O Cão Explica – Whisky estraga depois de aberto?

Desde que o homo sapiens sapiens adquiriu consciência de sua consciência, passou a questionar o mundo ao seu redor. Do mais profundo existencialismo até as coisas mais frívolas. Debruçamo-nos em questões tão complexas quanto a formação do universo com a mesma energia que questionamos as mais simples. Não existe resposta estúpida para a verdadeira curiosidade. Afinal, é sempre interessante saber por que a água da privada gira no sentido horário para nós. Ou se o barulho que os dinossauros do Jurassic Park faziam era parecido com o real.

Há, claro, aquela categoria de indagações que, muito provavelmente, jamais serão respondidas. São todas aquelas que dependem, essencialmente, daquilo que escolhemos acreditar. Ainda que mesmo essa afirmação seja bem polêmica. O sentido da vida e a natureza do tempo, por exemplo. E por fim – não menos polêmica ou mais simples de ser respondida – está a questão que todo apreciador de whiskies faz, ao menos uma vez na vida. Será que o whisky estraga depois de aberto?

A resposta mais acurada é sim, é claro. Porém, determinar o prazo para isso acontecer e – mais importante de tudo – para que se torne notável, dependerá de um sem fim de fatores. Dentre eles está a temperatura, o volume de líquido dentro da garrafa, o diâmetro da garrafa (é isso mesmo!) e quanto a garrafa é mexida. Esses elementos influenciam em um fator bem conhecido pelo pessoal dos vinhos, mas pouco explorado por nós, apreciadores de destilados. É a oxidação. Além dele, há também a evaporação, que não pode ser ignorada.

Uma garrafa de 1894, descoberta enterrada sob a Ruthven Road, na Escócia. Será que já oxidou?

Deixe-me ilustrar com um exemplo. Talvez você já tenha deixado, por um terrível e indesculpável equívoco, uma dose sem beber em algum copo, durante uma noite inteira. Porém, ao perceber o erro, e para evitar o desperdício, resolvera que seria uma boa ideia provar daquele líquido. Quase todos nós já fizemos isso. O resultado da experiência dependerá muito da dose, porém, de forma geral, o que você encontrará será um whisky bem mais monotemático e menos picante. As culpadas são justamente a oxidação e a evaporação. Algo semelhante ocorre, em uma velocidade muito menor, dentro de sua garrafa.

Vamos à primeira razão. A oxidação acontece quando a bebida é exposta ao oxigênio. O oxigênio, presente no ar, reage com certos componentes da bebida. São os ésteres e os tióis, que proporcionam alguns daqueles tão agradáveis aromas em sua dose preferida, e que tendem a perder força com a oxidação.  Com os fenóis a história é um pouco ambígua. Enquanto aqueles responsáveis pelo aroma enfumaçado e medicinal diminuem, a vanilina, que traz aquele incrível aroma de baunilha, aumentam.

Para não tornar o papo muito insuportável, vou simplificar. Ao longo dos meses, o líquido daquela sua belíssima garrafa guardada para momentos especiais mudará. Ele se tornará um pouco mais frutado e a baunilha se evidenciará. Porém, os sabores e aromas defumados e medicinais – se algum dia ele já tiver sido defumado e medicinal – assim como as especiarias e o cítrico, se reduzirão. Outros sabores, como o de borracha queimada e aquele inconveniente sabor metálico serão evidenciados.

O whisky, no entanto, possui algumas vantagens sobre a maioria das outras bebidas. Em primeiro lugar, por conta de sua graduação alcoólica elevada – quer dizer, ao menos bem mais elevada que a de um vinho, por exemplo – este fenômeno demora bastante para acontecer. O álcool tende a conservar melhor os elementos que caracterizam os aromas e sabores da bebida. Além disso, muitos creem que a maturação em barricas também auxilia nesta tarefa. Os óleos essenciais da madeira aumentariam a tensão superficial, reduzindo evaporação e, por consequência, a oxidação.

O tempo que levará para que estas alterações ocorram, como disse, dependerá de certos fatores. Porém, de uma forma bem genérica, quanto maior for o contato com o ar, mais rápido elas acontecerão. Assim, uma garrafa com diâmetro maior e que esteja com whisky pela metade – por possuir mais líquido em contato direto com o ar – oxidará mais rápido, mantendo-se as mesmas condições. Da mesma forma, uma ampola que é frequentemente mexida ou agitada tende a ser aerada, fazendo com que o oxigênio reaja mais rapidamente com o whisky.

O volume do whisky dentro da garrafa também é determinante. Não importa se você é um otimista ou pessimista, a garrafa sempre estará cheia. Em parte de whisky, e, a outra parte, de ar. Quanto mais ar houver em relação à bebida, mais rápida será a evaporação e a oxidação. Assim, não adianta ficar lá guardando aquela última dose daquela tão estimada garrafa. Ela oxidará. Eu sei que você já fez isso. Eu fiz. É estúpido.

Não importa se ele está meio cheio ou vazio, contando que tenha whisky!

A temperatura também é um elemento importante. Quanto mais quente for o ambiente, naturalmente, maior será a evaporação. E quanto maior for a evaporação – de uma forma geral – menor será a graduação alcoólica ao longo do tempo. E como o álcool é justamente um dos fatores que previne a oxidação da bebida, quanto menos álcool, mas rápida será a oxidação. É por isso, aliás, que vinhos oxidam mais rapidamente que whiskies.

Talvez, neste ponto do texto, você já esteja enxergando a oxidação como seu maior inimigo. Calma. Como tudo, a oxidação é multifacetada. Um fenômeno tão indesejado nas garrafas é, na verdade, bastante desejado durante o processo de maturação do destilado. Os whiskies, enquanto passam seu amadurecimento nas barricas, entram em constante contato com o ar, por conta de uma folga (um espaço com ar dentro da barrica, que nunca é enchida até transbordar). E esse elemento influencia diretamente no sabor dos whiskies. Isso é interessantíssimo, porque é um elemento que não pode ser alterado, ainda que outros truques para acelerar a maturação sejam empregados – como, por exemplo, o uso de quarter casks.

Porém, a questão essencial ainda não foi respondida. Quanto tempo leva para que o whisky torne-se impossível de ser bebido por conta da oxidação. Bem, esta é uma resposta que depende de um outro elemento, que é completamente subjetivo. O apreciador. O whisky continuará a ser palatável enquanto seu entusiasta o apreciar. Algumas diferenças sutis podem ser sentidas ao longo de alguns – muitos – meses. Já diferenças realmente relevantes, no entanto, levarão bem mais tempo. Ainda que muitos concordem que o tempo varie entre um e três anos, isso dependerá, essencialmente, das condições de armazenagem da bebida, e de quanto whisky ainda há na garrafa.

Assim, meus caros leitores, não se preocupem muito com este assunto. Apenas peguem aquela garrafa com o último fio da preciosa água da vida, desçam em seus copos e apreciem. E nesta contemplação, aproveitem para refletir sobre todas aquelas perguntas que – assim como esta – provavelmente jamais serão respondidas. A natureza do tempo. O sentido da vida. Ou divirtam-se com as frivolidades. Eu ajudo. É mentira que a água gira apenas no sentido horário. E os grunhidos dos dinossauros na discutível obra prima de Steven Spielberg são, na verdade, de animais copulando. Quem poderia imaginar, não é mesmo?

 

27 thoughts on “O Cão Explica – Whisky estraga depois de aberto?

  1. Ótima matéria, e parabéns pela forma que ela é escrita, com um pouco de humor fica mais tedioso ler o texto por inteiro. Abração 🙂 (e não vou mais guardar aquela dose final, para um outro momento, hehehe)

    1. Ufa, que bom, por um momento achamos que este era algo como um “Não-elogio”….rs!

      Que bom que está gostando do blog 🙂

  2. Meu caríssimo Cão, lendo este texto, me lembrei da insustentável leveza do ser, by Milan Kundera.. Abraços canídeos.

  3. Muito interessante, mestre! Já havia notado a alteração do sabor. Muito bom entender melhor tecnicamente a situação.
    Abraço!

    1. Sabe que eu não acreditava muito nisso até ver acontecer com um whisky meu. E tive que prestar atenção! Mandou bem em ter notado!

  4. Prezado,
    Achei muito bons conteúdo sério e forma agradável de se comunicar diretamente com toque de humor. Excelente tema e esclarecedor. Vou matar os restos de garrafa rapidamente. Manda mais .

  5. Cheguei aqui há pouco, nem sei por quais caminhos andei. Gostei muito e já tenho uma pergunta: E o whisky fechado? Tem validade?

    1. Feício, mesma coisa – fechado ele dura bem mais, porque há pouco ar dentro da garrafa. Mas fique de olho na evaporação, e conserve sempre em local fresco e ao abrigo de luz. Ajuda muito a conservá-lo

  6. Ótimo motivo para justificar a esposa que hoje irei tomar meu 1/4 do Johnnie Walker Red Rye Finish que estava aqui descansando. kkkkk Ah! E ao som de Roberto Carlos. kkkk Abraço amigo. Excelente texto (como sempre).

  7. Bom dia. Minha mãe ganhou uma garrafa de Ballantines quando do eu tinha 3 anos, em 1975, e nunca abriu. Agora, na mudança, encontrei a garrafa. Como posso saber se ainda serve?

    1. Ana, apenas provando. Mas algumas coisas podem ajudar a identificar. Há particulas solidas flutuando dentro da garrafa? Como está o nível do líquido, abaixo ou acima do pescoço?

      Se tiver muito evaporado (nível baixo) ou se tiver algo flutuando lá dentro, há boas chances de estar estragado.

  8. Ainda fiquei sem saber da resposta… achei uma garrafa uísque Johnny Walken Black Label fechada, MAS o
    Líquido está cheio de partículas e turvado… E agora …isso é possível???
    Será que dá pra apreciar esse uísque???

  9. Você pode ser condecorado como o rei prolixo do wisky. Falou, falou e não disse nada. Afinal quantos anos de validade tem o wisky, digamos numa garrafa lacrada? Indeterminado? De 15 até 30? Quantos ?

    1. Bira, talvez, mas vem cá – você não saiu mais sábio depois de ler o texto? Foi lá, procurar uma resposta superficial e aprendeu uma porrada de coisas sobre evaporação e oxidação. Agora já tem umas duas horas de papo com seus amigos na próxima whiskada.

      Mas deixa eu simplificar, por ter lhe proporcionado o inglório trabalho de ler treze parágrafos. Como você pode ter deduzido do texto, garrafa lacrada, indeterminado, desde que mantido em local fresco e ao abrigo de luz e desde que o liquido não tenha sofrido evaporação. Peço perdão por não ter sido óbvio.

      1. E complementando: defina “validade”. É manter as mesmas características sensoriais? Porque mesmo depois de oxidado e evaporado, você pode beber. Não vai te matar nem dar ressaca. Só que a experiência não será boa.

  10. Cara, tenho uma garrafa quase no fim de um whiskey escocês, ela tá aberta desde tempos imemoriais e me aventurei a provar um dia desses: o líquido ainda guarda notas de fumaça que eu, não sendo muito fã de scotch whiskey, achei meio agressivo ao paladar, mas tá lá, pra quem quiser provar.
    Tenho outras 2 garrafas bem antigas de bourbon fechadas. Essas não oxidam?

    1. Blue, oxidam sim. Igual scotch. Toda bebida oxida. Mas depende da evaporação e condições de armazenagem. Estão ok?

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