Quatro Coquetéis de Whisky para o Verão

Você, querido leitor, deve estar ansioso para o verão. Quase todo mundo está. Mas eu não. Peço perdão por emitir aqui uma nota dissonante, mas detesto o calor. E, consequentemente, nosso escaldante verão tropical. É que são seis e meia da manhã de um sábado. Acordei há trinta minutos, em uma poça de suor, depois de passar metade da noite virando o travesseiro, em busca do lado mais fresco. Eu não percebi quando aconteceu, mas imagino que em algum momento no meio da madrugada o ar-condicionado parou de funcionar. E inexplicavelmente, como num processo de auto-imolação, meu quarto chegou à temperatura do sétimo círculo do inferno. No frio, temos escolha. É só colocar casaco, cobertor. Ou ligar um aquecedor. O frio traz oportunidades talvez até românticas. Como acender uma lareira – se você tiver uma, que não é meu caso. O calor não. O calor é desagradavelmente incontornável. No calor, mesmo com todo ar condicionado do mundo, a chance de você grudar na mobília ou no banco do carro é de cem por cento. E tem a parte do whisky. Beber whisky é sempre uma delícia, mas é bem melhor no frio. O que, claro, não significa que haja certos […]

Dalmore Cigar Malt Reserve – Forma e Função

Esta matéria foi originalmente escrita para o website charutando.com.br . Porém, com o lançamento oficial do Dalmore Cigar Malt Reserve no Brasil, reproduzimos aqui o conteúdo. Ferdinand Porsche uma vez disse “Se analisarmos a função de um objeto, seu formato geralmente se tornará óbvio”. Em outras palavras, a concepção, o desenho de certo objeto, deve ser escrava de seu propósito. Ferdinand Porsche realmente entendia muito sobre o design de automóveis, mas, provavelmente, nunca viu um talher de peixe na vida. Vou começar pelo garfo. O garfo de peixe é simplesmente um garfo comum, sensivelmente menor, mais gordo e com um dente a menos. E não há nada de especial nele além disso. Nada em seu projeto torna a tarefa de levar o animal marinho à boca mais fácil. Por essa razão, o garfo de peixe simplesmente não deveria existir. Mas o pior não é ele. O pior mesmo é a faca de peixe. A faca de peixe é um dos objetos da cutelaria que mais me intriga. Porque, para falar a verdade, ela não é boa para nada. Mas ela é especialmente ruim para se usar no peixe. Aquela reentrância – cujo propósito deveria ser auxiliar na separação das espinhas […]

Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal

Sol alto no limpo céu de verão de 1809. Uma multidão tão vasta quanto eclética se reunia sobre a grama de Newmarket Heath. Havia homens, mulheres e crianças de tão distintas classes sociais que aquele mais parecia um experimento babélico da estratificação social inglesa do século dezenove. Fazendeiros locais dividiam espaço com fidalgos e burgueses. Em comum, semblantes que ora demonstravam curiosidade, ora antecipação. Do meio do burburinho – tão comum nestas grandes aglomerações – se podia distinguir uma frase “mil milhas em mil horas, por mil guineas“. Aquela era a aposta de um homem e a razão de tamanha reunião. Seis semanas antes, o Capitão Robert Barclay havia apostado contra seu conhecido, James Wedderburn-Webster, que ele conseguiria correr mil milhas em mil horas por mil guineas. Um desafio que, mesmo para os padrões atuais, seria um tanto arrojado. Não apenas fisicamente, ainda que correr vinte e quatro milhas por dia, ao longo de seis semanas, já esteja no limiar do impossível. Mas financeiramente também. Mil guineas, atualmente, corresponderiam a aproximadamente quatro milhões de libras – ou vinte e quatro milhões de reais. Aquele realmente não era um desafio para um homem qualquer. Mas o Capitão Barclay estava longe de […]

Presentes para quem ama whisky – 2019

Estamos quase lá no Natal. Época de reencontrar todo mundo que você evitou o ano inteiro. De fazer aquela terrível retrospectiva do ano, e planejar o futuro, só para fazer uma nova retrospectiva desastrosa no ano seguinte. De descobrir que todo mundo da sua família detesta uva passa, mas, que por alguma razão que desafia a lógica, sempre tem uva passa na comida. O Natal é a época de suar. Suar deitado, suar de pé. Suar parado e suar andando. Ligar o ar-condicionado do carro e mesmo assim ficar com as costas suadas, porque estão em contato com o banco. Porque nosso natal tropical acontece no comecinho do verão, e aquela tradicional decoração de neve é tão irritante quanto brega. E, mais do que qualquer dessas coisas, Natal é época de presentes. Para aquela sua amiga que já tem tudo, aquele seu conhecido do escritório que é a pessoa mais desinteressante do mundo e você acha que ele devia ganhar meias, e também para seu amiguinho que adora whisky. E é aí que eu entro. Aí vai uma lista de quatro whiskies para aquele seu amigo antenado nos últimos lançamentos. E para sua amiga que tem tudo também, porque whisky […]

Bourbon Rickey – O Avô do Highball

Recentemente fui ver o filme Joker no cinema. Não vou entrar aqui no mérito do filme e dizer tudo aquilo que você já sabe, que o roteiro não está aos pés da atuação de Phoenix; e que essa mania de americano de explicar as coisas demais acaba tirando todo o mistério sobre um personagem que encapsula tudo que é caótico. Não vou porque você já deve ter visto o filme ou lido isso, então não vou me repetir. Mas vou contar a história de um senhor que eu conheço, que foi no cinema sem saber que o filme era sobre o Joker do Batman. E aí, ele ficou lá na cadeira, por duas horas, assistindo a película sobre um palhaço que só se ferra. E longe de mim dar qualquer spoiler, mas essa é uma enorme ironia, ainda mais por se tratar de Joker. Porque o filme meio que subverte a lógica do cinema – ele só faz sentido porque você sabe o final. Você sabe que o Arthur Fleck vai virar o Joker, e tem uma curiosidade meio mórbida em saber como. O filme me fez lembrar também de um aforismo, geralmente atribuído a Winston Churchill. “A história é […]

Glenlivet Code – Spoiler

Cã para mim, na farmácia. Você não vai comprar os Cotonetes? Claro que vou, olha aqui. Mas isso não são Cotonetes. Olhei intrigado, talvez por não ter notado o cê maiúsculo próprio da marca na frase falada. Não são Cotonetes, são hastes flexíveis genéricas, será que são tão boas quanto? Expirei de insatisfação. Olha, são palitinhos com algodão na ponta, acho que meu ouvido não é muito discriminatório em relação a marca das coisas que eu enfio nele. Pode parecer uma discussão boba, mas não é. A marca de um produto influencia diretamente em como o percebemos. Recentemente a Nielsen, empresa especializada em estudar o comportamento de consumidores, fez uma descoberta interessantíssima. Seis em aproximadamente dez consumidores preferem comprar novos produtos de marcas familiares, simplesmente porque inspiram confiança. Faz sentido – na maioria das vezes, nós, humanos, buscamos segurança. Segurança essa, representada por algo que já nos é familiar. Nós já sabemos o que esperar. Mas não são apenas marcas. Quando conhecemos algo, criamos um conceito ao redor daquilo. Conceito que usamos de base de comparação para outras coisas da mesma natureza. Antes de experimentarmos o novo, acessamos essa biblioteca de conceitos e criamos um, bem, pré-conceito sobre aquilo. Por […]

Kilchoman Port Cask Matured (2018)

Uma vez, contei a vocês como me apaixonei à segunda vista pela incrível Bowmore. O que não contei é que, na mesma viagem, me desiludi com uma destilaria que antes nutria altas expectativas. A Kilchoman – na data de minha viagem, a menor, mais jovem e mais promissora destilaria da ilha de Islay, famosa por seus whiskies enfumaçados. Não que tenha detestado o lugar. Longe disso. Considerando seu tamanho e juventude, a Kilchoman se saía muito bem. Mas a comparação, talvez injusta de certo ponto de vista, com algumas de suas vizinhas, como Bruichladdich e Bowmore, à deixava em desvantagem. Não havia nada de errado com os maltes da Kilchoman. Mas, minha impressão, é que não havia nada de extraordinário também. Porém, foi apenas bons dois anos depois, em outra viagem e do outro lado do Oceano Atlântico, que minha impressão se dissipou. Durante uma visita ao incrível Flatiron Room de Nova Iorque, pude provar o Kilchoman Port Cask Matured – single malt da destilaria com 50% de graduação alcoólica, e finalizado em barris de vinho do porto. E, como vocês sabem, tenho uma certa obsessão por whiskies e vinhos do porto. O Kilchoman Port Cask Matured 2018 é o […]

De onde vem o sabor defumado do whisky

Tenho umas memórias engraçadas de quando era criança. Como certa vez, que disse pro meu pai que queria andar de trem, e ele me levou num vagão da antiga FEPASA lotado no horário do rush. Nunca mais pedi pra andar de trem na vida. Mas hoje, estranhamente, adoro. Teve outra vez que disse que queria comer peixe. Aí ele aproveitou a oportunidade, e me levou num restaurante bem chique, daqueles que demoram duas horas. E aquilo poderia ter sido outra experiência traumática – ou talvez simplesmente fadada ao oblívio – não fosse o prato que, sem querer, escolhi. Um gratinado de hadoque defumado. Tenho que confessar aqui que não foi pelo hadoque. Foi pelo gratinado. Na lógica do meu eu de dez anos, comida boa era comida gorda. E seria difícil ganhar de um gratinado com creme de leite e três queijos. Mas, no final do dia, não fora o queijo que me encantara. Mas o peixe. Havia lá um sabor que eu jamais sentira – ou atentara – e que me apaixonei. Meu pai me perguntou se havia gostado, o que, obviamente, era uma pergunta retórica quase, porque quando ele me perguntou, já estava quase lambendo o fundo do […]

Johnnie Walker A Song of Ice and Fire

Foram oito anos. Oito anos de conspirações, assassinatos, incesto, dragões, garrafinhas de água e café roubando a cena, gente que não sabia de nada, e gente que bebia e sabia das coisas. Setenta e três episódios de expectativa e teorias malucas. Mais de sessenta horas de antecipação para descobrir quem sentaria na cadeira mais desconfortável do universo. Eu nem preciso dizer do que estou falando. Você já deduziu – Game of Thrones. E – pule este parágrafo se você não quiser um spoiler – quando finalmente descobrimos, veio a decepção. Eu sei que nas temporadas anteriores a Daenarys lentamente flertava com a loucura. Mas ficar mais doida que a Caipora e transformar King’s Landing em um enorme churrasco não é exatamente uma sutil descensão à insanidade. E nem vou falar do fato – completamente ignorado e pouco aproveitado – de seu laço de sangue com Jon. Ou a irrelevante relevância do cavalo branco da Arya. Mas, apesar do desastroso final, a série, como um todo, foi muito boa. E inspirou uma miríade de objetos. Potes de biscoito, bonecos temáticos, jogos de cartas e muito mais. Mas, provavelmente, a parceria com Game of Thrones mais bem sucedida foi com a Diageo […]

Entrevista com Malcolm Borwick – Embaixador mundial de Royal Salute

Seis graus de separação. Segundo uma teoria criada pelo escritor Frigyes Karinthy em 1929, qualquer pessoa no planeta poderá se conectar com outra por meio de uma corrente de, no máximo, cinco intermediários. Por exemplo, o maluco do Kim Jong-un . Eu provavelmente tenho um amigo, que conhece uma pessoa, que tem um conhecido, que tem relação com algum doido que é amigo do Kim. Quando fui apresentado para essa teoria, desconfiei. São apenas cinco pessoas, no máximo, que igualmente me separam de figuras como o Dalai Lama, Ozzy Osbourne e aquele chef arabe maluco do salzinho? E mais surreal ainda, com apenas cinco pessoas, há um contato entre eu – um Cão apaixonado por whiskies – e a realeza britânica, como o Príncipe Harry? Bem, a última indagação do parágrafo acima foi respondida com uma clareza cristalina nesta quinta-fera, dia 09 de setembro. Por conta do lançamento do Royal Salute 21 Snow Polo Edition no Brasil, fui convidado pela Royal Salute para uma entrevista exclusiva com Malcolm Borwick. Malcolm é um famoso jogador de pólo equestre, embaixador mundial da marca e amigo pessoal do príncipe Harry. Então, aí está – não estou separado por cinco contatos. Mas por apenas […]