Solo Suite – Laphroaig 10 anos

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Hoje vou falar de coisa séria. Falarei de cultura. De música erudita. Falarei do Arvo Pärt (pronuncia-se Pért, caso você esteja se perguntando o que um trema está fazendo em cima de um “a”). Arvo Pärt é um compositor nascido na Estônia, em 1935, e vivo até hoje. Arvo é responsável por composições antológicas, que você certamente já ouviu. Certamente já ouviu, mas nunca soube que eram dele. O exemplo mais claro é Spiegel im Spiegel.

Spiegel im Spiegel – que, em alemão, significa espelho no espelho – foi composto por Pärt em 1978, logo antes de abandonar a Estônia. A composição figurou em filmes como Gerry, de Gus van Sant e Dans le Noir Du Temps, um curta-metragem de Jean Luc Godard que trata sobre, bom, é difícil dizer com certeza sobre o que trata o curta de Godard. Mas este Cão suspeita que seja sobre a morte do cinema como arte, em uma era que tudo vira mercadoria.

A peça clássica foi originalmente escrita para violino e piano, em um estilo chamado tintinnabuli. O estilo, criado pelo próprio Arvo, e cujo nome é uma onomatopeia que beira o ridículo, é caracterizado por duas vozes.  Ambas tonais. Uma delas, varia sobre a tríade tônica (a nota, sua terça, e sua quinta). A outra, se move diatonicamente. Normalmente, as composições possuem caráter minimalista, que se reflete também na performance e no tempo lento e reflexivo. Entenderam? Não precisa entender. Como isto é um blog sobre whisky e não sobre música erudita, vou facilitar a explicação. Segundo o próprio Arvo, tintinnabuli é como uma numa única nota, que quando tocada em silêncio absoluto e de forma bela, é suficiente para promover conforto quase inabalável.

Arvo, mesmerizado com um sino.
Arvo, mesmerizado com um sino.

De certa forma, o Laphroaig 10 anos poderia ser comparado ao estilo de composição. Na opinião deste Cão, nenhuma outra expressão da Laphroaig é tão representativa de sua personalidade quanto seu  10 anos. Ele é um whisky bastante defumado e medicinal, com final claramente salgado. É o que todo jovem whisky de Islay gostaria de ser – marcante e simples, sem exageros. E ainda que não seja minha expressão preferida, não dá para discordar que é um excelente single malt.

Além do 10 anos, a Laphroaig produz uma gama de whiskies diferentes. O Laphroaig Quarter Cask, por exemplo, é extremamente forte, defumado e picante. A expressão 18 anos, entretanto, é mais equilibrada e refinada. O Select é uma versão suavizada da Laphroaig, com menos defumação e mais sabor herbal. Já o 15 anos está no meio do caminho entre o refinamento do 18 e a força bruta do Quarter Cask. Há também versões maturadas em diferentes barricas, como QA, PX e Triple Wood. E, por fim, temos o An Cuan Mor que é, bem o An Cuan Mor é a versão engarrafada da Eva Green em Os Sonhadores. Simples assim.

A Laphroaig já foi extensamente revista neste blog. Como sabem – ou não – seus whiskies têm caráter defumado por conta do processo de secagem da cevada maltada utilizando uma fogueira abastecida por turfa (peat). Ela foi fundada em 1815, pelos irmãos Donald e Alexander Johnston, e comemora em 2015 seu ducentésimo aniversário. Atualmente, pertence à Beam-Suntory, juntamente com a Maker’s Mark, Bowmore, Auchentoshan, e, claro, os japoneses Hibiki, Hakushu e Yamazaki.

Aí vai uma curiosidade inédita. A Laphroaig é a única destilaria da Escócia que possui o Royal Warrant do Príncipe de Gales. Um Royal Warrant significa que, na teoria, aquela marca fornece um serviço ou produto de altíssimo nível para a corte real. Ou que a marca – a destilaria, no caso – é profundamente admirada por certa celebridade de sangue azul. No caso da Laphroaig, seu entusiasta é o Príncipe Charles. A expressão 15 anos da destilaria é seu whisky preferido.

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Bomdimais!

Charles gosta tanto da destilaria que, na visita que fez à Laphroaig para conceder-lhe o Royal Warrant, destruiu o avião que pilotava em um pouso desastroso, apenas para passar algumas horas a mais na destilaria. Na oportunidade, além de arrebentar uma aeronave de vinte e cinco milhões de dólares, destruir a cerca de uma fazenda e assustar mortalmente um rebanho de ovelhas, o príncipe provou quase o portfólio inteiro da destilaria. Sorte que o avião ficou inutilizado, porque se pousar sóbrio já foi difícil, imagino como seria decolar de lá embriagado.

De volta ao whisky em tela. O Laphroaig 10 anos é maturado principalmente em barricas de carvalho americano, que antes continham Bourbon whiskey. No caso específico da Laphroaig, a vasta maioria das barricas deste tipo vêm da Maker’s Mark, famosa produtora de whiskey dos Estados Unidos.

Dentre os prêmios colecionados pelo jovem whisky de Islay, estão medalha dupla de ouro na San Francisco World Spirits Competition em 2010, 2011 e 2013, e medalha de ouro em 2007 pela International Spirits Challenge – ISC.

Se você está pensando em comprar seu primeiro single malt defumado, ou se ainda não experimentou nada da destilaria, talvez sua melhor escolha seja o Laphroaig 10 anos. Ele é o Spiegel im Spiegel dos whiskies de Islay. A prova de que a simplicidade também pode ser elegante. O Laphroaig 10 anos é o príncipe de Islay.

LAPHROAIG 10 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 10 anos.

Destilaria: Laphroaig

Região: Islay

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: turfado e defumado. Leve aroma de algas.

Sabor: Início defumado e seco, com carvão, bacon e sal. Final levemente picante.

Com Água: Adicionar agua muda pouco o sabor do whisky. O final picante é reduzido, assim como a sensação de iodo.

 Preço: em torno de R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais)

16 thoughts on “Solo Suite – Laphroaig 10 anos

  1. Não custumo deixar comentário mas ontem após ler esse texto, por um acaso fui em um bar onde consegui experimentar o Laphtoaig e tive a melhor experiência possível. Nunca provei um whisky que me surpreendeu e com um sabor e aroma que jamais irei esquecer. Obrigado por me proporcionar essa experiência e mostrar whiskys novos.

  2. Já que o seu lado etílico inspirou o musical (ou vice versa) vai aí um Blues, que a meu ver é mais apropriado aos prazeres etílicos.
    Trata-se de uma canção menos conhecida do genial Willie Dixon, autor de grandes clássicos do Blues, que neste ano se comemora o centenário de seu nascimento:”If the sea was whiskey”.

    https://www.youtube.com/watch?v=DwIWNHwedSQ

  3. Geralmente os textos de pseudo-entendedores são insuportáveis.

    De forma contrária, o seu texto ficou engraçado e inteligente (inclusive me fez procurar “tintinnabuli” no Youtube). Parabéns.

    Provei este uísque no Lobby do Fasano; até então não o conhecia. Batem todas as informações que você descreveu.

    Forte abraço,

    1. Sales, muitissimo obrigado. O Lobby do Fasano no RJ, ou em SP? Seja qual for, o lugar é fantástico!

      Se gostou de tintinnabuli, procure também outras obras de Pärt, como Trivium (para órgão) e Tabula Rasa – Ludus (para violino). São fantásticas.

  4. Cara, que texto de apresentação cool!
    Faz jus à beleza do Laphroaig!
    O melhor dos maltes ever and ever.

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