Ward Eight – Sufragistas

A variedade é o que dá tempero a vida. Pense, por exemplo, no brigadeiro. O docinho, aquele, com leite condensado, chocolate e manteiga. Hoje tem brigadeiro de tudo. Laranja, doce de leite, macadamia, nozes, nutella, pistache. Tem até brigadeiro de outros doces, tipo brigadeiro de pé de moleque e brigadeiro de beijinho, que é um negócio que eu nunca vou entender. E brigadeiro de brigadeiro mesmo, só que com uma miríade de chocolates. A quantidade de variações é tão grande que justifica – mais ou menos – a existência de um dispensário exclusivo da guloseima. As brigaderias. Mas antes de se tornar uma classe inteira, o brigadeiro era apenas um doce. Um doce com viés político. Ele fora criado por Heloísa Nabuco de Oliveira, uma senhora que apoiava a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes à Presidência da República de 1946. A criação tinha tudo a ver com o momento histórico – por conta da Segunda Guerra Mundial, produtos frescos ainda rareavam nas prateleiras dos mercados. E, por isso, o doce foi concebido com leite condensado – um substituto que começara a ser comercializado na década de 40. O brigadeiro era servido nas festas dos correligionários e cabos eleitorais de Gomes, […]

Cutty Sark – “Reentrada” – 2021

Em 15 de maio de 1963, a NASA lançava sua última missão tripulada do Projeto Mercury. O objetivo da missão era, principalmente, avaliar os efeitos no corpo humano de uma estadia mais prolongada no espaço, bem como realizar alguns experimentos. A missão foi realizada pelo astronauta Gordon Cooper. Durante os vinte e um dias que ficou em órbita, Cooper fez coisas bem legais, tipo soltar um minisatélite no infinito, medir níveis de radiação no espaço e, bom, dormir. Ele foi a primeira pessoa a dormir em órbita. Gordon também foi agraciado com uma vista estonteante a partir de sua espaçonave. Ele fez diversas fotos, e conseguiu ver detalhes impressionantes de nosso planeta, como estradas, rios e pequenos povoados. Descreveu que conseguia até mesmo ver a fumaça saindo das chaminés das casas no Tibet – devido à atmosfera rarefeita – e julgar para que lado o vento soprava sobre a cordilheira. Mas nem tudo foi poesia durante a jornada de Cooper. Durante sua vigésima primeira volta ao redor da Terra, o inversor de energia da nave entrou em curto circuito e apagou todas as leituras de altitude e velocidade – algo que atrapalharia bastante o trabalho de retornar à salvo para […]

Logan Heritage Blend – Herança

Ah, por causa do Vinícius. Toda vez que menciono o nome deste blog a um interlocutor incauto, há sessenta e cinco por cento de chance dele mencionar o poetinha. Eu já contei. Durante uma época, até tomava nota. Este daí perguntou. Esse não. Eu costumava proferir o nome do blog e já engatilhar um sorrisinho de soslaio de antecipação à pergunta. Isso mesmo, a inspiração é o Vinícius de Moraes, sabe, eu adoro aquela frase, que o whisky é o melhor amigo do homem, é o cachorro engarrafado, que legal que você notou. Depois, ao abrir o Caledonia, outras indagações e afirmações se juntaram ao caderninho de recorrências. Você tem whisky japonês? Você tem aquele canadense do Mad Men? E aquela marca de Taiwan? Este daí é o do James Bond – e aponta pra uma garrafa de The Macallan. E eu sorrio, e respondo, já meio ensaiado, porque o negócio é tipo escovar os dentes ou dirigir até o trabalho. Você já engata o piloto automático e depois até fica assustado quando recobra a consciência voluntária. Mas, dessas perguntas e observações, há uma que eu sempre presto atenção. Meu pai bebia – ou bebe – esse daí. Meu pai […]

Dos Barris (ou um miniguia inútil sobre algo que você jamais fará)

Platelmintos e nematelmintos. Planárias são platelmintos e sem dimorfismo sexual, porque são hermafroditas. Eles fazem parte de uma das três classes no qual o filo dos platelmintos é dividido – os tubelários. O que é o contrário de ser dioico, tipo o schistosoma mansoni, que também é um platelminto, mas faz parte da classe dos trematódeos. Ou trematóides, ou tremátodos, não lembro direito. Tudo isso eu sei de cor. Por que, não faço a mais rasa ideia. Tenho também algumas outras habilidades curiosas. Tipo saber se uma mosca é macho ou fêmea vendo no microscópio – o que também é inútil, porque eu jamais vou reproduzir moscas em cativeiro. Ao menos, não voluntariamente. Além de que, mesmo se eu quisesse, eu só conseguiria verificar o dimorfismo sexual da mosca no microscópio se ela já estivesse morta – e mortos não se reproduzem, exceto na trilogia Crepúsculo. Sei também tocar uma frase da marcha fúnebre de Chopin no piano mesmo nunca tendo tocado nada. E que gatos não sentem o sabor doce, e que aquele grampo preto com duas asinhas que você usa no escritório se chama grampomol. Por que eu sei de tudo isso, não faço a menor ideia. Ao […]

World Whisky Day 2021 – Mais um dia para degustar.

É, eu sei. A inevitabilidade do assunto deste post pode parecer até mesmo uma provocação. Afinal, hoje é o dia das mães. Este post deveria, certamente, falar sobre isso. Todo mundo espera isso. Minha mãe, que provavelmente lerá esta matéria em algumas horas, espera isso, e ficará bem decepcionada com minhas escolhas – tanto editoriais quanto de vida. Minha querida esposa, a Cã, que aguarda um presente, também. De certa forma, escrever este post hoje é um álibi. Exceto porque bem, acabo de me delatar. Acontece que esta matéria não é sobre o dia das mães. É sobre o dia do whisky. O dia mundial do whisky – World Whisky Day. E se você ainda subestima a importância dessa bebida, saiba que mãe tem só um dia por ano. Whisky tem dois – World Whisky Day e International Whisky Day. Mas, enfim, falemos do primeiro, que acontece todo terceiro sábado do mês de maio. O World Whisky Day foi criado em 2012 por Blair Bowman, um rapaz de apenas vinte e três anos de idade. A ideia de Blair era simples: criar um dia para que as pessoas pudessem se encontrar, comemorar e descobrir mais sobre a bebida nacional da […]

Macallan Triple Cask 18 – Memórias

“O painel de recuperação de documentos contém alguns arquivos não salvos. Você deseja ver estes arquivos da próxima vez que iniciar o Word?“. Sem nem um átimo de reflexão, clico em “sim”. Sempre clico em “sim”. Não faço a menor ideia de quais documentos não foram salvos. Minha lista de documentos em recuperação no Word são, de certa forma, como a vida. Tudo aquilo que não terminei ou errei se acumula. Vitórias e conclusões simplesmente desaparecem ou se perdem. Na verdade, é um pouco pior. Ver os arquivos perdidos da próxima vez que iniciar o Word é mais como guardar memórias que jamais serão resgatadas. Pequenas e grandes frações de coisas, acumuladas e nunca revisitadas. Nunca revisitadas por estarem em dois extremos: ou são muito triviais, ou demasiado especiais. Dentro do primeiro grupo está o canhoto da passagem aérea daquela viagem que você fez há dez anos, o crachá daquela feira incrível e o mapa daquele museu. Coisinhas miúdas que você jura que um dia sentará com tudo no colo para ser tomado por uma alegre nostalgia. Na segunda categoria está tudo aquilo que você conhece, gosta demais, e não consegue imaginar a impossibilidade de ver ou provar novamente, ainda […]

Lamas Nimbus Caledonia II – Nosso segundo whisky!

A genética. Essa incrível combinação, que nos faz quem somos. Para um pai de dois filhos pequenos – na verdade, uma média e um pequeno – há poucas coisas tão encantadoras quanto a genética. Me divirto (e me preocupo) em ver traços meus e da querida Cã em nossa prole. E gosto, especialmente, de ver como a mesma combinação resultou em coisas sensivelmente diferentes. Digo, coisas não. Pessoas. Ou melhor. Cães. Enfim, você entendeu. Fisicamente, os dois são uma cópia da Cã. O que é ótimo por um lado, mas é também uma derrota vergonhosa de meu código genético (fisiológico?), que foi completamente obliterado. Já em relação à personalidade, há pontos de tangência e de oposição. Ela é mais curiosa, ele é mais comunicativo. Em comum, ambos têm um desprezo quase total pela integridade física. Algo que devem ter puxado de mim e que não deve ser, de nenhuma forma glorificado, porque deriva mais de estupidez do que bravura.  Mas é engraçado – você sabe que eles são variações de um mesmo tema. Está, literalmente, na cara. E a graça está aí, nos detalhes. E foi justamente pensando nessas pequenas particularidades, que lançamos mais um whisky. O Lamas Nimbus Caledonia II. Com […]

Port Charlotte 10 anos – Da Origem

Faça uma pinça com seu polegar e indicador e tampe o nariz. Engrosse um pouco a voz e repita comigo. Pamonha, pamonha, pamonha. Pamonhas de Piracicaba. O puro creme do milho. Agora, deixe de ser ridículo, tire o dedo do nariz e reflita comigo. Se você é de São Paulo, provavelmente já ouviu a frase antes, a ser repetida num efeito meio doppler, insistentemente no auto falante de alguma picape ou perua passando na rua. Além de ser extremamente irritante por invadir o espaço auditivo pessoal, a frase tem algo curioso. Piracicaba. Já me indaguei uma dezena de vezes por que as pamonhas de Piracicaba seriam melhores que as outras. E, nesta esteira, os morangos de Atibaia. O que Piracicaba e Atibaia tem para milho e morango, respectivamente, que os outros lugares não? Bem, um pouco de google-fu respondeu minha pergunta. As duas cidades são – ou foram – grandes polos de produção destes alimentos e ganharam fama. Atibaia tem até a festa do morango que, considerando meu profundo ódio por essa frutinha desprezível, seria algo que me dá tanta vontade quanto ver um filme do Nicholas Cage. De certa forma, a descoberta é é meio decepcionante. Não há nada […]

Mitos e Lendas do Whisky – Parte II

Segunda-feira, onze horas da noite. Minha filha desliza de meias, de fininho, na sala escura, onde me surpreende dando os últimos retoques num balde de whisky com Angostura que ousei chamar de Old Fashioned. Papai, não consigo dormir. Penso, rapidamente que nem eu, mas que esse problema seria resolvido tão logo terminasse o copo em minha mão. Por que filhota? Indago, num tom ao mesmo tempo carinhoso e incomodado. O que segue foi um diálogo que tentei reproduzir da forma mais verídica possível. Porque tem um monstro embaixo da minha cama – mas cria, sua cama é uma bicama, não cabe nenhum monstro lá embaixo, só se for uma planária. Silêncio estranho. Papai o que é uma planária? – esquece bebe, não tem nenhum monstro embaixo da sua cama, olha, vamos lá que vou te mostrar. Apoio o copo no piano. Ela titubeia. Mas papai, você não tem medo do monstro? – não filhotinha, não tenho – mas pa, você não tem medo de nada? – na verdade, cria, eu tenho medo de uma porção de coisas, mas monstro não, porque eles não existem. Ela vira a cabeça de lado, como um cãozinho que não entende bem o que falamos […]

Jura 18 anos – Ilha Deserta

Quando sua vida serve de base para duas obras primas da literatura, ela, provavelmente, foi interessante. Como, por exemplo, a de Alexander Selkirk. Seus quatro anos e meio de sobrevivência em uma ilha deserta inspiraram Jonathan Swift e Daniel Defoe a escreverem, respectivamente, as Viagens de Gulliver e Robinson Crusoé. Selkirk era um marinheiro escocês, que após uma desavença com o capitão sobre a segurança do navio que trabalhava, foi abandonado de castigo na ilha de Juan Fernandez para deixar de ser uma pessoa mal-educada. Ou melhor, para deixar de ser uma pessoa. Acontece que Selkirk se mostrou um ótimo sobrevivente. Daqueles, capazes de tornar as aventuras de Bear Grylls tão selvagens quanto uma massagem num spa nas montanhas. Alexander se abrigou em barracas que construiu com árvores de pimenta, comeu ostras frescas – dificilmente considerado um luxo tendo em vista as condições sanitárias da ilha – e peixe. Em determinado momento, foi expulso da praia onde havia se instalado por uma horda de leões marinhos que transformaram o lugar em um enorme bacanal de mamíferos semiaquáticos. No interior da ilha, encontrou cabras e gatos selvagens, que lhe providenciaram leite e proteção contra basicamente todo resto da ilha que queria […]