Diplomacia – Gim Virga

Virga 2- O Cão Engarrafado

Antes de começar, tenho que dizer que isto não é um post sobre whisky. É um post sobre um gim. Mas um gim tão especial, que achei que merecia uma menção por aqui. Continue comigo. Em breve você entenderá por que.

As relações entre o Brasil, Inglaterra e Holanda são bem mais estreitas do que pensamos. A história de nossa pátria está eivada de episódios com os – muitas vezes nem tão – simpáticos povos britânicos e holandeses. Um exemplo disso foram as invasões holandesas ao Brasil, que você já deve conhecer, se permaneceu acordado durante as aulas de história. A principal delas foi no século dezessete. Os holandeses dominaram a cidade de Recife, com o objetivo de controlar parte do comércio de açúcar brasileiro.

Os holandeses, este povo pouco civilizado, durante sua invasão bárbara, fomentaram as artes com o envio de importantes pintores à sua colônia, construíram pontes, teatros, diques, drenaram pântanos e trouxeram saneamento à população. Inauguraram um zoológico, um jardim botânico e um observatório astronômico. Além disso, asseguraram liberdade religiosa para aqueles sob seu governo.

Não é Recife, é a Holanda mesmo...
Não é Recife, é a Holanda mesmo…

Mas a população da colônia não estava acostumada àquele tratamento humanizado. Então, anos mais tarde, se revoltaram com o governo holandês, e expulsaram o povo de volta para o inferno de seus países baixos. Os colonos rebeldes tiveram a ajuda de Portugal e – veja só – do sempre desinteressado e despretensioso povo britânico.

Mas o relacionamento entre as nações não foi baseado somente na discórdia. Houve episódios de colaboração. E ainda que não nos pareça óbvio, o Brasil atual sofreu grande influência destes povos. Exemplos são o futebol, as artes e aquela ajudinha na abolição da escravidão. E, finalmente, a mais nova adição a este triângulo, o Gim.

É que acabou de ser lançado o Virga, primeiro gim artesanal feito em pequenos lotes do nosso país. Criado por quatro amigos – três brasileiros e um holandês, o Virga é a perfeita e pacífica fusão etílica entre o Brasil, a Holanda e o Reino Unido.

Aliás, a própria história do gim é internacional. A bebida fora criada na Holanda sob o nome de genever no século dezessete – concomitantemente à invasão ao Brasil. Ele era produzido e vendido como remédio contra dor de estômago e gota. Como o sabor não era dos melhores, para que fosse mais palatável, os holandeses começaram a adicionar zimbro. Com o tempo, a bebida recebeu reconhecimento internacional, principalmente ao começar a ser produzida na Inglaterra, durante o reinado do Rei William III.

Como todo gim seco – variedade de gim que não leva açúcar – o Virga usa como principal botânico o zimbro. Ele, inclusive, é o único ingrediente estrangeiro no gim, e é necessário para caracterizar o destilado como tal. O resto é pura genialidade brasileira. A começar por sua base. Ao invés de se utilizar álcool de cereais – algo neutro e bem usual – o Virga emprega álcool de cana, produzido nos alambiques da Cachaça Engenho Pequeno, localizada em Pirassununga, no interior de São Paulo.

Alambiques da Engenho Pequeno
Alambiques da Engenho Pequeno

Os demais botânicos também têm inclinação brasileira. Cana, sementes de coentro e pacova. Eles são macerados manualmente, e infusionados na cachaça bidestilada. A escolha deles levou mais de seis meses, e contou com a ajuda de Helton Muniz, do Projeto Colecionando Frutas, que mantem uma coleção de mais de mil e trezentos botânicos.

Nas palavras de Felipe Januzzi, um dos quatro amigos criadores do gim “não é nosso objetivo apresentar o mesmo de sempre: uma imagem de Brasil estereotipado, apelando sempre para o exótico de botânicos de nomes que nós brasileiros de São Paulo ainda não ouvimos falar. Nós queremos fazer do gim uma maneira de conhecer o Brasil aos poucos, e não engarrafar um perfume inusitado para turistas buscando experiências rápidas e pouco inspiradoras – não queremos que gostem do nosso gim por ele ser exótico, queremos que gostem dele por ele ser único, por contar uma história e por nos ajudar a entender e valorizar nosso país

Logo que soube do lançamento do Virga, comprei uma garrafa. Uma das primeiras cento e cinquenta. Tinha sentimentos conflitantes sobre o lançamento. Como um entusiasta da coquetelaria, aquele empreendimento me parecia um marco histórico. O primeiro gim artesanal brasileiro. Finalmente, um produto de qualidade dentro desta classe de bebidas, antes inteiramente importadas.

Por outro lado, minha intuição dizia que o Virga não seria muito além de uma cachaça com algum tempero. Algo meio doce e mais ou menos mal resolvido. Mas a ideia era boa demais para eu não provar. No entanto, logo que recebi meu exemplar, percebi que minha intuição não poderia estar mais equivocada. Não há qualquer conflito etílico internacional aqui. O Virga é genuinamente um gim seco, que revela seu destilado base apenas no sabor residual, e é muito bem resolvido.

O Virga pode ser adquirido pela loja da Amburana, e custa atualmente R$ 99,00. É sensivelmente mais barato do que a maioria dos gins de qualidade de nosso mercado. Além disso, parte do lucro obtido com sua venda é revertido para a Fundação Helton Muniz (aquela lá de cima, do Projeto Colecionando Frutas), então é possível embriagar-se (com responsabilidade e qualidade) e fazer o bem ao mesmo tempo.

Mas se você chegou até aqui e ainda não vê uma boa razão para um blog de whisky falar sobre um gim, ainda que um gim nacional, aí vai uma receita de um Gin & Tonic utilizando o Virga e, claro, um single malt escocês. Para selar, de uma vez por todas, a união etílica entre as três nações:

SMOKY G&T

INGREDIENTES

  • 1 limão siciliano (pode ser tahiti também, se preferir ainda mais azedo)
  • 1 dose de Virga
  • 1/2 dose de whisky defumado (pegue algo bem defumado, sem medo. Este Cão recomenda o Ardbeg Ten. Pode usar também o Port Charlotte Scottish Barley. Utilizar um blend defumado como o Black Grouse ou Double Black funcionará, mas não tão bem).
  • 3 doses de água tônica (pode ser qualquer uma. Nos testes feitos por este canídeo, o melhor resultado foi obtido com a Schweppes, que é menos adocicada. Segundo o pessoal do Virga, a Tônica da Prata também fica ótima, mas não experimentamos. Lembre-se que o Virga é relativamente adocicado para um gim, então, uma tônica mais puxada para o amargo funcionará melhor).
  • Angostura Bitters (opcional. Nem tente substituir. Se não tiver Angostura, faça sem)
  • Gelo (bastante gelo)
  • Taça de G&T, ou qualquer taça larga.
  • Colher bailarina (ou qualquer colher pra mexer)

PREPARO

  1. Corte o limão em 4 pedaços longitudinais, e cada pedaço, em 2.
  2. Com pressão moderada – recomenda-se estar sóbrio nesta fase do processo – esfregue os pedaços do limão na parte de dentro do copo. Como se você estivesse untando o copo com o limão, fazendo de conta que o copo é uma forma e o limão, a manteiga. Só que o resultado será bem melhor do que um bolo. Não precisa usar todos os gomos. Normalmente, usamos apenas três, mas a quantidade de limão vai de seu gosto.
  3. Adicione uns 2 dashes de Angostura (isso são pitadas, ou sacodidelas na garrafinha)
  4. Jogue alguns gomos (uns três) dentro da taça
  5. Coloque bastante gelo na taça
  6. Adicione o gim, o whisky e, por fim, a tônica. Desça a tônica direto na taça. Nada de malabarismos escorrendo a tônica pela colherzinha.
  7. Mexa suavemente com a colher.

Pronto. Se quiser preparar uma versão diferente de G&T utilizando o Virga, sinta-se à vontade. A querida Cã, por exemplo, ficou apaixonada por uma versão do drink acima utilizando suco de pêssego ao invés do limão siciliano. Ah, e não se esqueça de compartilhar suas receitas. O pessoal do Virga está ansioso para conhecê-las!

 

 

7 thoughts on “Diplomacia – Gim Virga

  1. Caro Maurício,

    Pertenço ao grupo que aprovou seu ‘desvio de rota’ e, de tão animado, gostaria de compartilhar com outros leitores algumas informações e sugestões, considerando que não sou o único não fundamentalista.

    Até bem pouco, eu nem desconfiava que os portugueses eram aficionados por gin. Mais que isso, estão investindo pesado e produzindo diversos rótulos já consagrados. Creio que o gin é a bebida mais apropriada para alquimia. Depois que os escoceses produziram um excelente gin com pétalas de rosas e pepino nada mais me espanta, então encarei com naturalidade as alegres traquinagens lusitanas.

    O único que provei até agora foi o NAO (nem tão português assim, mas…), que é maturado por três meses em barricas de vinho do porto. Recomendo.

    Em Lisboa há diversas casas com boa carta de gin, mas se escolher apenas uma, proponho o Vestigius, no Cais do Sodré. Caso o gin português não seja tudo isso que afirmo, a comida, os vinhos e a vista não irão desapontar.

    Atenciosamente,

    Sócrates

    1. Sócrates, como um descendente 50% de portugueses, digo apenas que a terrinha dá só orgulho. Fiquei bem curioso com esse gim maturado.

      A bem da verdade, aqui a indústria está se revelando agora. Há mais dois Gins que acabaram de ser lançados – Arapuru e Draco. Cada um com sua proposta singular. Não provei nenhum destes dois ainda, apenas o Virga. Achei uma empreitada corajosa e necessária. Ingredientes nacionais nos ajudam a criar uma coquetelaria genuinamente nacional. E isso é excelente.

  2. Dá muito orgulho ver o mercado nacional crescendo com produtos de alta qualidade!
    Gostei muito da história e uma forma diferente de degustar um whisky defumado sempre é bem vinda.

    Grande abraço!

  3. Comprei uma garrafa seguindo sua sugestão e a mesma chegou hoje.
    Achei incrivelmente bom. Obviamente é um gim, mas obviamente é diferente.
    Dá pra sentir bem a cana, o coentro, mas sem perder as características.
    Concordo com os outros comentários de que o gim é a melhor bebida para coquetelaria. No meu caso eu fiz um dry martini, para perceber bem esse gim.

    1. Fantástico João! O retrogosto é um pouco mais adocicado. Dá para usa-lo em uma série de drinks, e ele sempre dará um perfil um pouco mais doce. A Vesper ficou muito boa com ele também!

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