Macallan Double Cask 12 Anos – Genética

A genética é uma coisa linda. É incrível que, apesar de parecer tão intangível, seja ela a responsável por quase tudo que fazemos. Como reagimos a estímulos, alguns de nossos gostos, nossas fobias naturais e nossa compleição física. Tudo isso, de certa forma, é influenciado pela genética. Veja o exemplo de meu querido filho, o Cãozinho. O Cãozinho é, fisicamente, bem parecido comigo. Mas o mais surpreendente mesmo são as semelhanças imateriais. Ele tem uma aptidão natural para o desastre. Algo que só pode ser explicado pela carga cromossômica que lhe transferi. Ele tropeça no próprio pé e derruba coisas que segurava do nada. Ele também é um voraz devorador de absolutamente qualquer coisa – onivoridade compartilhada com o pai glutão. Além disso, não é a criança mais atenta que eu conheço. Toda vez que o vejo parado, mirando fixo para um horizonte imaginário, sei exatamente o que está se passando por sua cabeça. Tudo. Tudo menos o que está à sua volta. E, num repente, ele – digo, nós – voltamos à realidade com aquele semblante meio bobo, como se tivéssemos sido teleportados para a realidade. Somos parecidos demais para não ser isso. Eu só sou trinta e dois anos […]

Caledonia Whisky & Co – Abrimos um Bar!

Quando, há mais de cinco anos, começamos com o Cão Engarrafado, não sabíamos direito para onde iríamos. Sabíamos, por exemplo, que provaríamos muitos whiskies. Suspeitávamos que nossa paixão por drinks e cervejas também encontraria uma forma de participar deste espaço virtual. Mas jamais pensamos que chegaríamos ao ponto de, por exemplo, julgar um campeonato de coquetelaria, ou viajar para o outro lado do mundo apenas para provar, em primeira língua, dois novos e maravilhosos whiskies de certa marca de luxo. Alguns caminhos pareciam naturais. Incorporar receitas e abordar os universos tangentes àquele do whisky, por exemplo. Outros exigiram uma certa apneia. Desenvolver cursos e degustações, por exemplo, e sair do ambiente virtual para o palpável. Mas, de todos estes, de longe, o que mais exigiu fôlego, temeridade e quiçá uma boa quantidade de imprudência é este que vos apresento. Um bar totalmente voltado para a cultura do whisky em São Paulo. O Caledonia Whisky & Co. Se pudesse resumir, de uma forma bem simples, sobre a essência do Caledônia, seria esta: Ele é o Cão Engarrafado materializado. É um bar em que o vedete é o whisky – escocês, japonês, americano, irlandês ou de qualquer parte do mundo. Mas que […]

Patsy Cocktail – Jack Daniel’s Tennessee Calling

Já contei isso por aqui, mas vou contar novamente. Quando era criança, me perguntavam constantemente o que eu queria ser quando crescer. Por uma efêmera fase, queria ser astronauta, até descobrir que eles bebiam o próprio xixi (leia mais sobre isso aqui). Depois, pensei em ser caminhoneiro. Mais tarde, piloto de helicóptero. Quando atingi a pseudo maturidade da adolescência, resolvi que seria desenhista. E quando menos percebi, por pura e espontânea pressão paterna, virei advogado. Gosto de minha profissão, e não me arrependo. Mas, assumo, durante o exercício, poucas vezes vi espontaneamente acesa a chama da paixão pelo ofício. Longe de ser uma atividade natural, ser advogado foi um gosto adquirido. E por muito tempo permaneci assim, até, finalmente, descobrir a razão pela qual eu nasci. Ou não. Graças a um convite da Brown Forman. É que os malucos da Brown, responsáveis pela Jack Daniel’s, resolveram me convidar para ser jurado da semifinal de um concurso de coquetelaria. O Jack Daniel’s Tennessee Calling, que aconteceu no final de novembro de 2019, no Tulum Bar, em São Paulo. E, devo dizer, foi um dos trabalhos mais divertido das minha vida. Avaliar coquetéis, ouvir histórias e inspirações e discutir com meus pares […]

Tamnavulin Double Cask – Derradeiro

Ano novo. Uma das poucas festas que realmente aprecio. O otimismo exacerbado e a hipocrisia de fazer planos para um ano inteiro, mas mergulhar na inconsequência de uma noite. Minha imagem mental do ano novo sempre trazia fogos de artifício – normalmente refletidos em um mar de sorrateiras ondas – e um burburinho animado de pessoas de branco, tomando espumante. Mas aqui estou, no silêncio de meu quarto, na frente do computador, escrevendo. Não há fogos, nem champagne, nem barulho. Apenas um copo de single malt à meia luz e o tlec tlec produzido pelos meus dedos. Meu traje – no singular – neste momento não apenas seria inapropriado para participar de uma festa de ano novo como, provavelmente, seria impróprio para ir a qualquer lugar sem correr o risco de ser preso ou gerar um escândalo. E apesar disso tudo, sinto que estou justamente onde deveria. Dois mil e dezenove foi um ano agitado. Foram mais de quarenta e dois whiskies revistos, dezessete coquetéis apresentados e dez matérias sobre todo tipo de abobrinha relacionada a whisky. Mas meu trabalho não estaria completo por aqui sem um último post. A prova de um single malt de Speyside que corajosamente entrou […]

Quatro Coquetéis de Whisky para o Verão

Você, querido leitor, deve estar ansioso para o verão. Quase todo mundo está. Mas eu não. Peço perdão por emitir aqui uma nota dissonante, mas detesto o calor. E, consequentemente, nosso escaldante verão tropical. É que são seis e meia da manhã de um sábado. Acordei há trinta minutos, em uma poça de suor, depois de passar metade da noite virando o travesseiro, em busca do lado mais fresco. Eu não percebi quando aconteceu, mas imagino que em algum momento no meio da madrugada o ar-condicionado parou de funcionar. E inexplicavelmente, como num processo de auto-imolação, meu quarto chegou à temperatura do sétimo círculo do inferno. No frio, temos escolha. É só colocar casaco, cobertor. Ou ligar um aquecedor. O frio traz oportunidades talvez até românticas. Como acender uma lareira – se você tiver uma, que não é meu caso. O calor não. O calor é desagradavelmente incontornável. No calor, mesmo com todo ar condicionado do mundo, a chance de você grudar na mobília ou no banco do carro é de cem por cento. E tem a parte do whisky. Beber whisky é sempre uma delícia, mas é bem melhor no frio. O que, claro, não significa que haja certos […]

Dalmore Cigar Malt Reserve – Forma e Função

Esta matéria foi originalmente escrita para o website charutando.com.br . Porém, com o lançamento oficial do Dalmore Cigar Malt Reserve no Brasil, reproduzimos aqui o conteúdo. Ferdinand Porsche uma vez disse “Se analisarmos a função de um objeto, seu formato geralmente se tornará óbvio”. Em outras palavras, a concepção, o desenho de certo objeto, deve ser escrava de seu propósito. Ferdinand Porsche realmente entendia muito sobre o design de automóveis, mas, provavelmente, nunca viu um talher de peixe na vida. Vou começar pelo garfo. O garfo de peixe é simplesmente um garfo comum, sensivelmente menor, mais gordo e com um dente a menos. E não há nada de especial nele além disso. Nada em seu projeto torna a tarefa de levar o animal marinho à boca mais fácil. Por essa razão, o garfo de peixe simplesmente não deveria existir. Mas o pior não é ele. O pior mesmo é a faca de peixe. A faca de peixe é um dos objetos da cutelaria que mais me intriga. Porque, para falar a verdade, ela não é boa para nada. Mas ela é especialmente ruim para se usar no peixe. Aquela reentrância – cujo propósito deveria ser auxiliar na separação das espinhas […]

Blue Label Ghost & Rare Glenury Royal

Sol alto no limpo céu de verão de 1809. Uma multidão tão vasta quanto eclética se reunia sobre a grama de Newmarket Heath. Havia homens, mulheres e crianças de tão distintas classes sociais que aquele mais parecia um experimento babélico da estratificação social inglesa do século dezenove. Fazendeiros locais dividiam espaço com fidalgos e burgueses. Em comum, semblantes que ora demonstravam curiosidade, ora antecipação. Do meio do burburinho – tão comum nestas grandes aglomerações – se podia distinguir uma frase “mil milhas em mil horas, por mil guineas“. Aquela era a aposta de um homem e a razão de tamanha reunião. Seis semanas antes, o Capitão Robert Barclay havia apostado contra seu conhecido, James Wedderburn-Webster, que ele conseguiria correr mil milhas em mil horas por mil guineas. Um desafio que, mesmo para os padrões atuais, seria um tanto arrojado. Não apenas fisicamente, ainda que correr vinte e quatro milhas por dia, ao longo de seis semanas, já esteja no limiar do impossível. Mas financeiramente também. Mil guineas, atualmente, corresponderiam a aproximadamente quatro milhões de libras – ou vinte e quatro milhões de reais. Aquele realmente não era um desafio para um homem qualquer. Mas o Capitão Barclay estava longe de […]

Presentes para quem ama whisky – 2019

Estamos quase lá no Natal. Época de reencontrar todo mundo que você evitou o ano inteiro. De fazer aquela terrível retrospectiva do ano, e planejar o futuro, só para fazer uma nova retrospectiva desastrosa no ano seguinte. De descobrir que todo mundo da sua família detesta uva passa, mas, que por alguma razão que desafia a lógica, sempre tem uva passa na comida. O Natal é a época de suar. Suar deitado, suar de pé. Suar parado e suar andando. Ligar o ar-condicionado do carro e mesmo assim ficar com as costas suadas, porque estão em contato com o banco. Porque nosso natal tropical acontece no comecinho do verão, e aquela tradicional decoração de neve é tão irritante quanto brega. E, mais do que qualquer dessas coisas, Natal é época de presentes. Para aquela sua amiga que já tem tudo, aquele seu conhecido do escritório que é a pessoa mais desinteressante do mundo e você acha que ele devia ganhar meias, e também para seu amiguinho que adora whisky. E é aí que eu entro. Aí vai uma lista de quatro whiskies para aquele seu amigo antenado nos últimos lançamentos. E para sua amiga que tem tudo também, porque whisky […]

Bourbon Rickey – O Avô do Highball

Recentemente fui ver o filme Joker no cinema. Não vou entrar aqui no mérito do filme e dizer tudo aquilo que você já sabe, que o roteiro não está aos pés da atuação de Phoenix; e que essa mania de americano de explicar as coisas demais acaba tirando todo o mistério sobre um personagem que encapsula tudo que é caótico. Não vou porque você já deve ter visto o filme ou lido isso, então não vou me repetir. Mas vou contar a história de um senhor que eu conheço, que foi no cinema sem saber que o filme era sobre o Joker do Batman. E aí, ele ficou lá na cadeira, por duas horas, assistindo a película sobre um palhaço que só se ferra. E longe de mim dar qualquer spoiler, mas essa é uma enorme ironia, ainda mais por se tratar de Joker. Porque o filme meio que subverte a lógica do cinema – ele só faz sentido porque você sabe o final. Você sabe que o Arthur Fleck vai virar o Joker, e tem uma curiosidade meio mórbida em saber como. O filme me fez lembrar também de um aforismo, geralmente atribuído a Winston Churchill. “A história é […]

Glenlivet Code – Spoiler

Cã para mim, na farmácia. Você não vai comprar os Cotonetes? Claro que vou, olha aqui. Mas isso não são Cotonetes. Olhei intrigado, talvez por não ter notado o cê maiúsculo próprio da marca na frase falada. Não são Cotonetes, são hastes flexíveis genéricas, será que são tão boas quanto? Expirei de insatisfação. Olha, são palitinhos com algodão na ponta, acho que meu ouvido não é muito discriminatório em relação a marca das coisas que eu enfio nele. Pode parecer uma discussão boba, mas não é. A marca de um produto influencia diretamente em como o percebemos. Recentemente a Nielsen, empresa especializada em estudar o comportamento de consumidores, fez uma descoberta interessantíssima. Seis em aproximadamente dez consumidores preferem comprar novos produtos de marcas familiares, simplesmente porque inspiram confiança. Faz sentido – na maioria das vezes, nós, humanos, buscamos segurança. Segurança essa, representada por algo que já nos é familiar. Nós já sabemos o que esperar. Mas não são apenas marcas. Quando conhecemos algo, criamos um conceito ao redor daquilo. Conceito que usamos de base de comparação para outras coisas da mesma natureza. Antes de experimentarmos o novo, acessamos essa biblioteca de conceitos e criamos um, bem, pré-conceito sobre aquilo. Por […]