Drink do Cão – Wood Aged Boulevardier

woodagedboulevardier

Quando fiz quatorze anos resolvi que tocaria um instrumento. Minha escolha foi tão improvável quanto infeliz. Escolhi o violoncelo. Até hoje os motivos que me fizeram tomar esta decisão desafiam minha lógica. Porque é difícil demais. Tocar violoncelo foi provavelmente a coisa mais difícil que eu me propus a fazer durante minha vida inteira.

Violoncelo exige disciplina, tempo e estudo. E o meu eu recém púbere não atendia nenhum destes prerrequisitos. Eu era indisciplinado, preguiçoso e preferia ocupar meu tempo com todo tipo de futilidade efêmera. Além de que minha coordenação sempre foi comparável àquela de um canhoto bêbado escrevendo com a mão direita.

Por essa razão, nunca fui um bom violoncelista. Depois de muitos anos, o máximo que consegui foi, orgulhosamente, executar de uma forma porca o primeiro movimento do concerto de Elgar. Mas minha versão da peça do compositor clássico inglês mais se assemelhava a uma briga entre um serrote e um pterodátilo. Um pterodátilo com olhos de laser.

Obrigado, internet, por esta ilustração.
Obrigado, internet, por esta ilustração.

Pablo Casals, no entanto, foi um dos maiores mestres do violoncelo de todos os tempos. Suas execuções, mesmo das peças mais difíceis do repertório erudito eram absolutamente irretocáveis. E apesar de já ter atingido a perfeição há muito tempo, Pablo, com oitenta e um anos de idade, continuava diligentemente treinando, por cinco horas, diariamente. Quando questionado sobre a razão de tamanha dedicação, Casals respondeu “é que eu acho que estou melhorando!”.

Me lembrei dessa história ao provar, após uma quaresma de espera, um Boulevardier maturado em barrica de carvalho europeu, que diligentemente preparei no Carnaval, e que, pacientemente e de forma disciplinada, aguardei até a pascoa para engarrafar. Modéstia a parte, sempre achei meu boulevardier tradicional bem bom. Mesmo porque não há dificuldade nenhuma em preparar um boulevardier. Entretanto, eu sentia que havia espaço para progresso!

Foi aí que Fernando Lisboa, da Treze Cocktails, então me sugeriu que fizesse o experimento de envelhecê-lo em carvalho europeu.

E deu incrivelmente certo. As notas de especiarias e baunilha advindas do carvalho casaram, quase perfeitamente, com o amargor do Campari e do vermute, e com o adocicado do boubon. Os sabores do boulevardier original estão todos lá, mas há uma complexidade e uma suavidade que somente os dois meses na madeira teria proporcionado.

Então, meus caros, aí vai tudo que vocês precisam para preparar essa experiência em casa. Notem que a proporção está calculada para um barril de 2,5L de carvalho europeu. Se a ideia for ser maravilhosamente imprudente e comprar um barril maior, as quantidades deverão ser proporcionalmente modificadas. Observe, entretanto, que quanto maior for a barrica, mais tempo será necessário para maturar a bebida.

WOOD AGED BOULEVARDIER

Será estupidamente óbvio o que escreverei em seguida. Mas o Wood Aged Boulevardier não é nada além de um boulevardier comum, maturado – neste caso – em barricas de carvalho europeu. Assim, para conhecer a história do coquetel e entender seu preparo e apresentação corretos, leia o texto original do Cão Engarrafado sobre ele, aqui. Note também que o Boulevardier original ensinado nas páginas caninas tem proporção diferente de sua versão maturada. Isso porque você poderá, ao longo do processo de maturação, alterar a proporção de acordo com sua prova. Explicarei isso mais abaixo.

INGREDIENTES:Wood aged boulevardier

  1. Barril de Carvalho Europeu de 2,5L. – Parece difícil obter um destes, mas é incrivelmente fácil. A Benedetti Shop vende o barrilzinho contendo cachaça da Fazenda Benedetti, que é ótima. Pode-se, assim, ser duplamente feliz. Ainda que a barrica desta primeira já seja bem apresentável, se a ideia for expor orgulhosamente o contêiner, sugiro procurar nas Dornas Havana.
  2. 750ml de bourbon – Este cão utilizou Maker’s Mark. E dessa vez serei categórico ao recomendar o uso do Maker’s Mark. O sabor de um bourbon menos adocicado ou mais fraco irá, muito provavelmente, ser eclipsado pelo sabor advindo da madeira. Se achar o Maker’s Mark um exagero, procure Wild Turkey. Nem tente um bourbon mais amargo.
  3. 750ML de Vermute – Utilizei o Miró Etiqueta Negra. Ficou excelente. A maturação prévia do Etiqueta Negra e seu sabor seco combinaram perfeitamente com a maturação na barrica. Minha sugestão é que, se não encontrar o Miró, vá para um vermute mais seco. O Carpano Classico está ótimo. Evite o Punt e Mes. Na opinião deste Cão, fica doce demais.
  4. 750ml de Campari.
  5. Funil
  6. Garrafas vazias totalizando 2,5L ou mais.

PREPARO

A preparação dependerá do barril comprado. Se seu barril veio com alguma bebida, o conselho deste canídeo é que engarrafe o produto que estava lá dentro e o preencha com o coquetel em seguida.

Você pode, alternativamente, esvaziar o barril, preenche-lo com uma garrafa de Campari e aguardar alguns dias. Isso reduzirá o sabor residual da bebida que esteve lá dentro. Depois, descarte o Campari e o preencha com o coquetel. Note que, neste caso, será necessário (a) muita paciência; (b) sangue frio para jogar o Campari fora; e (c) obviamente, duas garrafas de Campari.

Caso seu barril tenha vindo vazio, aconselho fortemente que preencha com o Campari e aguarde uma semana, de forma que a madeira absorva parte da bebida e estanque eventuais vazamentos. Isso acontece bastante. Nem tente preparar o coquetel direto, caso a barrica tenha vindo vazia. A chance de vazar é altíssima.

Alternativamente, ferva 2L de água, deixe esfriar, preencha a barrica e aguarde uns quatro dias. Não é a alternativa mais segura, porque a água poderá conter bactérias que influenciarão no sabor final da bebida. Entretanto, esta é, seguramente, a alternativa mais barata.

Para preparar o coquetel e não errar na medida, comece pela garrafa menor. Despeje seu conteúdo  na barrica. Depois, utilize essa garrafa como medida para os demais ingredientes. O importante é que sejam misturadas partes iguais dos três ingredientes.

Após preencher a barrica com o coquetel, armazene-a em um local fresco e relativamente ao abrigo de luz. Aguarde entre seis e oito semanas até engarrafa-lo. Utilize a torneirinha e um copinho de dose para provar semanalmente sua criação, controlando sua maturação. Aí entra a questão da proporção. Caso você considere que o coquetel está com gosto muito predominante de algum de seus ingredientes, utilize os 250ml que restaram da barrica para correção. Adicione um pouco mais do ingrediente que quer que seja ressaltado. Apenas lembre-se que o Campari costuma, naturalmente, dominar o drink. O whiskey, entretanto, ainda deve ser sentido.

Para servir o Boulevardier, coloque bastante gelo em um copo que será usado para mistura. Adicione três doses do coquetel e misture por alguns segundos utilizando uma colher bailarina (ou qualquer colher mesmo). Isso providenciará a diluição correta, como se o coquetel tivesse sido preparado na hora.

Com a ajuda de um strainer ou uma peneira, transfira o conteúdo deste copo para outro copo, contendo um gelo grande – ou três pequenos. Se estiver se sentindo inspirado, utilize uma casca de laranja torcida como guarnição.

14 thoughts on “Drink do Cão – Wood Aged Boulevardier

  1. Olha, Maurício… seu conhecimento no mundo etílico é realmente impressionante!
    Quando estiver com o espírito aventureiro exacerbado quem sabe eu não me arrisco? Achei bem interessante esse processo de maturação.

    PS: Se te conforta, quando tentei aprender a tocar guitarra fui mais fracassado que a política brasileira…
    Dias de luta e dias de glória, meu amigo hahaha

    Abraço!

    1. Ahahahahah! Pois é, Felipe. Acho que não adianta, a gente não escolhe nosso talento, nosso talento que nos escolhe.

      Dito isso…ainda estou esperando algum me escolher… enquanto isso, vou bebendo.

  2. Boa Tarde Maurício,

    Parabéns pelo excelente espaço, esta é a primeira vez que me reporto em algum comentário, mas sempre acompanho seus artigos e acho todos fantásticos.
    Na verdade escrevo aqui apenas para sanar uma dúvida, quero fazer uma variação do drink, ao invés de fazer o boulevardier, farei o negroni!
    Comprei o barril pela benedetti através do mercado livre, estou esperando chegar.
    Conheço o Fernando, Ex-frequentador da Pompéia, e grande parceiro de boteco do Toninho, na Miranda de Azevedo. Tirei algumas dúvidas com a fera, mas acabei ficando com dúvidas em outras…
    Sabemos que o negroni e um drink mexido, logo como farei a mistura do mesmo dentro do barril? Vc usou algum método para misturar as 3 bebidas antes de coloca-las no barril?
    Você disse que envelheceu o drink por 8 semanas, passado esse período você engarrafou a bebida?

    Se puder me ajudar nesses meros detalhes, lhe agradeço!

    Grande abraço

    1. Fala Leonardo! Que legal saber que está gostando do conteúdo.

      Já fiz negroni também, mas maturei em uma barrica de amburana. Não ficou genial, mas o erro foi a madeira e o tempo. Com alguns ajustes, talvez tivesse ficado bem agradável. Mas vaos lá às suas duvidas:

      a) Não precisa misturar antes do barril. Pode colocar na ordem que quiser, usando um funil. Só meça direitinho, porque as garrafas possuem volumes diferentes. Quando for servir o drink, você tira três doses (cada dose correspondente a um dos ingredientes do negroni) e mistura no mixing glass com gelo, para atingir a diluição certa. Depois desce no copo com gelão. Ou seja, é a mesma coisa que preparar um negroni na hora, mas ao invês dos três ingredientes, você usa três doses do que foi maturado no barril.

      b) Yes, depois da maturação eu engarrafei. Daí ficava ainda mais fácil – bastava descer três doses da garrafa no mixing glass com gelo e preparar o drink.

      c) De acordo com minha – traumática – experiência, oito semanas pode ser muito. Depende do barrilzinho que estiver usando. Eu não faria por este tempo nem em bálsamo nem em amburana. Mas em carvalho europeu e americano e amendoim, deixaria numa boa. Vá experimentando à medida que o tempo passa, e não deixe passar do ponto.

      Qualquer duvida, estou por aqui!

      Abraços!

      1. Boa Tarde,

        Obrigado por toda a sua atenção e voluntariedade em ajudar. Meu barril chegou hoje (09/01/2017), farei a preparação dele conforme o manual que a Benedetti me enviou (Com água mesmo) e depois já darei vida ao meu Negroni envelhecido.
        A propósito, se você puder me dar mais algumas dicas que fiquem legais em carvalho europeu eu agradeço bastante. Pensei em posteriormente envelhecer algumas cachaças e preparar mais alguns drinks.

        Desde já agradeço

        Grande Abraços

        1. Opa, não há de que, Leonardo.

          Olha, envelheci Negroni, Boulevardier e Manhattan. Os dois ultimos, no carvalho europeu. Acho que a maioria destes “strictly spirits” ficam legais, exceto para algo que se baseie em um destilado branco. Mas vai saber. Eu tentaria um godfather ou um Sazerac também, devem ficar muito bons!

  3. Maurício. Bom dia. Parabéns pelo blog. Belo conteúdo. Gostaria aqui de suas opiniões. Vou comprar um barrilzinho para envelhecer alguns drinks. Tem mta diferença barril de carvalho europeu e americano? O Evan Williams é um bom bourbon para o boulevardier ou perde muito para o Jack Daniels n7 ou Jim Beam White? Outra dúvida. Em sua receita de boulevardier (que eu uso), voce coloca 1 dose e meia de bourbon para 1 de campari e vermute, pq igualou no envelhecido?
    Abração.

    1. Opa, tudo bem, Diogo? Acho que respondi no comentário a um outro texto. Ou não…rs.

      Depende do que você procura. O barrilzinho que usei foi o de carvalho europeu. Eu na verdade não sabia bem qual seria o resultado, mas estava procurando adicionar um sabor diferente ao coquetel. Se colocasse no barril americano, na verdade apenas potencializaria a baunilha e o caramelo, e tornaria o drink mais doce. Porém, com carvalho europeu, imaginei que adicionaria um certo frutado e especiarias que não estavam lá antes. Foi mais ou menos o que aconteceu, ainda que o resultado tenha sido um pouco diferente do que imaginara.

      Igualei as proporções porque meu “palpite educado” é que se usasse a mesma proporção e adicionasse mais madeira, o coquetel ficaria desequilibrado para o lado do carvalho. A ideia de colocar mais whisky é justamente deixar o boulevardier um pouco mais amadeirado, para evidenciar um pouco o whisky. Porém, com a maturação, achei que seria prudente diminuir a proporção de whisky e usar a receita 1-1-1.

      Sobre o whiskey – usaria algo com graduação alcoolica mais alta para compensar potencial evaporação. Assim, Evan Williams é uma boa escolha, assim como o Wild Turkey 101!

  4. Olá Mauricio tudo bom?

    Estou prestes a comprar meu primeiro barril e gostaria de algumas dicas!!
    Qual madeira voce sugere? Gostaria de deixar um negroni bem amadeirado mesmo
    Vc acha que seria possivel envelhercer dry martini?
    E como seria a receita do sazerac envelhecido? Coloco absinto direto no barril?

    1. Francisco, tudo bem?

      Depende do coquetel. Dry Martini, acho esquisito envelhecer, mas pode funcionar. Há gins que passam em barricas, como o Beefeater Burrough’s Reserve.

      Pro negroni, iria de carvalho europeu. O europeu vai trazer mais apimentado e frutado, o americano, mais mel e baunilha.

      Sazerac envelhecido, coloca o absinto na finalização. Melhor, porque aí voce não corre o risco de errar a mão.

  5. O porquê da escolha do violoncelo, talvez seja mais velha do que você pensa. Parabéns pelo artigo muito bom.

    1. Cristiano, deve ser um misto de masoquismo com alguma tendência somente explicada pela psicologia (ela explica tudo!). A real é que gostava de me desafiar. Hoje em dia, prefiro tomar whisky!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *