Whiskey Mule

 

Quando era criança, não ligava muito para modinhas. Nunca encostei em um tazo e nunca colecionei mini-coca-colas. Mas havia uma coisa que me pegava sempre. Kinder Ovo. Pensando friamente, talvez eu nem gostasse tanto do chocolate. O que mais queria era mesmo a surpresa. Porém, o engraçado é que se eu pudesse encontrar a surpresa sem o tradicional envolvimento de seu delicioso recipiente, eu provavelmente não me interessaria por ela também.

O genial do Kinder Ovo é a combinação daqueles elementos. As duas coisas juntas, aliadas à expectativa daquilo que está dentro da capsula o tornam algo irresistível para qualquer criança, tenha ela três ou sessenta anos. Ninguém consegue ficar indiferente e não esboçar, nem que seja a menor curiosidade, ao abrir um Kinder Ovo. Ele é a perfeita fusão entre a obsessão gastronômica e a sede acumuladora.

Na coquetelaria, um caso muito parecido é o do Moscow Mule, a versão tradicional do coquetel tema deste post. O Whiskey Mule. O Moscow Mule é a reunião de três elementos que ninguém prestava atenção. Mas que, reunidos, resultaram em um dos coquetéis mais famosos do mundo.

Sua história começa na década de 30, com um senhor chamado John Martin, presidente da G.F. Heublein & Brothers, uma empresa de importação e exportação de gêneros alimentícios. Martin havia comprado uma pequena destilaria de vodka canadense que talvez você já tenha ouvido falar. A Smirnoff. Seu plano era popularizar o destilado nos Estados Unidos. O problema é que aqueles eram tempos um pouco obscuros para qualquer coisa que tivesse relação com a Russia. Os Estados Unidos lutavam o comunismo, e o consumo de vodka era encarado como um hábito inegavelmente bolchevique – tipo comer criancinhas, sodomizar pessoas na rua e tudo aquilo que os americanos achavam que os comunistas russos, homicidas e bárbaros, faziam.

Mais de uma década depois, Martin, frustrado e esgotado, teria comentado para seu amigo Jack Morgan, proprietário do bar Cock ‘n Bull de Los Angeles, sobre sua dificuldade em vender a bebida. Jack, por sua vez, apontou que tinha problema parecido com sua ginger beer artesanal, que produzia com tanto carinho. Uma terceira pessoa que também frequentava o bar – que jamais fora identificada – queixou-se que possuía centenas de canecas de cobre e que também não estava nada fácil vendê-las.

Pra ninguém…

Jack e Martin, então, fizeram o que todo bêbado em um bar faria. Juntaram as três coisas. Assim, conceberam um coquetel que levava vodka, ginger beer e limão e que era servido naquela elegante caneca de cobre. Uma enorme campanha publicitária foi organizada – inclusive com a participação de famosos como Woody Allen e Monique Van Vooren. A criação foi batizada de Moscow Mule, em referência à vodka e à intensidade do sabor do gengibre, comparável ao coice de uma mula. O coquetel tornou-se um sucesso instantâneo, e até hoje é reconhecido por sua característica caneca de cobre.

O Whiskey Mule, por sua vez,  é a versão melhorada do coquetel. Mas dessa vez, melhorada não apenas porque leva whiskey ao invés de vodka –  Mas porque substitui a ginger beer por uma incrível espuma de limão e cardamomo, originalmente criada pelo bartender Marcelo Serrano, e depois adaptada por uma talentosa bartender para este coquetel. Que, na opinião deste Cão, é uma das mais incríveis emulsões do mundo, ainda que eu não fique por aí categorizando e classificando emulsões. É como disse  Dave Wondrich uma vez”A vodka é o peito de frango desossado e sem pele da coquetelaria – tudo tem a ver com o tempero“. Aqui, não foi só o tempero que melhorou. O frango também foi substituído. Por bourbon.

Preparar o Whiskey Mule não é exatamente simples. O problema não é bem o coquetel. Mas a espuma de gengibre. Para o melhor resultado, é preciso ter um sifão de culinária – uma peça não muito segura, um tanto cara e bem específica. No entanto, é possível fazê-la no liquidificador. O problema deste método é que a espuma tende a diminuir com o tempo. Então, para cada coquetel, seria preciso um novo preparo. Seja como for, e sem mais protelações, aí vai a receita da versão melhorada de um dos mais icônicos coqueteis de todos os tempos. O Whiskey Mule:

WHISKEY MULE

INGREDIENTES

  • 30 ml de sumo de limão tahiti
  • 50 ml de bourbon
  • 15 ml de calda de açucar
  • Espuma de gengibre com cardamomo*
  • Noz mocada
  • folha de hortelã para finalizar

PREPARO

  1. Em uma coqueteleira, adicione a calda de açúcar, o bourbon e o sumo de limão.
  2. Desça o conteúdo em uma caneca de cobre (tá, isso é meio específico, pode usar uma caneca qualquer, ou mesmo um copo baixo, eu não vou te repreender)
  3. Complete com espuma de gengibre com cardamomo.
  4. rale noz mocada sobre a espuma

Para a espuma:

  1. Descasque 100 gramas de gengibre fresco.
  2. No liquidificador, coloque 100 ml de água, 200 ml de sumo de limão siciliano e 100 ml de xarope de açúcar, o gengibre, 3 unidades de cardamomo e bata rapidamente.
  3. Coe para outro recipiente e, em seguida, volte o líquido para o liquidificador.
    adicione 1 colher de chá de goma xantana
  4. Bata novamente e deixe resfriando na geladeira
  5. Se você tiver um sifão de creme, coloque a emulsão no sifão para usar na preparação do coquetel. Bata um pouco antes de servir.

7 thoughts on “Whiskey Mule

  1. Boa noite cão, perdão por mudar o assunto de seu texto (um ótimo texto por sinal), mas poderia me descrever um pouco o Ballantines 12 anos? Onde eu moro o preço está bastante acessível e gostaria de uma opinião sua.
    Um abraço, e agradeço desde já!

    1. Fala João, tudo bem?

      Acho um blend honesto. Não é minha primeira escolha, mas acho okey. Em breve solto uma prova 🙂

      É um whisky adocicado e bem leve. Está mais para o lado do Chivas do que do Johnnie Walker.

  2. Boa tarde Cão, quase nunca comento embora leia todos seus post, o de hoje como todos, excelente. Sou um grande apreciador de Whisky por força de não existir bons rums no Brasil, fato este que em nada me incomoda. Levando em consideração a dificuldade para a espuma, a minha pergunta é: mudaria tanto o sabor mesmo que a intensidade da espuma diminua? Acredito que poderíamos colocar um poco do liquido da emulsão mesmo de leve evitando uma mistura brusca com o resto do conteúdo garantindo assim o delicioso sabor

    1. Opa, fala Alfredo, tudo bem?

      Não mudaria tanto. Voce pode tentar fazer no liquidificador. Nunca tentei bater na mão, mas talvez funcione. Se tentar, me conte da experiência…rs

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