Fascinação – Glenfiddich 12 Anos

 

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Sabe, crescer é engraçado. Digo isso em parte por experiência própria mas, principalmente, por observar a querida Cãzinha. Para ela, até o mais trivial é fascinante. Já muitas vezes a surpreendi mesmerizada com coisas tão simples como o brilho de uma colher, um risco em um papel ou mesmo seu próprio cabelo.

A abordagem dela é de fazer inveja a qualquer pesquisador. Há certa curiosidade inconsequente, que – em muitos casos – lhe permite fazer coisas que me deixam absolutamente maluco. Como, por exemplo, cutucar as patas de uma barata morta, avaliar a consistência do cocô do cachorro e enfiar brinquedos de plástico na torradeira.

Talvez o que direi em seguida possa ter uma faceta pessimista. Mas não é isso. Na verdade – como diz todo pessimista – é uma simples constatação cristalina. À medida que vamos crescendo, cada vez menos nos fascinamos. Crescer, dentre muitas outras coisas, é trocar involuntariamente fascínio por experiência. E isso não é necessariamente ruim. Mas é também a razão pela qual muitas vezes escolho me acomodar no sofá com um copo na mão a conhecer um lugar novo com a Cã.

Há, no entanto, uma parte interessante sobre a experiência. Que é a de redescobrir coisas. Ver novamente aquele filme que você tanto gostava. Ou reler um livro, lido há mais de dez anos, e perceber nele uma profundidade completamente nova. A experiência enriquece a redescoberta, que dá espaço para uma fascinante surpresa.

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Esse não vale.

Tive essa sensação há algumas poucas semanas, quando reexperimentei, após bons anos, o Glenfiddich 12 anos. Aquele, que fora um dos meus primeiros single malts, e que considerava conhecer muito bem, ainda que raramente o tomasse. Porém, ao contrário de minha expectativa, prová-lo novamente foi uma experiência completamente nova, sucedida pela mesma constatação que fiz daquela primeira vez. O Glenfiddich 12 anos continua excelente.

O Glenfiddich 12 anos talvez seja a escolha mais óbvia para aqueles dispostos a se fascinar no mundo dos single malts. Ele possui um preço bem convidativo e qualidade irrepreensível. É complexo para sua idade. Além disso, ele é praticamente onipresente. O Glenfiddich 12 anos está na prateleira do supermercado, na loja especializada e atrás do balcão naquele restaurante. E, também, muito provavelmente, no armário de bebidas da casa daquele seu amigo, ainda que ele nunca tenha dado a devida atenção àquela garrafa.

Esta onipresença não é difícil de explicar. Glenfiddich foi a primeira destilaria a engarrafar e vender internacionalmente seu single malt, na década de 1960. Este pioneirismo lhes rendeu frutos. Atualmente, é o campeão de vendas, quando o assunto é single malt. E o Glenfiddich 12 anos é, naturalmente, sua expressão mais vendida.

Ao contrário da tendência da indústria, que é a utilização de vapor, alguns alambiques em Glenfiddich ainda utilizam fogo direto como forma de aquecimento. O resultado é um destilado mais aromático, encorpado e oleoso. O fogo direto tem sido cada vez menos utilizado por aumentar bastante o custo de manutenção – e reduzir o tempo de substituição – dos alambiques.

A maturação do Glenfiddich 12 anos ocorre tanto em barricas de carvalho americano, que antes maturaram bourbon whiskey,como nas de  carvalho europeu, que continham vinho jerez. Após doze anos de maturação, estes whiskies são casados e por pelo menos mais 3 meses descansam em pequenos tonéis de 2000 litros para finalização.  A destilaria não divulga a proporção exata deste “casamento” de barricas, mas sentimos a assinatura Glenfiddich já no aroma adocicado, o que denota a predominância das barricas ex-bourbon.

Glenfiddich possui uma história interessante de pioneirismo. A destilaria pertence até hoje à família de seu fundador, William Grant. Fundada em 1887, ela foi inteiramente construída por William, que ganhara experiência como gerente da destilaria Mortlach. Veja bem, inteiramente construída por ele e, seus nove (eu disse nove) filhos e a esposa, Elizabeth. Este sim era um senhor que se mesmerizava pelo fascínio de sua prole.

Além de um reprodutor exemplar, William foi um cara empreendedor e ambicioso. Em 1892 – mais uma vez com o auxílio de um exército familiar – fundou sua segunda destilaria, há poucos metros da primeira. A também famosíssima The Balvenie.

Greve dos filhos de John Grant
Greve dos filhos de William Grant

Durante quase um século a produção de Glenfiddich foi dedicada aos blended scotch whiskies.  Como você já deve ter deduzido pelo sobrenome deste distinto senhor, a Grant’s. Sua expressão Family Reserve foi durante muitos anos o whisky mais vendido do Brasil.

Foi apenas em 1963, que Sandy Gordon, bisneto de William Grant, engarrafou o precioso líquido produzido por sua família em Glenfiddich, e levou para Nova Iorque para apresentar ao maior mercado dos blended scotch whiskies do mundo naquela época. Foi um sucesso total. Estava criada a hoje mundialmente conhecida categoria dos Single Malt Scotch Whiskies. O icônico formato triangular do recipiente, porém, foi introduzido somente em 1969.

No Brasil, uma garrafa do Glenfiddich 12 anos custa pouco mais de R$ 200,00 (duzentos reais). Além dele, a Casa Flora – sua importadora oficial – traz mais quatro expressões para o país. O 15 anos, 18 anos, 21 anos e 26 anos. As duas primeiras já revistas nestas páginas caninas.

O Glenfiddich 12 anos é um whisky que apela tanto para aqueles que estão na fascinante fase das primeiras descobertas no campo dos single malts, quanto para aqueles já mais experientes. Segundo os donos da destilaria e entusiastas da categoria é passagem obrigatória para que se entenda o caráter de um single malt e principalmente a personalidade de um whisky da região do Speyside. Ele é o tipo de single malt que merece ser revisitado, de tempos em tempos. Nem que seja somente para reafirmar uma experiência e novamente se fascinar.

GLENFIDDICH 12 ANOS

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 12 anos

Destilaria: Glenfiddich

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Cítrico, com mel e levemente floral.

Sabor: Frutado, cítrico, com mel e nozes. O sabor vai tornando-se progressivamente mais apimentado.

Com água: A água reduz os sabores cítricos e de especiarias.

Preço: R$ 230,00 (duzentos e trinta reais)

(Um pouco mais que um) Drops – Laphroaig An Cuan Mór

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Sabe, nunca fui muito de praia. Gosto muito da sensação proporcionada pelo mar. Aquele leve embalo, quase caótico, que nos puxa e traz de volta à areia. Mas todo o resto não me atrai muito. A começar pela areia nos lugares errados. E pela sensação de viscosidade proporcionada pela água salgada evaporando sob o sol. Ah, e passar protetor solar.

No entanto, gosto muito do oceano. Algo misterioso. Belo, imponente e enigmático. O mar sempre me proporcionou certo fascínio. Mas não só ele. Estes adjetivos se aplicam perfeitamente também ao An Cuan Mor, um single malt sem idade definida produzido pela destilaria favoria do Príncipe Charles, a Laphroaig.

Não por acaso, An Cuan Mor traduz-se literalmente, como “O Grande Oceano”, em gaélico. É um whisky defumado, mas ao mesmo tempo adocicado, com sabor de frutas vermelhas, cítrico e com um final irresistivelmente adocicado e aromático. Apesar de não ter idade estampada no rótulo, a expressão pode se passar facilmente por um single malt com idade superior aos dezoito anos.

De acordo com a própria Laphroaig, “esta expressão singular é a celebração da arte da Laphroaig, com a seleção dos melhores lotes por nosso distillery manager, por conta de seu sabor excepcional. Todos foram maturados em barricas de primeiro uso de carvalho americano de ex-bourbon, em nosso armazém contíguo ao oceano Atlântico. Este whisky foi então recolocado em barricas e deixado para descansar no melhor do carvalho europeu. O resultado é uma fusão extraordinária de sabores, com nossa turfa medicinal aliada a suaves notas picantes e de caramelo  proporcionadas pelo carvalho americano, e a riqueza do damasco e passas do carvalho europeu. Finalmente engarrafado e não filtrado a frio (…). Qualquer coisa que possa resistir por duzentos anos ao oceano Atlântico merece um certo reconhecimento”.

Contíguo MESMO.
Contíguo MESMO.

A explicação da Laphroaig é tão poética que, talvez, um detalhe tenha passado despercebido. Não se menciona o conteúdo anterior das barricas de carvalho europeu. E aí vai a surpresa. O conteúdo não é mencionado porque ele simplesmente não existe. O An Cuan Mor é um dos pouquíssimos whiskies escoceses que utiliza barris virgens daquela madeira para sua maturação. Na verdade, ele é maturado por aproximadamente dez anos em barricas de carvalho americano que contiveram bourbon whisky da Maker’s Mark, e finalizado por mais um par de anos no quercus robur. Tudo, claro, ao lado do mar.

O Laphroaig An Cuan Mor é uma das mais queridas expressões de uma das mais esmeradas destilarias deste Cão. Além disso, nesta singela opinião canídea, ele é uma prova líquida – literalmente líquida – de que whiskies sem idade definida podem ser até mesmo superiores àqueles bastante maturados. Basta que sejam produzidos com cuidado, técnica e criatividade.

Mas este que vos escreve não é o único admirador da destilaria de Islay. Ela é a preferida do príncipe Charles. Ele gosta tanto da destilaria que, na visita que fez à Laphroaig para conceder-lhe o Royal Warrant (uma espécie de selo de qualidade concedido pela família real) destruiu o avião que pilotava em um pouso desastroso, apenas para passar algumas horas a mais na destilaria. Na oportunidade, além de arrebentar uma aeronave de vinte e cinco milhões de dólares, destruir a cerca de uma fazenda e assustar mortalmente um rebanho de ovelhas, o príncipe provou quase o portfólio inteiro da destilaria. Sorte que o avião ficou inutilizado, porque se pousar sóbrio já foi difícil, imagino como seria decolar de lá embriagado.

O An Cuan Mor não é um whisky muito fácil de se encontrar. Ele está disponível em alguns aeroportos internacionais, mas sua disponibilidade é relativamente limitada. Assim, se você é apaixonado pelos whiskies defumados e cruzar com um destes, não deixe de experimentar. Ele é quase um mergulho no mar. Com a vantagem que você nem precisa tomar banho depois.

LAPHROAIG AN CUAN MOR

Tipo: Single Malt csem idade definida

Destilaria: Laphroaig

Região: Islay

ABV: 48%

Notas de prova:

Aroma: turfado e defumado. Frutado, com um fundo de mel e baunilha.

Sabor: Início defumado, que progressivamente vai se tornando mais adocicado, passando das frutas vermelhas para o mel e finalizando em baunilha e especiarias.

Drink do Cão – Remember the Maine

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A marinha brasileira já fez uma enorme contribuição para o mundo da coquetelaria. Se, para você, essa frase não faz o menor sentido, não se preocupe. Ela não faz mesmo. Mas se você considerar uma sequência de eventos de causa e consequência – às vezes, consequências indiretas – a frase se torna curiosamente verdadeira. E é essa a história que vou contar hoje. De trás pra frente, para ter mais graça.

Em 1895 foi comissionado o USS Maine, um encouraçado de guerra da marinha americana. Um encouraçado que teria caído no esquecimento, não fosse seu naufrágio poucos anos mais tarde. O USS Maine afundou no porto de Havana, Cuba, em fevereiro de 1898, devido a uma enorme e repentina explosão. E ainda que a razão da explosão nunca tenha sido devidamente esclarecida, os americanos acharam de bom tom culpar a Espanha.

Foi (quase) assim.
Foi (quase) assim.

Por que? Bem, porque o USS Maine estava no porto de Havana justamente para proteger os interesses norte-americanos – leia-se, o domínio dos Estados Unidos – durante a revolta cubana conta a Espanha. Esta revolta, mais tarde, culminou na independência da ilha. E, na cabeça da imprensa estadounidense – que contava com nomes bem respeitados hoje em dia, como Pulitzer e Hearst – a explosão do encouraçado não poderia ter sido simplesmente uma coincidência.

O afundamento do USS Maine foi o estopim para a  Guerra Hispano-Americana, um (nem tão) sanguinário e (muito pouco) duradouro conflito. A guerra, que teria levado pouco mais de dez semanas, no entanto, foi extensamente noticiada nos Estados Unidos. E, para a imprensa, a principal razão do conflito teria sido, justamente, o naufrágio do encouraçado.

Com cobertura ostensiva da mídia impressa, a opinião do povo norte-americano se voltou rapidamente contra a Espanha. E o grito de guerra com a rima mais estúpida da história foi criado: “Remember the Maine, to hell with Spain” (lembre-se do Maine, e para o inferno com a Espanha).

E pelo jeito, o USS Maine foi mesmo lembrado. Porque em 1939, Charles H. Baker, o autor americano especializado em coquetelaria e cozinha mencionou o navio em seu livro “The Gentleman’s Companion: Being an Exotic Drinking Book or Around the World with Jigger, Beaker and Flask” ao falar de um coquetel batizado com a primeira parte do grito – Remember the Maine. Aliás, o livro de Baker faz exatamente o que se propõe, e o que seria o sonho de todo hipster dos dias de hoje. Dar uma volta ao mundo experimentando e contando sobre os mais exóticos coquetéis.

De acordo com Baker, “Remember the Maine, uma memória fugaz de uma noite em Havana durante os desprazeres de 1933, quando cada gole era pontuado pelo som de bombas explodindo no Prado ou o barulho de balas de 3’ sendo atiradas no Hotel Nacional, o abrigo para certos oficiais antirrevolucionários.”

Baker. Uma volta ao mundo de copo em copo
Baker. Uma volta ao mundo de copo em copo

O Remember the Maine é, na verdade, uma variação de um Manhattan, já revisto nestas páginas caninas. A diferença fica por conta da proporção, da ausência de bitters e da inclusão de licor de cereja e absinto. Pensando bem, com tantas mudanças, não sei se iria tão longe a ponto de afirmar que é uma variação. Talvez seja apenas um coquetel diferente, mas com o mesmo perfil.

Bem, você provavelmente chegou até aqui sem entender o papel da marinha brasileira nessa história toda. Eu conto. É que o USS Maine somente foi criado e comissionado como uma resposta a um navio brasileiro, o Encouraçado Riachuelo, construído no Reino Unido em 1883.

Mas o mais interessante da história toda é que antes de tudo isso, o Governo Norte-Americano teria sido pressionado a construir o USS Maine. Pressionado pela imprensa, que considerava a marinha americana inferior àquela que teria se desenvolvido nos países da América Latina, como o Brasil. Aliás, a mesma imprensa que noticiou o naufrágio do USS Maine como tendo sido um ato de guerra.

Assim, prezados leitores, preparem suas taças. Porque aí vai mais uma receita de coquetelaria deste perro embotellado. Ou bottled dog, dependendo do lado que estiver do conflito. Mas, independentemente disso, levante a taça e brinde às causas e consequências da história. E ao perene papel da imprensa desde sua criação. Ah, e claro, remember the Maine.

REMEMBER THE MAINE

INGREDIENTES

  • 2 doses de Rye Whiskey (este Cão utilizou o Wild Turkey 101 Rye. No entanto, caso não tenha acesso a um Rye, sua melhor aposta será o recém-chegado Bulleit Bourbon).
  • ¾ de dose de Vermute tinto
  • 2 colheres de chá de licor de cereja (Cherry Heering)
  • ½ colher de chá de absinto
  • Gelo

PREPARO

Aqui você tem duas opções. A primeira é juntar todos os ingredientes em um mixing glass, ou em algum recipiente para misturar, junto com bastante gelo. O livro de Baker dá uma curiosa dica nesta parte: “Mexa vigorosamente no sentido horário. Isto o faz pronto para o mar, presumivelmente!

A segunda é pegar a taça coupé ou de martini que será usada para servir o drink, despejar o absinto e girá-la, como se estivesse untando a taça, e descartar o excesso de absinto. Isso faz com que a taça fique com o aroma do destilado. Depois, reunir os demais ingredientes no mixing glass e misturar, como na opção 1.

Por fim, e independentemente da opção escolhida, com o auxílio de um strainer ou uma peneira, coar o gelo e descer na taça coupé ou taça de Martini.

Curso Avançado de Whisky – Whisky Academy

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Quer aprender um pouco mais sobre whisky? Então conheça a primeira edição do Curso Avançado de Whisky, da Whisky Academy.
 
A ideia do curso é fornecer ao participante um panorama sobre a bebida, incluindo métodos de produção – destilação, influência dos diferentes tipos de carvalho, cereais utilizados na produção e seu impacto no produto final – origem da bebida, história, coquetéis com whisky, legislação (brasileira e internacional) dentre outros assuntos.
 
Além disso, serão degustados, conforme os padrões estabelecidos pela Wine and Spirits Education Trust de Londres, 24 (vinte e quatro) rótulos, incluindo blended whiskies, single malts com e sem idade, rye whiskeys, bourbons e tennessee whiskeys. O participante também terá a oportunidade de experimentar alguns rótulos que não estão disponíveis no mercado brasileiro.
 
A equipe de professores é formada por alguns dos melhores especialistas em whisky no Brasil como: Cesar Adames, professor pela Wine and Spirits Education Trust de Londres (WSET) e com mais de vinte anos de experiência no mercado de destilados, Alexandre Campos, formado também pela WSET, reconhecido como um dos maiores especialistas em whisky no Brasil pela publicação internacional Malt Whisky Yearbook, e Maurício Salvi, criador e apresentador do canal Maurício Salvi no Youtube, especializado em prova de whiskies.
 
Eles também convidaram este Cão – formado pela WSET e com cursos e degustações em destilarias como The Macallan e Glenfiddich – para fazer parte do time, que terá o prazer de apresentar-lhes um módulo sobre blended whiskies.
 
Serão, ao todo, quatro dias de aula, totalizando carga horária de dez horas. O curso se realizara na Casa do Porto Vinhos Finos, sempre às segundas-feiras, nos dias 29 de novembro, 05, 12 e 19 de dezembro.
 
O valor do curso é R$ 995,00 (novecentos e noventa e cinco reais) para pagamento à prazo ou cartão, ou R$ 895,00 (oitocentos e noventa e cinco reais e cinquenta centavos) para pagamento à vista no boleto bancário.
Interessou? Então garanta sua vaga clicando aqui.

Bloqueio – Whyte and Mackay 13 (The Thirteen)

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Essa semana estava sem imaginação para um novo texto. Observava, com olhar fixo, a página em branco do documento à minha frente, enquanto percorria em minha mente tudo aquilo que já tinha visitado neste blog.  Não sabia que whisky reveria, e, pior, não tinha a mais rasa ideia de como introduzi-lo.

E enquanto me esforçava para pensar em qualquer coisa que pudesse ser minimamente usada em um texto, veio-me uma frase que é comumente atribuída a Hemingway. Escreva bêbado, edite sóbrio. Concluí, com certo entusiasmo, que era aquilo que precisava. Beber um whisky, que me ajudaria a escolher o whisky que beberia – e escreveria – em seguida.

Uma visita a dispensa. Lagavulin. Ardbeg. Glenfarclas. Nada disso. Enquanto pensava, precisava de algo mais leve. Algo que pudesse beber despreocupado, e que me auxiliaria a refletir e lubrificasse minha mente. Algo despretensioso, mas que me estimulasse a tomar o próximo gole quase involuntariamente.

O escolhido logo brilhou para mim. Um Whyte and Mackay 13 anos. Em um copo baixo, logo servi uma generosa dose. Afinal, caso tivesse que me levantar da cadeira novamente para completar o copo, poderia perder a concentração. Melhor pecar pelo excesso.

Né?
Né?

Com o primeiro gole, comecei a pensar. Talvez pudesse fazer uma prova sobre algum single malt relacionado àquele blended whisky. Afinal, em seu coração estavam Fettercairn, Tamnavulin e Dalmore. Esta última, uma das mais respeitadas destilarias de toda a Escócia, famosa por produzir edições exclusivas caríssimas, maturadas em alguns dos melhores barris à disposição no mercado.

Meus pensamentos começaram a perder o foco. Recordei sobre a maturação do Whyte and Mackay 13. Na verdade, a dupla – ou melhor, tripla – maturação, algo bem incomum no mundo dos blended whiskies. É que primeiro os single malts – já maturados – são reunidos e transferidos para barricas de carvalho europeu que antes contiveram vinho jerez. Depois, essa mistura é retirada e o whisky de grão é adicionado. Por fim, o blend sofre uma segunda maturação – ou terceira, considerando os single malts – naquelas mesmas barricas de carvalho europeu.

Me perdi um pouco na divagação. Lembrei que o Master Blender, responsável pela criação e pela qualidade dos Whyte Mackay é Richard Paterson, mais conhecido como “The Nose” (O Nariz). Ri ao recordar que há uma apólice de seguro sobre seu nariz, no valor aproximado de 2,5 milhões de libras, pelo Lloyd’s Bank of London.

Tudo isso?
Tudo isso pelo meu nariz?

Mais um gole para retomar as rédeas da minha imaginação. História. Talvez pudesse contar alguma história, para introduzir certo whisky. Uma que fosse interessante, clássica, como a da Whyte & Mackay. Originária da Allan & Poynter, empresa sediada em Glasgow e gerenciada por James Whyte, em 1844. Ele e Charles Mackay comercializavam e armazenavam whiskies, eventualmente trocando barricas entre si. Isso teria culminado na parceria entre os dois, e o lançamento de seu próprio rótulo de blended whisky, o Whyte & Mackay Special, em 1882.

Pensando bem, não, nada de história. Dessa vez, eu escolheria pelo preço. Reveria um whisky cujo custo benefício fosse bom, ainda que não fosse exatamente uma pechincha. Como, por exemplo, o Whyte and Mackay 13 que estava tomando. Duzentos e deis reais, na média, por uma garrafa de um litro.

O derradeiro gole. Observava o fundo do copo com olhar fixo, enquanto percorria em minha – já um pouco obnubilada – mente qual finalmente seria o whisky a ser revisto. Mais uma visita à dispensa. Mortlach, Glen Scotia, Ledaig. Não, nada daquilo também. O que queria mesmo era aproveitar minha tarde sossegado, na companhia de uma boa garrafa de whisky.

Com certo esforço, alcancei novamente o Whyte and Mackay 13. Puxa, que blend interessante. Outro dia, talvez poderia escrever uma prova sobre ele. Quem sabe.

WHYTE AND MACKAY 13 (THE THIRTEEN)

Tipo: Bended Whisky com idade definida – 13 anos

Marca: Whyte & Mackay

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: chocolate, frutas vermelhas, cítrico (limão siciliano), pão.

Sabor:  Leve, adocicado, frutado. Especiarias, com final progressivamente mais adocicado. Sensação do álcool é surpreendentemente suave para um blend de sua idade.

Com água: A água reduz o sabor adocicado, e deixa o sabor de frutas mais pronunciado.

Preço médio: R$ 210,00 (duzentos e dez reais)

O Cão Farejador – Blanton’s

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Este Cão, sempre preocupado que seu público beba melhor, resolveu criar aqui um serviço de utilidade pública. O Cão Farejador. A ideia é trazer de vez em quando – ou seja, sem nenhuma periodicidade e quando der – notícias sobre garrafas incomuns, raras ou indisponíveis no Brasil, que, por sorte ou destino, este Cão encontrou ao visitar certo bar ou restaurante.

Assim, você, leitor, terá a oportunidade de experimentar, por conta própria, coisas que provavelmente não imaginaria que estivessem tão próximas. Principalmente se você morar em São Paulo, quartel-general deste canídeo blog.

E a primeira garrafa a ser apresentada nesta ilustre seção é o Blanton’s Special Reserve. Um bourbon whiskey com 40% de graduação alcoólica, disponível no Bar Cateto Pinheiros. Pouquíssimas garrafas restaram de uma importação feita oficialmente há mais de uma década. E o pessoal sempre diligente do Cateto conseguiu colocar as mãos em alguns destes belos exemplares.

O Blanton’s Special Reserve é a expressão de entrada da Blanton’s. Cada garrafa é proveniente de um único barril – o que, na prática, significa que pode haver pequenas variações entre garrafas de barricas diferentes.

A composição da mashbill do Blanton’s Special reserve leva milho, centeio e cevada maltada. O destilado entra na barrica a 62.5% – o máximo permitido pelas regras norte-americanas – e depois é diluído até atingir 40%. Não há informação sobre o tempo de maturação, que ocorre em barricas de carvalho americano virgens, altamente tostadas.

Já o Cateto Pinheiros é um bar de bom gosto. A decoração é quase industrial, a trilha sonora – composta por bluegrass e classic rock – é irrepreensível e o cardápio dá até ansiedade de ler. São mais de noventa rótulos de cerveja criteriosamente selecionados, pratos que levam uma infinita variedade de embutidos e queijos e, claro, praticamente todas as marcas de bourbon whiskey disponíveis em nosso país.

paraíso defumado
paraíso defumado

A coquetelaria do Cateto também é ótima. A carta, montada originalmente por Fernando Lisboa – nosso consultor em tempo livre para assuntos de mixologia – e com adições e criações de Thiago Nego, atende a todos os gostos, inclusive dos apaixonados por fumaça, como este Cão. Há um coquetel chamado Smoking Guy.

Aliás, falando em fumaça, pode-se fumar charuto em um parque, na frente do bar. Tomando um Blanton’s, talvez?

Onde: Cateto Pinheiros – R. Francisco Leitão, 272 – Pinheiros, São Paulo – SP, 05414-011

Drink do Cão – Mint Julep

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Sabe, o mundo é cheio de pretextos. De razões coadjuvantes para desculpas protagonistas. Inventamos motivos importantes para tudo aquilo que nos parece frívolo ou, na verdade, simplesmente secundário. Porque com uma boa razão, quase tudo que estiver dentro do discutível limite da moralidade, se justifica. Ou, ao menos, torna-se mais leve.

É o caso, por exemplo, daquele outro Cão, amigo meu, que queria muito ver a Playboy da Luana Piovani, e disse para sua Cã que não podia deixar de ler a entrevista do… qual é o nome dele mesmo? Ou aquela pescaria, organizada pelos amigos, cujo manifesto contava com duas varas de pescar e meia dúzia de iscas, mas mais de vinte packs de cerveja.

É que a gente vai pescar uns peixes-pileque, lindinha...
É que a gente vai pescar uns peixes-pileque…

O engraçado é que todo mundo sabe a real razão por trás dessas coisas. Mas isso não é declarado. E talvez a mais coletiva dessas atividades seja o Kentucky Derby.

O Kentucky Derby é conhecido como a mais famosa corrida de cavalos do mundo. O tempo rendeu-lhe o título de  “os dois minutos mais emocionantes do esporte”. É a primeira das três disputas que compõe a Tríplice Coroa, juntamente com o Preakness Stakes e Belmont Stakes. Realizada em Louisville, Kentucky, o Derby é um festival de roupas extravagantes e indivíduos excêntricos. Chapéus vitorianos dividem espaço com fraques, monóculos e cartolas. A corrida, em si, é apenas uma boa desculpa para o que talvez seja o cosplay mais caro da história. Ah, e para encher a cara, claro.

A quantidade leviatanesca de álcool consumida durante a turfe foi documentada pelo jornalista Hunter S. Thompson. Junto com Ralph Steadman – ilustrador britânico conhecido – Thompson foi uma vez convidado para cobrir o Kentucky Derby. Seu relato conseguiu perfeitamente captar a essência daquele evento. Em sua matéria “O Kentucky Derby é Decadente e Depravado” o jornalista descreve a corrida como “milhares de pessoas desmaiando, chorando, copulando, atropelando-se e lutando com garrafas quebradas de whiskey“. E ainda que isso pareça uma hipérbole, ninguém reclamou. Porque, como apontou Steadman “não reclamaram porque acho que, de certa forma, eles sabem que aquilo meio que acontecia mesmo“.

Kentucky Derby, na visão de Steadman
Kentucky Derby, na visão de Steadman

O principal culpado pela bebedeira durante o evento é um coquetel. O Mint Julep. Desde 1938, ele é o drink oficial do Kentucky Derby.

A história remota do Mint Julep é incerta. A teoria mais aceita é que seu nome derive da palavra “juleb”, do árabe, que significaria algo como “água de rosas”. Com o tempo, juleps passaram a ter também função medicinal. No século dezoito, os médicos recomendavam o consumo deste curioso remédio para males de estômago e deglutição. Porque, claro, beber coisas alcóolicas sempre ajudam na gastrite e enjoo.

No entanto, o consumo de mint juleps  somente começou a se popularizar em 1875, com a criação do Kentucky Derby. E foi em 1938, quando o coquetel recebeu o título de drink oficial do evento, que ele realmente deslanchou. Naquele ano, ele passou a ser vendido nas tradicionais taças de prata – que, aliás, eram um brinde. Atualmente, o número de Mint Juleps consumidos durante o Kentucky Derby é de impressionar. Em 2015, foram usados 5.040 litros de Bourbon para produzir 127.341 mint juleps.

O Mint Julep é um coquetel como poucos. Todos seus ingredientes são fáceis de encontrar – com exceção da taça, talvez. A mistura de coisas simples lhe traz uma complexidade difícil de acreditar.  Mistura, essa, aliás, que pode ser feita em menos de dois minutos. Talvez os dois minutos mais emocionantes da coquetelaria.

MINT JULEP

Nota: Existe uma infinidade de receitas diferentes para o coquetel, mas, para evitar quaisquer celeumas, ensinaremos aqui a versão clássica, da International Bartender’s Association, e depois uma um pouco aprimorada, caso você esteja com tempo e paciência.

 INGREDIENTES:

  • 1,5 doses de Bourbon whiskey – Este Cão utilizou Woodford Reserve. Mas pode testar à vontade. Como haverá diluição (tanto pelo gelo quanto pela água), o ideal é que seja um whiskey com graduação alcoólica mais alta.
  • 3-4 ramos de hortelã
  • 1 colher de chá de açúcar
  • 2 colheres de chá de água sem gás
  • colher bailarina
  • taça de julep. Se não tiver – o que é bem possível – aposte em um copo alto (highball) pequeno.
  • gelo triturado

PREPARO

  1. coloque o açúcar no fundo do copo e umedeça com a água. Dê um tapinha no hortelã e adicione ao copo.
  2. adicione gelo até quase o topo e coloque o whiskey. Misture com a colher bailarina gentilmente.

VARIAÇÃO*

(*caso você esteja à toa)

Talvez esse drink seja simples demais para você. Talvez você queria desafios maiores. Ou talvez simplesmente esteja buscando alguma forma de preencher seu tempo e acredita que a preparação do mint julep seja rápida demais para isso. Então, aí vai uma versão discutivelmente aprimorada, para dar um pouco de trabalho.

  1. Em uma panela, adicione partes iguais de açúcar e água. Adicione alguns – isso é uma medida discricionária – ramos de hortelã. Leve ao fogo até que a mistura fique translúcida. Veja bem, isso é bem antes do ponto de calda. Basta o açúcar desaparecer. A calda deve ficar praticamente incolor. Deixe esfriar e engarrafe, ou guarde em algum lugar para usar em breve.
  2. Quando a calda estiver fria, prepare o mint julep da mesma forma descrita acima, mas, ao invés de adicionar a água e o açúcar, use meia dose da calda de açúcar e hortelã. Pode reduzir o hortelã do coquetel, para contrabalançar o sabor da calda. Ou não. Pode ser que você goste muito de hortelã.

 

Drops – Glenmorangie Dornoch

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Um whisky com senso de responsabilidade. Este é o Glenmorangie Dornoch, edição limitada da destilaria Glenmorangie, localizada nas Highlands escocesas.

É que o Dornoch foi criado em homenagem à Dornoch Firth, um estuário próximo à Glenmorangie. Para levantar fundos e conscientizar o público sobre a importância daquela pitoresca paisagem, a Glenmorangie realizou uma parceria com a Marine Conservatory Society (Sociedade de Conservação Marinha). Parte da receita recebida com a venda da garrafa é revertida à instituição.

O Dornoch é um single malt sem idade definida. Para atingir seu perfil de sabor, parte do destilado clássico da Glenmorangie é maturado em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whisky, enquanto parte de um destilado apenas levemente turfado descansa em barricas de carvalho europeu de ex jerez amontillado, uma variedade mais seca de jerez, o famoso vinho fortificado espanhol.

Atualmente, a Glenmorangie pertence à multinacional Louis Vuitton Moet Hennessy – sim, a mesma responsável pelas bolsas de grife, champagnes e conhaque – assim como sua irmã Ardbeg. O responsável pela criação dos whiskies da destilaria é Dr. Bill Lumsden, um desajustado cavalheiro formado em bioquímica. Este ano, inclusive, Bill recebeu o prêmio de Master Distiller do ano pela International Whisky Competition.

Ficou interessado? Aí vai uma má notícia. Fazer o bem e beber  neste caso, não está muito fácil. O Glenmorangie Dornoch não está à venda no Brasil. Porém, ele pode ser encontrado nos Freeshops de aeroportos internacionais do Reino Unido e da Europa.

Mas se você tiver a sorte de cruzar com um desses, não deixe de experimentar. Afinal, não é sempre que podemos beber e ajudar o meio ambiente ao mesmo tempo, não é mesmo?

De tudo que é inato – Glenmorangie The Original

Glenmorangie 10

Hoje vou começar com uma expressão em latim. Tabula Rasa. Tabula Rasa é um conceito epistemológico, que postula que os seres humanos nascem com o conteúdo de sua mente completamente em branco. Este conteúdo, aos poucos, vai se acumulando graças à percepção e empirismo. A tabula rasa é uma das bases da filosofia de John Locke, e se opõe à teoria do Inatismo que prega que alguns conhecimentos estão presentes desde o nascimento.

Simplificando. Uma teoria diz que nascemos como um papel em branco – o que, curiosamente, é a tradução de tabula rasa. Já a outra, determina que saímos do ventre sabendo uma coisa ou duas. Como, sei lá, reconhecer situações perigosas. Ou mamar, gostar de comida gorda e fazer cocô. O que faz sentido, porque eu não me lembro de ninguém me ensinando essas coisas. E se eu lembrasse, provavelmente teria vergonha de meu professor.

Como pai de uma criança de dois anos e meio, não sei bem no que acreditar. Porque ninguém ensinou minha filha o que é belo ou feio, bom ou mau, ou mesmo a preferir macarrão a salada. Por outro lado, ninguém com um mínimo de conhecimento prévio faria coisas como colocar a chupeta da amiguinha doente na boca, lamber a lateral da mesa da lanchonete imunda ou me entregar um pedaço de cocô que o cachorro fez.

Tipo essa moça, só que bem mais nojento.
Tipo essa moça, só que bem mais nojento.

Talvez o pessoal da Glenmorangie tenha pensado nisso, ou talvez não. Aliás, é bem provável que não, porque isso na verdade não tem quase nada a ver com whisky. Mas, ao mesmo tempo, tem, quando falamos de finalização extra, ou extra finish. A ideia é simples e genial ao mesmo tempo. Consiste em transferir um whisky já completamente maturado em certa barrica para outra que antes continha uma bebida diferente, como vinho jerez ou porto. O whisky então sofre uma segunda maturação, que complementa as características da primeira.

E é exatamente isso que acontece com o Glenmorangie the Original, também conhecido como 10 anos. Parte dele é engarrafado, e parte dele serve como base do Nectar D’Or, Quinta Ruban e Lasanta, expressões com finalização extra, respectivamente em barricas de vinhos sauternes, porto e jerez. Em outras palavras, parte do The Original – que passa dez anos em barricas usadas pela Jack Daniel’s ou Heaven Hill – é então transferida para outras barricas, onde passa mais um par de anos.

Essa segunda maturação faz com que as expressões ganhem personalidades próprias, bastante distintas entre si. Por isso, eu poderia dizer que o Glenmorangie The Original é a tabula rasa das expressões doze anos da destilaria. Acontece que se eu dissesse isso, eu estaria, implicitamente, afirmando que ele mesmo não possui identidade própria quando engarrafado após uma década. O que seria um equívoco.

Na verdade, o Glenmorangie The Original é um whisky com personalidade inata. Há um adocicado de mel e um aroma floral muito característico. Algo que também está presente nas expressões com finalização extra, mas de forma muito mais tímida. É quase como a Cãzinha, que apesar de remontar um pouco sua mãe, possui uma (preocupante) irreverência completamente própria.

A Glenmorangie é uma destilaria notável. A começar por seus alambiques, os mais altos de todas as destilarias escocesas. Com cinco metros de altura, garantem que apenas os vapores mais leves do processo de destilação atinjam o final de seu pescoço, produzindo um destilado leve, elegante e pouco oleoso.

glenmorangie 10 anos
Os alambiques da Glenmorangie

Seu head distiller é Bill Lusmden, um desajustado cavalheiro formado em química, que se diverte elaborando e executando os mais sofisticados experimentos com whisky. Bill já foi capaz de enviar ampolas de single malt para a Estação Espacial Internacional, para estudar o impacto da gravidade zero na maturação do destilado. Em outra oportunidade, teve a brilhante ideia de usar malte de cervejas escuras em seu whisky, e criou uma das coisas em estado líquido mais deliciosas do mundo – o Glenmorangie Signet.

Apesar de sua exposição, até pouquíssimo tempo, a Glenmorangie era conhecida como uma das menores destilarias da Escócia. Até 2008, apenas dezesseis pessoas trabalhavam em sua produção. Eram conhecidos como os Sixteen Men of Tain (dezesseis homens de Tain), em referência ao vilarejo em que a destilaria está localizada. Naquele ano houve uma expansão da destilaria, e o quadro de funcionários foi ampliado para vinte e quatro. Por conta disso, as novas garrafas não fazem mais referência ao número dezesseis.

Este ano, aliás, foi bom para a Glenmorangie. Seu Signet foi escolhido como melhor whisky do mundo na International Whisky Competition – com uma pontuação de 97 de 100. Além disso, Lumsden, responsável por orientar a criação dos single malts da destilaria, recebeu o prêmio de Master Distiller do ano. Conforme a própria Glenmorangie “Dr. Bill, que é PhD em bioquímica, combinou a arte e a ciência em seu trabalho desde que passou a integrar a Glenmorangie, em 1995. Ele é reconhecido por suas técnicas inovadoras de uso da madeira, experimentação com barricas excepcionais em vários níveis de maturação, e o uso de extra-maturation“.

No Brasil, uma garrafa do Glenmorangie The Original custa em torno de R$ 250,00. Não é exatamente barato para uma expressão de entrada. No entanto, ele é, no Brasil, seguramente o melhor represesentante das highlands para aqueles que estejam pela primeira vez rabiscando sua tabula rasa no mundo dos single malts. E convenhamos. Para reconhecer um belo whisky, basta apenas existir.

GLENMORANGIE THE ORIGINAL

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 10 anos

Destilaria: Glenmorangie

Região: Highlands

ABV: 43% (existe também uma versão de 40%)

Notas de prova:

Aroma: frutado, adocicado. Aroma leve de própolis!

Sabor:  Frutado (frutas cítricas), com mel, baunilha e caramelo.

Com água: A água torna o whisky mais adocicado. O açúcar fica mais evidente.

Preço médio: R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais)

Diplomacia – Gim Virga

Virga 2- O Cão Engarrafado

Antes de começar, tenho que dizer que isto não é um post sobre whisky. É um post sobre um gim. Mas um gim tão especial, que achei que merecia uma menção por aqui. Continue comigo. Em breve você entenderá por que.

As relações entre o Brasil, Inglaterra e Holanda são bem mais estreitas do que pensamos. A história de nossa pátria está eivada de episódios com os – muitas vezes nem tão – simpáticos povos britânicos e holandeses. Um exemplo disso foram as invasões holandesas ao Brasil, que você já deve conhecer, se permaneceu acordado durante as aulas de história. A principal delas foi no século dezessete. Os holandeses dominaram a cidade de Recife, com o objetivo de controlar parte do comércio de açúcar brasileiro.

Os holandeses, este povo pouco civilizado, durante sua invasão bárbara, fomentaram as artes com o envio de importantes pintores à sua colônia, construíram pontes, teatros, diques, drenaram pântanos e trouxeram saneamento à população. Inauguraram um zoológico, um jardim botânico e um observatório astronômico. Além disso, asseguraram liberdade religiosa para aqueles sob seu governo.

Não é Recife, é a Holanda mesmo...
Não é Recife, é a Holanda mesmo…

Mas a população da colônia não estava acostumada àquele tratamento humanizado. Então, anos mais tarde, se revoltaram com o governo holandês, e expulsaram o povo de volta para o inferno de seus países baixos. Os colonos rebeldes tiveram a ajuda de Portugal e – veja só – do sempre desinteressado e despretensioso povo britânico.

Mas o relacionamento entre as nações não foi baseado somente na discórdia. Houve episódios de colaboração. E ainda que não nos pareça óbvio, o Brasil atual sofreu grande influência destes povos. Exemplos são o futebol, as artes e aquela ajudinha na abolição da escravidão. E, finalmente, a mais nova adição a este triângulo, o Gim.

É que acabou de ser lançado o Virga, primeiro gim artesanal feito em pequenos lotes do nosso país. Criado por quatro amigos – três brasileiros e um holandês, o Virga é a perfeita e pacífica fusão etílica entre o Brasil, a Holanda e o Reino Unido.

Aliás, a própria história do gim é internacional. A bebida fora criada na Holanda sob o nome de genever no século dezessete – concomitantemente à invasão ao Brasil. Ele era produzido e vendido como remédio contra dor de estômago e gota. Como o sabor não era dos melhores, para que fosse mais palatável, os holandeses começaram a adicionar zimbro. Com o tempo, a bebida recebeu reconhecimento internacional, principalmente ao começar a ser produzida na Inglaterra, durante o reinado do Rei William III.

Como todo gim seco – variedade de gim que não leva açúcar – o Virga usa como principal botânico o zimbro. Ele, inclusive, é o único ingrediente estrangeiro no gim, e é necessário para caracterizar o destilado como tal. O resto é pura genialidade brasileira. A começar por sua base. Ao invés de se utilizar álcool de cereais – algo neutro e bem usual – o Virga emprega álcool de cana, produzido nos alambiques da Cachaça Engenho Pequeno, localizada em Pirassununga, no interior de São Paulo.

Alambiques da Engenho Pequeno
Alambiques da Engenho Pequeno

Os demais botânicos também têm inclinação brasileira. Cana, sementes de coentro e pacova. Eles são macerados manualmente, e infusionados na cachaça bidestilada. A escolha deles levou mais de seis meses, e contou com a ajuda de Helton Muniz, do Projeto Colecionando Frutas, que mantem uma coleção de mais de mil e trezentos botânicos.

Nas palavras de Felipe Januzzi, um dos quatro amigos criadores do gim “não é nosso objetivo apresentar o mesmo de sempre: uma imagem de Brasil estereotipado, apelando sempre para o exótico de botânicos de nomes que nós brasileiros de São Paulo ainda não ouvimos falar. Nós queremos fazer do gim uma maneira de conhecer o Brasil aos poucos, e não engarrafar um perfume inusitado para turistas buscando experiências rápidas e pouco inspiradoras – não queremos que gostem do nosso gim por ele ser exótico, queremos que gostem dele por ele ser único, por contar uma história e por nos ajudar a entender e valorizar nosso país

Logo que soube do lançamento do Virga, comprei uma garrafa. Uma das primeiras cento e cinquenta. Tinha sentimentos conflitantes sobre o lançamento. Como um entusiasta da coquetelaria, aquele empreendimento me parecia um marco histórico. O primeiro gim artesanal brasileiro. Finalmente, um produto de qualidade dentro desta classe de bebidas, antes inteiramente importadas.

Por outro lado, minha intuição dizia que o Virga não seria muito além de uma cachaça com algum tempero. Algo meio doce e mais ou menos mal resolvido. Mas a ideia era boa demais para eu não provar. No entanto, logo que recebi meu exemplar, percebi que minha intuição não poderia estar mais equivocada. Não há qualquer conflito etílico internacional aqui. O Virga é genuinamente um gim seco, que revela seu destilado base apenas no sabor residual, e é muito bem resolvido.

O Virga pode ser adquirido pela loja da Amburana, e custa atualmente R$ 99,00. É sensivelmente mais barato do que a maioria dos gins de qualidade de nosso mercado. Além disso, parte do lucro obtido com sua venda é revertido para a Fundação Helton Muniz (aquela lá de cima, do Projeto Colecionando Frutas), então é possível embriagar-se (com responsabilidade e qualidade) e fazer o bem ao mesmo tempo.

Mas se você chegou até aqui e ainda não vê uma boa razão para um blog de whisky falar sobre um gim, ainda que um gim nacional, aí vai uma receita de um Gin & Tonic utilizando o Virga e, claro, um single malt escocês. Para selar, de uma vez por todas, a união etílica entre as três nações:

SMOKY G&T

INGREDIENTES

  • 1 limão siciliano (pode ser tahiti também, se preferir ainda mais azedo)
  • 1 dose de Virga
  • 1/2 dose de whisky defumado (pegue algo bem defumado, sem medo. Este Cão recomenda o Ardbeg Ten. Pode usar também o Port Charlotte Scottish Barley. Utilizar um blend defumado como o Black Grouse ou Double Black funcionará, mas não tão bem).
  • 3 doses de água tônica (pode ser qualquer uma. Nos testes feitos por este canídeo, o melhor resultado foi obtido com a Schweppes, que é menos adocicada. Segundo o pessoal do Virga, a Tônica da Prata também fica ótima, mas não experimentamos. Lembre-se que o Virga é relativamente adocicado para um gim, então, uma tônica mais puxada para o amargo funcionará melhor).
  • Angostura Bitters (opcional. Nem tente substituir. Se não tiver Angostura, faça sem)
  • Gelo (bastante gelo)
  • Taça de G&T, ou qualquer taça larga.
  • Colher bailarina (ou qualquer colher pra mexer)

PREPARO

  1. Corte o limão em 4 pedaços longitudinais, e cada pedaço, em 2.
  2. Com pressão moderada – recomenda-se estar sóbrio nesta fase do processo – esfregue os pedaços do limão na parte de dentro do copo. Como se você estivesse untando o copo com o limão, fazendo de conta que o copo é uma forma e o limão, a manteiga. Só que o resultado será bem melhor do que um bolo. Não precisa usar todos os gomos. Normalmente, usamos apenas três, mas a quantidade de limão vai de seu gosto.
  3. Adicione uns 2 dashes de Angostura (isso são pitadas, ou sacodidelas na garrafinha)
  4. Jogue alguns gomos (uns três) dentro da taça
  5. Coloque bastante gelo na taça
  6. Adicione o gim, o whisky e, por fim, a tônica. Desça a tônica direto na taça. Nada de malabarismos escorrendo a tônica pela colherzinha.
  7. Mexa suavemente com a colher.

Pronto. Se quiser preparar uma versão diferente de G&T utilizando o Virga, sinta-se à vontade. A querida Cã, por exemplo, ficou apaixonada por uma versão do drink acima utilizando suco de pêssego ao invés do limão siciliano. Ah, e não se esqueça de compartilhar suas receitas. O pessoal do Virga está ansioso para conhecê-las!