mas o oposto completo aconteceu. Eu me refiro a estas mulheres, espalhadas todas ao redor do mundo como minhas ‘irmãs de whisky’, porque, para mim, é o que elas realmente são”.

CARA LAING

Cara Laing é, atualmente, a responsável pela criação e marketing de uma das mais importantes engarrafadoras independentes da Escócia. A Douglas Laing & Co. A trajetória de Cara se iniciou na Whyte & Mackay, tendo sido gerente de marca dos single malts da destilaria Jura. Depois, mudou-se para a Morrison Bowmore – a mesma de Rachel Barrie – até que, finalmente assumiu a empresa da família e tornou-se um de seus maiores expoentes.

Se você já experimentou whiskies como Big Peat, Rock Oyster ou Scallywag, ou se está no clube dos afortunados e é o orgulhoso proprietário ou bebente de alguma expressão da série Director’s Cut, é bem provável que tenha degustado o impecável trabalho de Cara.

GEORGIE BELL

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Esta é a segunda Georgie da lista, e a última mulher deste post. Georgie é uma embaixadora mundial do whisky. Ela foi, durante muitos anos, a embaixadora internacional do single malt Mortlach, da Diageo, também um dos preferidos deste canídeo que vos escreve.

Georgie conta que sua iniciação no mundo do whisky partiu de seu pai. Inspirada, Georgie estudou destilação no Institute of Brewing and Distilling e se tornou embaixadora internacional da Scotch Malt Whisky Society, passando mais tarde para Mortlach e, por fim, a partir do mês passado, a Bacardi.

Bell passa a maior parte de seu ano em viagens internacionais, organizando degustações de whiskies e espalhando a boa palavra sobre a melhor bebida do mundo por aí.


CONCLUSÃO

Essas mulheres empoderadas deixaram um legado e formaram uma corrente de sororidade, que Alisson Patel denomina de “irmãs de whisky”.

Elas não frequentaram as, atualmente cogitadas, “Escolas de Princesas”, que têm como objetivo definir um padrão de comportamento feminino limitador da independência e da liberdade de futuras gerações de mulheres.

As histórias de Bessie Williamson, Rachel Barrie, Georgie Crawford, Alisson Patel, Cara Laing e Georgie Bell, são um suspiro de alívio e a certeza de que lugar de mulher é onde ela quiser, e com um copo de whisky na mão!

 

Carolina Ronconi

Co-Fundadora do blog Meninas no Boteco

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(mais que um) Drops – Glenfiddich IPA Experiment

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Gosto muito de whisky, isso não é segredo para ninguém. Aliás, imagino que este seja um prerrequisito tácito para se ter um blog sobre o assunto. Do contrário, as provas e textos seriam, para não dizer nada pior, enfadonhos. Algo na linha de olha, se você gosta de whisky, é possível que vá suportar beber isto daqui, mas como eu não gosto, então, bom, achei horrível. Nao. Beba. Whisky. Nunca.

No entanto, além do melhor destilado do mundo, também tenho outros interesses etílicos. Me interesso bastante por coquetelaria – como podem ter notado ao acompanhar o blog – arranho no gim, e adoro uma boa cerveja. Gostaria de saber mais sobre outras bebidas, e, principalmente, experimentar tudo. Mas por uma questão de tempo e fígado, me vejo obrigado a escolher frentes de combate. E dessas frentes, talvez minha segunda ou terceira seja, justamente, a cerveja. Sou apaixonado pelas amargas India Pale Ale, e tenho uma preferência quase natural pelas Imperial Stouts, bem torradas. Se passar por barril ainda melhor.

Se você é como eu, provavelmente ficará ansioso com essa notícia. É que a Glenfiddich, uma das mais famosas destilarias de single malt da Escócia lançou, justamente, um whisky que é finalizado em barricas que antes contiveram cerveja IPA. É o Glenfiddich IPA Experiment, o primeiro de uma linha de single malts experimentais criados pelo malt master da Glenfiddich, Brian Kinsman.

Para o Glenfiddich IPA Experiment, Brian se juntou a Seb Jones, mestre cervejeiro responsável pela Speyside Craft Brewery. A cervejaria de Seb se encarregou de produzir três IPAs diferentes, sendo que uma delas seria escolhida para fazer parte do experimento. Após certa discussão e muita prova, Jones e Kinsman se decidiram pela IPA que levava dry-hopping de lúpulos Centennial.

Segundo Seb “usamos mais lúpulos complementares do que contrastantes (…). Eles (Glenfiddich) possuem notas de pera, então adicionamos aroma e sabor frutados. O resultado é um whisky leve e sutil. Você sente o dulçor inicial dos lúpulos, e depois há uma finalização interessante, maltada, vinda da pale ale“.

Escolhida a cerveja, era hora de colocar o experimento em prática. Kinsman então a colocou em barricas que maturavam Glenfiddich por, aproximadamente, doze anos, para que as encharcassem e penetrassem na madeira por algum tempo. Depois, a IPA foi retirada e engarrafada, e o whisky devolvido às suas barricas para passar mais alguns meses.

O processo de criação do Glenfiddich IPA Experiment
O processo de criação do Glenfiddich IPA Experiment

Segundo Brian Kinsman, “A ideia por trás do Glenfiddich IPA Experiment é pouco usual, mas é uma que focamos apaixonados – queríamos mesmo brincar com os sabores para ver o que poderíamos criar“. Para Brian, a ideia não seria criar um whisky com sabor de cerveja. Mas sim um single malt que se beneficiaria da finalização naquelas barricas pouco usuais, adicionando complexidade e sabores incomuns a single malts.

Recentemente, por uma coincidência, este Cão teve a oportunidade de provar o Glenfiddich IPA Experiment em um lugar bastante apropriado. O Empório Alto de Pinheiros, bar recentemente eleito pela revista Veja Comer & Beber como o aquele com a melhor carta de cervejas de São Paulo. A prova do single malt contou também com as ilustres participações de Cesar Adames e Paulo Almeida. Este último, o sócio por trás daquela meca para os amantes de cerveja. Aliás, na mesma oportunidade provamos também o Johnnie Walker Rye Cask e o Jameson Caskmates que passa por barris de cerveja stout.

Nossa impressão foi unânime. O IPA Experiment é muito semelhante ao Glenfiddich 12 anos. Aliás, é praticamente impossível diferenciá-los, se não forem bebidos na mesma situação. O sabor predominante é de maçã verde. Entretanto, no caso do IPA Experiment, há um retrogosto que realmente remete a lúpulo. Um amargor adocicado de frutas, que potencializa a finalização do whisky. Se você gosta de inovações, então o Glenfiddich IPA Experiment é seu whisky. Ele é suave e frutado na medida para agradar a maioria dos paladares, e pode facilmente ser bebido puro.

O único senão é que ele não virá para o Brasil. Assim, se estiver viajando e cruzar com alguma loja de bebidas, procure pela garrafa. E não se preocupe muito com suas frentes de combate. Não é todo dia que encontramos um whisky com tanta afinidade com o mundo das boas cervejas.

GLENFIDDICH IPA EXPERIMENT

Tipo: Single Malt Whisky sem idade definida

Destilaria: Glenfiddich

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Cítrico, com mel e levemente floral.

Sabor: Frutado, cítrico, com mel e nozes. Maçã verde. O sabor residual vai se tornando progressivamente mais amargo.

Com água: A agua ressalta o aroma e sabor de maçã verde, e torna o final ainda mais frutado e amargo.

Preço: GBP 50,00 (cinquenta libras – fora do Brasil)

 

 

Exceção – Bruichladdich The Classic Laddie

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Quando estava no colégio, uma das minhas aulas preferidas era biologia. Achava interessantíssimo assuntos como evolução, reprodução – sem duplo sentido aqui – e, claro, genética. Aliás, genética provavelmente foi um dos meus pontos mais queridos durante minha formação no ensino médio. Adorava descobrir quais eram os genes recessivos e dominantes, e encontra-los em meus amigos e familiares.

Caso você não saiba o que é isto, aí vai uma explicação mais ou menos simples. Genes recessivos são aqueles que não se expressam no estado heterozigótico. Em uma linguagem leiga, acontece o seguinte. Muitos genes – tipo a cor do olho – possuem duas ou mais variações chamadas alelos. Se você tem, diremos, um alelo “azul” e outro “castanho”, e este último é o dominante, então você terá olhos castanhos. Entendeu?

Não? Então aqui vão mais alguns exemplos. Se, para você, dipirona não tem gosto de nada, você é recessivo. Cruzar o dedão direito sobre o esquerdo ao encontrar as mãos é recessivo, assim como não conseguir dobrar a língua em U. Por outro lado, se sua orelha tem lóbulo (essa é aquela parte debaixo, perto do maxilar) solto, você é dominante. E ainda isto esteja longe de ser absoluto, geralmente, a característica determinada pelo gene dominante é mais frequente, e a pelo gene recessivo é menos.

Por exemplo, não testar para ver qual dedo cruza em cima do outro depois de ler isto é recessivo (mentira)
Por exemplo, não testar para ver qual dedo cruza em cima do outro depois de ler isto é recessivo (mentira)

Se whiskies tivessem genes, provavelmente o mais recessivo deles seria o Bruichladdich The Classic Laddie. O Classic Laddie é a exceção em um mundo de dominantes. A começar por uma característica que o define. Ele não tem qualquer traço de defumação, apesar de ser produzido na ilha escocesa de Islay, conhecida mundialmente por seus whiskies esfumaçados.

Além disso, o Classic Laddie utiliza cem por cento de cevada produzida na Escócia. Um traço claramente recessivo em um mundo de dominantes, onde parte da cevada é, geralmente, importada, de forma a aumentar e eficiência e reduzir os custos de produção.

Como se isto não bastasse, o Bruichladdich The Classic Laddie não recebe a adição de corante caramelo – uma prática comum hoje em dia – e não é filtrado a frio. Por conta disso, ao adicionar gelo ou um pouco de água, é comum que certa turbidez apareça. Isto acontece porque as moléculas mais pesadas se agregam com a redução do teor alcoólico do whisky. E falando em teor alcoólico, aí está mais um traço incomum no The Classic Laddie. Cinquenta por cento.

A maturação do The Classic Laddie ocorre inteiramente em barricas de carvalho americano que antes contiveram Bourbon whiskey. E aqui talvez esteja o único traço genético dominante no The Classic Laddie. A ausência de idade impressa no rótulo – uma prática cada vez mais comum na indústria do whisky.

Assim como o The Classich Laddie, a própria Bruichladdich é uma destilaria incomum. Ela foi fundada por William, John e Robert Harvey, irmãos em uma família já veterana no ramo dos whiskies e proprietária das destilarias Yoker e Dundas Hill. O trio, entretanto, tinha uma ideia ambiciosa. Construir uma destilaria que, desde o início, se destacasse como uma exceção a tudo aquilo que já existia em Islay. E deu certo. Até hoje, a Bruichladdich é uma das mais encantadoras destilarias da ilha.

Lugar feio.
Lugar feio.

Além de sua linha tradicional, da qual o The Classic Laddie faz parte, a Bruichladdich produz ainda uma série de whiskies esfumaçados – mais ou menos nos mesmos níveis de defumação de seus vizinhos – conhecida como Port Charlotte, e uma com exemplares insanamente defumados, batizada de Octomore, em homenagem à fazenda que lhes fornece a cevada. Ah, e além de três linhas de whisky, ela produz também gim.

Visualmente, o single malt apresenta uma coloração quase de palha, devido à ausência de corante caramelo. Seu aroma é frutado, e o sabor adocicado, com pera, laranja e baunilha, apesar da graduação alcoólica, ele é um whisky leve e muito agradável.

Se você é fã de single malts leves e frutados, ou se é apaixonado pelos monstros defumados de Islay mas quer entender o que mais a ilha pode produzir, o The Classic Laddie é para você. Porque, afinal, não há genes recessivos ou dominantes para se apreciar um bom single malt.

BRUICHLADDICH THE CLASSIC LADDIE

Tipo – Single Malt sem idade definida (NAS)

ABV – 50%

Região: Islay

País: Escócia

NOTAS DE PROVA

Aroma: baunilha, frutas, mel.

Sabor: Frutado, com pera, maçã e frutas doces. Final médio, com baunilha e açúcar refinado.

Chivas 18 Tasting ou Como Ajudar Bebendo

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O Instagram é um aplicativo interessante. Porque, apesar da infinidade de possibilidades que o aplicativo oferece, a maioria de nós – eu incluído – colocamos sempre as mesmas coisas. O Instagram é a prova que nossa vida é uma chatice, na verdade.

Fotos do look do dia, do pé na piscina, da esteira na academia. Fotos com filtro usando a hashtag nofilter. Imagens de carros que não temos – ou pior, que às vezes temos – ou selfies na cama, como se tivéssemos acabado de acordar. Nossos bichos de estimação, nossa mesa de trabalho e nosso almoço. Ah, nosso almoço. Esse merece uma atenção especial. Porque, pra falar a verdade, exceto se for a foto de um filé de hadoque albino que viveu nas águas de degelo da Noruega, grelhado por um macaco prego com um curioso talento culinário, bem, há grandes chances de eu não me importar com o que você está comendo.

E nem adianta tentar me enganar...
E nem adianta tentar me enganar…

Mas minhas fotos preferidas – e aqui tenho uma grande parcela de culpa – são as de bebida. As vezes tenho essa estranha compulsão de, além de beber, me ver na inconveniente obrigação de compartilhar aquilo que está no meu copo com aqueles desafortunados que me seguem. Mas para não deixar essa minha obsessão clara, sempre tento fazer alguma legenda espirituosa. E aí é que reside o problema. Faço a foto em um minuto. E passo mais trinta pensando em algo para dizer.

Mas se você é como eu, seus problemas estão resolvidos. A partir de hoje você terá uma excelente justificativa para beber e – mais importante do que isso – mostrar para todo mundo, mesmo à revelia deles, com o quê você está se embriagando.

É que semana passada o Cão Engarrafado foi convidado por Eduardo Rotella, o embaixador do Chivas Regal 18 anos no Brasil, para comemorar o título que recebeu dos Keepers of the Quaich. Esencialmente, os Keepers são uma daquelas sociedades que você não pode se filiar, exceto se for convidado. Ou, segundo o próprio site, “uma sociedade exclusiva e internacional que reconhece aqueles quem tenham demonstrado comprometimento excepcional com a indústria do Whisky Escocês. Fundada por destiladores líderes, ela é, essencialmente, o coração da industria (…). São pessoas apaixonadas e dedicadas que tem orgulho de fazer parte de uma sociedade seleta, e que se dedicam a divulgar a apreciação de nosso maravilhoso destilado. O Scotch Whisky.

E eles se reúnem para conversar e beber whisky aqui
E eles se reúnem para conversar e beber whisky aqui. É sério.

E aproveitando a comemoração, Rotella idealizou uma ação baseada no Instagram bastante interessante. A ideia é simples. Toda vez que alguém publicar uma foto no Instagram com a hashtag “#chivas18tasting“, a Pernod Ricard – detentora da marca Chivas Regal – reverterá um real para cursos de aperfeiçoamento técnico para profissionais de bares da cidade de São Paulo.

Segundo ele, a ação vai além da conscientização do consumidor. Seu intuito é que ela realmente faça diferença para aqueles que precisam apenas de um auxílio financeiro para desenvolver seu talento atrás do balcão. E completa: a ideia é que as pessoas utilizem a hashtag não só quando estiverem degustando o Chivas Regal 18 anos. Para fazer o bem, vale qualquer Chivas Regal.

Então, queridos leitores, sirvam-se de seus Chivas doze, Extra e dezoito. Ou demonstre que a vida tem lhes tratado bem, e agarrem seus Vinte e Cinco. Saquem seus smartphones e preparem o mis-en-scene. Agora você tem um excelente motivo para encher o Instagram de seus amigos com fotos do que você está bebendo. Mas não se esqueçam de sempre utilizar o hashtag #chivas18tasting . A ação é válida até o mês de junho de 2017!

 

A Catedral do Whisky – uma visita à maior coleção da América Latina

 

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Às vezes grandes descobertas estão mais próximas do que imaginamos. Tão próximas como, por exemplo, o jardim de casa. A internet está cheia de casos sobre objetos curiosos que teriam sido desenterrados de onde eles menos poderiam estar.

Uma das minhas histórias preferidas é a de duas crianças, que em 1978 decidiram que iriam – à revelia de sua mãe – cavar alguns buracos no jardim. E aquilo poderia ter terminado em apenas uma bronca bem dada, se a dupla não tivesse encontrado uma Ferrari Dino 246 GT enterrada logo ali. O carro, que hoje vale aproximadamente trezentos mil dólares, teria sido sepultado lá por ladrões que, por algum motivo, jamais voltaram para reavê-lo.

Outra história curiosa é de um homem, que talvez por tédio, talvez por ser esquisito mesmo, resolveu que percorreria seu jardim com um detector de metais. E graças a essa atividade completamente aleatória, ele acabou encontrando uma pepita de ouro de aproximadamente três quilos e meio. Aquele perdigoto de metal precioso foi mais tarde leiloado por quatrocentos e sessenta mil dólares.

Depois de tirar o superesportivo daí, vocês vão plantar todas as minhas roseiras, ouviram?
Depois de tirar o superesportivo daí, vocês vão plantar todas as minhas roseiras, ouviram?

E eu, apesar de nunca ter encontrado nada enterrado em meu jardim – em parte porque moro em apartamento – me senti como se tivesse feito uma descoberta preciosíssima há alguns meses. Descobri que logo ali, há alguns quilômetros de São Paulo, estava uma das maiores coleções de whisky do mundo. A santíssima Catedral do Whisky.

Demorei alguns meses até visita-la. Mas, quando fui, pouco conseguia acreditar no que via. A Catedral do Whisky fica dentro de um sítio em Itatiba, de propriedade do empresário José Roberto Briguenti. Ele mesmo nos recepcionou e guiou pelos ambientes da coleção com muito bom humor e simpatia.

A primeira impressão que tive ao chegar ao sítio foi de perplexidade. Todas as paredes da garagem possuem armários de apotecários antigos, restaurados, contendo centenas de garrafas de porcelana e miniaturas. Aquela provavelmente foi a manobra mais lenta e meticulosa que já fiz com meu automóvel, incluindo quando saí do hospital com a Cãzinha recém-nascida.

Perguntei a ele como teria criado interesse por colecionar whisky. “Casualmente, ao procurar algumas garrafas para abastecer o bar da propriedade, encontrei uma bela coleção, aí começou

Atualmente, a Catedral do Whisky conta com mais de vinte e três mil garrafas, entre vidro, cristal, cerâmica, porcelana e miniaturas. Há whiskies brasileiros do passado, whiskeys americanos da época da Lei Seca e uma absoluta infinidade de single malts e blended scotch whiskies. As prateleiras contam com uma pequena prateleira retrátil, para apoiar alguma garrafa a ser estudada.

Algumas pepitas de ouro chamaram a atenção deste Cão, durante a visita. A maior delas foi um Glenmorangie Pride 1981, bem no centro da mesa principal da catedral. Aquela era, na opinião deste canídeo, uma das mais belas garrafas de whisky já produzidas.

glenmorangie Pride
Quero.

Ao lado do ícone da destilaria das highlands estavam mais algumas raridades. Um Bowmore 40 anos em um belo decanter de cristal e um Mortlach 50 anos. Alguns centímetros à frente, uma caixa de madeira contendo um Johnnie Walker Blue Label 1805 Celebration – blend de whiskies de 45 a 70 anos de idade, que geralmente é dado de presente pela Johnnie Walker a expoentes da atualidade, e não se encontra à venda.

A caneta é brinde
A caneta é brinde

Frente a todas aquelas Ferraris do mundo etílico, indaguei se havia alguma garrafa ou linha favorita. Briguenti mostrou que seu bom gosto não se balizava por valor ou pompa: Tenho preferência por rótulos antigos elaborados, o conjunto que mais gosto é o da cerâmica para whisky Royal Doulton Kingsware – respondeu.

Além das garrafas, Briguenti coleciona também portas de madeira, armários de farmácias antigas e peças de mobiliário, tudo restaurado aos mínimos detalhes. Há relíquias como um gramofone da década de vinte que ainda funciona perfeitamente. Ele também possui uma linda coleção de lápis antigos e de xícaras de marcas de café.

A visita levou em torno de duas horas, mas poderia facilmente ter se estendido por seis. Há itens inacreditáveis que este Cão jamais imaginou que viria ao vivo. E, melhor, nem foi preciso pegar um avião para isso.

Alguns têm a sorte de encontrar superesportivos italianos enterrados em seu jardim. Outros, pepitas de ouro gigantes. Mas à distância de algumas poucas dezenas de quilômetros, a Catedral é provavelmente a melhor descoberta que um apaixonado por whiskies poderia fazer.

Se quiser fazer um tour virtual pela coleção, clique aqui.

 

Sobre Gelo e Molho Shoyu – Gelo no Whisky

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Nota: Este texto foi originalmente escrito pelo Cão Engarrafado e publicado na página de nossos parceiros da Charutando.com.br . Mas, dada a relevância do assunto, achei que seria uma boa reproduzi-lo por aqui também.

Hoje em dia as pessoas tem regra para tudo. Há uns meses fui a um restaurante japonês famoso e me sentei ao balcão. E como tenho mania de sempre experimentar o diferente, fui logo pedindo o menu de especialidades. O sushiman preparou quatro niguiris. Primeiro, passou um pouco de raiz forte. Aí pegou um pincel, molhou em um potinho de shoyu, e cuidadosamente sacudiu o pincel sobre o sushi, deixando que algumas gotinhas do molho caíssem sobre o peixe cru. Tipo o Pollock, se o Pollock fosse um sushiman.

Até aí, lindo. Mas como eu gosto de shoyu, pedi a ele que me desse um potinho com um pouco mais do molho. E a resposta dele foi não, de forma nenhuma, porque é assim que você deve comer sushi, para sentir o real sabor do peixe.

Sushi, como deve ser feito
Sushi, como deve ser feito

Frente à negativa, argumentei que já conhecia o sabor do peixe, porque eu já tinha comido sushi com shoyu e sem shoyu, e em minha opinião, com era melhor que sem. Depois de uma pausa dramática, o sushiman simplesmente sorriu, preparou quatro hossomakis e me entregou. Daqueles, o molho passou longe. E em seus olhos desafiadores eu vi que se eu continuasse a discussão, o próximo passo seria comer só arroz, sem peixe. Então me calei e mastiguei aqueles enroladinhos de arroz com sabor de derrota.

Depois fiquei pensando se eu também não dava uma de sushiman do whisky, de vez em quando. Afinal, já havia me pegado diversas vezes condenando silenciosamente o cara que colocou uma calota polar de gelo dentro de seu copo de Black Label. Existe realmente jeito certo de apreciar a bebida, ou são só regras sem sentido?

Na verdade, existem algumas regras, mas que nem sempre são aplicáveis. Para ficar mais fácil, desenvolvi um método que não tem nada de científico, mas funciona. Divido meus whiskys em dois tipos. Protagonistas e coadjuvantes.

Coadjuvantes são aqueles que eu coloco no centro da mesa em uma reunião de amigos, do lado do balde de gelo. Ele é coadjuvante simplesmente porque o assunto do papo não é ele, ainda que ele seja, às vezes, notado. Tipo o menino que fica apontando pra braguilha, no final do De Volta Para o Futuro III.

Gênio
Gênio

Whiskys coadjuvantes podem ser tomados puros, com água, ou com gelo. Mesmo porque, naquela situação, ninguém está lá para ficar identificando descritores aromáticos a cada gole, e bebe-se simplesmente por prazer. Um whisky coadjuvante pode até ser caro, mas, via de regra, um blended whisky ou um american whiskey simplesmente decentes já desempenham muito bem esse papel.

Já os protagonistas são o tema do papo. Eles normalmente são single malts, american whiskeys ou blended whiskys premium, e a discussão gira em torno deles. Nesta situação, a ideia é realmente entender e prestar atenção na bebida. No caso de whiskies protagonistas, o melhor é tomar puro, ou com um pouco de água. A água tira parte do álcool do caminho, facilitando a identificação de aromas e sabores secundários.

No caso dos whiskies protagonistas, a escolha do copo também é importante.Um copo baixo com bordas arredondadas está ótimo. Mas se for um glencairn ou taça ISO, melhor ainda.Esses cuidados favorecem a concentração do aroma e do sabor da bebida, facilitando sua identificação. Assim, sempre que experimento um bom whisky pela primeira vez, tomo alguns goles dele puro, para depois colocar umas gotas de água.

ISO e Glencairn
ISO e Glencairn

 

E quanto ao gelo? Bem, adicionar muito gelo em um whisky protagonista pode não ser uma boa ideia. É, na verdade, como colocar shoyu demais no seu niguiri. A diluição excessiva e a temperatura baixa tornam a percepção mais difícil e alteram o paladar.Não é que é errado colocar gelo no whisky. Mas se a ideia é realmente prestar atenção em seus aromas e sabores, o gelo vai deixar a tarefa bem mais difícil.

Mas, na verdade, e acima de tudo, o whisky é seu, e você é livre –  pelo menos mais livre do que alguém que gosta muito de molho de soja em um restaurante oriental caro. E ao contrário de comer sushi seco, tomar whisky deve ser, acima de tudo, uma experiência divertida e agradável.

Então, na verdade, este não é um texto instrutivo. Este é um texto libertador. Não se prenda muito a essas normas, principalmente se estiver com seus amigos. O gosto – e o copo de whisky – é seu. Afinal, o mundo já tem regras demais para alguém que você nem conhece dizer quanto de shoyu você tem que colocar no seu sushi.

Notícia do Cão – Jack Daniel’s Pub & Poker

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Está procurando o que fazer nas próximas semanas? Ou é apaixonado por poker, mas está cansado de jogar de pijama em casa? Fica frustrado porque pela tela do computador ninguém consegue ver sua poker face, ensaiada à exaustão dos músculos da sua cara?

Bem, então talvez você vá gostar da novidade. É que a Poker4All, empresa dos sócios Leonardo Rizzo, Ronaldo Fernandes, André Biazzo e Eduardo Guerreiro, abrirá um pub voltado para o mais famoso esporte de cartas do mundo. Ele funcionará em um dos camarotes do Estádio do Morumbi, e tem a assinatura do mais famoso Tennessee Whiskey do mundo – o Jack Daniel’s. A casa realizará dois torneios de poker por semana. Nos demais dias, funcionará como um bar e restaurante, aberto, inclusive, na hora do almoço. Com a vantagem de que sempre haverá uma mesa disponível para praticar torneios de poker por lá.

Segundo Adriano Santucci, gerente de marketing da marca de tennessee whiskeys: “A proposta do Pub é unir várias paixões em um só lugar: Futebol, Poker e Jack Daniel´s. É uma verdadeira experiência de marca onde o público vai poder vivenciar uma atmosfera que traduz o espírito autêntico e independente de Lynchburg, casa de Jack Daniel´s, e degustar todos os rótulos da família, principalmente o Gentleman Jack que encontrou no Poker uma das formas de expressão do homem moderno. A Atitude, inteligência e a autenticidade que o esporte carrega traduzem muito do que a marca é

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O camarote

Leonardo Rizzo completa: “(…) o Pub vai atrair o público cativo do Poker e novos praticantes, principalmente os fãs de Jack Daniel´s, que terão um bar inteiramente assinado pela marca

Este Cão, que é apaixonado por whiskies e adora o carteado – ainda que não seja lá muito habilidoso – não deixará de conferir. O bar abrirá a partir do dia 24 de outubro. Confira as informações burocráticas abaixo:

Pub & Poker

Endereço: Estádio do Morumbi – Praça Roberto Gomes Pedrosa, 1 – Camarote 11A

Horário: Das 11h30 até às 15h e das 18h00 até às 00h. Dias de torneio, o local funcionará até o torneio acabar

Capacidade: 110 pessoas

O Cão Farejador – Caol Ila 12 Anos

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Este é mais um post do Cão Farejador. O Cão Farejador é um serviço de utilidade pública, cuja ideia é trazer ao leitor notícias sobre garrafas incomuns, raras ou indisponíveis em nosso país, mas que, por sorte ou destino, este Cão esbarrou durante uma visita a algum bar ou restaurante. A ideia é que você, meu caro, possa experimentar por conta própria whiskies que jamais imaginaria encontrar em nossa terra. Ou melhor, em São Paulo, quartel general deste blog.

E a garrafa desta edição é o Caol Ila 12 anos. Se você gosta do Double Black, o Caol Ila é para você. Ele é um dos ingredientes principais do blended whisky da Johnnie Walker, e lhe empresta o sabor defumado, característico daquela expressão.

A destilaria Caol Ila é a maior de Islay. Ela foi fundada em Port Askaig em 1846, e hoje pertence à Diageo, a gigante que também detém a marca Johnnie Walker. Sua produção anual é de aproximadamente quatro milhões de litros de whisky, sendo que a maioria é usada para compor blended whiskies. Apenas uma pequena parte – aproximadamente cinco por cento – é engarrafada como single malt, como essa garrafa da foto.

O Caol Ila 12 anos é a expressão mais famosa e comum da destilaria. E ainda que sua maturação não seja divulgada, pode-se presumir que ocorra principalmente em barricas de carvalho americano que antes continham Bourbon whiskey.

Este belo exemplar esfumaçado foi encontrado por este Cão no Twelve Bistro & Burger, restaurante na Vila Madalena capitaneado por Greigor Caisley. Como o nome já indica, a vocação da casa são os hambúrgueres. Há para todos os gostos. Desde o clássico X-Salada até um elegante hambúrguer que leva foie gras. E todos são excelentes.

Nham
Nham

Além de hambúrgueres, há uma carta com mais de quarenta rótulos de cerveja, escolhidos por Greigor e seu sócio Daniel Santiago. E, como se não bastasse, há também boas opções de coquetéis e destilados. Ah, e as entradas – como a coxinha de rabada – também são ótimas.

Interessou? Bem, então corra. Há apenas uma garrafa, e ela já está quase no final. Mas também não precisa se desesperar. Greigor é apaixonado por whiskies defumados, e sempre tenta manter ao menos uma garrafa de algo incomum nas prateleiras de seu restaurante. O endereço do Twelve Burger & Bistrô é o seguinte:

Rua Simão Alvares, 1018 – Pinheiros – SP

Fone: (11) 3562•7550