Lançamento da linha Royal Salute na Coréia do Sul

Sempre fui apaixonado por livros. Gosto de ler quase tudo, ainda que tenha lá meus autores favoritos. Prefiro prosa à poesia, e tenho certa tendência pela ficção. Mas também aprecio um poema ou alguma biografia, desde que escritos com esmero. Assistir um filme ruim, de vez em quando, até tudo bem. São apenas duas horas. Mas a vida é curta demais para subliteratura.

Meu interesse pela leitura despertou ainda como Cãozinho, quando ouvia contos de fadas contados pelo Cão pai. Como qualquer criança, me fascinavam as histórias fantásticas, em países distantes, eivados de mágica e populados por reis, rainhas, alquimistas e criaturas mágicas. Castelos e objetos insólitos complementavam a atmosfera cativante.

E ainda que sempre me colocasse no papel de algum personagem da história, imaginava que contos de fadas pertenciam ao mundo do faz-de-conta. Na atrocidade de nossa realidade, eles não passariam de um gênero literário. Mas, aparentemente, estava enganado. Como num átimo de magia, tive um de meus mais improváveis desejos concedidos. Quer dizer, ao menos para um apaixonado por whiskies, como este Cão.

É que fui convidado pela Pernod-Ricard para viajar até a Coréia do Sul – um país bem distante – para provar, antes de todo mundo, duas novas expressões do portfólio permanente de um whisky digno da realeza. Os Royal Salute. E, além disso, conhecer os alquimistas, digo, criadores daquele luxuosos e exclusivos blended scotch whiskies. E acompanhado. Raphael Vidigal, head of prestige brands da Pernod-Ricard Brasil, seria meu guia e parceiro na lendária viagem.

A jornada aérea inicial levou vinte e cinco horas até aquele distante reino, digo, país. E ao chegar lá, ainda que não houvessem carruagens, fomos recepcionados por um cordial motorista em um confortável sedan coreano. Que, aliás, exibia um curioso design reminiscente de uma espécie de quimera entre dois sedans alemães. E assim, sem dizer nada – mesmo porque a comunicação era impossível por barreiras linguísticas – fomos conduzidos até o luxuoso hotel, no coração de Seoul.

Passei um dia me aclimatando ao fuso horário de doze horas. Na manhã do dia seguinte, mal podia conter meu entusiasmo. Entrevistaria o alquimista por trás dos whiskies da Royal Salute – o master blender Sandy Hyslop. Além disso, teria a oportunidade de conversar com o mago responsável por enfeitiçar as pessoas com todo carisma daquelas criações: Mathieu Deslandes, diretor de marketing da Royal Salute. Exceto por meu nervosismo, não havia vilão. Os dois foram extremamente agradáveis e acessíveis.

Mathieu nos revelou alguns detalhes sobre a criação dos blends, seu posicionamento, estratégia e a razão pela qual haviam decidido diversificar o portfólio após tantos anos. Já Sandy foi técnico e descontraído, e nos contou detalhes da elaboração daquelas incríveis criações. Estas entrevistas serão oportunamente reproduzidas aqui, no Cão Engarrafado.

Tietando

E à noite, aconteceu o grande evento. Um jantar de gala, digo de reis e rainhas, no Museu de Arte de Seoul, que outrora fora um palácio. O evento também contou com discursos de Jean Christophe Coutures, CEO da Chivas Brothers e Sandy Hyslop. Como contos de fadas sempre abusam do número três – três porquinhos, três fadas madrinhas – seria apresentado a três whiskies. A tríade que agora compunha a linha permanente da Royal Salute: o Signature Blend, Malts Blend e Lost Blend.

Me acomodei confortavelmente em minha cadeira, numa posição central de uma enorme mesa de banquete. Atentei-me a Jean Christophe, que explicava a razão daquela maravilhosa noite. “Royal Salute se refere a celebração da realeza britânica (…). E como o mundo da realeza evoluiu, a Royal Salute deve também evoluir com ele. Por isso, criamos uma nova embalagem, desenhada por Kristjana Williams. O que tentamos fazer é trazer mais encantamento, mais criatividade e design à marca, mas ainda mantendo sua substância

O novo Royal Salute 21 Lost Blend, defumado e apimentado, de garrafa preta.

E continuou ” A história da embalagem faz referencia à Torre de Londres, que, há muito tempo teria sido usada como zoológico, onde todos os animais dados para os reis e rainhas ficavam. Mas a ilustração não é séria – ela tem um certo ar de criatividade descontraída, porque, na cultura britânica, deve-se mostrar substância mas, ao mesmo tempo, senso de humor”.

Naquele momento, levado pelas palavras de Jean Christophe, começava a perceber a quase excruciante atenção aos detalhes daquele jantar. Tudo naquela atmosfera absolutamente encantadora – luzes, flores, borboletas de verdade (sim, havia borboletas de verdade) pratos, músicas e aromas – haviam sido milimetricamente pensados para elevar aquela experiência. Nada era gratuito ou havia sido deixado ao acaso. Da marcação dos lugares à mesa, passando pelo gelo gravado, à música de fundo.

O novo Royal Salute 21 Malts Blend, frutado e adocicado, de garrafa esverdeada.

Na sequência do discurso de Jean Christophe, foi a vez de Sandy Hyslop explicar um pouco sobre as verdadeiras estrelas da noite – os whiskies da Royal Salute. De acordo com o alquimista, Royal Salute foi o único blended scotch continuamente disponível com vinte e um anos de idade desde sua criação, em 1953. E aquela seria a primeira vez na história que duas expressões eram adicionadas ao portfólio permanente da marca. Aquela, para ele, era uma responsabilidade tão grande quanto uma honra.

E assim começou a parte mais importante daquele imponente evento. A degustação. A primeira garrafa apresentada por Sandy possuía um ar bastante familiar. Era nosso conhecido Royal Salute 21 anos, que fora rebatizado de Royal Salute Signature Blend – um blended scotch delicado, floral, suave e deliciosamente fácil de ser bebido. Aquele, para Sandy, era o ponto de partida. Seguimos para as duas novas expressões da marca.

O Royal Salute Malts Blend seria o resultado da união de vinte e um maltes diferentes, todos com, no mínimo, vinte e um anos de maturação. Seu sabor, adocicado e frutado, seria mais intenso do que o tradicional Royal Salute, mas, ainda assim, extremamente suave e agradável, como todo blended whisky de ultra-luxo deve ser. Conforme Sandy, a base daquele whisky seria Strathisla e Longmorn, duas das mais queridas destilarias do portfólio da Pernod Ricard. Este, segundo Raphael, desembarcará em terras brasileiras em um futuro próximo.

Sandy, explicando sobre a criação dos Royal Salute.

O Royal Salute Lost Blend, por sua vez, traria inovação à linha Royal Salute. Um blended scotch whisky com perfil sensorial defumado, que leva em sua composição muitos maltes das conhecidas “silent stills” – destilarias desativadas ou demolidas. Como, por exemplo, Imperial e a incrível Caperdonich, que produzia single malts turfados. Apesar do sabor enfumaçado e delicadamente medicinal, o Lost Blend ainda manteve a personalidade delicada e luxuosa dos Royal Salute. E foi o preferido deste canídeo.

Após apresentar o novo trio, Sandy contou um pouco sobre a essência de sua função. “A maior parte do meu trabalho é garantir a continuidade dos blends da Royal Salute, tendo certeza que temos o estoque necessário para manter a qualidade, ano após ano (…). Muitas pessoas pensam que um blender somente trabalha no seu sample room, misturando whiskies e criando novas expressões. Isso até é verdade, mas é apenas uma pequena parte do que faço. Toda semana viajo para Speyside, para nossas destilarias, para provar o new make de cada uma delas. E vinte e um anos depois, meu trabalho começa novamente. Neste ponto, eu e meu time conhecemos cada um dos barris de Royal Salute antes de serem combinados para dar origem aos blends.” – explicou.

Discursos e explicações concluídos, os convidados puderam provar também alguns coquetéis criados com as novas expressões – alguns tão luxuosos quanto os próprios whiskies. Como, por exemplo um que levava a famosa rosa da rainha Elizabeth II – a Centifolia – mais cara até mesmo que ouro.

Blending the blends

Olhei para o relógio. Quase meia-noite. Se passasse daquele horário, não viraria abóbora nem nada disso. Mas era um horário prudente para voltar aos meus aposentos reais – o hotel – e descansar um pouco. Aquela fora, para um entusiasta de whiskies como este Cão, seguramente, uma noite memorável, coroada por três whiskies absolutamente incríveis.

Porém, na volta, um pensamento não deixava minha cabeça. Aquilo, na verdade, não era um conto de fadas. Não havia quimeras, nem reis ou rainhas. Não havia alquimistas ou reinos distantes. E, por fim – e acima de tudo – não havia qualquer feitiço.

Aquilo, na verdade, era o resultado do trabalho duro e incansável de pessoas extraordinárias e apaixonadas por aquilo que fazem. Dezenas de pessoas, cada uma com sua especialidade, seu conhecimento, que juntas criaram algo incrível. Pessoas que dedicaram suas vidas e empenharam um esforço épico para um jantar perfeito.

E para, acima de tudo, criar uma das mais reconhecidas marcas de scotch whisky de ultra-luxo do mundo. Os Royal Salute – para que pessoas comuns, como eu, pudessem ter momentos dignos de contos de fadas.


10 thoughts on “Lançamento da linha Royal Salute na Coréia do Sul

  1. O Sr. Collin Scott está aposentado ? Esta bem de saúde ? A destjlaria esta com novo Master Blend ? Fale mais sobre essa nova linha… novas garrafas …A Safire Blue , Ruby e Esmerald ainda vai continuar no mercado com o mesmo “ouro líquido Blended Scotch” ou fica só a azul ? A preta ficou muito bonita … Os príncipes da Inglaterra foram fotografados com estas garrafas em lançamentos na Inglaterra ?

    1. Mestre Marcelo, acho que respondi essa em outro meio. Desculpa a infinita demora.

      Colin está excelente. Lucido e apaixonado por whiskies. Tive o enorme prazer de conversar com ele não na Coreia, mas em São Paulo, no lançamento do Chivas XV no mercado brasileiro.

      Quem está por trás dos novos Royal é o Sandy Hyslop (soltamos uma entrevista com ele há umas semanas). É um cara excepcional. Lá ele explica o lance das garrafas!

  2. Mais uma vez uma prosa esperacular. Parabéns pelos teus textos, Mauricio. Espero um dia provar esses blends.

    1. Eu adoro literatura e whisky, mestre. Basicamente meus 02 hobbies e sendo eu um entusiasta, juro que consigo imaginar a sensação de ser convidado para tal evento haha.
      Me sinto muito feliz pelo senhor e não consigo pensar em ninguém melhor para nos representar por lá.
      Tenho um grande apreço pelo Chivas. Tenho a sensação que é um whisky pensado para o consumidor, especialmente aquele que sabe o que está bebendo.
      São novas expressões de 21yo de uma expressão já consolidada, o que reforça a sensação que comentei anteriormente.
      Ficaria especialmente feliz com este Lost Blend e me pergunto se não sentiria um certo desespero de ver o barman utilizando um whisky de 21yo pra fazer coquetel. Ainda que um coquetel de luxo.
      Abraço e parabéns!

      1. Mestre, fiquei com essa impressão no começo. Mas acho que, neste caso, nem era uma questão sensorial. Os demais ingredientes do drink eram tão luxuosos que estavam bem à altura do whisky. E, para falar a verdade, eram super bem elaborados. Ainda que os Royal Salute fossem bastante delicados, não foram eclipsados em nenhuma receita. Os caras são bons!

    1. Mestre, acho que não. O Lost é portfólio permanente, e mais em conta. Mas a ideia é semelhante – defumado, lost distilleries, etc. Os dois são excelentes. Talvez, e incrivelmente, eu prefira o Royal Salute!

      1. Show de bola ! Parabéns pela cobertura do evento , Como sempre, impecável !
        Já tem preço definido e data de lançamento no Brasil ?
        Sempre fui mais favorável ao JW , vamos ver desta vez .
        Abs

        1. Mestre, sem preço ainda. Mas tem data – provavelmente depois de Outubro, os novos surgem por aqui

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