Seelbach Cocktail – Fake News

Às vezes me perguntam como faço para pensar na introdução de cada post do Cão. Respondo, meio jocosamente, que é fácil, porque já acordo pensando na próxima besteira que vou escrever ou falar, e tudo que preciso é um pouco de whisky para catalisar o processo. Mas isso não passa de uma brincadeira. Na realidade, muitas vezes, passo dias pensando na introdução de algum post. Em alguns casos, no entanto, o tema ajuda, e a introdução já vem quase pronta.

É o caso do coquetel Seelbach. Um coquetel delicioso e vanguardista. Mas não vanguardista em seu preparo. Mas sim na história de sua concepção. Ou melhor, no falso relato de sua origem. Com detalhes de dar inveja ao Sr. Francisco daquele suco bonzinho, ou ao Vittorio daquela famosa marca de picolés, a narrativa do nascimento do Seelbach foi capaz de convencer até grandes nomes da coquetelaria mundial. Vou contar para vocês.

O coquetel primeiro despontou em 1990, quando o bartender Adam Seger, do hotel Seelbach, localizado em Louisville, Kentucky, disse que descobrira a receita em um menu perdido daquele hotel. De acordo com Adam, a receita original do coquetel era anterior à Lei Seca Norte-Americana, e teria sido, naquela remota era, o principal drink da carta daquele estabelecimento.

O Seelbach

Adam contou que o coquetel fora criado em 1912, quando o outrora bartender do Seelbach despejara, por acidente, champagne dentro de um Manhattan. Segundo ele, uma garrafa do prosecco teria transbordado, e o profissional, desesperado, tentara resgatar o líquido com um manhattan que acabara de montar. Algo mecanicamente meio esquisito, ainda que possível. O tal criador por acaso então teria experimentado o coquetel, e adorado. E daí surgira o Seelbach – que mais tarde cairia no esquecimento por conta do Nobre Experimento, para ser revivido por Seger.

Ao saber da história e da alegada descoberta de Seger, o mundo da coquetelaria se animou. A notícia correu o mundo. Gary Regan, conhecido estudioso da coquetelaria, até mesmo incluiu o Seelbach em seu New Classic Cocktails. Ted Haig, também conhecido como Dr. Cocktail, seguiu Regan, e replicou a receia em seu Vintage Spirits and Forgotten Cocktails.

Em uma entrevista ao The New York Times, porém, Seger admitiu que criara tudo. A história e o coquetel. Em outra oportunidade, explicou seu intento. “eu era ninguém (…). Não possuía qualquer corolário no mundo do bar. Eu sabia que podia criar um coquetel excelente. E eu queria que ele fosse uma promoção para o hotel, e sentia que o hotel precisava de um coquetel de assinatura. Como um lugar frequentado por F. Scott Fitzgerald poderia não ter um maldito coquetel?” Essa última frase, aliás, talvez seja a única parte verdadeira de todo o caso. O escritor de O Grande Gatsby frequentava o hotel – que inclusive foi mencionado brevemente em sua obra.

A parte mais engraçada da história é que todo mundo acreditou em Adam, numa clara manifestação da Tia do Zap no mundo da coquetelaria. Segundo ele, ninguém lhe pediu os menus originais, de onde teria tirado a receita. Quando o livro de Ted Haig foi publicado, porém, Seger ficou preocupado “acho que isso está indo longe demais, porque está num livro de história“.

Bom dia do Ted Haig. É verdade esse bilete.

Ele, porém, continuou com o conto por alguns anos, até admitir a farsa a Gary Regan. Que, incrivelmente, não pareceu muito surpreso com a revelação. “Para ser honesto, eu sempre suspeitei que o Adam criou o coquetel, mas eu realmente o adorava, e a história era quase plausível, e eu precisava de receitas para o ‘New Classic Cocktails‘”.

Independentemente das fake news, o  Seelbach é um coquetel excelente, e perfeito para esta festiva época do ano. Assim, caros leitores, preparem seus caderninhos mentais e tomem nota desta duplamente criativa invenção.

SEELBACH COCKTAIL

INGREDIENTES

  • 30 ml (ou 1 dose) de Bourbon Whiskey
  • 15 ml (ou 1/2 dose) de triple sec (este Cão utilizou Cointreau)
  • 3 dashes de angostura (leia uma observação importante sobre isso e o uso do Peychaud’s no final do post)
  • 3 dashes de Peychaud’s (se não tiver, vá sem, ou substitua por outro bitter com mesmo perfil aromático)
  • 5 doses de prosecco.
  • Taça coupé ou flute.
  • gelo

PREPARO

  1. adicione o bourbon, triple sec, Angostura e Peychaud’s na taça de sua escolha, e mexa com cuidado.
  2. Adicione o prosecco e mexa novamente.
  3. Se quiser, decore com um twist de laranja.

Observação importante – A receita reproduzida no Vintage Spirits and Forgotten Cocktails de Ted Haig pede por 7 dashes de cada um dos bitters. Na opinião pessoal e talvez equivocada deste canídeo, a quantidade de bitter usada o torna muito condimentado para nosso paladar médio. Porém, se preferir, arrisque com as sete dashes, e vá reduzindo até encontrar seu equilíbrio.

 

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