Toronto Cocktail – Gosto Adquirido

Na semana passada levei a Cãzinha para experimentar sushi pela primeira vez. Dei todas as coordenadas básicas, inclusive sobre como segurar o hashi. Notei, no entanto, que essa parte exigia uma certa prática, e pedi que o garçom a ajudasse. Isso foi até engraçado, porque ele trouxe um mini pikachu de borracha que, quando espetado nas partes baixas, fazia uma espécie de mola que segurava os palitinhos abertos. Mas, enfim, não é isso que importa.

Mas papai, isso é bem esquisito, é arroz grudado com peixe cru, não é bom não. Levantei as sobrancelhas. Olha, cria, eu não tinha muito critério sobre o que comer quando era criança, mas, reconheço que eu também não gostei da primeira vez. E continuei. Acho que sushi é tipo anchovas, gorgonzola ou relacionamentos de longo prazo, é o que a gente chama de gosto adquirido. Se você insistir, vai passar a gostar tanto que até vai ficar com saudades. Ela acenou com a cabeça, fez plec-plec com os palitinhos presos pelo pokemon e pegou mais um hossomaki. Missão cumprida.

Natto. Outro gosto adquirido. Cãzinha vai chegar lá!

Depois, fiquei pensando como é engraçado esse lance de gosto adquirido. Tem coisas que eu detestava. E hoje, até corro atrás pra comprar. Dizem que nosso paladar muda a medida que envelhecemos. Eu devo ter a idade do Gandalf. Passei a gostar de marzipan, uvas passas, tomate, anchovas. Gosto até daquela bala dura de alcaçuz que quando você morde, parece que seu dente foi junto. Meus únicos e perenes ódios seguem sendo frango e morango. Por mim, os frangos deviam comer todos os morangos do mundo e explodir.

No mundo alcoolico, o paladar mudou também. Recentemente, descobri meu amor pela Fernet-Branca. Seria capaz até de substituir a pasta de dente por Fernet Branca, mas, aposto que nove entre dez dentistas preferiria recomendar Oral-B, conforme dita a propaganda. E um dos grandes responsáveis pela inclusão de Fernet na longa lista de meus gostos adquiridos foi um coquetel. O Toronto.

O Toronto é composto de Rye Whiskey – que, como o nome sugere, pode ser canadense – Fernet-Branca, xarope de açúcar e Angostura Bitters. O coquetel é um clássico, e apareceu pela primeira vez na literatura especializada em 1922, no livro “Cocktails: How to Mix Them” de Robert Vermiere. Por lá, o nome era Fernet Cocktail, o que, etimologicamente, parece até redundante. Mais tarde, ganhou seu nome Toronto no “The Fine Art of Mixing Drinks” de David Embury.

Embury. Parece de boa, mas era um malucão.

A receita original pede por rye canadense. O que, observe, pode ser uma cilada. No Canadá, para que um whisky seja chamado de “rye whisky” (whisky de centeio), ele não precisa necessariamente ter predominância de centeio. Parece estranho e é mesmo – eu explico a razão disto neste post. Assim, se for escolher um rye canadense, certifique-se que ele é feito do cereal antes mencionado. Ou opte pelo mais fácil, e pegue um rye whiskey americano, que é rye mesmo, e é mais barato e muito mais fácil de encontrar em terra brasilis.

O equilíbrio do coquetel também merece atenção. Um whisky mais leve ou mais adocicado exigirá que você mude as proporções de fernet e açúcar. Diminua o dulçor ou eleve a Fernet se usar um whisky mais doce. Mas, não tenha medo de errar. Experimentar faz parte do processo – afinal, ninguém nasceu gostando de uvas passas, queijos azuis e anchovas. Vamos à receita.

TORONTO COCKTAIL

INGREDIENTES

  • 60ml Rye Whiskey (vai ter que ser Jim Beam Rye, é o único que chega no Brasil.)
  • 15ml Fernet-Branca
  • 15ml xarope de açúcar (proporção 1:1)
  • 2 dashes (sacodidelas) de Angostura Aromatic Bitters
  • Parafernália para misturar
  • gelo
  • taça coupé.

PREPARO

  1. Adicione tudo no mixing glass com bastante gelo, mexa até gelar. Cuidado com a diluição!
  2. Verta em uma taça coupé e finalize com um zest (uma casca) de laranja.

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