Johnnie Blonde – Katsuobushi

Katsuobushi. Katsuobushi é a mais nova adição ao meu léxico de alimentos esquisitos que tanto aprecio. Num jeito bem rudimentar de explicar, katsuobushi é peixe seco ralado. Ou, mais especificamente, uma conserva seca, desidratada, às vezes defumada, de carne de peixe – geralmente atum-bonito – em finíssimas fatias, quase transparentes. E, como a descrição sugere, sozinho, tem o mesmo sabor de uma meia úmida utilizada por quatro horas para atravessar um manguezal. Mesmo que eu nunca tenha comido meia suja de manguezal. Só que, em conjunto com outros ingredientes, katsuobushi é incrível. Em sopas orientais fica fantástico, no sanduíche de gravlax – aliás, temos isso em nosso bar – é maravilhoso. O tal ingrediente oriental faz parte daquele conjunto incrível de ingredientes que não faz o menor sentido puro, mas, quando misturado, ganha vida e profundidade. Como também coisas bem mais elementares, como farinha, sal, e tofu. Se bem que tofu continua ruim, mesmo depois de misturar com quase qualquer coisa. Mas, enfim, são ingredientes que foram concebidos para serem combinados. No mundo das bebidas alcoólicas, há elementos assim também – bitters, normalmente. Mas whisky, por convenção, não. Até hoje, pouquíssimos whiskies foram criados e desenvolvidos especialmente para misturas. É […]

Drops – Compass Box The Peat Monster Arcana

Drops são nossos posts menores, de análise ou curiosidades do mundo do whisky, e que contam com rótulos indisponíveis no Brasil – mas com alguma particularidade interessante. Para ler outros drops, clique aqui Expectativa é uma coisa engraçada. Há whiskies que, só de ler, me dão nervoso para experimentar. Mas que são decepção do momento de abrir o lacre a dar o primeiro – e algumas vezes o último – gole. Há outros que são o oposto. Não provocam nem um arquear de sobrancelhas durante a leitura. Mas, ao primeiro gole, me deixam acenando positivamente com a cabeça – depois, claro, de dizer algum palavrão de enaltecimento qualquer. E há aqueles que são os dois. O Compass Box Peat Monster Arcana está nesta classe. Aliás, a Compass Box Whisky Co. quase gabarita esta classe. A empresa foi fundada em 2000 por John Glaser, ex executivo da Diageo, como uma espécie de produtora boutique de whiskies de altíssima qualidade. A maioria de seus rótulos possui alguma invencionice, ou iconoclastia. A empresa procura sempre trazer inovações, e expandir as fronteiras da produção de whisky – e claro, com um storytelling perfeito. O Compass Box Peat Monster Arcana é, de certa forma, a […]

Lamas Smoked Single Malt – Combinações

Vou começar o post de hoje com uma auto-paráfrase. Não por falta de criatividade, mas, porque creio que se aplica perfeitamente à harmonização de hoje ” Goiabada e queijo, hot dog e mostarda, limão e cachaça. Batata palha e estrogonofe, vermute e campari, linguiça e feijão. TPM e chocolate, Microsoft Windows e Ctrl + Alt + Del. Chuva e Netflix, hambúrguer e batata frita e bacon com absolutamente tudo. Há coisas que foram criadas para combinarem, involuntariamente, com outras. Coisas cujo resultado é maior do que a soma das partes.  “ Charutos e whiskies são assim. É raro que uma combinação entre charuto e whisky saia terrivelmente errado. Porém, isso não significa que qualquer uma funcionará. Algumas ficam desequilibradas – como um charuto delicado com um whisky enfumaçado e potente. Outras, ficam simplesmente sem graça. Mas quando eu acerto, ah, aí é absolutamente incrível. Os dois se complementam, e extraem do outro sabores e aromas que eu jamais sequer imaginaria que existissem lá. E foi pensando justamente nesta combinação – esta soma que não tem nada de matemática – que o professor Cesar Adames, em parceria com a destilaria Lamas, de Minas Gerais, lançaram o Smoked Single Malt Whisky – […]

Drops – Alberta Premium

Drops são nossos posts menores, de análise ou curiosidades do mundo do whisky, e que contam com rótulos indisponíveis no Brasil – mas com alguma particularidade interessante. Para ler outros drops, clique aqui Há muitos fatos interessantes sobre o Canadá. Aí vão alguns exemplos. A bandeira do Canadá somente foi criada 100 anos depois de ter se tornado um país. Setenta e sete por cento de todo xarope de bordo do mundo é produzido no Canadá. E agora, uma curiosidade realmente aleatória. A região de Manitoba, no Canadá, é o lar da maior orgia a céu aberto de cobras-liga do mundo, com mais de sete mil répteis. E no Canadá, a maioria dos whiskies de centeio (rye whisky) levam muito pouco centeio. É isso aí. No Canadá, para que um whisky seja chamado de “rye whisky” (whisky de centeio), ele não precisa necessariamente ter predominância de centeio. Parece estranho e é mesmo. Acontece que no século dezenove, os canadenses começaram a produzir whisky com o excedente de sua produção de trigo. Como você sabe, ou deveria saber porque segue o Cão Engarrafado, trigo traz suavidade ao whisky. Naturalmente, em algum ponto da história, algum gênio resolveu adicionar um tantinho de […]

Ward Eight – Sufragistas

A variedade é o que dá tempero a vida. Pense, por exemplo, no brigadeiro. O docinho, aquele, com leite condensado, chocolate e manteiga. Hoje tem brigadeiro de tudo. Laranja, doce de leite, macadamia, nozes, nutella, pistache. Tem até brigadeiro de outros doces, tipo brigadeiro de pé de moleque e brigadeiro de beijinho, que é um negócio que eu nunca vou entender. E brigadeiro de brigadeiro mesmo, só que com uma miríade de chocolates. A quantidade de variações é tão grande que justifica – mais ou menos – a existência de um dispensário exclusivo da guloseima. As brigaderias. Mas antes de se tornar uma classe inteira, o brigadeiro era apenas um doce. Um doce com viés político. Ele fora criado por Heloísa Nabuco de Oliveira, uma senhora que apoiava a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes à Presidência da República de 1946. A criação tinha tudo a ver com o momento histórico – por conta da Segunda Guerra Mundial, produtos frescos ainda rareavam nas prateleiras dos mercados. E, por isso, o doce foi concebido com leite condensado – um substituto que começara a ser comercializado na década de 40. O brigadeiro era servido nas festas dos correligionários e cabos eleitorais de Gomes, […]

Cutty Sark – “Reentrada” – 2021

Em 15 de maio de 1963, a NASA lançava sua última missão tripulada do Projeto Mercury. O objetivo da missão era, principalmente, avaliar os efeitos no corpo humano de uma estadia mais prolongada no espaço, bem como realizar alguns experimentos. A missão foi realizada pelo astronauta Gordon Cooper. Durante os vinte e um dias que ficou em órbita, Cooper fez coisas bem legais, tipo soltar um minisatélite no infinito, medir níveis de radiação no espaço e, bom, dormir. Ele foi a primeira pessoa a dormir em órbita. Gordon também foi agraciado com uma vista estonteante a partir de sua espaçonave. Ele fez diversas fotos, e conseguiu ver detalhes impressionantes de nosso planeta, como estradas, rios e pequenos povoados. Descreveu que conseguia até mesmo ver a fumaça saindo das chaminés das casas no Tibet – devido à atmosfera rarefeita – e julgar para que lado o vento soprava sobre a cordilheira. Mas nem tudo foi poesia durante a jornada de Cooper. Durante sua vigésima primeira volta ao redor da Terra, o inversor de energia da nave entrou em curto circuito e apagou todas as leituras de altitude e velocidade – algo que atrapalharia bastante o trabalho de retornar à salvo para […]

Logan Heritage Blend – Herança

Ah, por causa do Vinícius. Toda vez que menciono o nome deste blog a um interlocutor incauto, há sessenta e cinco por cento de chance dele mencionar o poetinha. Eu já contei. Durante uma época, até tomava nota. Este daí perguntou. Esse não. Eu costumava proferir o nome do blog e já engatilhar um sorrisinho de soslaio de antecipação à pergunta. Isso mesmo, a inspiração é o Vinícius de Moraes, sabe, eu adoro aquela frase, que o whisky é o melhor amigo do homem, é o cachorro engarrafado, que legal que você notou. Depois, ao abrir o Caledonia, outras indagações e afirmações se juntaram ao caderninho de recorrências. Você tem whisky japonês? Você tem aquele canadense do Mad Men? E aquela marca de Taiwan? Este daí é o do James Bond – e aponta pra uma garrafa de The Macallan. E eu sorrio, e respondo, já meio ensaiado, porque o negócio é tipo escovar os dentes ou dirigir até o trabalho. Você já engata o piloto automático e depois até fica assustado quando recobra a consciência voluntária. Mas, dessas perguntas e observações, há uma que eu sempre presto atenção. Meu pai bebia – ou bebe – esse daí. Meu pai […]

Dos Barris (ou um miniguia inútil sobre algo que você jamais fará)

Platelmintos e nematelmintos. Planárias são platelmintos e sem dimorfismo sexual, porque são hermafroditas. Eles fazem parte de uma das três classes no qual o filo dos platelmintos é dividido – os tubelários. O que é o contrário de ser dioico, tipo o schistosoma mansoni, que também é um platelminto, mas faz parte da classe dos trematódeos. Ou trematóides, ou tremátodos, não lembro direito. Tudo isso eu sei de cor. Por que, não faço a mais rasa ideia. Tenho também algumas outras habilidades curiosas. Tipo saber se uma mosca é macho ou fêmea vendo no microscópio – o que também é inútil, porque eu jamais vou reproduzir moscas em cativeiro. Ao menos, não voluntariamente. Além de que, mesmo se eu quisesse, eu só conseguiria verificar o dimorfismo sexual da mosca no microscópio se ela já estivesse morta – e mortos não se reproduzem, exceto na trilogia Crepúsculo. Sei também tocar uma frase da marcha fúnebre de Chopin no piano mesmo nunca tendo tocado nada. E que gatos não sentem o sabor doce, e que aquele grampo preto com duas asinhas que você usa no escritório se chama grampomol. Por que eu sei de tudo isso, não faço a menor ideia. Ao […]

World Whisky Day 2021 – Mais um dia para degustar.

É, eu sei. A inevitabilidade do assunto deste post pode parecer até mesmo uma provocação. Afinal, hoje é o dia das mães. Este post deveria, certamente, falar sobre isso. Todo mundo espera isso. Minha mãe, que provavelmente lerá esta matéria em algumas horas, espera isso, e ficará bem decepcionada com minhas escolhas – tanto editoriais quanto de vida. Minha querida esposa, a Cã, que aguarda um presente, também. De certa forma, escrever este post hoje é um álibi. Exceto porque bem, acabo de me delatar. Acontece que esta matéria não é sobre o dia das mães. É sobre o dia do whisky. O dia mundial do whisky – World Whisky Day. E se você ainda subestima a importância dessa bebida, saiba que mãe tem só um dia por ano. Whisky tem dois – World Whisky Day e International Whisky Day. Mas, enfim, falemos do primeiro, que acontece todo terceiro sábado do mês de maio. O World Whisky Day foi criado em 2012 por Blair Bowman, um rapaz de apenas vinte e três anos de idade. A ideia de Blair era simples: criar um dia para que as pessoas pudessem se encontrar, comemorar e descobrir mais sobre a bebida nacional da […]

Macallan Triple Cask 18 – Memórias

“O painel de recuperação de documentos contém alguns arquivos não salvos. Você deseja ver estes arquivos da próxima vez que iniciar o Word?“. Sem nem um átimo de reflexão, clico em “sim”. Sempre clico em “sim”. Não faço a menor ideia de quais documentos não foram salvos. Minha lista de documentos em recuperação no Word são, de certa forma, como a vida. Tudo aquilo que não terminei ou errei se acumula. Vitórias e conclusões simplesmente desaparecem ou se perdem. Na verdade, é um pouco pior. Ver os arquivos perdidos da próxima vez que iniciar o Word é mais como guardar memórias que jamais serão resgatadas. Pequenas e grandes frações de coisas, acumuladas e nunca revisitadas. Nunca revisitadas por estarem em dois extremos: ou são muito triviais, ou demasiado especiais. Dentro do primeiro grupo está o canhoto da passagem aérea daquela viagem que você fez há dez anos, o crachá daquela feira incrível e o mapa daquele museu. Coisinhas miúdas que você jura que um dia sentará com tudo no colo para ser tomado por uma alegre nostalgia. Na segunda categoria está tudo aquilo que você conhece, gosta demais, e não consegue imaginar a impossibilidade de ver ou provar novamente, ainda […]