Singleton of Dufftown – Curva de Aprendizado

Quando tinha uns quatorze, quinze anos, resolvi que aprenderia a falar russo. Sei lá porque decidi aprender russo. Talvez porque eu não fosse esquisito o suficiente já, trinta quilos acima do peso, jogando RPG e desenhando no intervalo das aulas do que outrora era conhecido como colegial.

Meus pais, sempre dispostos a estimular meus interesses mais excêntricos, logo encontraram uma excelente professora. Fazia duas aulas por semana. Falar já era bem difícil, mas o pior de tudo mesmo era ler. E o alfabeto cirílico não ajudava nem um pouco.

Depois de um ano, minha professora me deu um livro pra ler sozinho. Três Porquinhos. Indaguei se não havia uma leitura mais interessante. Meu querido, todo mundo precisa começar do básico. Você não vai entender, se eu te der um Pushkin, Maiaskovski ou Dostô. Acenei com a cabeça. No final, não entendia direito nem mesmo a história do trio de suínos. Mas conhecia a versão em português, e assim consegui preencher as lacunas de minha inabilidade linguística.

три свиньи

Essa semana, me vi recordando do conto infantil na língua eslava ao provar um single malt recém chegado ao Brasil. O Singleton of Dufftown – mais um da tríade (não posso deixar de notar a coincidência com o número de porcos) de Singletons que desembarcou em nosso país.

Os Singletons são um grupo de expressões de diferentes destilarias pertencentes à Diageo, cujos rótulos são destinados a iniciantes neste inebriante mundo dos single malts. Além de Dufftown, fazem parte do conjunto Glen Ord e Glendullan.

Como o nome sugere, o Singleton of Dufftown é produzido na destilaria Dufftown, na cidade homônima. Tipo aquele filme do Adam Driver, em que tudo tem o mesmo nome, só que com menos poesia, e mais álcool. Naquela cidade, também se localizam destilarias bastante conhecidas, como Glenfiddich, Mortlach, Balvenie, Glendullan e Kininvie.

A destilaria Dufftown é uma das maiores em volume de produção do portfólio da Diageo – perdendo apenas para a Caol Ila e a gigante Roseisle. Apesar disso, menos de 5% de sua produção é engarrafada como single malt. O restante é destinado a blends, especialmente o conhecido Bell’s.

Sensorialmente, o Singleton of Dufftown é um single malt bem simples, adocicado e que aparenta pouco maturado. Ele não chega a ser agressivo – aliás, longe disso. Mas também, não há muita profundidade. Seu perfil de sabor foi feito para agradar, não surpreender – assim como o conhecido conto infantil. Ou por acaso foi um plot twist pra você, o lobo não conseguir derrubar a casa de tijolos?

Aliás, combina super bem com os protagonistas!

A maturação do Singleton of Dufftown acontece em barricas de carvalho americano de ex-bourbon whiskey, “com uma alta proporção de barricas de carvalho europeu“. Essa última frase é da própria destilaria – tão empolgante quanto vaga. Afinal, qual a proporção? E o que havia dentro dessas barricas antes de receber o new-make ou whisky?

De qualquer forma, se você está começando no mundo dos single malts, e procura uma aposta segura e pouco custosa, o Singleton of Dufftown é seu whisky. Só não procure muita novidade – é um malte que oferece uma experiência bem semelhante a um blended scotch whisky premium padrão. Mas talvez isso nem seja ruim. Melhor partir de terra firme. Tchekhov e sua gaivota que nos aguarde

SINGLETON OF DUFFTOWN 12 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida (12 anos)

Destilaria: Dufftown

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, com mel, açúcar, baunilha.

Sabor: mel, amêndoas, malte, grãos. Final médio e adocicado

Com água: A água ressalta a base de grãos

Disponibilidade: disponível no Brasil – R$ 220,00, em média – à venda aqui.

6 thoughts on “Singleton of Dufftown – Curva de Aprendizado

  1. Curiosamente, mestre eu me confundo com os 3 Singletons. E não só eu, porque outro dia li sobre um sujeito que comprou um e recebeu o outro hahaha.
    De qualquer forma, acredito que os 3 sigam mais ou menos a mesma linha, certo?
    Abraço!
    PS: Vai haver análise da linha Quest da Macallan? Meu Lumina está a caminho e fiquei curioso com a quantidade de pessoas dizendo que preferiram o Terra ao Enigma.

    1. Fala mestre!

      Pois é. Eu também. Agora não confundo mais, mas antes assumo que exigia certa atenção.

      Sim sr. Tem até foto já, com notas de prova e tudo. Basta eu deixar de ser preguiçoso e escrever…rs.

  2. Prezado Cãoengarrafado, admirador incondicional de seu site e textos, peço desculpas se já respondeu sobre este assunto, sites seguros para comprar whisky. Minha ultima viagem internacional foi justamente para Escocia. Alguns anos atrás.. Mas por questoes economicas hehehe…nao viajei desde entao. Assim, apaixonado que sou por estes nectares meu estoque reduziu consideravelmente. Por isto te pergunto quais sites vc sente segurança para comprar, do ponto de vista da real procedencia e efetiva originalidade do produto, nosso querido whisky. Um forte abraço!

    1. Olá André, muito obrigado! Fantástico que gosta de nossos textos, esse feedback é nossa maior recompensa.

      Olha, eu sempre compro meus whiskies na Cia. do Whisky em São Paulo ou no Rei do Whisky (lojas físicas). Online, compro na http://www.lojadewhisky.com.br. Essa aí tem o maior portfólio, de longe. E todos os produtos são originais, importados de forma oficial, com selo do IPI, análise laboratorial do MAPA, NF e tudo que tem direito. Há muitos sites que parecem oficiais, mas vendem produtos que nem registro tem no Brasil, whiskies como Buffalo Trace, Jefferson’s, Nikka, Highland Park etc. Toma cuidado!

      Um abraço!

  3. Texto muito gostoso de se ler. Leve e sobriamente bem humorado.

    Ao ler sua análise, me deparei (pela milionésima vez) com as seguintes dúvidas:

    1 – Esse Singleton tem custo x benefício melhor do que o Glenlivet Founder’s Reserve?

    2 – Ele é melhor do que blends da mesma faixa de preço (consigo encontrar, atualmente, Chivas XV anos por volta de R$150,00)?

    3 – O álcool é tão ou mais agressivo nele do qie em relação aos outros dois, por exemplo?

    Pergunto isto porque meu único “senão” para com as marcas que já bebi é justamente a excessividade de álcool nos blends “de entrada” “premium”.

    É muito chato pagar três digitos em uma bebida que será tão desagradável para beber pura quanto um rum ou uma vodka, que custem 1/3 do valor.

    No mais, parabéns pelos textos.

    Fico no aguardo da sua resposta.

    1. Opa, fala Robson!

      1 – Prefiro o Founder’s, mas é um whisky legal.
      2 – Depende do Blend. Prefiro Ballantine’s 17 a ele, por exemplo. E o Dewar’s 12. Mas, mais uma vez, gosto pessoal.
      3 – O álcool é pouco agressivo, na verdade. É mais do que um blend, mas é ok!

      Acho que dentre os whiskies de entrada, os que tem o alcool mais bem integrado entre os single malts à venda no Brasil, são Arran Lochranza e Glenmorangie 10. O Founder’s Reserve também é bem delicado nesse quesito.

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