Das Lacunas – Ballantine’s 17 anos

 

ballantines 17 - O Cão Engarrafado

Do que você gosta? Imagino que whisky seja uma resposta óbvia, já que está lendo este blog. Mas quais seus outros interesses? Muitas vezes por aqui já disse que cultura é sempre bom, cultura nunca é demais. Mas como todo ser humano, às vezes não sigo o que penso. Há assuntos que – talvez por preconceito, talvez por preguiça – definitivamente não me interessam.

Sou incapaz de falar sobre novelas. A última que assisti foi Rei do Gado. Não tenho a menor condição de conversar sobre moda feminina, e os dois ou três nomes famosos que memorizei de música sertaneja não prestam nem para seis minutos de conversa sobre o assunto. Ah, e futebol. Eu e um bidê temos conhecimento equiparável sobre futebol.

Aliás, também não sei muito sobre bidês.
Aliás, também não sei muito sobre bidês.

Já cinema, carros e whiskies (claro) é outra história. Aliás, whiskies não. Qualquer coisa que seja minimamente potável e que contenha alguma proporção de álcool. São assuntos que naturalmente me fascinam. Mas mesmo aí, mesmo nestes inebriantes (às vezes literalmente) assuntos, há lacunas. Lacunas que prometo a mim mesmo preencher o quanto antes, mas que, novamente por preguiça ou preconceito, não o faço.

E ter um blog sobre whisky não ajuda. Não ajuda porque com ele, é fácil ter um pretexto para focar na exceção. Falar de Glen Scotias, Springbanks, Port Ellens e Ledaigs. E esquecer daquilo que está muito mais próximo de nós. Aquilo que apesar de não ser necessariamente corriqueiro, é muito mais palpável. Então, resolvi que farei alguns textos sobre essas lacunas. Começando por uma das maiores. Um Ballantine’s.

Antes de tudo, devo desculpas aos leitores destas páginas. Porque em quase dois anos de Cão Engarrafado, esta é a primeira vez que um blend da marca é protagonista em uma prova. Para mitigar esta falha, então, decidi escolher a minha expressão favorita da linha. O Ballantine’s 17 anos.

Caso você esteja ficando com preguiça, aí vai uma informação interessante. Em 2011 houve certo furor no mundo do whisky. E no centro dele estava, justamente, o Ballantine’s 17 anos. É que ele foi escolhido naquele ano por Jim Murray como o melhor whisky do mundo, em sua 2011 Whisky Bible. Veja bem, melhor whisky do mundo. Não blend. O que significa que, para Jim Murray, naquele ano, o Ballantine’s 17 anos havia superado todos os single malts por ele provados.

A serenidade nos olhos de quem escolheu um blend como melhor whisky do mundo.
A serenidade nos olhos de quem escolheu um blend como melhor whisky do mundo.

E ainda que este Cão suspeite que Jim tenha exagerado um pouco, não há como negar que o Ballantine’s 17 anos é um blend impressionante. Até mesmo esta versão avaliada, com 40% de graduação alcoólica – diferente da provada por Jim, que contava com 43%.

Produzido pela Pernod Ricard – os mesmos detentores da Chivas Regal – seus single malts base são Scapa, Glenburgie, Miltonduff e Glentauchers. Ou não. Ou não porque essas coisas mudam com o tempo, e sinceramente, é impossível identificar sua composição com base somente no paladar.

O Ballantine’s 17 anos é bastante complexo para um blend de sua idade. Há um certo dulçor inicial, que se torna progressivamente frutado, para depois terminar com um pouco de fumaça e vinho fortificado. Mas o que mais impressiona não é sua complexidade, mas sim a completa ausência de aspereza do whisky de grão utilizado.

Isso, na verdade, é um fenômeno interessante para blended whiskies com idade semelhante à dele. Ainda que – segundo a Scottish Whisky Association – single malts demorem mais tempo para atingir a maturidade do que grain whiskies, estes últimos se beneficiam muito de um tempo médio de maturação, que lhes tira a aspereza e empresta suavidade. Isso fica ainda mais claro em seu primo, o Chivas 18 anos.

Durante toda sua existência, a Ballantine’s teve apenas cinco diferentes master blenders, responsáveis por elaborar seus whiskies, bem como zelar por sua qualidade e consistência. O atual é Sandy Hysop, um homem com mais de trinta anos de experiência no ramo. Em uma entrevista recente para a whisky wire, Sandy descreveu o Ballantine’s 17 anos ao descrever uma visita que fez à Craigduff:

Tomei uma dose de um novo lote de Ballantine’s 17. Excelente e sempre consistente, com sua conhecida delicadeza, equilíbrio, dulçor, sabor de frutas e um fundo de fumaça. Sou certamente um homem privilegiado por poder justificar estas experiências como trabalho.”

Trabalho dificil, hein, Sandy!
Trabalho dificil, hein, Sandy!

Uma garrafa do Ballantine’s 17 anos custa, em média 300 reais. Considerando sua idade, e, comparando-o com os demais blended whiskies à venda no Brasil, ele se apresenta como um ótimo custo-benefício. Especialmente se seu gosto pender para os whiskies mais adocicados e leves, como o Chivas 18 anos.

Assim, meus caros leitores, deixem de lado a preguiça e quiçá o preconceito. Porque eles são grandes inimigos do conhecimento. Sirva-se de uma dose de Ballantine’s 17 anos e contemplem: às vezes, as grandes descobertas estão apenas a alguns metros de nossos dedos.

BALLANTINE’S 17 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida (17 anos)

Marca: Ballantine’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, mel, especiarias e um pouco de fumaça.

Sabor: Adocicado no início e progressivamente  frutado, final médio, com um pouco de fumaça e vinho fortificado.

Com Água: Água torna o whisky mais adocicado e ressalta a fumaça.

 Preço: em torno de R$ 300,00 (trezentos reais)

 

19 thoughts on “Das Lacunas – Ballantine’s 17 anos

  1. Como vai, Maurício?
    Confesso que tenho um certo preconceito com o Ballantine’s, mas ele, obviamente, é muito famoso e com certeza, esta expressão representa bem a marca.
    Achei interessante o nível de complexidade dele.

    Grande Abraço!

  2. Acabei de desfrutar da enésima garrafa de Ballantines 12, que não tem a suavidade do 17 mas mantém um custo/benefício insuperável: 1 litro por 130, contra 750 ml por 300.

    A propósito do trecho “há alguns metros de nossos dedos”:
    “• Quando não for possível a conjugação do verbo “haver” nem no sentido de “existir”, nem de “tempo decorrido”, então, emprega-se “a”.

    Exemplos: Daqui a pouco você poderá ir embora.
    Estamos a dez minutos de onde você está.”

    Sei que você já sabia, porque escreveu corretamente inúmeras vezes, só estou aproveitando para esclarecer outros leitores que venham a ler o comentário.

    Grande abraço

  3. By the way

    Acabei de exterminar mais um litro de Ballantines 12 e fui à cata de outro. Porém deparei com uma oferta tentadora de Chivas 12, R$130, e cedi às origens imigrantes (custo/benefício acima de tudo!). Mau negócio!
    Diferentemente da doçura e suavidade à qual me acostumara, uma bebida grosseira e rascante, com final curto e desagradável. Examinei detalhadamente o litro e a embalagem, a ver se não era um paraguaio. Em vão, pareceu-me tudo nos conformes, inclusive com data de engarrafamento recente: 16/02/2016.
    Pena.
    O jeito é beber logo para voltar a um whisky mais interessante.

    Abraço

  4. Bom dia, me deparei como uma garrafa da versão 30 anos do Ballantine’s, 1300 reias? Vale o investimento? Forte abraço.

    1. Oseias, essa é uma pergunta que não posso responder, porque senão tomaria a decisão por você. Mas vou te descrever o whisky: ele tem corpo médio, é adocicado e frutado. O final é longo, amadeirado e um pouco queimado (lembra carvão, é um defumado pouco medicinal). E aí, é o que esperava? abs

      1. Boa noite amigo Cão. Acabou que o Ballantine’s estava em falta.
        Acabei pegando outras coisas, gostaria de saber sua opinião, comprei todos “às cegas”:
        Macallan Sienna
        Glenmorangie Signet
        The Glenlivet Archive 21 years old
        The Balvenie Doublewood 17 years old

        Por favor, seja sincero, o que posso esperar deles?

        Abraços.

        1. Olha, só te digo o que acho deles se você me convidar para a degustação tá? hahahaha!

          Os quatro são excelentes. Mas isso tudo é artilharia grossa. Meu preferido daí é, provavelmente, o Signet. Mas nesse nivel de whisky, é quase futilidade dizer que algo é melhor que outro! Parabéns pela compra!!

    1. Ronnie, MEU GOSTO ABSOLUTAMENTE PESSOAL, que não tem nada a ver com a qualidade do whisky (os dois tem qualidade excelente e igual), nem custo/benefício, mas apenas e tão somente o sabor. Chivas 18. Mas isso depende só da minha língua, mais nada. O Chivas não é superior ao Balla. São equivalentes.

      1. valew o 18 eu adquiri a pouco tempo e achei fantástico…baseado no que vç e tantos outros apreciadores…chego a conclusão que que o mais brevemente tenho que provar do ballantines 17 se ele é do nível do chivas 18…é tiro certo rs vakew um abraço

  5. Salve, Cao!

    Recentemente fui apresentado a uma garrafa de Ballantine ´s GOLD SEAL SPECIAL RESERVE 12 yr. Tanto a garrafa quanto a caixa parecem de design antigo, nao parece ser um produto atual. Pesquisando onde a internet me levou, nao cheguei a certeza alguma. Da-se a entender que esse seria um blend de malts. 40 malts, segundo li, sem grain. Estamos falando do mesmo 12yr clássico atual?? Achei uma info de que esse GOLD SEAL teria sido lançado em 1988 e o 12yr original seria de decada de 60… Cao, ajude este jovem estudante das artes etílicas a encontrar o caminho da verdade!!! :-)))) Grande abraço, parabéns pelo trabalho

    1. Opa, fala Diego! A garrafa que você menciona é uma octogonal, com rótulo preto/azul marinho, não é?

      Se sim, até onde sei – e talvez possa estar perdendo algo – é um blended scotch normal (não malt), com idade de 12 anos – assim como nosso Ballantines 12 atual. Certamente haverá alguma diferença sensorial, por conta da idade ou da composição, que costuma mudar de tempos em tempos de acordo com disponibilidade de maltes e grãos. Se a ideia for provar, eu compraria um Ballantine’s 12 atual para comparar!

    1. Vish, pergunta complicada essa, hein Kamar? Que Single Malt?

      Vou te dar uma resposta genérica – acho importante avaliar o whisky pela sua complexidade e proposta. Não por sua classificação. A história de que single malts são superiores a blends não é verdadeira. Existem infinitos single malts medíocres, e mais do que infinitos blends excelentes.

      Outra coisa: a idade também não é indicativo de complexidade ou sofisticação. Os melhores whiskies defumados de Islay que provei são jovens (como o Laphroaig 10 anos, Ardbeg 10, Bowmore 15 etc.). A turfa decai com a idade, e por isso, dentro de sua experiencia sensorial, os mais jovens são mais intensos.

      Vou reformular a pergunta, e me corrija se eu tiver errado alguma coisa, porque é sábado a noite (rs): você compraria um Ballantine’s 17 pelo preço de algum single malt 12 anos? Resposta: absolutamente sim.

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