Drops – Hazelburn 13 Oloroso

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Poucos whiskies tem tanto apelo por um entusiasta quanto Springbank. A destilaria está localizada em Campbeltown, um outrora importante polo de produção de whisky na Escócia. No começo do século, Campbeltown possuía mais de vinte destilarias. Porém, por conta de fatores econômicos e históricos – dentre eles, as guerras e a lei-seca norteamericana – muitas fecharam.

Uma destas destilarias foi a Hazelburn. Quer dizer, a Hazelburn original. Ela operou entre 1825 e 1925, e fazia parte do grupo dos Greenlees Brothers – os mesmos cavalheiros que fundaram a marca Old Parr. Em 1921, entretanto, a Greenlees foi liquidada, e a Hazelburn colocada a venda. A compradora foi a Mitchell & Co., que talvez vocês reconheçam (ou não) pelo nome impresso nas garrafas de Springbank. Esta sim, uma das únicas sobreviventes de Campbeltown.

Ocorre que o Hazelburn de hoje não é o mesmo daquela destilaria. Como contei no spoiler do parágrafo acima, A Hazelburn foi desativada em 1925. A marca, entretanto, permaneceu no cinturão da Mitchell & Co., que a ressucitou em 2005. Ressucitou como um whisky produzido na Springbank – uma de suas três linhas, e a única triplamente destilada. É este, inclusive, seu diferencial.

A tripla destilação da Springbank acontece de uma forma curiosa. Há três alambiques (óbvio). O primeiro, wash still, é aquecido por fogo direto. O resultado são low-wines de aproximadamente 20-25%. Tudo normal até aqui. A maior parte (80%) destes low-wines vão para um alambique intermediário, chamado “feints still” ou “alambique de cauda”. Estes low-wines são então destilados uma segunda vez, resultando em um outro low-wine, ou destilado, com graduação alcoolica sensivelmente mais alta. Tudo quase normal até aqui, mesmo que ninguém tenha separado cabeça e cauda ainda. Mas, agora complica.

O destilado descrito acima é combinado com a cabeça e cauda da destilação da batelada anterior (lembrem-se, alambiques operam em bateladas ou lotes) e carregado em um terceiro alambique, junto com os 20% que faltaram da primeira destilação! Aí, acontece uma terceira destilação, que resulta em um new-make de aproximadamente 72% de graduação alcoolica.

Alambiques da Springbank (fonte: Whisky.com)

Como você pode notar, o processo não é exatamente direto. A tripla destilação serve, na verdade, para tornar o new-make mais neutro, floral. O “blank run” – como é chamada a segunda destilação sem cortes – aumenta o tempo de contato com o alambique. O resultado é um whisky com perfil floral, que deixa o barril transparecer. E que barril! O Hazelburn Oloroso 13 anos é maturado em barris que antes contiveram vinho jerez oloroso, que lhe empresta notas de uvas passas, pimenta do reino e especiarias.

Infelizmente – e como você já deve ter suposto – o Hazelburn não chega ao Brasil. Na verdade, nenhum Springbank chega oficialmente. O que talvez torne este post uma das maiores maldades já feitas por aqui nos últimos meses. Entretanto é a prova líquida (literalmente) que a tripla destilação não é sinônimo de baixa complexidade. E que a Springbank merece sua posição no coração dos apaixonados por whisky.

HAZELBURN 13 ANOS OLOROSO

Tipo: Single Malt com idade definida – 13 anos

Destilaria: Springbank (Hazelburn)

Região: Campbeltown

ABV: 50,3%

Notas de prova:

Aroma: uvas passas, cravo, canela, frutas cristalizadas.

Sabor: Vínico e frutado, com uvas passas e frutas secas. O final é longo e adocicado. Apesar da graduação alcoolica, o whisky é pouco agressivo.

Whisky gentilmente oferecido e provado em companhia do amigo Nilo. Obrigado!

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