Arran Lochranza Reserve – Cliché

Clichê. Um vício de linguagem. Uma expressão que, de tão usada, se esvaziou. Tornou-se comum, corriqueira, banal. Normalmente, fujo dela como o diabo foge da cruz ao escrever as matérias deste blog. Mas, dessa vez, vou deixar a caneta correr solta. É que Woody Allen disse que, às vezes, a melhor forma de explicar algo é por meio de um cliché. E é justamente isso que farei hoje. Porque tem muita água que passarinho não bebe bem cliché por aí. Esses, ordinários mesmo, com aquele sabor meio genérico. Caramelo, baunilha, malte. Agora, quase tão difícil quanto desviar do lugar comum, é chutar o balde e abraçá-lo. Mas agarrar com unhas e dentes, matar a cobra e mostrar o pau – claro, o mesmo usado para tirar a vida do proverbial réptil, e não outra coisa que você pode ter pensado. Enfim, fazer nas coxas é fácil. Difícil é fazer bem feito, e de olhos fechados. E é justamente isso que o Arran Lochranza Reserve, expressão que acaba de desembarcar no Brasil é. Um cliché. Mas um cliché extremamente bem feito. Desses, que dá vontade de entornar o caneco. Seja para beber andando nas nuvens, ou com atenção, é um whisky […]

Elijah Craig Small Batch – Drops

A História está eivada de mitos. De imprecisões, versões, suposições. E a história do bourbon whiskey não foge à regra. Frequentemente relacionada àquela era do oeste selvagem e dos heróicos cowboys que enfrentavam animais selvagens e indígenas hostis, o whiskey americano evoca tradição, personalidade e destemor. No entanto, a história real está bem longe do mito. E nem mesmo um homem de Deus – reverenciado por ser alegadamente o criador do bourbon whiskey – é exceção. Diz-se que Elijah Craig, um pastor batista, educador e exímio capitalista, fora o primeiro a destilar mosto de milho e armazená-lo em barris tostados, na Virgínia, numa região que mais tarde se tornaria o Kentucky. Muitos historiadores americanos, porém, discordam. Elijah teria primeiro produzido um embrião de bourbon em 1789. Mas haveria registros de destilação naquela região desde meados do século XVIII. A lenda de Elijah, porém, se tornou mais conhecida e prevaleceu, na cultura popular, sobre qualquer verdade. Provavelmente por conta da notoriedade do reverendo Craig. Mas, também, em grande parte, isto se deu por conta de um bourbon whiskey produzido pela destilaria Heaven Hill, do Kentucky. O Elijah Craig 12 Years Bourbon, e sua expressão mais jovem, o Elijah Craig Small Batch […]

Presentes de Dia dos Namorados para um Amante de Whiskies

Eu sei, é apenas mais uma convenção social. Apenas uma grande conspiração da industria e do comércio para coagi-lo a gastar mais dinheiro. Eu concordo com você, e eu sinto a sua dor. Não é porque estou aqui listando ideias de regalos para sua melhor metade, que sou conivente com esta data chantagista que é o dia dos namorados. O dia dos namorados realmente é desesperador. E fica pior. Os restaurantes ganham filas de espera de três horas. O trânsito trava. Todo mundo manda mensagens públicas nas redes sociais que me fazem ter vontade de vomitar um arco-íris. Tudo fica rosa, vermelho e pink. E, claro, o outro lado da moeda – a oportunidade concedida aos solteiros de exaltar ou reclamar da solteirice. Mas apesar de tudo isso, tudo isso mesmo, o Dia dos Namorados é uma data importante. Tudo bem que ela podia ser qualquer dia aleatório do ano. Ela é, porém, uma oportunidade dada a você, querido leitor ou leitora, de demonstrar como sua melhor metade é importante para você. De mostrar que você a entende e conhece. Aprecia seus gostos, compactua com suas paixões. Assim, se você tiver um par tão apaixonado por whisky quanto este Cão […]

Amistoso – Chivas Regal 18 vs Ballantine’s 17 anos

Avanti. Não, não a expressão em italiano. Mosler. SSC. Hennessey. Não, não o conhaque. Os carros. Se você não for um completo obcecado por automóveis, há uma bela chance de jamais ter ouvido falar de alguma – ou qualquer uma – dessas marcas. Mas não precisa ficar com vergonha. Elas são obscuras mesmo. Produzem carros de performance para um nicho de entusiastas e não são muito conhecidas do público leigo. O contrário, por exemplo, de Ferrari e Lamborghini. Ferrari e Lamborghini são tão conhecidas que qualquer pessoa, mesmo que jamais tenha pilotado qualquer um deles – meu caso – quando indagadas, demonstrarão preferência. É uma rivalidade clássica. Uma rivalidade, aliás, que vai muito além de gosto. A contenda entre Lamborghini e Ferrari, que se estende até os dias atuais, é histórica. Vou contar pra vocês. Na década de 1960, as Ferraris eram o máximo em automóveis esportivos de luxo. Tanto é que um tal de Ferruccio Lamborghini – um rico proprietário de uma mecânica de tratores – possuía uma. Mas Ferruccio não estava satisfeito. Seu vasto conhecimento em mecânica, adquirido durante a segunda guerra mundial e seu negócio de tratores, apontava que havia espaço para melhora naquelas incríveis máquinas. E […]

Chivas Regal Ultis – Drops

Sob o céu noturno desanuviado, do ducentésimo andar de um prédio de ferro e vidro, observava o trânsito. Dezenas de milhares de pares de luzes, formando enormes cordões iluminados. Alguns brancos. Outros, vermelhos, De lá de cima, até o caos do tráfego fica bonito. Deve ter a ver com esse silêncio contemplativo proporcionado pelo espesso vidro antirruído. Ou é isso, ou é a taça em minha mão. Meia dose do Chivas Ultis Aquela era a primeira vez que provava o whisky. E não poderia haver oportunidade mais perfeita. Estava no escritório da Chivas, em São Paulo, a convite da Difford’s Guide. E ainda que a coquetelaria fosse a estrela da noite, minha atenção se voltou quase que instintivamente àquele Ultis – provavelmente o mais importante recente lançamento da marca escocesa. O Chivas Regal Ultis é o primeiro blended malt da famosa marca escocesa. Em seu coração estão single malts de apenas cinco destilarias, pertencentes ao grupo Pernod-Ricard. Allt A’Bhaine, Braeval, Longmorn, Tormore e, claro, a magnífica Strathisla, lar espiritual da Chivas Regal. Por ser um blended malt, não há o emprego de whisky de grão. A utilização de apenas cinco maltes em sua composição é uma homenagem aos cinco master […]

Entrevista com Danny Dyer – Embaixador Mundial da Grant’s

Os smartphones foram, talvez, a melhor invenção dos últimos quinze anos. Não por serem aparelhos práticos e versáteis, que contém todo o conhecimento do mundo a, literalmente, o toque de nossos dedos. E nem por nos ajudarem a economizar preciosos minutos em um mundo cuja maior commodity é, justamente, tempo. Não, a função mais importante mesmo é disfarçar minha fobia social. O smarphone é um escudo. Um verdadeiro campo de força invisível. Ao descer os olhos e deslizar os polegares opositores sobre a tela preta, tudo é perdoado. Não há remorso no silêncio, mesmo no ambiente mais constrangedoramente social do mundo – o elevador. Com meu celular na mão, nunca mais precisei falar do tempo, do jogo de futebol que eu não vi ou qualquer outra aleatoriedade. E pode parecer um contra senso isso, especialmente vindo de alguém cujo trabalho é, essencialmente, comunicação. Mas não é. Tenho uma enorme dificuldade em conversar. Tenho medo dos silêncios constrangedores. E de parecer enfadonho. Ou animado demais. Isso, claro, sóbrio. Depois de umas duas doses, posso conversar sobre tudo – das especificações técnicas do colisor de hádrons ao último sucesso “juntos e shallow now“. Assim, quando recebi o convite da Interfood de realizar […]

Drops – Aberlour 15 Select Cask Reserve

Ah, a França, o país mais gourmet do mundo. Tão gourmet que a palavra gourmet é francesa. Só de queijos, são mais de mil. Mil tipos diferentes e oito categorias. E tem os vinhos. Por ano, são produzidas mais de 7 bilhões de garrafas de vinho no território francês. Isso sem contar os brandies, como o cognac e armagnac. Com tanto queijo e álcool, seria de se supor que a França jamais beberia uma gota de bebida importada. Porque, gente, quando dá pra fazer todo dia um queijo-e-vinho diferente e arrematar com um conhaquinho, quem iria pensar em algo vindo de além da fronteira? Mas a realidade é surpreendente. A França é um dos maiores consumidores de whisky do mundo. Per capita, aliás, é o consumo mais alto do mundo. 2,15 litros por ano por habitante. Pra você ter uma ideia de como isso é muito, o Brasil – mesmo comigo e com a cidade do Recife elevando a média – consome apenas 0,24 litros per capita da bebida. E naquele país, uma das marcas de single malt mais apreciadas é o Aberlour. Talvez seja por conta do perfil sensorial voltado para o mundo dos vinhos. Ou talvez por ser […]

(Ainda mais) quatro personagens que amam whisky

Este é um post sazonal sobre personagens que amam whisky. Para ler os demais posts, clique aqui para o primeiro, aqui para o segundo e aqui para o terceiro. Que o whisky é um catalisador de criatividade, ninguém duvida. O escritor William Faulkner, por exemplo, sempre mantinha uma garrafa ao alcance das mãos enquanto escrevia. Já Charles Bukowski, com todo seu ar hipster maldito, adorava boilermakers mesmo antes deles terem se tornado cool. Dalton Trumbo – roteirista responsável por filmes como Papillon, Arenas Sangrentas e Spartacus – também não dispensava um bom whisky escocês ao exercer sua criatividade. E Samuel Clemens, conhecido pelo pseudônimo de Mark Twain, sempre possuía um bom pretexto para consumir a melhor bebida do mundo: “Eu sempre tomo whisky escocês a noite para prevenir dor de dente. Eu nunca tive dor de dente, e vou lhe dizer mais, eu não pretendo ter também” Muitas vezes o whisky permanece do lado real da obra ficcional. No entanto, ocasionalmente, o whisky passa a fazer parte da história. Afinal, há uma pletora de personagens que, assim como nós, compartilham do amor pela melhor bebida do mundo. Assim queridos leitores, aí vai mais uma lista com quatro indivíduos da ficção […]

Entrevista com Alexandre Campos – Especialista e sócio da Single Malt Brasil.

Escrever o Cão Engarrafado, para mim, na maioria das vezes, é um prazer imensurável. Também, pudera. Sou um entusiasta do whisky, e apaixonado por ler e escrever. E a espinha dorsal do trabalho é justamente este – beber e teclar, algo que eu já faria mesmo se não tivesse o blog. Na maioria dos dias, a escrita segue desatada. Mas, muito raramente, não. Tem dias que eu mesmo não aguento o som da minha voz – quero dizer, o tlec tlec das teclas do meu computador. Além disso, eu sou um só, e a gente sabe que o tempero da vida é a diversidade. E o imprevisto também, nada como ser quase visto nu na frente da geladeira pela sua sogra, mas isso é outro papo, e estou a divagar. Assim, resolvi diversificar. Este é o primeiro de uma série especial de posts do Cão Engarrafado que eu não escrevi. É isso aí. São entrevistas com nomes importantes do mundo do whisky, seja no Brasil ou, quando possível, internacionalmente. A ideia é que o entrevistado diga o que pensa. Este Cão apenas transcreverá as palavras – o que, de certa forma, soa tentadoramente relaxante. E para estrear este espaço, o […]

Resiliência – Arran 18 anos

O rapper Will-I-Am uma vez disse que o mundo não precisa de mais uma opinião. Verdade. O mundo, na verdade, não precisa de mais um de uma porção de coisas. Brigaderia, paleteria mexicana, barbearia com cerveja. Escritório de advocacia, broker de bitcoin, partido político. Gente que reclama sem apresentar solução. Gente que reclama. Gente. Apesar disso, admiro quem envereda por alguns destes caminhos. É preciso mais do que coragem para tomar a iniciativa de abrir mais uma hamburgueria artesanal, por exemplo. É preciso certa inconsequência, uma resiliência que beira a teimosia, e – talvez acima de tudo – amor próprio e autoconfiança tão grandes que quase chegam ao delírio de vaidade. O mesmo acontece com whisky na Escócia. Em um país de aproximadamente oitenta mil quilômetros quadrados e que conta com mais de cem destilarias de whisky, é difícil imaginar que alguém pudesse ter o destemor para abrir mais uma. Mas foi justamente o que aconteceu em 1995. Naquele ano, Harold Currie (cuja história oportunamente será contada por aqui), ex-diretor da Chivas Regal, fundou a Arran Distillers próxima ao vilarejo de Lochranza, na ilha de Arran. Em 1998 a Arran lançou seu primeiro single malt. De lá para cá, o portfólio […]