Bowmore 12 anos – Renúncias

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre escreveu que somos livres porque podemos escolher. Mas que cada escolha é uma renúncia. Já o dinamarquês Søren Kierkegaard – aliás, não faço a menor ideia de como se pronuncia um ó cortado – delineou que é o ato de fazer escolhas que traz significado à vida. O que é bem curioso vindo de um cara cujo sobrenome é uma variação de Kirkegård, que significa cemitério em sua lingua, e que morreu aos quarenta e dois anos de idade. Mas deixemos o senso deturpado de ironia de lado.

Pela doutrina da dupla sertaneja do existencialismo Søren e Sartre, somos a soma de nossas escolhas. Não das pequenas, claro, porque você pode escolher comer um dogão um dia, miojo na outra e depois uma pizza, e isso não fará muita diferença na sua existência, exceto se continuar se alimentando estupidamente por um longo prazo. Mas, das maiores. Escolher um ofício significa renunciar a todos os outros, por exemplo. Deixar de escolher algo também, porque não tomar qualquer decisão é, na verdade, decidir pela passividade.

Nem comecem com o “te tornas…”.

Entretanto, as escolhas são limitadas por nossas possibilidades. A liberdade, para eles, na verdade não está em poder ser YOLO e sair correndo pelado no meio da Avenida Paulista cantando a música da fazendinha do Bita e os Animais. Mas de ter arbítrio, e se responsabilizar por aquilo que escolheu – e saber que correr nu em lugares públicos entoando canções infantis traz consequências. A liberdade carrega uma boa carga de responsabilidade. Por isso, algumas escolhas são terrivelmente angustiantes. Eu, por exemplo, não tive muitas dúvidas quando decidi que queria aprender violoncelo aos quatorze anos, porque não tinha muito a perder. Mas refleti por um bom tempo antes de seguir a profissão de advogado – algo que, pensando em retrospectiva, não adiantou muita coisa.

Desde que comecei a me interessar por whiskies, até agora, já fui algumas vezes indagado sobre minha destilaria favorita. E, por muito tempo, deixei de escolher. Talvez porque elegendo um, sentisse que excluiria os demais. Mas, pensando bem, o fascínio que tenho pelo destilado resida, em boa parte, nisso. Eu posso escolher um preferido – isso não me impede de apreciar os outros. É uma escolha sem muitas consequências. Então, está aí. Pela primeira vez, escrito aqui, neste Cão Engarrafado, notícias de ontem. Minha destilaria favorita é Bowmore. E ela acaba de desembarcar no Brasil com seu Bowmore 12 anos – o tema desta prova.

O Bowmore 12 anos é maturado principalmente em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. E ainda que a influência vínica pela qual os Bowmore sejam admirados não esteja lá – ao menos não escancarada – o Bowmore 12 anos traz a mesma genética de sofisticação de seus irmãos mais maturados. A palavra de ordem, aliás, parece ser sofisticação, e não intensidade. Ele é indiscutivelmente um single malt de Islay. Todas as credenciais estão lá: enfumaçado, medicinal e iodado. Mas, há também espaço para que o barril brilhe, e um equilíbrio que perigosamente te convida para o próximo gole.

O malte usado no Bowmore 12 anos é produzido em boa parte na própria destilaria. Ela é uma das únicas da Escócia que mantém ativos seus malting floors. E ainda que não seja autossuficiente em seu processo de malteação – parte dele é comprado da Port Ellen Maltings – aproximadamente 40% de toda cevada utilizada é malteada sob seu teto. O malte é turfado a a 25 partes por milhão de fenóis – quase cirurgicamente no meio do caminho entre Ardbeg e Laphroaig e os amenos Bunnahabhain e Bruichladdich.

Vamos a alguns fatos para geeks. A fermentação da Bowmore leva entre quarenta e sessenta horas, e produz um wash (mosto fermentado) com 7% de graduação alcoólica. Os alambiques de primeira destilação são carregados com 65% de sua capacidade. Já os de segunda destilação – à moda da Lagavulin – são quase inteiramente preenchidos: 92% de sua capacidade total. A destilação é rápida (7 horas). O corte começa aos 74% e termina aos 61,5%. Os braços dos alambiques são retos, com pouco refluxo. Tudo isso contribui para um destilado bastante oleoso, e com um caráter vegetal que este Cão absolutamente idolatra.

Washbacks da Bowmore

A fermentação da Bowmore acontece até hoje em washbacks de pinho. São cinco ao todo. Cada um, batizado com o nome de um fundador da destilaria. Na década de oitenta, a Bowmore tentou trocar seus washbacks por versões de aço inox. Mas, notando que havia uma sensível diferença de sabor, voltaram aos tradicionais tanques de fermentação. Diz-se que parte do caráter frutado e vegetal presente no new-make da Bowmore advém, justamente, da maturação em tais washbacks.

O Bowmore 12 anos começa a ser vendido no Brasil em Agosto de 2021, e o preço proposto é de R$ 420,00 (quatrocentos e vinte reais). O que parece um valor razoável, considerando o preço dos demais single malts de Islay disponíveis em nosso mercado. Seja como for, experimente o Bowmore 12 anos. Afinal, de acordo com Kierkegaard , são essas escolhas que trazem (um excelente) significado à vida.

BOWMORE 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos.

Destilaria: Bowmore

Região: Islay

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: turfado, defumado e iodado. Aroma vegetal.

Sabor: Início defumado e seco, com caramelo e baunilha. Herbal, com pimenta do reino, fumaça e esparadrapo.

A venda no Caledonia Whisky & Co. em dose e garrafa.

12 thoughts on “Bowmore 12 anos – Renúncias

  1. Ótima notícia e ótima análise.

    Entre ele e o laphroaig select iria de qual pra um iniciante?

    Abraços

    1. Pinhashaka, iria no Bowmore, acho. É um single malt mais contido e equilibrado. Assusta menos. Mas o select é uma excelente opção tambem!

  2. “sertaneja do existencialismo Søren e Sartre” by Mauricio Porto

    Aonde mais dessa vasta internet a gente encontraria tiradas tão inteligentes ?
    Tão belas crônicas “regadas” a whisky !

  3. “Início defumado e seco, com caramelo e baunilha. Herbal, com pimenta do reino, fumaça e esparadrapo.”

    HAHAHA esparadrapo?!?!?!?! Jura, cão?!?!? KKKKK

    Sensacional!!!

      1. Minha memória, coisa que o gato enterra, lembra um Islay quase inofensivo. No caso, imagino, já que não conheço o tal do post, é um esparadrapo antialérgico. Para os amantes do Lagavulin ou Ardbeg, o que se deseja são os que levam a pele junto ao retirar. Não é coisa pra quem usa mertiolate que não arde.

        1. Haha, caro Sócrates, perfeita colocação. Realmente, o medicinal dele é bem discreto. A turfa também, na verdade. É mais doce, menos queimada que do Ardbeg. Aliás, estou nessa essa noite – veja que coincidencia. Ardbeg 10 de um lado, Bowmore 12 do outro.

  4. Caro Maurício,
    Provei os Bowmore em apenas duas ocasiões. Guardo boas impressões do Enigma e o Darkest. O Darkest foi em setembro de 2013. O Enigma, um enigma.
    Seria fácil cantar loas, mas não farei. Essa vida é única e a última coisa a mentir é com a bebida. Depois há controvérsias…
    O último Bowmore tem 8 anos… minha memória não vale o gato enterra, mas compraria ambos, se encontrasse.
    Forte Abraço,
    Sócrates

    1. Caro Sócrates, Bowmore Darkest é ótimo. Ele continua a existir, apenas adotou uma alcunha mais discreta. É o atual 15 anos “Sherry Cask”. Sai a criatividade, entra um nome contingente. Nunca entendi isso – afinal, o whisky já é vermelho e já é um Bowmore. Não vejo razão para redundâncias. Mas é o que é. E é bom. O 18 anos, que ainda guarda um apelido “Deep & Complex” é meu favorito da linha. Talvez, com alguma força, venha para o Brasil no futuro. Por ora, temos apenas o 12 anos. Que (estou guardando o melhor pro final), é, em tese, o Enigma. Então, ele está entre nós.

      Amém.

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