Drops – Innis & Gunn Original Oak Aged

 

Hoje falarei de um assunto polêmico, mas frequente. Um assunto discutido em quase todas as mesas de bar do Brasil. Algo que todo mundo faz, ainda que, às vezes, a gente prefira acreditar o contrário. Vou falar de cocô. Isso mesmo. Porque toda conversa de adultos regada a álcool termina, invariavelmente, em algo escatológico. Ou sexo.

Cocô é quase tudo aquilo que ingerimos, mas que não é aproveitado por nosso organismo. Não importa o quão gostoso ou sofisticado foi seu prato. Aquele frango (que nojo), o spaghetti a bolonhesa, o medalhão de kobe beef e o caviar Almas de esturjão albino, todos eles, virarão a mesma repugnante coisa. E você sabe qual é.

O que não significa, é claro, que ele não possa ser aproveitado por outras criaturas. É uma extensão do conhecido provérbio “lixo de uns, luxo dos outros”. Há bactérias que se alimentam das fezes. Vegetais retiram delas algumas substâncias importantíssimas para seu crescimento. Tirando o quase inevitável preconceito nojento, é uma história linda, na verdade. Uma história de aproveitamento, de ciclo e de eternidade. Seria quase transcendental, se não envolvesse titica.

Mas não é apenas no vaso que histórias de reaproveitamento de – desculpe se algo gráfico vier à mente – dar gosto acontecem. Elas ocorrem também na indústria das bebidas alcoólicas. Uma vez já comentei sobre isso, ao falar da Highland Park e da cervejaria Harviestoun. Um caso muito semelhante, mas bem mais engraçado, ocorreu entre a segunda maior destilaria do mundo, a Glenfiddich, e a cervejaria Innis & Gunn.

Ah, e pensar que eu te jogava fora! (foto: Telegraph.co.uk)

Reza a lenda que em 2003 Douglas Sharp, o mestre-cervejeiro da Innis & Gunn (que na época nem era a Innis & Gunn, mas apenas uma pequena cervejaria local) fora contratado pela destilaria escocesa Glenfiddich para produzir uma cerveja qualquer, cujo único objetivo era maturar por um tempo nos barris de carvalho americano da destilaria, somente para condicionar os barris. Depois, a cerveja seria descartada.

Mas Doulgas era um cara caprichoso. Mais do que uma “cerveja qualquer”, Sharp desenvolveu uma receita especial de Ale, bastante encorpada, que aumentaria muito a eficiência do condicionamento e traria para o whisky as incríveis notas pretendidas pela Glenfiddich. Mas, mesmo assim, a cerveja continuaria a ser jogada fora ao esvaziar os barris.

Um gerente da Innis & Gunn, então, que claramente achava aquilo um desperdício, resolveu ingerir aquele descarte. Ele achou tão bom que ligou para Sharp imediatamente. E Sharp, ao invés de demitir o gerente que estava se embriagando com lixo industrial durante o expediente, notou a oportunidade que estava em suas mãos. Assim, ele desenvolveu uma série de cervejas maturadas em diferentes barris.

As cervejas maturadas em barricas de carvalho americano de bourbon lançadas por Sharp fizeram sucesso. Tanto sucesso que o mestre-cervejeiro resolveu fundar a Innis & Gunn. Atualmente, a cervejaria possui – além de sua fábrica – quatro bares na Escócia e um portfólo considerável, entre edições perenes e permanentes. A original, batizada de Oak Aged – que deu origem a toda essa história – é a que ilustra este post.

A Innis & Gunn Oak Aged é uma cerveja clara, com carbonatação média, e um sabor incrivelmente pronunciado de baunilha e madeira. Se você gosta de cervejas encorpadas e daquele irresistível sabor de bourbon whisky, você se apaixonará facilmente por ela. Mesmo que, fatal e inariavelmente, ela vá virar xixi. Pois é. Todo papo etílico de adulto termina mesmo nisso.

INNIS & GUNN OAK AGED

País: Escócia

Cervejaria: Innis & Gunn

Tipo: Ale

ABV: 6,6%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, com um certo aroma de malte bem presente.

Sabor: Balinha de caramelo, herbal. Bastante encorpada. O final puxa incrivelmente para taninos e baunilha provenientes da barrica.

 

6 thoughts on “Drops – Innis & Gunn Original Oak Aged

  1. Prezado Maurício,
    Verdadeira ou não, é exatamente o relato que conheço. Bom, se non è vero, è ben trovato.
    A ‘Original’ é obrigatória por conta da carga histórica, mas recomento fortemente a ‘Rum Finish’ (principalmente) e a ‘Toasted Oak IPA’.
    Abraços

    1. Grande Sócrates! Provei HOJE a rum finish. Muito boa mesmo. A toasted oak nunca, mas não veio ao Brasil dessa vez, até onde sei. Vou caçar!

  2. Bom dia Cão. Como sempre suas postagens são incríveis, acompanho o blog de longa data já porém é a primeira vez que vos escrevo. Vou confessar que gosto mais de cerveja a whisky, porém gosto de ler e conhecer mais sobre o mundo etílico, e esse blog está nos meus favoritos já. Onde posso encontrar esse cerveja? Fiquei curioso para experimenta-la.

    1. Opa! Que legal, Leandro! Obrigado por acompanhar!! 🙂

      Ela acabou de chegar ao Brasil. Essa aí encontramos no Empório Alto dos Pinheiros, em SP. Aliás, a foto foi tirada lá também. Mas se não conseguir ir lá, espere um pouco que logo chega às lojas virtuais!

  3. Me pergunto quanta sorte alguém tem que ter de trabalhar em um lugar onde no “lixo” pode encontrar uma bebida deste gabarito hahahaha.

    Grande abraço!

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