Tabula Rasa – Glenfiddich 18 anos

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Algumas pessoas têm manias estranhas. Quando era criança, tinha um coleguinha que gostava de morder gente. Ele tentava morder todo mundo, sem qualquer distinção de idade ou sexo. E de forma completamente gratuita. Como eu sabia de seu hábito, mantinha uma distância segura. Muito tempo depois, descobri que essa é uma compulsão mais ou menos comum, e que pode continuar durante a vida adulta. Chama-se Dacnomania.

Nunca pude perguntar a ele como esse curioso hábito começara. Na verdade, nunca me permiti esta oportunidade – ter um bife arrancado do meu braço não estava nos meus planos. Talvez minha curiosidade mórbida frente um dacnomaníaco fosse menor do que meu instinto de autopreservação.

Nham nham!
Nham nham!

Outra mania bem esquisita que vi – dessa vez em um programa de televisão – era de comer tijolos. Era uma moça, lá pelos seus trinta anos de idade. Seu pitoresco costume consistia em arrancar pequenos pedacinhos de parede, roer e depois engolir. Quando questionada, a moça disse que, quando criança, foi induzida por sua avó a tornar-se a primeira sommelier de paredes do mundo.

Sua avó lhe contara que seu pai comia papel de parede e argamassa quando infante. Fascinada pela história, a menina resolveu provar por conta. Eu imagino o momento em que ela resolveu experimentar parede pela primeira vez. “Poxa, tô aqui fazendo nada, tá me dando uma vontade meio incontrolável de usar uma britadeira pra arrebentar essa parede e fazer um lanchinho de boa. Putz, deve ser genético”.

E por mais esquisito que essa decisão possa parecer, toda mania – e todo interesse – tem uma origem desse tipo. O Cão Pai, por exemplo, é fascinado por arte. Seu interesse nasceu ao ganhar um livro sobre o assunto, com 12 anos de idade. Já o meu, muito menos saudável, é whisky.

E o responsável por essa monomania é o Glenfiddich 18 anos. Antes de conhecer o Glenfiddich 18 anos, eu era – relativamente – normal. Havia provado pouco mais de cinco marcas de whisky. Aquelas, que todo mundo conhece. E ainda que eu gostasse da bebida, consumi-la era uma atividade puramente social. Eu tinha apenas uma garrafa em casa – geralmente, um Chivas 18 – reservada para as ébrias visitas. Mas quando fiz vinte anos de idade, ganhei de um amigo que viajara para o exterior uma garrafa do Glenfiddich 18 anos. Um whisky apenas dois anos mais jovem do que eu.

Eu nunca havia bebido single malts antes. Mas como havia nascido com um espírito pouquíssimo jovem, já fumava charutos com aquela idade. Ao ganhar aquela preciosidade, resolvi que suspenderia temporariamente o hábito de pitar acompanhado de uma boa cerveja escura e daria uma chance para o whisky. E ainda que nunca tenha comido paredes ou mordido pessoas, acredito que a experiência facilmente se equipararia. Porque, de lá pra cá, não parei mais.

Concordo.
Ele concorda.

O Glenfiddich 18 anos é composto por uma seleção de whiskies maturados por, no mínimo 18 anos, em barricas de carvalho americano, que antes continham bourbon whiskey, bem como barricas de carvalho europeu que continham vinho jerez Oloroso. Essa seleção é misturada em um puncheon (uma barrica de 700 litros) onde passa três meses, para que crie harmonia. Os puncheons são barricas que antes maturaram bourbon whiskey, e feitos de carvalho americano. Depois deste período, o whisky é engarrafado. Cada garrafa possui um número de lote impresso em seu rótulo. Este número diz respeito ao puncheon em que os whiskies foram misturados.

Partes dos alambiques da Glenfiddich ainda são aquecidos por fogo direto. Isso contribui para tornar o destilado mais encorpado e oleoso. A maioria das destilarias modernas utiliza vapor, uma vez que o fogo direto aumenta muito o custo de manutenção e reduz a vida útil dos alambiques.

No Brasil, uma garrafa do Glenfiddich18 custa, em média R$ 500,00 (quinhentos reais). Não é exatamente uma pechincha, em valores absolutos. Mas tudo na vida deve ser relativizado. Ele é uma centena de reais mais em conta do que um Dalmore com o mesmo tempo de maturação, e possui o mesmo preço de blended whiskies premium, como o Johnnie Walker Platinum Label e o Buchanan’s 18 anos.

O Glenfiddich 18 anos é, na opinião deste Cão, o mais equilibrado do portfólio permanente da marca, e – comparado a seus pares de outras destilarias, com o mesmo tempo de maturação – um excelente custo-benefício. E ainda que meu gosto tenha, aos poucos, se deslocado para os whiskies com caráter mais defumado, o Glenfiddich 18 anos sempre terá seu espaço reservado, tanto na minha dispensa quanto em meu rol de paixões etílicas. Afinal, foi o whisky que me fez gostar de whisky. E pode ser que isso seja apenas um delírio por conta de uma obsessão. Mas eu duvido que tijolo e gente – gastronomicamente falando – seja tão bom quanto esse whisky.

Sorte minha ter uma mania assim.

GLENFIDDICH 18 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 18 anos

Destilaria: Glenfiddich

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo e frutas cítricas. Adocicado.

Sabor: Frutado, com baunilha e açucar refinado. Final longo e progressivamente mais cítrico.  Levemente apimentado e com especiarias.

Com água: A água reduz os sabores cítricos e de especiarias. Recomendo tomar este whisky sem diluição.

Preço: R$ 500,00 (quinhentos reais)

 

5 thoughts on “Tabula Rasa – Glenfiddich 18 anos

  1. Fez parte da minha juventude quando vejo uma garrafa me tras boas recordacoes. Glenfiddich sempre tudo de bom.

  2. O Glenfiddich 12 anos foi o primeiro Single Malt que provei e é até hoje o meu preferido ao lado do Cardhu. A bem da verdade não provei muitos mais. Prefiro os não enfumaçados, por enquanto. O paladar da gente muda com o tempo. Quem sabe no futuro…
    No dia a dia, nos papos com os amigos ou nos momentos de curtição, fico com os blendeds mais suaves. Na maioria das vezes um Chivas 12 anos.
    De toda a forma, pelas suas referências, vou colocar o Glenfiddich 18 anos na fila. Cheers!

      1. Tenho uma garrafa do Glenlivet 12 anos, já no finzinho. Gosto bastante. Para ser sincero, não lembro de ter tomado nenhum whisky 18 anos além do Chivas Regal. Sempre há tempo, enquanto respiramos (sem aparelhos)…

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