O Cão Explica – Por que whiskies (muito envelhecidos) são caros

 

No ano passado, tive a oportunidade de fazer algo que jamais imaginaria. Provar um whisky com mais de cinquenta anos de idade. Foi no último dia do Whisky Show, em Londres. Eu estava ao lado de um dos quiosques dessas engarrafadoras independentes – mais especificamente, a Gordon & McPhail – quando ouvi uma rolha sendo aberta. Precisamos terminar com as doses dessa garrafa, ouvi do expositor, dirigindo-se para seu colega. A garrafa era um raro Glen Grant 1949, engarrafado em 2007. Ao meu lado, reunia-se uma meia dúzia de apaixonados por whisky que, assim como eu, tiveram a sorte de estar no lugar certo e na hora certa.

Estendi minha copita. Que delícia, ouvi de um dos aficionados. Nossa, realmente, acho que é um dos melhores que já provei, veja esse final carnudo, disse outro. Uma senhora, à minha frente, porém, não parecia impressionada. Interessante, muito obrigado. E sorriu em direção ao expositor. Tive que interrompê-la. O que achou do whisky? Bem, acho incrível o que cinquenta anos pode fazer com um destilado. E, mais uma vez, sorriu com toda aquela enigmática elegância inglesa.

Dei mais um gole e refleti. Pois é. A oportunidade de provar assim é incrível. Aquele Glen Grant estava entre os whiskies mais diferentes que já havia provado. E realmente era muito complexo. Havia um sabor seco que nunca havia sentido nessa intensidade em qualquer whisky. Também, um final vínico, mas longe de ser adocicado. Aliás, não havia qualquer dulçor. Era quase pimenta branca com algo azedo. Taninos, muitos taninos. Realmente, interessante. Mas estava longe de ser um dos meus whiskies preferidos, apesar do fascínio geek. A três mil e duzentas libras a garrafa, podia dizer com alívio que passaria facilmente.

Te vendo um por metade do preço, quer? Não.

Não me julgue ainda. Na verdade, aquela experiência era, justamente, a diferença entre o extraordinário e o incrivelmente bom. O Glen Grant era extraordinário, porque lá não havia nada de comum. Ele estava longe de ser um whisky medíocre. Suas características realmente o colocavam em destaque. Mas ele não era incrivelmente bom, como eu poderia esperar. Aliás, havia whiskies bem mais ordinários que ele que materializavam bem mais o incrivelmente bom.

Mas aí fiquei pensando. Se um whisky caro e com tanto tempo de barrica tinha aquele sabor – extraordinário, mas não incrivelmente bom – o que justificaria seu preço? Resolvi pesquisar.

Bem, a primeira razão é muitíssimo simples. A lei da oferta e da procura. O estoque de single malts muito maturados está cada vez mais escassa. E a demanda só cresce. Por conta disso, nada mais natural do que a elevação dos preços. Um whisky caro torna-se ainda mais caro por conta disso. Em outras palavras, há poucas garrafas disponíveis, mas muitas bocas ávidas para experimentar aquele precioso líquido. Algo como o preço da experiência. Experiências mais exclusivas custam mais, porque todos nós queremos ter experiências exclusivas. Elas rendem boas histórias.

E whiskies mais maturados realmente rendem experiências diferentes. A razão disso é científica. Mais tempo de barrica significa mais oxidação. Já abordei este assunto ao falar sobre o prazo de validade de garrafas abertas de whisky, mas vale a pena relembrar. O oxigênio, presente no ar, reage com certos componentes da bebida. São os ésteres, tióis e fenóis que proporcionam alguns daqueles tão agradáveis aromas em sua dose preferida, e que perdem ou ganham força com a oxidação, dependendo de sua natureza.

Os whiskies, enquanto passam seu amadurecimento nas barricas, oxidam. Eles estão em constante contato com o ar, por conta de uma folga nos barris. E esse elemento influencia diretamente em seu sabor. Ainda que outros truques para acelerar a maturação sejam empregados – como, por exemplo, o uso de quarter casks – o perfil de sabor proporcionado por décadas dentro de uma barrica não pode ser simulado de outra forma. E isso, somado à transferência de sabores da barrica, claro, garante uma experiência diferente. A chance de saber, na língua, o que acontece com um whisky que passou quase uma vida inteira num barril. Era a isso que a elegante senhora inglesa na introdução deste texto se referia.

Só que o problema é que o whisky evapora durante a maturação. E é também por isso que seu estoque é escasso. É a conhecida parte dos anjos. A taxa de evaporação varia de destilaria para destilaria, mas, para whiskies escoceses, a média é de 2%. Assim, uma barrica que descansou por muito tempo rende bem menos garrafas. E ainda que nesse caso a progressão geométrica ajude, ela está longe de ser desprezível. Se você fizer a conta, depois de aproximadamente vinte e um anos, apenas 50-40% do volume total de whisky resta dentro do barril. Assim, aquele Glen Grant é um whisky caro porque deve compensar por todas as garrafas de Glen Grant que simplesmente se esvaíram no ar para que ela pudesse existir.

Evaporação ilustrada

Há também a questão do custo de oportunidade. Barricas não são exatamente objetos pequenos e portáteis. Um barril, assim, ocupa espaço de outro que poderia ter um ciclo menor. Além disso, a própria destilaria pode decidir por usar um whisky muito maturado para combinar com um mais jovem, e atingir certo perfil de sabor.  Afinal, como você já sabe porque acompanha o Cão Engarrafado, a idade que está estampada no rótulo é a do componente mais jovem. Mas dentro de um whisky 12 anos pode haver uma parcela de um 25, por exemplo.

Soma-se a isso o custo fiscal. As destilarias pagam impostos sobre o destilado que matura em suas barricas. Quanto mais tempo, mais impostos são pagos sobre uma barrica que está apenas lá, e não gera qualquer receita. Falando nisso, é por conta do pagamento de impostos que convencionou-se que a evaporação é de 2%. De acordo com a lei britânica, a destilaria pode descontar 2% do volume anual de seu estoque em maturação, devido à parte dos anjos. Não é que e ela realmente seja 2% para todos os produtores. É uma ficção jurídica, para facilitar a cobrança pelo fisco.

Mas há também um fator que não tem nada a ver com física ou legislação. Um fator que prescinde a lógica e parte para o emocional. É o luxo. Whiskies muito maturados são objetos de luxo. Um Aston Martin ou uma Ferrari valem bem mais do que a combinação de todas as suas partes. No preço está a exclusividade, a marca e – claro – a expertise e a garantia de qualidade que se espera de um produto assim. Ou você realmente acha que produzir um whisky com cinquenta e oito anos de idade é fácil? Isso exige um cuidado minucioso com a evaporação, medições constantes da graduação alcoólica e total domínio sobre as condições ambientais que cercam a barrica.

Quando se comprar um artigo de luxo, em teoria, compra-se a qualidade, a durabilidade, o expertise, o design ou seja lá qual for o valor que o diferencia dos demais. Então, resumidamente, não é apenas o líquido que entra na conta. Mas também o desejo. Então, está aí. Whiskies mais maturados não são necessariamente melhores. Mas são infinitamente mais raros, por uma série de fatores econômicos e naturais. Fatores estes, que elevados à potência do luxo e da exclusividade, os tornam caros. Caros e inacreditavelmente desejados.

Puxa, quem me dera ter uma garrafa de Glen Grant 1949.

12 thoughts on “O Cão Explica – Por que whiskies (muito envelhecidos) são caros

  1. Quem dera ter a sorte que você teve meu amigo. Whiskies nesta idade é uma coisa raríssima.

    1. Verdade, Bruno. Mas pra você ver – a experiência foi bem diferente. Mas não foi a melhor que tive, nem de longe. Idade é importante, mas é apenas mais uma dica do que estará no copo, e não garante nada. 🙂

  2. Excelente, como todos os textos que leio no blog. Nem nas aulas de economia vi tão boa explicação do conceito de custo de oportunidade, acho que deve-se ao fato de envolver whisky, que por sinal deu uma profundidade e uma grande luz sobre o preço dos whiskies mais maturados, porque nem tudo de baseia em oferta e procura. Aproveitando a ideia do custo de oportunidade. Conheces o Smokehead? Um single malt de Islay, ele está por 100 reais, metade do preço do talisker 10, aqui perto de casa.

    1. Fala Thiago! Te respondi do Smokehead, no? É um whisky decente, provavelmente um Ardbeg jovem. Experimente, se estiver com preço de combate!

  3. Como vai, mestre? Texto mto esclarecedor. Qdo escolho meus cães não levo em conta apenas a idade, mas tb tipo de barril, maturação, destilação, etc. Mas o senhor está correto: a maior idade significa status e é oq mta gente busca.
    Abraço!

    1. Exato, fazer o que? Na verdade… status e a experiência, entende? Mas nem sempre a experiência mais cara é a melhor. Talvez ela seja apenas a mais diferente. Ou nem isso. Só a mais cara mesmo

  4. Ahh essas ficções jurídicas que o fisco impõe. Ainda bem que no Brasil não tem dessas!
    Excelente texto, MZP. Mais um!
    Agora, por favor, me vê mais uma dose! Pode ser um brejito Hahaha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *