Commodore – O lado doce da vida

Ah, o excesso. Como diria Oscar Wilde, a moderação é algo fatal. Nada tem tanto sucesso quanto o excesso. E ainda que a frase de Wilde deva ser vista com reticências, e não como uma carta branca para cometer todo tipo de atrocidade, tenho que concordar com ele. O excesso melhora bastante tudo aquilo que já é naturalmente prazeroso. Se você não concorda, deixe-me fartamente exemplificar, com abundâncias corriqueiras.

Dormir até as duas da tarde no domingo. Comer meio bolo de fubá numa sentada. Assistir oito episódios seguidos da sua série favorita na companhia de um pote de sorvete ou pipoca. O clássico quarto – ou quinto – pedaço de pizza. Só mais uma cervejinha de saideira e a gente vai embora. O oitavo cafezinho do dia, depois do jantar. Mas é claro que eu quero a batata e a coca-cola grande com o duplo quarteirão, que pergunta mais óbvia. E coloca aí um chorinho na caipirinha, fazendo favor.

Essa almôndega/polpettone S2

É engraçado como somos atraídos pelo excesso, mas o renegamos. Entendo que em muitas situações, o exagero pode ser extremamente danoso, e nada mais natural do que buscar o equilíbrio. Mas em outras, às vezes, o excesso é bom. Há uma infinidade de whiskies desequilibrados – excessivamente defumados ou vínicos – que são absolutamente deliciosos e bem mais interessantes do que seus pares balanceados. Exemplos são o Bruichladdich Octomore e o Aberlour A’Bunadh.

Na coquetelaria, algo semelhante acontece. Muitos de nós temos uma quase obsessão pelo equilíbrio, que na maioria dos casos faz sentido. Mas isso não impede que um coquetel puxado para o amargo ou para o adocicado, se bem executado, seja prazeroso e tenha seu valor. Mas antes que você me condene, isso não é uma apologia à batida de leite condensado com Halls e vodka e aos Sex-On-The-Beach de balada ruim. Não. Isso é um aceno em direção a um coquetel que poucos conhecemos e que, ainda assim, sofre um enorme preconceito. O Commodore.

O Commodore leva bourbon whiskey, creme de cacau, suco de limão siciliano e grenadine. Só de ler os ingredientes, o nível glicêmico já sobe até a pré-diabetes. O Commodore é um coquetel naturalmente e incontornavelmente doce, apesar do limão. E talvez, neste ponto, você esteja silenciosamente aí me condenando, enquanto se convence que encontrei a receita em alguma revista de receitas de segunda. Mas não. O drink originalmente fez parte do menu do bar do hotel Waldorf-Astoria, na era pré Lei Seca.

É mais velho que o Opala Comodoro!

E esta não é a única referência. O Savoy Cocktail Book também apresentou uma versão do Commodore, mas que levava whiskey canadense ao invés de bourbon, além de xarope de açúcar e bitters de laranja. Mas a receita que apresentarei aqui é mais próxima da original, do Waldorf, com as proporções propostas por David Wondrich. Bem, por que? Porque é a receita que eu mais gosto, independente de ser equilibrada ou não. Nas palavras do próprio Wondrich “Eu amo o Commodore. Por que? Porque é delicioso. E é apenas um coquetel“.

Assim, meus caros, podem deixar de lado seus leite condensados, esqueçam o picolé de manga e nem pensem em abrir aquele pacote de drops de hortelã. Tomem nota de um coquetel que adoçará a vida de vocês sem nenhuma culpa. Porque às vezes mesmo, tudo que precisamos é um pouquinho de excesso.

COMMODORE

INGREDIENTES

  • 1 e 1/2 doses de bourbon whiskey
  • 1 dose de creme de cacao (a receita de wondrich não especifica qual. Este Cão preferiu com creme de cacao branco)
  • 1 dose de suco de limão siciliano
  • 1 colher de café de grenadine
  • Taça de Martini
  • parafernália usual para bater (shaker, coador, gelo).

PREPARO

  1. adicione todos os ingredientes na coqueteleira, com bastante gelo.
  2. Bata até gelar
  3. Desça, coando, em uma taça de martini ou coupé.

 

2 thoughts on “Commodore – O lado doce da vida

  1. Muito interessante, mestre! Prefiro bebidas mais para o seco, mas esse adocicado parece cair muito bem.
    A propósito, gostei da foto das jujubas e do chocolate branco. Não tem como errar com essa dupla. Eu me lembro que antigamente era vendido um chocolate branco que tinha jujubas no meio hahaha. Já viu?

    Abraço!

    1. Hahaha! Fala mestre! Não lembro desse chocolate! Ainda bem, senão ia correr atrás que nem doido para a foto! rss!

      (é para dar ataque cardíaco direto!)

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