Drops – The Macallan Whisky Maker’s Edition

Roger Moore faleceu. Mas você já sabe disso. E você provavelmente sabe também que o ator que tornou-se mundialmente famoso por representar o agente secreto mais conhecido do cinema: James Bond. Foi ele que participou de mais filmes da franquia – sete ao todo – concorrendo apenas com Sean Connery. Roger apresentou um James Bond menos irônico, mais sisudo e menos nonsense – ainda que isso não signifique muita coisa para James Bond.

O que você talvez não saiba é que durante os sete filmes em que viveu Bond, Moore nunca pediu um Martini de Vodca batido e não mexido. E que, curiosamente, seu contrato com a franquia possuía uma cláusula que lhe dava direito a um estoque ilimitado de charutos Montecristo. E, por fim, que Roger Moore morria de medo de armas de fogo. Algo, que, convenhamos, é plenamente justificável, mas que talvez seja um pequeno empecilho quando se é encarregado de representar um agente secreto com licença para matar.

Outra coisa que, incrivelmente, nunca contracenou com Moore foi whisky. A paixão de Bond pela destilaria The Macallan surgiu muito mais tarde. Apenas com o advento do novo milênio que 007 incluiu o single malt em sua lista de bebidas preferidas – que já continha martinis, champagne (Bollinger e Taittinger) conhaque (Courvoisier), rum e vinho. E, na opinião deste Cão, a adição veio tarde. Porque os The Macallan realmente são um par perfeito para ele.

Né?

No Brasil, podemos encontrar quatro expressões da destilaria. Quatro de sua 1824 Series – o Amber, Sienna, Ruby e Rare Cask e um da linha Fine Oak – o 12 anos. No entanto, além deles, caso você esteja de passagem em algum aeroporto brasileiro com destino para o exterior, poderá encontrar outras expressões da destilaria – Select Oak, Whisky Maker’s Edition e Estate Reserve. Estas são três dos cinco whiskies da 1824 Collection, que também conta com o The Macallan Oscuro e o raríssimo Limited Release MMXII.

O Macallan Maker’s Edition é a expressão intermediária da 1824 Collection. E, muitas vezes, apontado como o preferido em degustações da coleção. Ele foi criado pelo gerente da destilaria Macallan, Bob Dalgarno. Ainda que não haja idade estampada no rótulo, Bob assegura que não utilizou nenhum whisky com idade inferior a 12 anos para criar o single malt.

Assim como nas demais expressões da 1824 Collection, a maturação do Macallan Maker’s Edition é uma combinação de whiskies maturados em barricas de carvalho americano, que antes maturavam bourbon whiskey ou vinho jerez, e outras de carvalho europeu, que também contiveram jerez. A diferença entre as expressões fica por conta do tempo de maturação médio de cada um dos elementos, bem como a proporção de cada whisky utilizado.

Se passar por um Duty Free em alguma viagem internacional, não deixe de conferir o The Macallan Whisky Maker’s Edition. E não demore tanto quanto o agente secreto mais conhecido da ficção. Afinal, só se vive uma vez.

MACALLAN WHISKY MAKER’S EDITION

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Macallan

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, frutado. Canela, pimenta do reino.

Sabor: Frutas vermelhas, pimenta do reino, canela, um pouco de cravo. Final longo e adocicado.

Disponibilidade: Duty Free Shops

Como Bourbon (e Tennessee Whiskey) é feito – Parte I

Recentemente lancei um texto em três partes sobre a produção de whisky. Naquela oportunidade foquei em single malts. Ou melhor, single malts escoceses. Caso tenha perdido estes textos, leia a primeira, segunda e terceira partes aqui.

Agora é a vez do  mais famoso destilado da terra das pós verdades e do alto índice de LDL. Da maior contribuição dos americanos para o mundo da gastronomia, seguida de perto pelo hambúrguer e pelos ovos beneditinos. O Whiskey Americano. Para facilitar, o foco desta vez serão os Bourbon whiskeys – de longe a maior classe de whiskeys nos Estados Unidos. Mas falarei um pouco dos demais tipos e suas especificidades.

Antes de explicar o nascimento de um bourbon, aqui vai uma pequena introdução em legislação. Para que um bourbon whiskey possa ser assim chamado, ele deve seguir as seguintes premissas, dispostas no Code of Federal Regulations, title 27, part 5, subpart C. (i) o destilado deve ser produzido nos Estados Unidos, e sair dos destiladores com o máximo de 80% de graduação alcoólica; (ii) deve ser feito com ao menos 51% de milho; (iii) o destilado deve ir para os barris tostados (charred) e virgens de carvalho com o máximo de 62.5% de graduação alcoólica (normalmente diluído com água, para que se alcance essa quantidade limite de álcool); e (iv) deve ser engarrafado com no mínimo 40% de graduação alcoólica. Abordarei cada uma dessas regras durante o momento certo.

A MASHBILL

American whiskeys, assim como single malts, são produzidos com cereais. Estes, porém, utilizam apenas cevada maltada, enquanto aqueles podem usar quase uma dezena de cereais diferentes, e inclusive, combiná-los. Os mais comuns são milho, centeio, trigo e cevada. A combinação dos grãos que formam o mosto é conhecida como mashbill. Para que um whiskey possa ser considerado Bourbon, ele deve possuir em sua mashbill um mínimo de 51% de milho. Caso este percentual  seja de centeio, ele será um Rye Whiskey. Se for de trigo, um wheat whiskey, e assim por diante. Uma exceção fica por conta dos Corn Whiskeys, que devem conter mais de 79% de  milho em sua mashbill.

Como já havia explicado em um texto anterior , pode-se dizer que o centeio empresta sabor de especiarias, enquanto que o milho sabores mais adocicados. O trigo torna a bebida mais suave e palatável. A cevada, por sua vez, possui papel enzimático e funciona para transformar o amido em açúcar dos demais grãos utilizados. Assim, a mashbill impacta diretamente no sabor do whiskey. Bourbons como o Maker’s Mark, que utilizam mais trigo em sua composição são mais adocicados e suaves, enquanto aqueles com mais centeio costumam ser mais picantes e secos, como o Bulleit. Quase todos os bourbons usam, ao menos, uma pequena quantidade de cevada maltada, que auxilia no processo de fermentação.

COZIMENTO E FERMENTAÇÃO

Sejam quais forem os grãos escolhidos, o próximo passo é o cozimento. Água é adicionada aos cereais, que são separadamente cozidos, numa espécie de panela de pressão gigante – ou, se você preferir, um ofurô com lâminas mortais. Cada grão exige um tempo diferente de cocção e de pressão. Incrivelmente, um dos períodos mais longos é o do milho – em torno de uma hora, reduzido para vinte e cinco minutos graças à pressão.

Panela from hell (fonte: whisky.com)

Após o cozimento, os cereais são reunidos. Essa mistura – agora chamada de mosto – é resfriada, e transferida para os tanques de fermentação. Lá, o mais incrível fungo do mundo é adicionado. A levedura. Aliás, as destilarias norte-americanas são absolutamente obcecadas por sua levedura. Algumas cultivam a mesma família destes organismos desde sua fundação e, inclusive, possuem registros de propriedade intelectual sobre elas.

Aqui há uma curiosidade. Talvez você tenha reparado na expressão “sour mash whiskey” no rotulo do mundialmente famoso Jack Daniel’s No. 7. Isso significa que os resíduos do mosto de um lote anterior, que ainda contém levedura viva, são adicionados àquele novo mosto, de forma a acelerar o processo de fermentação. Essa adição altera o PH do mosto, que passa de neutro para ácido. Apesar de certas marcas alardearem este processo, ele é utilizado na vastíssima maioria dos bourbons e  até mesmo em pães de fermentação natural.

A continuação da história é bem parecida com a dos single malts. O processo de fermentação leva em torno de dois dias. O resultado é uma espécie de cerveja – conhecida como distiller’s beer – bem nojenta, com graduação alcoólica de aproximadamente 9%.

DESTILAÇÃO

Após a fermentação ocorre a destilação. Bourbons devem ser destilados até a graduação alcoólica máxima de 80%. O resultado é um produto incolor, altamente alcoólico e relativamente adocicado, mas bem próximo de uma vodka. Ele é conhecido como White Dog.

White dog da Buffalo Trace

A destilação da grande maioria dos bourbons ocorre em uma combinação de alambiques de cobre tradicionais e destiladores de coluna. Para saber mais sobre alambiques, clique aqui.

Destiladores de coluna, ou destiladores contínuos, são utilizados também para a produção de grain whisky na Escócia, vodca, aguardente, álcool etílico, álcool combustível – sim, o que é bom para o seu carro às vezes é bom para você – e centenas de outros produtos alcoólicos. Todos bebíveis, ainda que alguns, apenas uma vez.

Um destilador de coluna funciona, numa explicação ridiculamente porca, como vários alambiques conectados. Há uma série de placas perfuradas, formando andares dentro do tubo. A distiller’s beer é adicionada próxima ao topo da coluna – ainda que não no extremo – enquanto o fundo é aquecido. A medida que a cerveja desce, o calor faz com que as partículas mais voláteis evaporem e atinjam os níveis mais altos do destilador. Compostos mais pesados descem até os andares mais baixos. Assim, pode-se separar a cabeça e a cauda do coração do destilado (mais sobre eles aqui).

Por enquanto, nosso bourbon nem mesmo bourbon é. Talvez você não se lembre do início deste texto. Mas, para isso, ele deve primeiro maturar em barricas virgens de carvalho americano. Como este é um processo que leva tempo – e cuja explicação tomará mais meia dúzia de parágrafos, congelaremos a história aqui. Se ainda estiver com paciência para ler, vá para “Como Bourbon (e Tennessee Whiskey) é feito – Parte II“.

Drops – Teeling Single Malt Irish Whiskey

Recentemente apresentei por aqui o Corsair Triple Smoke. Um single malt whisky produzido bem longe do frio escocês. No estado do Kentucky, nos Estados Unidos.

Agora é a vez de outro single malt concebido em terras estrangeiras. Mais especificamente, a Irlanda. País de James Joyce, Oscar Wilde, Samuel Beckett e – porque não Colin Farrel e Liam Neeson. E, assim como este último, capaz de destruir combatentes de peso. Prova disso é sua nomeação como melhor single malt irlandês, na recente World Whisky Awards de 2017.

O Teeling Single Malt é um animal recessivo em seu país de origem. Elaborado exclusivamente de cevada maltada, destilado somente em alambiques de cobre e engarrafado sem filtragem a frio, a 46% – uma graduação relativamente alta para um irish whiskey.

Até mesmo na maturação o Teeling Single Malt é pouco convencional. Seu amadurecimento ocorre em barricas antes usadas por bourbon whiskey. Porém, antes de ser engarrafado, o whiskey é finalizado em uma incrível variedade de barris. Fazem parte de seu processo de finalização barricas usadas anteriormente por vinhos do Porto, Madeira, Borgonhês e cabernet sauvignon.

barricas da Teeling

Longe de ser o resultado de uma aposta, ou uma marca pouco reconhecida buscando destaque por meio de inovações malucas, a Teeling é uma destilaria com tradição. Ela foi fundada por Stephen e Jack Teeling, filhos de John Teeling, antigo proprietário e idealizador da destilaria Cooley, responsável por renomados produtos como Kilbeggan, Tyrconnell e o delicioso – e defumado – Connemara Single Malt.

O Teeling Single Malt é uma das três expressões perenes do portfólio da destilaria. As outras duas são o Teeling Small Batch, que já fez uma pequena participação por aqui, e o Teeling Single Grain Whiskey, que recentemente acompanhou seu irmão de cevada ao pódio, e foi eleito como melhor grain whisky de seu país pela World Whisky Awards.

Tipo: Irish Single Malt Whiskey

Marca: Teeling

Região: N/A

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: frutado (cítrico), com especiarias e açúcar.

Sabor: Frutado, adocicado. Especiarias, mel, baunilha. Final médio, com canela e pimenta do reino.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Macallan Fine Oak 12 anos

O tempo é implacável com certas coisas, mas generoso com outras. Uma vez abordei este assunto, ao falar sobre atemporalidade, a Katy Perry e Like a Virgin. Mas dessa vez, não regressarei nem uma década. Vamos falar de 2012.

Em 2012 a música que emplacou a primeira posição da Billboard foi Somebody I used to Know (Em uma tradução literal, e ironicamente na minha opinião, Alguém que eu Costumava Conhecer), de um cara chamado Gotye, com participação ilustre de uma tal de Kimbra. Temos que reconhecer que o acaso tem seu próprio senso de humor. Porque passados cinco anos, o título da canção tornou-se quase uma piada pronta. Depois desse sucesso estrondoso, nunca mais ouvi falar deles. Nem em noticiário de desgraça.

Também naquele ano a rainha Elizabeth II celebrou o Jubileu de Diamante de seu reinado. Não poderia afirmar que o tempo tratou bem dela – isso seria ir muito longe.  Mas convenhamos, apesar do intervalo de cinco anos, ela hoje não parece nem um dia mais velha. Talvez porque ela já aparentasse a idade naquela época, ou talvez porque ela seja uma versão feminina e monarca do Highlander.

Em 2012 o Trump descobriu o que era uma “ola”

Outra coisa que aconteceu em 2012 foi a saída dos single malts da série Fine Oak da The Macallan do mercado Brasileiro. Entre aquele ano e o seguinte, aquela série foi substituída pela 1824 – os conhecidos Amber, Sienna e Ruby. Depois de um hiato de cinco anos, um de seus representantes está de volta às prateleiras das lojas brasileiras. o Macallan Fine Oak 12 anos.

Os single malts da série Fine Oak da The Macallan são maturados em três diferentes tipos de barricas. Carvalho americano que antes continha bourbon whiskey, conferindo notas de caramelo e baunilha, e uma combinação de barricas que antes contiveram vinho jerez, tanto de caravalho americano quanto europeu, trazendo especiarias e frutas cristalizadas ao whisky. Assim como em um blended whisky, o The Macallan mais jovem na composição do Fine Oak 12 anos terá, obviamente, doze anos de maturação.

Na época de seu lançamento, em 2004, a linha Fine Oak da The Macallan trouxe alguma polêmica aos puristas do single malt. Para aqueles, um The Macallan deveria ser maturado exclusivamente em barricas de ex-jerez, conforme era a tradição da destilaria. A novidade – o uso de barricas de bourbon – seria comparável a adicionar um turbocompressor a um BMW tradicionalmente aspirado. Pode até ter ficado melhor, mas ninguém admitiria. Para eles, aquilo era um absurdo.

Aí vão dois parágrafos inteiros de curiosidades para os whisky geeks. Tradicionalmente, The Macallan é considerado um whisky da região de Speyside. Entretanto, Craigellachie – onde a destilaria  se localiza – faz parte do território das Highlands, de acordo com a autorregulação vigente. A destilaria adquiriu sua licença para funcionar em 1824, mas fora fundada bem antes disso, por um fazendeiro chamado Alexander Reid, que por algum motivo esquisito, resolveu batizá-la de Macallan.

É que a origem do nome Macallan é um mistério até hoje. Algumas teorias envolvem anjos, monges e outras até mesmo o rei Guilherme, o Conquistador. Na versão da história contada pela própria destilaria, ela deriva das palavras “Magh” – algo como “pedaço de terra fértil”, e “Allan“, uma (bem longínqua) modificação de  St. Fillan, um monge irlandês pregava o cristianismo pela Escócia durante o século XVIII. Ainda que este Cão considere a explicação plausível, prefere uma bem mais simples. “Allan” deriva de “Eilean“, que significa “ilha”, “pedra” ou “península”. Então, basicamente, Macallan significaria “ilha fértil” ou “península fértil”. O que, convenhamos, faz bem mais sentido – até porque ela está numa curva do rio Spey.

Né?

De volta ao Macallan 12 anos Fine Oak. Comparado a outros The Macallan disponíveis em nosso país – cuja maturação ocorre exclusivamente em barricas que antes continham vinho jerez – como o Amber e o Ruby, o Fine Oak 12 anos traz mais dulçor e, talvez, mais equilíbrio. Apesar da característica oleosidade da destilaria estar lá, a impressão é que aquele é um single malt mais leve e mais familiar para aqueles acostumados a blended whiskies.

No Brasil, uma garrafa do The Macallan Fine Oak 12 anos custa, em média, R$ 300,00 (trezentos reais). É menos do que seu primo Amber, da série 1824. Na opinião deste Cão, o Fine Oak não é apenas mais acessível no preço. Mas também no paladar. Para aqueles que começaram há pouco tempo a experimentar single malts, ou que nunca provaram um The Macallan, ele é a porta de entrada perfeita. E para aqueles que já o conheciam, mas estavam saudosos de sua presença em nossas terras, trago boas notícias: Assim como a rainha e em oposição ao Gotye, ele continua em plena forma.

MACALLAN FINE OAK 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida (12 anos)

Destilaria: The Macallan

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Aroma de mel e baunilha.

Sabor: mel, baunilha, levemente cítrico e adocicado (laranja lima talvez). Final longo mas suave, com especiarias e baunilha.

Preço: em torno de R$ 300,00

Disponibilidade: lojas brasileiras e na Caledonia Store.

Jameson Bartender’s Ball 2017

segunda feira não é ruim, você que está no lugar errado“. Lembrei-me deste cliché ao chegar ao Estúdio da Tattoo You, em São Paulo, ontem. Mas não para fazer uma tatuagem – ainda que às vezes flerte com a ideia – mas para um dos eventos mais legais do ano. A final do Jameson Bartender’s Ball 2017.

Bartender’s Ball é uma competição internacional de bartenders, em que cada um deve criar um coquetel próprio, utilizando Jameson. No ano passado, o vencedor foi Matheus Cunha, do atual Juniper 44º. Seu coquetel – o Sem Medo –  levava Jameson, cerveja preta, vermute e abacaxi.

Neste ano, além do concurso, o evento ainda foi complementado por uma interessantíssima palestra preliminar do embaixador da Jameson no Brasil, Lucca Campolina, sobre a história e produção do whisky irlandês mais famoso do mundo.

Lucca em ação

A competição contou com vinte e quatro bartenders brasileiros. No final de abril, foram escolhidos seis, que participaram da final brasileira (ou semifinal mundial) naquele 15 de maio, no estúdio da Tattoo You: Edgard da Silva Jr. (LOL Sport e Bar), Stephanie Marinkovic (Espaço 13), Renan Tarantino (Nakka), Felipe Leite (Jiquitaia), Dio Lucena (Peppino), Vanderlei Nunes (Brexó) e Guilherme Araújo (Vidottinho).

Os bartenders deveriam improvisar drinks para três jurados. Destes seis, três foram selecionados para preparar novamente suas criações para os participantes: Stephanie Marinkovic, Renan Tarantino e Guilherme Araújo.

Stephanie preparou o Impetus, inspirada pelo poema Ballad of Reading Gaol, do – também irlandês – Oscar Wylde. A obra fala sobre amor, e sobre como este sentimento corrompe e altera seu objeto. Cada um dos quatro ingredientes do drink representa uma releitura da fase do amor. Além do Jameson, sua criação leva camomila, café, tintura de arroz negro, bitter de lavanda, e (pasme) bacon.

Renan, por sua vez, apostou em ingredientes bastante incomuns. Além do whiskey irlandês, seu coquetel – chamado Sabiá – leva purê de pitanga, compota de abacaxi, falernum do pará (isso é uma espécie de calda de açúcar com castanha do pará, amêndoas, gengibre, imbiriba, puxuri, cravo, semente de cumaru e casca de limão) e limão cravo.

Renan e sua criação (Foto Leo Feltran)

Já Guilherme se inspirou num drinque essencialmente irlandês. O Irish Coffee, e criou sua versão abrasileirada. O Brazilian Irish Coffee, que leva Jameson, xarope de baunilha com canela, suco de laranja, um bitter artesanal preparado pelo próprio Guilherme. O Drink é finalmente defumado com canela, batido e depois coado.

Ao final do evento, o finalista da etapa brasileira foi anunciado. Renan Tarantino, responsável pela coquetelaria do incrível restaurante japonês Nakka. Este Cão teve a oportunidade de provar sua criação, uma excelente combinação entre o cítrico e o adocicado.

A impressão que este Cão teve durante a competição do ano passado permaneceu inalterada.  Jameson Irish Whisky é ótimo para se tomar puro ou com gelo, mas é também excelente para preparar drinks. É um whiskey versátil, que funciona bem em coquetéis amargos, cítricos ou adocicados.

Poderia aqui finalizar este texto passando a receita do coquetel vencedor. No entanto, isto seria nada além de um exercício de futilidade. A criação de Tarantino leva ingredientes que somente seriam os mesmos se criados por suas mãos. Então, vou sugerir algo diferente. Compre uma garrafa do irlandês mais conhecido do mundo e faça sua própria criação. Afinal, no conforto do lar, com uma boa garrafa de whiskey e criatividade, nenhum dia é ruim. Nem mesmo uma segunda-feira.

E se encontrar um destes, compra pra mim!

Do Mimetismo – Evan Williams Bourbon

No domingo passado levei a Cãzinha no zoológico. Em certo ponto do passeio entramos na sala dos insetos. E dentre artrópodes mais ou menos asquerosos, das mais variadas formas, cores e tamanhos, um me chamou bastante a atenção. O bicho pau. Não pelo nome ambíguo, mas por conta de um conceito que lembrava de minha época de biologia, e que expliquei para os olhos fascinados da cria. O mimetismo.

Mimetismo é, segundo o oráculo digital, “adaptação na qual um organismo possui características que o confundem com um indivíduo de outra espécie“. A vantagem principal é enganar outras espécies, fazendo com que o mimetizador se pareça com algo que ele não é. Além do sugestivo bicho-pau, há centenas de exemplos – dentro e fora da biologia. A falsa coral com a coral verdadeira, a borboleta vice-rei com a monarca,o Lifan 320 com o Mini Cooper e aquele sapato da Ardidas, que comprei há uns dois meses e já está se dissolvendo.

As vezes até fica melhor que o original.

O problema do mimetismo, no entanto, é que às vezes ele não é proposital. E, nestas situações, às vezes ele atrapalha mais do que ajuda – principalmente se uma marca tenta estabelecer uma identidade própria e tornar-se conhecida. É o caso, aqui no Brasil, do Evan Williams Kentucky Straight Bourbon, também conhecido como Evan Williams Black, por conta da cor de seu rótulo. Sua garrafa poderia ser facilmente definida como um híbrido entre um Jim Beam White e um Jack Daniels Old No.7.

O mais incrível é que fora de nosso país, o Evan Williams Black é muitíssimo conhecido. É o segundo bourbon whiskey mais vendido do mundo, logo atrás do Jim Beam White Label. Ele é produzido pela destilaria Heaven Hill, também detentora de conhecidas marcas premium de whiskey, como Parkers e Elijah Craig.

Por falar em mimetismo, não é apenas a garrafa que apresenta um visual conhecido. Talvez você já tenha percebido, mas o bourbon leva o mesmo nome do fundador do Twitter, além de um goleiro escocês que jogava pelos Celtics na década de 70. Porém – e perdão se estiver decepcionando alguém aqui – o nome da marca não faz referência a qualquer destes proeminentes indivíduos. Aliás, não faz referência a qualquer dos dez outros Evan Williams listados na Wikipedia (dentre políticos, jóqueis, tenores e artistas), mas sim a um imigrante galês, que mais tarde abriria a (discutivelmente) primeira destilaria comercial do Kentucky, às margens do rio Ohio.

um brinde aos homônimos! (não entendeu a foto? Veja no final do texto).

De volta ao bourbon. A  Mashbill (a composição do mosto) do Evan Williams é de 75% milho, 13% centeio e 12% cevada. O percentual alto de milho traz certo dulçor e suavidade, enquanto que o centeio é responsável pelo sabor levemente apimentado e de especiarias. A cevada fornece um certo corpo, além das enzimas que auxiliam na fermentação do whiskey.

Como todo bourbon whiskey, sua maturação ocorre em barricas de carvalho americano virgens bastante queimadas. A graduação alcoolica é de 43%, algo relativamente incomum no mundo dos bourbons econômicos – a maioria deles possui apenas 40%. O tempo exato que o destilado passa nos barris não é claramente divulgado – como também é o caso da vastíssima maioria dos bourbons. No entanto, segundo o website da Heaven Hill, a maturação ocorre por 4-5 anos.

Em comparação a seu irmão mais refinado já revisto por aqui, o Evan Williams 1783, o Kentucky Straight Bourbon tem finalização mais curta. O sabor de caramelo – bem evidente na versao premium – proveniente das barricas não é tão pronunciado. Porém – ainda que não faça feio ao ser consumido puro – por conta da graduação alcoólica e perfil de sabor, ele é uma alternativa interessantíssima para alguns coquetéis. O website da destilaria, inclusive, traz uma receita de mint julep como sugestão de consumo.

Escondido por coincidências e homônimos, o Evan Williams Kentucky Straight Bourbon é um whiskey honesto, bem feito e com preço justo. Algo raro hoje em dia. E neste mundo de infinitas reproduções, réplicas e recriações que tentam desesperadamente parecer originais, criativas e inovadoras, talvez seja ele – em seu modesto mimetismo – a mais autêntica de todas.

Evan Williams Kentucky Straight Bourbon

Tipo: Bourbon whiskey

Destilaria: Heaven Hill

Região: N/A

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, balinha de doce de leite (!), um certo creme-brulee.

Sabor: baunilha, mel, calda de açúcar. Final médio. Álcool um pouco agressivo, mas que não chega a atrapalhar. Final seco com baunilha.

Preço: R$ 100,00 (cem reais)

Disponibilidade: Lojas brasileiras

* é que a Katy Perry na verdade se chama Katheryn Elizabeth Hudson. Assim como a Kate Hudson!

Drops – Corsair Triple Smoke American Single Malt – Single Malts do Mundo

corsair-triple-smoke-1

Você sabia que os Estados Unidos também produz single malt? E há destilarias espalhadas por quase todo o território americano. Exemplos são a Swift (Texas), Westland (Washington), Colkegan (Santa Fé – Novo México) e a Corsair (Kentucky), que produz esta curiosa garrafa da foto. O Corsair Triple Smoke.

A destilaria Corsair, aliás, tem uma história bem interessante. É que ela foi quase uma obra do acaso. Seus fundadores, Andrew Webber e Darek Bell começaram produzindo cerveja artesanal. Depois, resolveram desbravar novos territórios, e tentaram criar um novo processo para produzir biodiesel. Porém, por mais que tentassem, os experimentos davam sempre errado.

Andrew então, cansado, disse a Darek que produzir biodiesel era muito difícil, e que whiskey seria bem mais fácil. E alguns anos e uma academia de destilação da Bruichladdich depois, a Corsair possui sete produtos diferentes em seu portfólio permanente, e mais de dezenove edições experimentais, limitadas ou anuais. Há destilados para todos os gostos – whiskeys, gins, genevers e coisas meio difíceis de definir, como o Grainiac, um whisky destilado de milho, cevada, centeio, trigo, quinoa, triticale, trigo sarraceno, aveia e um grão que este Cão nunca nem tinha ouvido falar – Espelta.

A Corsair tornou-se famosa por desafiar conceitos e utilizar matérias primas improváveis, como quinoa e triticale. Além disso, para acelerar a maturação, a destilaria faz uso de barricas menores do que as usuais. A maioria de seus produtos matura em barris que variam de 20 a 60 litros.

Barris da Corsair
Barris da Corsair

Apesar de todas as invenções, o Corsair Triple Smoke é um dos produtos mais populares da destilaria. Não é por menos. Ele é o sonho de qualquer maluco por whiskies defumados. É que além da tradicional secagem da cevada utilizando turfa, o Triple Smoke – daí o nome – utiliza mais duas fontes esfumaçadas. Conforme a destilaria “nós pegamos três frações de cevada maltada, cada uma defumada por um combustível diferente – madeira de cerejeira, turfa e faia (beechwood) – para produzir este whisky complexo. Destilado em alambiques e depois tranferido para o barricas de carvalho virgem altamente tostadas, o Triple Smoke possui o dulçor do barril de um whiskey americano, combinado com a fumaça rica de um single malt, potencializada por notas de cereja e faia” Tudo isso dentro de uma garrafa que parece ter saído de um filme de Quentin Tarantino.

O Triple Smoke foi lançado em 2009 – apenas um ano depois da abertura da destilaria – graças a uma ideia de Bell. Segundo ele “em competições, o whisk(e)y é julgado pelo aroma, sabor e finalização (…). Mas um curto-circuito interessante é que eles tendem a ser muito melhor avaliados proporcionalmente às suas idades se forem intensamente defumados“. E a ideia de Bell Funcionou. O Triple smoke recebeu o prêmio de “whisky artesanal do ano” pela Whisky Advocate em 2013.

Por ser um produto artesanal, os lotes são pequenos, e conseguir uma garrafa não é lá muito fácil, nem mesmo nos Estados Unidos. Assim, como você já deve ter presumido, o Triple Smoke não está a venda em nosso país. No entanto, ele – e a Corsair – são provas de que a indústria do whisky não precisa ficar engessada por regras anacrônicas. Produtos muito bons podem ser criados, basta conhecimento, trabalho duro e um incomum brilhantismo.

CORSAIR TRIPLE SMOKE

Tipo: Single Malt Americano

Destilaria: Corsair

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: caramelo, borracha queimada, fogueira.

Sabor: Defumado, caramelo queimado, couro, um pouco amargo. Final adocicado e esfumaçado.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Brooklyn Brewery The Discreet Charm of the Framboisie – Sobre sentido

Existe um certo charme na rebeldia, mesmo quando ela não faz o menor sentido. Prova disto é o – quase indiscutivelmente – mais famoso curta-metragem da história: Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz), de 1929, dirigido por ninguém além de Luis Buñuel e Salvador Dalí (sim, o pintor).

Un Chien Andalou é um filme de dezessete minutos. E nenhum segundo dele faz o menor sentido. Há uma lua, um homem olhando para sua mão perfurada enquanto formigas saem de dentro dela, outro homem puxando um piano com padres e alguns animais mortos. Há mais uma mão – desta vez, decepada – na calçada. E claro, a famosa e aflitiva cena de um olho sendo cortado por uma navalha. Não há qualquer relação entre as cenas. Para falar a verdade, nem o título faz sentido – ele foi criado aleatoriamente pelos dois artistas com a ajuda de um dicionário.

Aflição!

O filme foi concebido por Dalí e Buñuel justamente para chocar o público e – como escreveu um renomado crítico da época – aliená-lo ao invés de agradar. E apesar de pouca coisa fazer sentido, há algo indiscutível em Un Chien Andalou. Sua matéria prima, talvez o único frágil barbante que amarre todas as cenas, são os sonhos. O filme é baseado na linguagem do inconsciente. Outro filme muito famoso de Buñuel, produzido quarenta e quatro anos mais tarde, bebe da mesma fonte: O Discreto Charme da Burguesia.

Ao contrário do Cão – o Andaluz, não eu – O Discreto Charme da Burguesia tem um roteiro cronológico. Ele foca em seis personagens, representantes da classe média-alta da época, que tentam desesperadamente jantar juntos. Apesar das incessantes tentativas, as coisas mais ridículas, absurdas e virtualmente aleatórias acontecem. O mundo do filme não faz sentido, mas todo mundo age como se fizesse. Justamente como ocorreria em um sonho. Mais uma vez, e de uma forma mais descarada aqui, a ideia é chocar o espectador e fazê-lo questionar o sentido de sua própria natureza.

Com base no filme tão surrealista quanto iconoclasta, a Brooklyn Brewery – uma das cervejarias preferidas deste Cão – lançou um experimento curioso. A Discreet Charm of the Framboisie (em português, “O Discreto Charme da Framboesía” – sim, com um “i” a mais, para parecer burguesia), uma sour ale que passa por barricas de Woodford Reserve. A própria cervejaria deixa a relação explícita com o filme em seu site. Segundo eles, um tomo muito antigo e empoeirado foi encontrado na adega da cervejaria. Seu conteúdo era o seguinte:

Framboisie – Pessoas corajosas que bebem sours excelentes, ouvem músicas vivazes, abraçam o funk e passam longe de comida medíocre, pensamentos preguiçosos, estilo de vida baseado no medo e filmes que possuem mais CG do que pessoas. Surgiram em resposta à burguesia, um grupo chato e vazio, ridicularizado no filme surrealista de Luis Buñuel, vencedor do Oscar, em 1972 – O Discreto Charme da Burguesia’ Os Framboesía são homenageados na produção da Brooklyn de 2016, em seu “O Discreto Charme da Framboesía”, dirigido por nosso mestre cervejeiro Garrett Olivier.

A Discreet Charm of the Framboisie é uma sour ale que leva malte de cevada, trigo e espelta. Ela é maturada em barricas do bourbon Woodford Reserve, cada uma contendo sete quilos de framboesas frescas. Por fim, a cerveja passou por uma refermentação na garrafa, com Brettanomyces e levedura de champagne. Mais uma vez, de acordo com a própria Brooklyn, “O resultado é uma cerveja vivaz e seca, de cor laranja-avermelhado. Um profundo e fresco aroma de framboesas é sustentado pelas notas de baunilha provenientes da maturação nos barris de carvalho de bourbon, com o azedo característico da levedura selvagem Brett”.

A Brooklyn certamente sabe!

Para este Cão, a Discreet Charm of the Framboisie é uma experiência quase enológica. Há um certo sabor de framboesas, complementado pelo sabor natural azedo da cerveja. A influência do barril é tímida.  Ele está lá apenas para unir todos os pontos – assim como os sonhos no Cão Andaluz – e arredondar a cerveja.  O final é progressivamente mais adocicado.

Eu poderia aqui dizer que se você gosta de sour ales, cervejas maturadas em barricas de whisky ou mesmo vinhos (há uma curiosa proximidade aqui), a Discreet Charm of the Framboisie é a sua cerveja. Mas na verdade, não. Na verdade, ela é a sua cerveja mesmo se você não gosta destas coisas. Ela é a cerveja perfeita para tirá-lo de sua zona de conforto e mesmo assim surpreende-lo positivamente. E ao contrário de um filme surrealista, depois dela, tudo fará mais sentido.

BROOKLYN BREWERY THE DISCREET CHARM OF THE FRAMBOISIE

Tipo: Sour Ale maturada em barricas de whiskey

Cervejaria: Brooklyn Brewery

País: Estados Unidos

ABV:

Notas de prova:

Aroma: framboesa (!), frutas vermelhas e cítricas.

Sabor: ácido, cítrico. A framboesa está lá, mas se confunde com o sabor naturalmente ácido da cerveja. Há um final quase adocicado e frutado.

Preço sugerido: R$ 300 (trezentos reais)

 

 

Sobre Aperol e Aeronaves – Paper Plane – Drink do Cão

Vou contar uma coisa pra vocês. Se vocês acharem muito esquisito, ou ficarem revoltados, paciência. Podem fechar o navegador, deixar de seguir o Cão no Instagram e me bloquear no Facebook. Pensei por muito tempo se deveria ou não contar isso, porque, afinal, em um mundo tão polarizado e ao mesmo tempo cheio de verdades absolutas, é sempre difícil assumir que se tem uma opinão diferente do que parece ser um consenso quase geral. Demanda um certo sangue frio e maturidade para enfrentar as consequências. Mas vou falar. Não gosto de Nutella.

Mentira, Não é que eu não gosto de Nutella. Eu não gosto de frango, o que é bem diferente. Mas eu eu simplesmente não ligo pra Nutella. Nunca entendi o fervor online causado por essa pasta. E isso me incomoda um pouco, porque me sinto excluído desse Zeitgeist gastronômico. Especialmente quando não compartilho do entusiasmo causado por coisas relacionadas que levam os outros à loucura. Como, por exemplo, um enroladinho de nutella e bacon, que encontrei num site de receitas online recentemente. A Nutella encabeça uma longa lista de coisas que não me incomodam, mas também não me emocionam – outras são camarão, pizza, The Beatles (é, eu sei, eles foram revolucionários, okey) e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, que até é legal, mas vamos colocar a mão na consciência, né?

Tenho esse mesmo sentimento de pacífica indiferença com um coquetel bastante popular nos dias de hoje. O Aperol Spritz. O Aperol Spritz é uma mistura entre prosecco, Aperol e club soda. Passei um bom tempo refletindo a razão de não ligar para aquele coquetel, afinal, era uma combinação difícil de desagradar. E aí concluí que, provavelmente, era porque não levava o único ingrediente essencial capaz de tornar tudo excelente. Bourbon whiskey.

Nutella dos coquetéis

Então pesquisei drinks que tivessem mais ou menos os mesmos ingredientes, mas que levassem aquele photoshop da coquetelaria. E esbarrei em uma jovem e excelente criação. O Paper Plane – uma espécie de “aperol-whiskey”, se “aperol-whiskey” existisse.

O Paper Plane foi criado em 2007 pelo bartender Sam Ross, para um restaurante chamado  The Violet Hour, localizado em Chicago. Segundo Ross, o Paper Plane é seu segundo coquetel mais famoso depois do Penicillin – um drink que emociona este Cão tanto quanto Nutella emociona quase todo mundo. Ainda de acordo com seu criador, o drink foi assim batizado em homenagem à música “Paper Planes”, da rapper britânica M.I.A., que ele teria escutado enquanto desenvolvia a receita. Porque, afinal, ninguém tem bom gosto em tudo.

Além de Aperol, o coquetel leva Amaro Nonino, sumo de limão siciliano e, claro, bourbon whiskey. O coquetel tem um perfil relativamente equilibrado entre o cítrico (do limão siciliano) e o adocicado (do Aperol). Então, para não interferir muito na balança, preferi utilizar o Jack Daniel’s Single Barrel, um bourbon que não tende nem para o apimentado (como o Bulleit) nem para o doce (como o Maker’s Mark). No entanto, sintam-se à vontade para usar o whiskey de sua preferência.

Sem mais prolações, meus caros leitores. Desfaçam seus aviõezinhos de papel e tomem nota deste incrível coquetel – na opinão deste Cão, bem melhor do que uma colherada de nutella, e seguramente superior a um Aperol Spritz. O incrível Paper Plane.

PAPER PLANE

INGREDIENTES

  • 3/4 dose de Aperol
  • 3/4 dose de Bourbon ou Kentucky Whiskey
  • 3/4 suco de limão siciliano
  • 3/4 dose Amaro Nonino (você pode tentar substituir por Benedictine, mas este Cão não arriscaria outra coisa).
  • gelo
  • Coqueteleira
  • Taça Coupé ou de Martini

PREPARO

  1. Adicione os ingredientes em uma coqueteleira com bastante gelo.
  2. Bata vigorosamente e desça em uma taça coupé ou de martini gelada.

 

 

 

 

 

Drops – Cachaças Sebastiana

 

Nada como um programa cultural no domingo para escapar um pouco da rotina. Como, por exemplo, o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Caso você more ou esteja de passagem pela (progressivamente) cinzenta capital paulista, vale a pena conhece-lo.

A ideia do Museu – um casarão de estilo neoclássico construído na década de quarenta – é mostrar a arquitetura e design brasileiros, tanto do passado quanto contemporâneo. Há, inclusive, um prêmio de design criado por eles, para justamente incentivar a produção de peças de mobiliário autorais e arquitetura.

E apesar de mobiliário e arquitetura serem assuntos bacanas, a real razão pela qual o Cão visitou o museu foi outra. É que ocorreu no fim de semana do dia 08 de dezembro a Feira Sabor do Brasil – uma feira gastronômica com alguns dos melhores produtores brasileiros de quase tudo que é comestível ou bebível: queijos, embutidos, pipoca, pães, queijos (e que queijos!), doces, gim (Virga, que já esteve nestas páginas caninas) e, claro, cachaça – a ótima Sebastiana, que o Cão teve a oportunidade de conhecer e provar.

Se você está se perguntando por que o Cão está falando de cachaça, a explicação é simples. A Sebastiana é uma cachaça, mas inspirada no melhor do mundo do whisky. Isso fica bem claro na descrição que acompanha uma de suas expressões, batizada de Duas Barricas, que ilustra este drops “A associação dos conhecimentos adquiridos na Escócia (terra dos Single Malts) e do Kentucky (terra do Bourbon nos Estados Unidos), foram base para a criação desta bebida de sabor inigualável no mercado.”. Pronto, agora que tiramos isso da frente, podemos continuar.

A Sebastiana é uma cachaça super-premium, produzida no Alambique Santa Rufina, localizado em Ibaté, no interior de São Paulo. Há quatro expressões: Cristal (sem maturação), Castanheira (maturada em barricas de castanheira), Single Barrel (no melhor estilo small-batch whisky, uma cachaça maturada em barricas virgens de carvalho, e engarrafada a partir de um único barril) e Duas barricas (um verdadeiro Doublewood brasileiro – maturada por 18 meses em barril de Castanheira brasileira e mais 18 em barril de Carvalho americano – absolutamente genial).

Museu ao fundo

As cachaças da Sebastiana já receberam tantos prêmios internacionais quanto alguns dos melhores whiskies. Nas orgulhosas palavras da própria marca “Em 2014, a Sebastiana Castanheira foi medalha de ouro no San Francisco World Spirits Competition e no New York World Wine & Spirits Competition, enquanto que a Sebastiana Carvalho recebeu medalha de prata no New York World Spirits e Wine & Spirits Competition e medalha de bronze no International Spirits Challenge de Londres.

A feira infelizmente já acabou. Mas se você ficou curioso com a Sebastiana, pode experimentá-la em bares como Cão Véio, Sal Gastronomia, Bar Baronesa e Empório Sagarana ou comprar a garrafa nas lojas do Eataly, Empório Santa Maria e St. Marché em Sâo Paulo, ou online na Single Malt Brasil. No interior de São Paulo, ela está a venda no Empório Santa Therezinha e Museu da Gula, em Ribeirão Preto e Campinas.

Ah, e se gosta de cerveja, há também a Jupiter Sebastiana, uma cerveja maturada nas barricas que foram usadas para maturar a cachaça. Porque claro, whisky é a melhor bebida do mundo. Mas as vezes a gente quer escapar da rotina.