Os seis melhores filmes do mundo e os whiskies para acompanhar

Há algumas semanas, publiquei um texto sobre o Lagavulin 16 anos. Na matéria, comparei-o ao filme 12 homens e uma sentença. Uma película que tinha tudo no mundo para ser impopular, mas tornou-se uma das mais importantes da história do cinema. Um sucesso de crítica e público. Uma unanimidade. Que, convenhamos, nos dias de hoje em que todo mundo tem opinião sobre tudo, é bem difícil.

Daí, alguns leitores me sugeriram um exercício curioso. Algo na linha do que já tinha feito com os filmes do Oscar, mas muito mais pretensioso. Escolher cinco dos melhores filmes do mundo e encontrar-lhes almas gêmeas etílicas. Aceitei o desafio imediatamente. Porque, claro, nada seria mais divertido do que um exercício de futilidade tão grande quanto relacionar coisas sem qualquer propósito como este. A internet, afinal, vive disso.

Antes de prosseguir, preciso fazer uma ressalva. Estes não são os seis melhores filmes do mundo. É, eu sei que eu disse isso no título, mas não são, me desculpem. Estes são, na verdade, os seis filmes mais bem avaliados do site internacional Internet Movie Database. A avaliação destes filmes é feita pelos usuários, num sistema de média ponderada, que ninguém sabe bem como funciona. Mas isso não importa. O que importa é que vox popoli, vox dei, e estes são os melhores filmes do mundo para um sem fim de gente. Além disso, eu tinha que encontrar algum critério, não é mesmo?

A pitoresca ideia deste texto é relacionar cada uma destas – discutivelmente – obras primas da sétima arte com algum whisky. Como uma espécie de harmonização, mas entre película e destilado. Assim, se você é apaixonado por certo whisky, é bem provável que irá gostar do seu filme correspondente. Você até poderá assisti-lo na companhia de uma ou duas doses daquele seu eleito. Mesmo porque ele poderá melhorar bastante sua experiência cinematográfica.

1. Um sonho de liberdade

Um Sonho de Liberdade (Shawshank Redeption, no original) conta a história de Andy Dufresne (Tim Robbins) um famoso banqueiro que é condenado à prisão perpétua. Na cadeia, ele conhece o Morgan Freeman, e entre eles rola o mais célebre caso de bromance da sétima arte. O filme – apesar de parecer bem simples – fala de uma forma relativamente sutil sobre culpa, mudança, amizade e altruísmo. Mas o mais incrível mesmo é que ele foi escrito por Stephen King, que resistiu à tentação de colocar alguma aranha gigante controladora de mentes ou enguia extraterrestre no roteiro.

Shawshank Redeption é um filme muito bom. Ele consegue dialogar de uma forma bem competente com qualquer nível de expectador, o que é um mérito indiscutível. O ritmo também é incrível – apesar das quase duas horas e meia, ele parece ter menos de cinquenta minutos.

Porém, na opinião deste Cão, dizer que ele é o melhor filme do mundo é pura hipérbole. Como, aliás, qualquer coisa que é considerada a melhor do mundo, não importa qual seja o critério de avaliação. Assim, para este Cão, o whisky que mais se assemelha a ele é o Johnnie Walker Blue Label. Sabor agradável, boa complexidade e absurdamente supervalorizado.

2. O Poderoso Chefão

The Godfather (traduzido de uma forma cretina para O Poderoso Chefão), dirigido por Francis Ford Coppolla, é um filme como poucos. Ele narra a ascensão de Michael, filho de Vito Corleone, um dos mais importantes Dons da máfia italiana na década de vinte. A película é detalhadamente construída para se tornar envolvente. Os momentos de afeição da famiglia Corleone são entremeados com maestria por cenas de violência gráfica e crueldade. Porém, tudo que é repugnante em relação à máfia foi elegantemente excluído do mundo de O Poderoso Chefão. Como disse o crítico Roger Ebert, a história é contada inteiramente de um mundo fechado. Não há vítimas civis do crime organizado, nem vidas arruinadas pelo jogo, fraude ou extorsão.

Na opinião deste Cão, porém, o maior mérito de O Poderoso Chefão é a identificação. Qualquer expectador – por mais pacífico e bondoso que seja – consegue se identificar com Michael. Seu percurso – ainda que pontuado por morte e traição – é o mesmo de muitos de nós. A tenaz luta contra nossa própria natureza, que, invariavelmente, como no labirinto de Creta, nos coloca novamente de onde partimos, independente de quantas voltas descrevermos.

Se o Poderoso Chefão fosse um whisky, ele certamente seria um Macallan Rare Cask. Sofisticado, elegante e cruel (no preço). E impossível de não ser adorado.

3. O Poderoso Chefão II

Coppolla conseguiu emplacar como terceiro melhor filme do mundo a sequência de sua obra prima. Mas pelo bem da diversidade, vamos pular este, ok? Favor fazer referência ao item 2. acima.

4. Batman: O Cavaleiro das Trevas

Talvez o título dê uma dica de leve. Mas Batman: O Cavaleiro das Trevas, é mais um filme noir do que sobre um super-herói. Um filme noir cujo protagonista – ao invés de um clássico detetive fumante, alcoólatra e de sobretudo – é um milionário vestido de morcego. Os elementos estão lá. Há o jogo de luzes. Há o conflito psicológico, onde o homem-morcego se vê na posição de vilão frente à manipulação o Coringa. Há a decadência e a descrença no herói. Primeiro, por parte do povo de Gotham, depois, pelo próprio Batman. É sim, um filme sobre um personagem dos quadrinhos, mas é também uma película sobre tragédia e dano – muitas vezes, infligido por si mesmo.

Ainda que este Cão considere que o filme está bem longe de assumir a quarta posição no ranking histórico do cinema, Batman: O Cavaleiro das Trevas possui uma surpreendente profundidade para seu estilo. Neste sentido, é muito semelhante a um Ballantine’s 17 anos. Blockbuster, sem dúvida, mas relativamente complexo e muito bem feito.

5. 12 homens e uma sentença

Este é o filme que deu origem a este texto, e o preferido de dez entre dez professores de ética das faculdades de direito. O que, de certa forma, traumatiza e estraga toda a experiência para muita gente. Porque, claro, todo mundo quer cabular a aula de ética. Especialmente quando ela é sobre um filme cult dos anos cinquenta, filmado em preto e branco, que se passa totalmente em uma única sala, onde os personagens discutem princípios éticos e valores sociais sem parar por uma hora e meia.

Apesar do descritivo torná-lo tão tentador quanto passar três dias na companhia do Tony Ramos ouvindo apenas Björk a capella (eu mudei a tortura) o filme é bem bom. E ainda que não seja um filme fácil, 12 Homens e Uma Sentença possui uma legião de fãs ao redor do mundo. O paralelo com o whisky é quase inescapável. O filme é o irmão gêmeo para tela do Lagavulin 16 anos. Um malte cult, amado como poucos.

6. A Lista de Schindler

A Lista de Schindler é um filme recessivo. Ele é dirigido por Steven Spielberg, mas não há qualquer efeito especial ou momento pirotécnico. Apenas uma narrativa bem construída, dramática e belíssima. E é estrelado pelo Liam Neeson, que, incrivelmente, não salva nenhum avião prestes a explodir e nem mata quinhentas e dezenove pessoas com uma única pistola enquanto viaja por cinco nações diferentes.

A película conta a história real de Oskar Schindler, um executivo alemão que transforma secretamente sua fábrica em um refúgio para os judeus, durante o nazismo. Durante suas mais de três horas de tela, não há alívio cômico ou momento jocoso. Apenas severidade.

Não é muito fácil encontrar um malte que possa se relacionar a Lista de Schindler. Talvez algo próximo seja o belíssimo Glenfiddich 18 anos. Um malte sisudo, para se beber silenciosamente e com extrema atenção.

7 (eu pulei o n.3). Pulp Fiction

Eu tenho que assumir uma coisa aqui. Pulp Fiction já foi meu filme preferido por muito tempo. Hoje, porém, reconheço que ele não é tudo isso. Okey, o filme é divertidíssimo e os diálogos são absolutamente geniais. Todos os personagens parecem falar apenas digressões e sempre têm observações inteligentíssimas. E sério, não tem como não rir quando o Christopher Walken conta onde escondeu o relógio, ou quando o Samuel L. Jackson discute preferências alimentares com o John Travolta.

Mas é isso aí. Pulp Fiction é a estética da violência somente pela estética. É um mundo completamente surreal, onde todo mundo parece agir normalmente. Nada é encarado como surpresa, seja o cérebro espalhado no banco de trás do carro, seja o homem vestido com roupas sadomasoquistas dentro de um baú de madeira. Tudo é cool.  Pulp Fiction é uma paródia do cinema mainstream norte-americano. Ou seja, é uma auto-paródia.

Este é outro filme que possui uma alma gêmea no mundo do whisky. O Jack Daniel’s Sinatra Select. Um ícone pop que homenageia outro ícone, mas da música norte-americana. O Sinatra Select é a destilação dos Estados Unidos.

 

4 thoughts on “Os seis melhores filmes do mundo e os whiskies para acompanhar

  1. Adoro esses seus “exercícios”!!! Teu texto merece apenas uma justiça, na minha modesta opinião: Stephen King nem sempre coloca elementos sobrenaturais em suas estórias, como se nota, além do filme que você mencionou, em Stand by Me. Além disso, em alguns casos, como em The Green Mile, o sobrenatural não tem a função de assustar. Por fim, adoro seus textos e ando sentindo falta de suas participações especiais em vídeos de outros canais do YouTube.

    1. Verdade, meu caro Fabiano. Justiça seja feita!

      Vamos ver se no futuro apareço novamente. Não sou muito fã de ficar na frente da câmera, mesmo que fazendo o que faço de melhor – bebendo. rs

  2. Excelente, mestre!
    Adoro filmes, sou um whisky geek e tenho um certo ceticismo em relação à avaliações do cinema.
    Abraços!

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