Goodbye Mr. Hakushu – Hakushu 12 anos

Hakushu

Eu não sou bom com despedidas. Não que eu chore, fique sensível, comece a ouvir Coldplay e a devorar livros de autoajuda e tudo mais. Mas, de alguma forma, aquele abandono me atinge. Atinge quase como um vício. Uma vontade que não pode ser mais aplacada. Algo que estava ao meu alcance, mas que, por alguma razão, desapareceu. Talvez como aquela quase proverbial coceira no membro arrancado.

Sinto isso com pessoas. Mas não só com elas. Para mim, ocorre também com músicas, comidas, bebidas. Um exemplo disso é um prato, que comia toda vez que ia a um restaurante próximo de minha casa. Era um restaurante bem caro e mais ou menos metido a besta, o que me irritava um pouco. Me irritava até aquele prato chegar. Porque depois, restava apenas aquele shiatsu de língua.

E o engraçado é que o prato não tinha nada de muito difícil. Era uma espécie de talharim escuro, com shimeji, que levava um molho de parmesão batido. A consistência do molho era próxima de uma espuma, um chantilly, mas com bastante sabor de queijo. Essa era a parte genial dele. O molho. O molho era tão genial, mas tão genial, que eu abria mão de comer um peixe defumado – algo que seria próximo de um orgasmo gastronômico para mim – somente para saborear aquela massa.

Foodporn (fonte: gastronomiaefotografia.com.br).
Foodporn (fonte: gastronomiaefotografia.com.br).

Eu e a Cã íamos àquele restaurante quase toda semana. Certa vez, sentamo-nos à mesa e – sem nem olhar o cardápio – pedi a tal massa ao maitre, que os aguardava. E ele disse que não tinha. Como assim não tinha, retruquei. Não tinha porque o chef achava que aquele prato saía pouco, e resolveu substitui-lo por um frango com molho xadrez ou algo com morangos, ou talvez cocô (o que dá na mesma), não sei. Nem prestei atenção no final da explicação. Mas não importa, porque qualquer coisa seria pior do que aquele prato.

Com olhar de decepção, me senti obrigado a pedir a segunda opção. O peixe defumado. Nunca uma criatura marinha tão boa teve tanto sabor de derrota. Enquanto mastigava, lembrava daquele molho que jamais comeria novamente em minha existência canina. Demorei alguns meses para retornar àquele estabelecimento.

A mesma decepção tomou conta de mim quando soube, de forma contundente e incontestável, que a Suntory havia tomado a decisão de deixar de importar sua linha de single malts para nossas terras, de forma a focar suas vendas em mercados-chave, como o oriente. Dentre as vítimas estavam os Yamazaki 12 anos e Distiller’s Edition e os Hibiki 12 e 17 anos. Todos whiskies bem amáveis, mas cuja falta poderia ser contornada sem dificuldades. Mas havia um que já previa sentir dor fantasma. Era o Hakushu 12 anos.

O Hakushu 12 é um dos dois single malts japoneses pertencentes à Suntory, atualmente Beam-Suntory, que (ainda) podem ser encontrados no Brasil. Além disso, ele é meu preferido. O outro é o Yamazaki. E enquanto o Yamazaki é oleoso, adocicado e frutado, o Hakushu é mais leve, frutado e, ao mesmo tempo, defumado.

Segundo a Beam-Suntory, a maturação do Hakushu 12 anos ocorre em três tipos de carvalho, o que é bastante incomum. A maioria do processo ocorre em barricas de carvalho americano que antes continham ex-bourbon, com uso tímido de carvalho europeu de ex-jerez. Ele é então finalizado em barricas de carvalho japonês conhecido como Mizunara. A destilaria não divulga o tempo ou quantidade de destilado que matura em cada uma das barricas.

A destilaria Hakushu foi construída em 1973, no quinquagésimo aniversário de sua destilaria irmã, a Yamazaki. Ela está localizada em uma densa floresta, na base do monte Kaikomagatake, no Japão. É uma destilaria gigantesca, com mais de oitocentos e vinte mil metros quadrados de área.

Isso aí no lado da foto é uma cidade (fonte: Suntory.com)
Isso aí no lado da foto é uma cidade (fonte: Suntory.com)

Se você tem o saudável hábito de buscar informações inúteis – assim como eu – gostará de saber que os washbacks (tanques de fermentação) da Hakushu são feitos de madeira, tal qual na Glen Grant. Além disso, a destilaria usa uma série de alambiques de diferentes alturas e formatos. Isso lhe permite criar destilados tanto encorpados quanto leves, tendo mais liberdade ao produzir seus single malts e fornecer whiskies para a produção de blends. Por fim, achará curioso que os armazéns em que os whiskies são maturados não possuem apenas dois ou três níveis, mas são enormes estruturas com um sistema mecanizado para elevação e descida dos barris, capazes de estocá-los em até doze níveis.

O Hakushu 12 anos ganhou o primeiro lugar, como melhor whisky do resto do mundo, pela International Whisky Competition de 2015, e recebeu prêmio de Ouro Líquido pela Jim Murray Whisky Bible de 2014.

Mas tudo isso que escrevi não servirá para nada. Porque, como eu disse, o Hakushu 12 anos não virá mais para o Brasil. E tudo bem que ainda podemos encontrar uma ou outra garrafa perdida em algum empório por aí, mas meu conselho é que, se você ainda não experimentou, corra. Se experimentou e gostou, corra também. Ou nem sofra e procure alternativas. Invista em um Laphroaig ou um Jura Prophecy. São whiskies que – apesar de muito diferentes do Hakushu – ainda guardam com ele alguma semelhança.

Com eles, sua ausência será menos notada. E são absolutamente geniais. É, pensando bem, talvez eu sobreviva à saudade do Hakushu.

HAKUSHU 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos.

Destilaria: Hakushu

Região: N/A – Japão

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: turfado, defumado e frutado. Levemente cítrico

Sabor: início adocicado e frutado. Final defumado e cítrico.

Com Água: Adicionar agua reduz o aroma esfumaçado, e ressalta o caráter doce do whisky.

O Chef Canídeo – Filé Flambado com Whisky Defumado (e risoto de whisky)

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Quem me conhece sabe que não tenho grandes restrições alimentares. Sou capaz de comer quase tudo que pode ser considerado um alimento. Quer dizer, quase tudo. Quase tudo porque eu nunca comi grilo, ou barata. E eu sei que na China se come isso como se fosse camarão sete barbas. Mas sabe, em condições normais, eu não vejo nenhum bom motivo pra comer um grilo. Na verdade, vamos impor alguns limites – não existe nenhum bom motivo para comer qualquer inseto.

O que muita gente não entende é que, apesar de eu comer quase absolutamente tudo que seja humanamente comestível, eu tenho preferências. Por exemplo, adoro carne mal passada ou crua. Quer me ver feliz? Faça um steak tartar. Gosto muito também de peixe defumado. Aliás, gosto de qualquer coisa – qualquer coisa mesmo – que seja defumada. Sabe, pensando bem, talvez se me servissem grilo defumado, eu comeria.

Mas eu também tenho ódios. Detesto frango. Veja bem, não é que eu não coma frango. Eu como. Com desgosto. Também odeio morangos. Morangos estão entre as frutas mais desprezíveis de todo o universo botânico. Eles existem com o único e exclusivo propósito de estragar alimentos que passariam perfeitamente bem sem eles. Por exemplo: bolo de chocolate (com morangos). Manjar (com morangos). Panna Cotta de baunilha (com morangos). Sério, espero que uma praga misteriosa dizime toda a população de morangos da Terra.

E da mesma forma que a função dos morangos no mundo é arruinar refeições, a do whisky, é melhorar. O que melhora com whisky? Absolutamente tudo. Brigadeiro de chocolate branco com bourbon. Bolo de chocolate amargo com whisky. Na culinária, o whisky é praticamente um photoshop gastronômico.

Um dos meus pratos preferidos que contem o néctar é filé flambado com whisky defumado. Foi um prato que experimentei quando estive na Escócia, e que a querida Cã, com toda sua perícia culinária, conseguiu reproduzir com perfeição. Aliás, como minha habilidade culinária é próxima daquela de um inseto, passo o teclado à minha melhor metade, que lhes ensinará a preparar este massagista de papilas gustativas:

– A receita abaixo funciona para duas pessoas. Quando fiz o prato que foi fotografado, preparei também um risoto de limão siciliano com Famous Grouse. Vou ensinar os dois aqui. Mas você pode substituir por qualquer acompanhamento que quiser. Com batatas fritas deve ficar excelente!

FILÉ FLAMBADO DE ISLAY

PARA A CARNE

INGREDIENTESfilletcomardbeg3

  • 4 medalhões de filé mignon altos.
  • ½ tablete de manteiga de 200g
  • Uma caixa de 100ml de creme de leite
  • Pimenta rosa em grãos
  • Pimenta do reino em grãos
  • 3 doses (150ml) de whisky defumado (pode ser Ardbeg 10, Laphroaig Quarter Cask, ou qualquer coisa que seja bastante defumada)
  • Sal grosso ou sal rosa.

PREPARO

  1. Tempere a carne. Eu usei só sal grosso. Mas você pode usar sua criatividade e colocar algumas ervas. Ervas lícitas.
  2. Em um recipiente coloque a manteiga. Espere até que derreta. Em seguida, coloque o creme de leite e 1 (uma) dose de whisky. Coloque as pimentas rosa e do reino. Vá mexendo até que a mistura fique homogênea. Deixe o fogo baixo. Ela vai reduzir enquanto você prepara a carne.
  3. Unte uma frigideira com manteiga e coloque em fogo baixo. Quando a frigideira estiver quente, coloque os medalhões e espere alguns segundos. Vá olhando a parte de baixo dos medalhões.
  4. Quando ficar selado (é selado, não carbonizado) despeje o whisky. Bastante. Dê uma mexidinha na panela. Cuidado – vai sair uma labareda gigante. Tire coisas inflamáveis do entorno.
  5. Quando os bombeiros já tiverem chegado ou quando o álcool tiver evaporado completamente (o fogo terá apagado), vire a carne e sele – não torre – o outro lado.
  6. Quando a carne estiver quase pronta, despeje ainda na frigideira um pouco (uma colher de sopa do molho para cada filé) e adicione um pouco mais de pimenta rosa.
  7. Pronto pode servir. Se for preparar o risoto, minha sugestão é que o faça primeiro, e deixe para preparar a carne quando ele já estiver quase pronto. A preparação do filé é bem rápida.

PARA O RISOTO

INGREDIENTES

  • 1 Cebola picada, bem fino.
  • ½ tablete de manteiga de 200g (ou seja, 100g de manteiga)
  • 2/3 de um saco de arroz arbóreo de 1kg
  • 3 litros de agua
  • 1 caldo de galinha
  • 1 pote de requeijão
  • Queijo ralado a gosto
  • Suco de 2 limões sicilianos
  • 1 pitada de noz moscada

PREPARO

  1. Em um recipiente despejar a água e aquecer até ferver. Colocar o caldo de galinha na água fervente. Manter essa mistura em fogo baixo durante toda preparação do risoto
  2. Em outra panela, colocar a manteiga até derrete-la e a cebola e cozinhar em fogo baixo até que a cebola fique dourada.
  3. Em seguida, despeje o arroz nessa panela e mexa bem, cozinhando em fogo baixo, até que os grãos fiquem transparentes. Vá despejando com uma concha a água com caldo de galinha da outra panela nesta, enquanto o arroz cozinha.
  4. Após mais ou menos três conchas e a água evaporar, coloque o requeijão, a noz moscada e a pimenta do reino. Mexa até ficar homogêneo. Em seguida, coloque o creme de leite, o whisky e o sumo do limão.
  5. Vá colocando mais água com caldo de galinha até que o arroz fique no ponto certo. Tome cuidado para não colocar água demais.
  6. Sirva no prato e decore com raspas de limão.

No final, uma vista aérea do prato deverá ser próxima disto:

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Insanidade Coletiva – Maker’s Mark

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Loucura é um tema recorrente aqui no Cão. Hoje, vou novamente falar de loucura. Mas de loucura coletiva. Daquelas vezes que todo mundo enlouquece, e você não entende bem a razão. Porque, afinal, na sua cabeça, aquele é um motivo banal, que não deveria tirar ninguém do eixo. Ou não.

Para ilustrar meu ponto, vou falar sobre o McRib. Ele já foi vendido no McDonald’s aqui no Brasil, mas, caso você não tenha tido a oportunidade de degustar esta revolução da baixa gastronomia, elucidarei do que se trata.

O McRib consistia em um pão tipo baguete, recheado de cebola, picles, e um paralelepípedo feito de uma substância que se assemelhava a carne suína. Segundo a lanchonete, o sanduíche era produzido com as costelas do porco. Para finalizar, algo parecido com molho de churrasco era utilizado para dar liga à iguaria.

Acontece que o McRib fora criado na década de oitenta, quando as pessoas achavam normais coisas como um chocolate voltado ao público infantil em forma de cigarro e não tinham a mais rasa ideia do que era colesterol. Mas com a redescoberta do bom senso nos anos noventa, as vendas do McRib foram diminuindo, e culminaram em sua extinção em 2005.

Michael Jackson, e o ET com seu dedo aflitivo. Normal nos anos 80.
Michael Jackson, e o ET com seu dedo aflitivo. Normal nos anos 80.

E o que parecia simplesmente uma decisão estratégica da maior rede de lanchonetes do mundo, virou uma calamidade publica. Os apreciadores daquela criação se revoltaram, invadiram e depredaram lojas da rede, destruíram carros e até viraram uma carreta de nove eixos. O estrago foi tão grande que o McDonald’s voltou em sua decisão, e anunciou que aquilo teria sido apenas uma pegadinha. E os black-blocks do fast-food simplesmente se acalmaram e pediram desculpas pelo caos que haviam criado.

Uma situação muito parecida aconteceu em 2013 com um polêmico bourbon. O Maker’s Mark. A marca teria decidido reduzir a graduação alcoólica de seu whiskey, de forma a atender a crescente demanda. A redução seria de apenas três pontos percentuais, passando de 45% a 42%. A medida causou furor dentro e fora das redes sociais. Quando os líderes do movimento já organizavam uma invasão à destilaria (brincadeira, isso nunca aconteceu), a Maker’s Mark anunciou que não mais faria a redução, pedindo desculpas sinceras a seus fãs, e dizendo que aquele problema – o de ter alta demanda – era, na verdade, até que um bom problema de se ter.

Localizada em Loretto, no Kentucky, a Maker’s Mark é uma das destilarias com maior capacidade produtiva dos Estados Unidos. Apesar disso os métodos de produção da destilaria não mudaram muito nos últimos cinquenta anos.

Exemplo disso são os tanques de fermentação. Na contramão da tendência mundial de utilizar tanques de aço, a Maker’s Mark continua fermentando seu mosto em tanques feitos de cipreste. Estes tanques auxiliam o processo enzimático da fermentação, ainda que possuam maior custo de manutenção. Outra destilaria que ainda possui tanques de madeira é a Glen Grant.

Ao contrário da carne suína do McDonald’s, a composição do mosto do Maker’s Mark é conhecida. Assim como todos os bourbons, seu ingrediente principal é milho. No entanto, diferentemente da maioria das destilarias de bourbon whiskey, o Maker’s Mark não leva centeio, mas, sim, trigo. Essa substituição torna o bourbon menos picante, e contribui para sua suavidade. Tanto o milho quanto o trigo empregados são cultivados nas proximidades da destilaria. Além disso, a Maker’s Mark possui sua própria cepa de levedura, responsável pela fermentação do mosto.

A destilação ocorre em destiladores de cobre. O destilado sem maturação, conhecido como “White dog”, sai dos alambiques com graduação alcoolica de 70%. A Maker’s Mark se preocupa tanto com a consistência de seu produto que emprega uma equipe de mais de vinte profissionais cuja única função é sentir o aroma e o sabor de praticamente todos os lotes do destilado, antes que sejam maturados em suas barricas. Em outras palavras, são vinte pessoas pagas para fazer um happy hour infinito. Trabalho desumano, este.

Coitadinho.
Coitadinho.

A maturação do Maker’s Mark ocorre em barricas virgens de carvalho americano. Assim como a Macallan, na Escócia, e a Jack Daniel’s, também em Kentucky, a Maker’s Mark realiza rodízio de barricas em seu armazém. Os barris passam ao menos três verões na parte superior dos galpões, onde é mais quente. A alta temperatura acelera o processo de maturação. Depois, os barris são levados para os andares mais baixos. O processo de maturação completo é, em média, de seis anos.

O toque final, comparável ao excepcional molho de churrasco do McRib, é a colocação do lacre de cera vermelha, marca distintiva da destilaria. O processo é feito a mão até hoje. Caso a cera escorra sobre o rótulo, a garrafa é descartada. Contra este desperdício de um bom bourbon, ninguém se revolta.

No Brasil, uma garrafa do Maker’s Mark custa, em média, R$ 150,00 (cento e cinquenta reais). É praticamente o mesmo preço de um Woodford Reserve, e pouca coisa mais barata do que um Jack Daniel’s Single Barrel. Escolher entre os três é uma questão de gosto.

Na opinião deste Cão, o Maker’s Mark é um excelente bourbon para ser tomado puro. Entretanto, sua verdadeira, incontestável e quase insuperável vocação é a de ser misturado em coquetéis. A suavidade proporcionada pelo trigo casa perfeitamente com a maioria das receitas apresentadas nestas páginas caninas que levam whiskey. Assim, se você está procurando uma garrafa versátil de whiskey, que vá atender a todas as suas necessidades etílicas, não é necessário criar qualquer polêmica. O Maker’s Mark é o que você procura.

MAKER’S MARK

Tipo: Bourbon sem idade definida

Destilaria: Maker’s Mark

Região: N/A

ABV: 45%

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas e calda de caramelo. Baunilha

Sabor: xarope de maple ou caramelo, especiarias, baunilha, frutas vermelhas.

Com água: o sabor doce se reduz bastante e o sabor de especiarias e baunilha se ressalta. O final fica mais curto. É um whiskey que fica melhor sem água.

Preço: R$ 150,00 (cento e cinquenta reais)

Drink do Cão – Rat Pack Manhattan

 

rat pack manhattan

Esses dias estava conversando com um amigo sobre o Rat Pack.

Você sabe o que foi o Rat Pack? O Rat Pack foi um grupo de artistas americanos – cantores e atores – cujo líder era o lendário Humphrey Bogart. O nome Rat Pack foi criado durante a década de cinquenta, provavelmente por Lauren Bacall, esposa de Humphrey, que se referiu a ele e seus amigos como “um grupo de ratos” ao vê-los completamente transtornados e embriagados após uma das incontáveis noitadas em Nova Iorque.

O grupo teve diversas formações ao longo do tempo. Alguns de seus membros mais proeminentes foram Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Joey Bishop, Lauren Bacall, David Niven, Peter Lawford e, obviamente, Bogart. Os mais jovens incluíam Marilyn Monroe e Angie Dickinson.

O Rat Pack foi, provavelmente, o grupo de amigos mais talentoso que já existiu na história moderna. Seus membros reuniam uma gama variadíssima de interesses e talentos. Mas havia uma habilidade comum a todos eles. O poder quase sobrehumano de entornar absolutamente qualquer coisa que continha álcool. E em quantidades leviatanescas.

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Dean, Sammy e Frank, demonstrando algumas das habilidades do Rat Pack

Naturalmente, tamanha habilidade não poderia passar sem o devido reconhecimento. Já no novo milênio, no ano de dois mil, quando quase todos os membros do Rat Pack já haviam falecido – com exceção de Joey Bishop – Wayne Collins, um famoso bartender do bar High Holborn, de Londres, lhes prestou uma homenagem. De suas mãos nasceu o coquetel Rat Pack Manhattan.

O Rat Pack Manhattan é, basicamente, um Perfect Manhattan, mas com uma adição discreta de sabor cítrico, proporcionado por algum Grand Marnier. Já um Perfect Manhattan – caso você esteja se perguntando – é quase um Manhattan, mas com o acréscimo de vermute seco. E um Manhattan, por sua vez, é quase um Rob Roy, que, ao invés de whisky escocês, utiliza whiskey americano. Porque nada é bom o suficiente para não ser melhorado.

Bom, quase tudo.
Bom, quase tudo.

Para preparar o coquetel, o amigo Fernando Lisboa me aconselhou a usar um vermute diferente desta vez. Sua recomendação foi o Vermut Miró Reserva De Luxe, produzido na Espanha pela Emilio Salvat Miró. É um vermute doce, utilizando a receita tradicional da família Miró, e maturado em soleras – grandes tanques de madeira que jamais são esvaziados por inteiro. E como um admirador do Rat Pack, antes de preparar o drink, tive que experimentá-lo puro. Assumo que gostei tanto do vermute que, quando minha sessão de experimentação estava concluída, me sentia um pouco – para utilizar uma palavra culta – obnubilado.

Além do vermute doce, o Rat Pack Manhattan utiliza vermute seco, algum licor de laranja ou triple sec – como Cointreau ou Grand Marnier – e, claro, Whiskey. Existem versões com e sem Angostura. Aqui, ensinarei a versão que leva o bitter. Porque, bom, porque eu acho que fica melhor com Angostura, e o blog é meu. Mas não se preocupe muito se você não tiver.

Então, mais uma vez, munam-se de seus smartphones e preparem seus dedos. Aí vai mais uma pequena peça de sabedoria destilada por este Cão e Fernando Lisboa, para que vocês, meus caros, bebam melhor.

RAT PACK MANHATTAN:

INGREDIENTES:

Para fazer o coquetel você vai precisar de:

  • ½ dose de licor de laranja/triple sec (este Cão usou Cointreau. Pode usar também Grand Marnier. Funcionará perfeitamente bem)
  • 1 e ½ doses de whiskey americano (como sempre, recomendo utilizar Maker’s Mark ou um Jack Daniel’s Single Barrel. Se estiver se sentindo sofisticado, vá de Woodford Reserve. Nada lhe impede de usar Jack Daniel’s No. 7, ou Wild Turkey. É um país livre).
  • ¾ dose de vermute seco
  • ¾ dose de vermute doce (como já viram acima, seguindo os conselhos de quem entende, utilizei o Miró Reserva).
  • 3 dashes de Angostura (já sabe – nem tente substituir por outra coisa. Dessa vez, se você não tiver a Angostura, não coloque nada no lugar. O coquetel funciona perfeitamente bem sem ela. É sério. Reserve sua criatividade).
  • Mixing Glass (ou qualquer recipiente em que seja possível misturar tudo)
  • Taça de Martini ou taça Coupé
  • Strainer (também conhecido como coador ou peneira)
  • Laranja bahia (opcional)
  • Cereja em calda (opcional)

 PREPARO:

Revesta o interior da taça com o licor de laranja – coloque a ½ dose na taça, e gire-a lentamente, de forma que o licor escorra por suas paredes, por inteiro. Descarte o excesso.

No mixing glass, coloque três pedras de gelo, o whiskey americano, os vermutes (doce e seco), e a angostura. Ou não coloque a angostura. Como eu disse, é opcional.

Misture os ingredientes colocados no mixing glass utilizando uma colher por uns quatro ou cinco segundos. Desça a mistura na taça, separando o gelo não diluído do restante do coquetel, utilizando o strainer.

Se estiver com tempo e quiser dar um ar mais profissional para seu coquetel, corte uma pequena fatia da casca de uma laranja bahia, e coloque, juntamente com uma cereja em calda, no fundo da taça.

Pronto. Agora você já pode se juntar a grandes nomes do cinema e sentir-se um verdadeiro membro do Rat Pack. Quer dizer, pelo menos estará bebendo tão bem quanto eles.

O Cão Econômico 3/3 – Famous Grouse Finest

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Este é o último post de uma série de três provas sobre whiskies abaixo de R$ 100,00(*). Os outros foram Glen Grant e Teacher’s Highland Cream. Além dele, o Cão já visitou outros três whiskies nessa faixa de preço. Foram White Horse, Johnnie Walker Red Label e Suntory Kakubin.

A criatividade do homem é infinita. Ela se manifesta em tudo produzido por nossa mente, seja tangível ou intangível. Das pinturas rupestres a Duchamp, das primeiras tendas aos arranha-céus de Dubai, estamos imersos em um oceano de criatividade. E isso não é novidade para ninguém.

Mas há um ramo da inventividade humana que sempre me surpreende. Um ramo em que o homem realmente emprega todo seu potencial. O de nomear produtos. Dê uma olhada nas gôndolas de supermercados. Há uma miríade deles. Cachaças João Andante, torradas Peter Pão, croissants Croasonho, carnes Boi Vivant, tapete higiênico para cachorros Super SeCão. E meu preferido, talvez pelo mau gosto aliado à sutileza de uma britadeira: papeis higiênicos Pacu.

Além do nome, há a embalagem. A embalagem é quase um convite para adquirir aquilo que ela carrega. Na época daquela promoção da Coca-Cola, sempre procurava meu nome nas latas. Se encontrasse, não titubearia em levar para casa. Mas infelizmente, por algum motivo, nunca encontrava uma estampada com Cão.

No entanto, infelizmente o sol da criatividade não brilha para todos. E muitas vezes produtos muito bons recebem nomes e embalagens péssimas. Ou simplesmente medianas, que não condizem, nem um pouco, com a qualidade daquilo acondicionado em seu interior. É o caso, por exemplo, da marca Famous Grouse.

 

As vezes, as embalagens passam uma ideia errada.
As vezes, as embalagens passam uma ideia errada.

Whiskies normalmente possuem nomes que transmitem tradição, força ou status. Pense em Chivas Regal e Royal Salute. Mas o Famous Grouse é uma exceção. Seu título infeliz significa, em uma tradução tosca, “o galináceo famoso”. E ainda que isso possa vir como uma surpresa para você, aquilo não é um peru. O nome é, na verdade, uma homenagem à tetraz, uma ave galiforme, muito comum na Escócia. E ainda que o rótulo tenha passado por uma recente revisão, ainda há a imagem do pássaro. Veja bem, a garrafa não é exatamente feia – e melhorou bastante com o recente facelift – mas também não é nenhuma obra da Pininfarina.

Mas a injustiça por trás disso é que mesmo o Famous Grouse Finest, sua versão mais simples, é excepcional para sua faixa de preço. Ele é um blended whisky saboroso e consistente, por menos de cem reais(*).  Aliás, muito provavelmente se ele custasse o dobro, ninguém acharia estranho. Não é para menos. Fazem parte de sua composição alguns dos melhores single malts da Escócia.

A história da marca começa em 1842, no condado de Perth, com um homem chamado Matthew Gloag. Gloag, um mercador de alimentos e vinho, comprava whiskies das diversas destilarias ao redor da Escócia, para revenda. Na época, a empresa chamava-se Matthew Gloag & Son. Em 1860, com sua morte, seu filho, William, assumiu a empresa, e passou a produzir blended whiskies com o estoque comprado pelo pai.

Até aí, tudo ia bem. Mas em 1896 o sobrinho de William, também chamado Matthew, assumiu a empresa e teve a brilhantíssima ideia de rebatiza-la. Após semanas de brainstorming, Matthew resolveu que homenagearia um galináceo – The Grouse. Mais tarde, adicionou o “Famous”. E assim, a Famous Grouse recebeu o nome que tem hoje.

Mas Matthew não estava satisfeito com sua obra. Então pediu para sua filha, Phillippa, para desenhar o logotipo da rebatizada companhia. E Phillippa, que provavelmente não era muito mais velha do que minha filha de um ano e meio, superou seu pai na sua grandiosidade criativa. De suas mãos hábeis, nasceu o rótulo do tetraz. Praticamente o frango engarrafado.

Versão premium
Versão premium

Atualmente, a Famous Grouse é controlada pelo Edrinton Group, uma empresa escocesa especializada na produção de bebida alcoólica. Seu portfólio conta com algumas das destilarias mais respeitadas da Escócia, como Highland Park, Macallan e Glenturret. Isso garante à Famous Grouse abastecimento de excelentes maltes para sua produção, que  conta com linhas de blended whiskies, blended grain e também de blended malts, algo bastante incomum nos dias de hoje.

Inclusive, há uma curiosidade interessante sobre o uso de Macallan em sua mistura. A destilaria utiliza somente os 25% centrais de seu processo de destilação para a fabricação de whisky. Neste percentual, os 17% centrais vão para os single malts. O restante (4,5% de cada ponta) é empregado na produção dos whiskies da linha Famous Grouse. Todo o resto – 75% – é descartado.

O Famous Grouse Finest é um blended whisky sem idade definida, sendo que seus single malts maturaram tanto em barricas de carvalho europeu de ex-jerez quanto carvalho americano, de ex-bourbon. Essa maturação, aliada aos whiskies que o compõe, dá ao Famous Grouse um sabor levemente turfado e picante, incomum para blends mais em conta.

Em nossas terras, uma garrafa do Famous Grouse Finest custa, em média, R$ 80,00. Por este preço, dificilmente se encontrará um whisky tão encorpado e equilibrado quanto este. Tudo nele é irrepreensível. Menos a garrafa. E o rótulo. O rótulo da galinha. Mas ainda que galináceos não sejam a preferência deste Cão, abrirei uma exceção para este aqui. É um frango engarrafado que vale a pena.

FAMOUS GROUSE FINEST

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Famous Grouse

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutas vermelhas, mel

Sabor: frutas secas e caramelo. Malte. É um whisky bastante encorpado e surpreendentemente saboroso para sua faixa de preço. Quase não há turfa, e o sabor de especiarias é bem discreto.

Com Água: Adicionar agua reduz o sabor frutado e ressalta as especiarias.

 Preço: em torno de R$ 110,00 (cento e dez reais)

(*) quando esta prova foi originalmente publicada, o preço médio do Famous Grouse Finest era de R$ 80,00. Atualmente, ele está um pouco acima do limite de R$ 100,00, mas continua sendo um excelente custo-benefício.

famous grouse
A antiga garrafa da galinha, quero dizer, do tetraz.

 

Nem uma coisa nem outra – Adnams Spirit of Broadside & Broadside Ale

spiritofbroadside

Você já assistiu O Grande Lebowski? Já falei dele por aqui. O Grande Lebowski é um longa-metragem estrelado por Jeff Bridges e dirigido pelos irmãos Cohen, que, basicamente, conta a história de um cara – O Cara – que tenta substituir o tapete velho de seu apartamento após um mafioso urinar nele. No tapete. Não no Jeff Bridges. Durante sua jornada em busca de uma peça de tapeçaria a altura, o Cara se embriaga. Seu coquetel de preferência é o White Russian – feito com leite, licor de café e vodka. Durante pouco menos de duas horas de filme, ele toma nove White Russians.

O Grande Lebowski é um dos meus filmes favoritos. Sempre que o encontro passando na televisão, paro para assisti-lo. Da ultima vez que o revi, fiquei com uma vontade irresistível de tomar um White Russian. Logo que os créditos surgiram na tela, fui à dispensa checar se tinha todos os ingredientes. Licor de café e vodka estavam ao alcance das mãos. Mas faltava o ingrediente mais fácil. Leite.

Talvez tivesse sido mais fácil ir ao supermercado, mas a verdade é que o desespero é o pai da criatividade. E neste caso, a solução foi encontrada onde jamais poderia imaginar. Uma lata, encontrada próxima às papinhas de minha filha: Leite em pó para crianças. Rico em ferro, zinco, iodo e DHA. Seja lá o que DHA for. E no melhor estado “é-o-que-tem-para-hoje”, comecei a elaborar meu drink.

O resultado foi, na melhor das hipóteses, estranho. O leite em pó era muito doce, e possuía um gosto residual metálico que, devo admitir, não combinou nada com a vodka e o licor de café. O coquetel, para falar a verdade, lembrava, de leve, um White Russian. Mas era muito diferente para ser considerado como tal. Ele era, bem, ele era aquilo: um Quase-White-Russian.

Que delícia!
Que delícia!

E meu Quase-White-Russian passou a integrar o infinito rol de quase coisas do mundo. Como aquela quase-feijoada que você comeu no quilo da esquina, mas que só tinha feijão preto. Ou aquela quase-caipirinha que tomou na festa de formatura do seu primo ou sobrinho, mas que só tinha açúcar, limão e água.

Mas nem sempre um quase é ruim. Pelo menos no mundo dos destilados. Um exemplo é o Spirit of Broadside, um destilado produzido pela Adnams Copper House, a destilaria pertencente à cervejaria inglesa Adnams, que chega ao Brasil neste mês de outubro pela importadora Get Trade, responsável também pela importação das cervejas da marca. O Cão esteve no evento de lançamento do Spirit, que aconteceu na última segunda feira, 05 de outubro, no Empório Alto dos Pinheiros em São Paulo.

O Spirit of Broadside é um autoproclamado eau-de-vie-de-biére, cuja tradução estaria na linha de água-da-vida-de-cerveja. Ele também poderia ser definido como um “new-make-spirit”, que é o nome tradicionalmente dado  pelas destilarias de whisky a seu produto sem ou com pouca maturação. Ou simplesmente como um destilado de cerveja, que, neste caso, é a Broadside – veja lá, que coincidência – feita pela Adnams. Você poderia também defini-lo como brandy de cerveja, que é um outro jeito menos francês de dizer eau-de-vie-de-biére. Mas como isso não tem a menor graça, o definirei como um quase-whisky. Logo mais explicarei o porquê deste quase.

Antes, vamos falar da cerveja Broadside. A Broadside é uma english pale ale, produzida com dois tipos de malte. Malte próprio para ales e o chocolate malt, que nada mais é do que malte de cevada queimada, usado em cervejas escuras, como a Guinness. O tal chocolate malt também é utilizado na elaboração do Glenmorangie Signet, um dos whiskies preferidos deste ébrio canídeo. O amargor da Broadside advém da utilização de lúpulos da variedade First Gold. O resultado é uma cerveja relativamente leve, mas com claro sabor de caramelo, amargor e carbonatação médias.

Para produzir o quase-whisky-eau-de-vie-de-biére, a Adnams destila o mosto de sua Broadside em destiladores contínuos de cobre, e não em alambiques. É uma técnica comum na produção de bourbons. O destilado sai da coluna com graduação alcoólica de aproximadamente 85%, para que seja posteriormente diluído. Segundo a Adnams, caso usassem alambiques tradicionais, o processo produziria um destilado cuja graduação variaria entre 55% e 60%, e consumiria muito mais energia. Mas não é por conta disso que ele não pode ser chamado de whisky. Whiskies podem ser destilados em destiladores contínuos.

Não são dois oboés. São os destiladores da Adnams mesmo.

Após a destilação e purificação – a remoção da cauda e cabeça do destilado, que contém substâncias tóxicas – o eau-de-vie resultante matura por doze meses em barricas de carvalho europeu, proveniente da Rússia, e altamente tostadas. Segundo a Adnams, as barricas vêm da Praskoveyskoye Distillery, uma destilaria russa que produz, principalmente, brandy. E aí está. É por conta deste tempo de maturação que o Spirit of Broadside não pode ser considerado um whisky. Por convenção, para que possa usar este nome no Reino Unido, a bebida precisa maturar por, no mínimo, três anos.

O Spirit of Broadside foi lançado em maio de 2012, quarenta anos após o lançamento da cerveja que lhe empresta a base. A cerveja Broadside, por sua vez, saiu dos tanques de fermentação da Adnams pela primeira vez em 1972, em homenagem ao ducentésimo aniversário da Batalha de Sole Bay, que ocorreu muito próxima à costa de Southwold, onde a cervejaria está instalada.

A Broadside Ale custa, no Brasil, em torno de R$ 22,00 (vinte e dois reais), enquanto que o Spirit of Broadside sai por R$ 370,00. O único lugar que vende o quase-whisky, por enquanto, é o Empório Alto dos Pinheiros. E minha sugestão para os whisky geeks como eu é que, se for comprar o new-make-spirit, leve também a cerveja. Tomar os dois separados é bom. Mas toma-los na mesma situação e compará-los, entendendo quanto aquele quase-whisky deve àquela cerveja é simplesmente fantástico. Ou não. Depende do seu conceito de diversão.

É difícil comparar o Spirit of Broadside com qualquer outra coisa. Ele é um destilado do mosto de uma cerveja elaborada, destilado em alambiques contínuos, e maturado em barricas de carvalho europeu proveniente da Rússia. Para compará-lo, seria preciso, primeiro, encontrar algo a ele comparável. Talvez ele seja mesmo como o meu White Russian. Mas, ao contrário dele, não há dúvidas que a experiência deu certo.

ADNAMS SPIRIT OF BROADSIDE

Tipo: New Make Spirit

Destilaria: Adnams Copper House

Região: Southwold – Reino Unido

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, açúcar refinado, grãos, levemente frutado.

Sabor: frutado, adocicado, com baunilha e algumas especiarias. Malte. O sabor demonstra claramente que é um destilado jovem, ainda que muito saboroso.

Com Água: Adicionar agua reduz o sabor frutado e ressalta as características de new-make-spirit.

 Preço: em torno de R$ 370,00 (trezentos e setenta reais)

ADNAMS BROADSIDE ALE

País: Inglaterra

Cervejaria: Adnams

Tipo: EnglishPale Ale

ABV: 6,3% (garrafa) / 4,7 % (chope)

Notas de prova:

Aroma: frutas secas, açúcar mascavo.

Sabor: Açúcar mascavo, frutadas secas, amargor e carbonatação médios.

Preço: R$22,00 (vinte e dois reais)

O Cão Econômico 2/3 – Teacher’s Highland Cream

teachers

Este é o segundo post de uma série de três provas sobre whiskies abaixo de R$ 100,00. O primeiro foi o Glen Grant. Além dele, o Cão já visitou outros três whiskies nessa faixa de preço. Foram White Horse, Johnnie Walker Red Label e Suntory Kakubin.

Se você já acompanha o Cão Engarrafado há algum tempo, provavelmente já percebeu que os automóveis estão entre minhas maiores paixões. Sempre gostei de carros. E na aurora deste meu amor, entre quase todas as marcas do mundo, a que provavelmente ocupava a maior área dentro do meu habitáculo mental de obsessões automobilísticas era a Alfa Romeo.

Os Alfa Romeos, para mim, eram carros com alma. Carros produzidos por apaixonados por automóveis, para os apaixonados por automóveis. Caros, mas absolutamente geniais. Afinal, quase todos os entusiastas colocavam a montadora em posição de destaque em seu rol de paixões. Antes de fazer dezoito anos e tirar minha carta, dirigir um Alfa era uma das coisas que eu mais queria fazer na vida, e provavelmente o único desse rol de desejos pungentes que não envolveria mais ninguém.

Os outros eram participar de uma corrida de enduro e vencer um campeonato de truco. O que você pensou que seriam, afinal?
Os outros eram participar de uma corrida de enduro e vencer um campeonato de truco. O que você pensou que seriam, afinal?

Para minha incrível sorte – ou azar – minha avó possuía um Alfa Romeo 164, pouquíssimo rodado e muito bem cuidado, apesar da idade que já chegava a quase um decênio. E para minha surpresa e êxtase, ela deixou que eu o dirigisse.

E eu sei que você espera que eu diga que a experiência foi comparável a comer um sanduíche de pernil pilotando uma lancha, completamente nu. Mas não. Não foi. Foi péssima. A suspensão era mole demais e o volante não tinha qualquer peso. Fazer curva era uma experiência mais náutica do que automobilística. Virar a direção para a esquerda fazia com que o carro primeiro adernasse para aquele lado, para, só depois de uns bons dois segundos, descrevesse o arco intentado por mim. Não era nada do que eu pensava.

E ainda que aquela experiência horrível não tenha sido suficiente para extinguir por completo a chama da minha paixão pela montadora, entendi algo óbvio. Entendi que, antes de criar um conceito sobre algo, precisaria experimentar ou testar aquilo por minha conta.

Com o tempo, aprendi que esta conclusão elementar se aplicava perfeitamente também ao universo do whisky. Havia uma boa quantidade de whiskies relativamente baratos a serem descobertos. E ainda que muitos deles fossem tão agradáveis quanto fazer uma limpeza de pele aos quinze anos de idade, muitos outros era surpreendentes para sua faixa de preço.

Um destes whiskies foi o Teacher’s Highland Cream. Quando me decidi por experimentá-lo, tinha a certeza que seria um martírio. Mas não sei se por mérito de minha expectativa ou do próprio whisky, a experiência não foi, nem de longe, tão ruim quanto eu pensava.

Vamos falar de números. O Teacher’s custa em torno de quarenta reais. Ele é o whisky mais consumido no Brasil, por uma boa margem de vantagem. Sozinho, ele corresponde a vinte e cinco por cento do mercado nacional de whisky. Ou seja: um quarto de todo whisky consumido no Brasil é Teacher’s.

Ao contrário do que a maioria acredita, o Teachers é produzido na Escócia, com whiskies escoceses, e somente engarrafado no Brasil. Em sua composição, estão single malts de mais de trinta e cinco destilarias. O principal deles é o Ardmore, produzido pela destilaria homônima, localizada na região das Highlands. A proporção entre single malts e grain whiskies no Teacher’s é também relativamente alta. Os maltes representam quarenta e cinco por cento de seu conteúdo.

Um pouco de história. O Teacher’s Highland Cream foi criado por William Teacher em 1863, na cidade de Glasgow. De lá pra cá, sua composição foi bastante alterada. Uma das mais importantes mudanças aconteceu em 1899, quando a Ardmore foi fundada. A destilaria, construída com o objetivo de garantir o fornecimento de whiskies enfumaçados para a Teacher’s, acabou tornando-se uma das destilarias mais conhecidas de Speyside a produzir whiskies com caráter defumado.

Teacher
Pegue um professor: Uma propaganda que jamais teria sido feita hoje.

A marca Teacher’s continuou na família de William Teacher até 1991, quando foi vendida para o grupo Beam Suntory, responsável por marcas como Jim Beam, Suntory e por destilarias importantíssimas na Escócia e Japão, como Laphroaig, Hakushu e Yamazaki.

O Teacher’s Highland Cream colecionou prêmios surpreendentes durante sua existência, principalmente considerando seu baixo preço. Recebeu 90 pontos pela Whisky Bible de Jim Murray, e “Editor’s Choice” da Whisky Magazine, uma das publicações mais importantes da área. Além disso, era a bebida preferida da dama de ferro, Margareth Tatcher. Ela gostava tanto do whisky que poderia até mudar o nome para Margareth Teacher’s (essa foi ruim).

E ainda que o Teacher’s não seja o melhor blended whisky que já experimentei em minha jornada, ele provavelmente é o melhor whisky que já bebi abaixo de R$ 40,00 (quarenta reais). Sua qualidade coloca-o em vantagem folgada em relação a seus concorrentes de preço aproximado.

Diante destes fatos, o conselho deste Cão não poderia ser outro: não acredite muito no que falam. Experimente por sua conta. Há grandes chances de você realmente não gostar daquilo que tomou. Mas, pelo menos, terá criado um conceito seu. Dirija seus Alfa-Romeos e beba seus Teacher’s. Porque uma coisa é absolutamente certa – em algum momento, você se surpreenderá.

TEACHER’S HIGHLAND CREAM

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Teacher’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: levemente esfumaçado, com suave aroma cítrico.

Sabor: frutado, cítrico, com final levemente defumado. Não é um whisky muito complexo. O sabor de álcool é bem aparente, mas não chega a atrapalhar.

Com Água: Adicionar agua ressalta levemente o aroma esfumaçado e reduz a sensação de álcool no paladar.

 Preço: em torno de R$ 40,00 (quarenta reais)

O Cão Didático – Um Micro-Manual para Entender o Rótulo de um Whisky

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Este texto foi originalmente elaborado para nossos amigos da charutando.com.br, portal dedicado à cultura do charuto no Brasil. Mas por sua relevância, resolvi também que faria constar deste blog. Porque, afinal, não é sempre que whiskies e utilidade pública se reúnem.

Pode ser óbvio o que vou falar,  mas adoro combinar puros e whiskies.  Por isso, inclusive, que aceitei com orgulho fazer parte do grupo de colunistas da Charutando. Aliás, tenho uma poltrona na varanda de meu apartamento, estrategicamente posicionada ao lado de uma mesa baixa, exatamente para que possa me dedicar a esta saudável e extenuante atividade. A de fumar um bom habano, acompanhado, quase sempre, de algum single malt e de boa literatura.

E ainda que este programa já seja, em si, excelente, sempre sentia que faltava algo. Havia lá um metafórico espaço vazio a ser preenchido, para que aquela sensação quase kitsch de conforto efetivamente decantasse. Não sabia bem o que era. Até que um dia, sendo forçado a escutar a seleção da Valeska Popozuda que meu vizinho insistia em ouvir no volume mais alto, finalmente entendi o que precisava. Música boa.

Encomendei, então, um bom fone de ouvido. Aliás, um excelente fone de ouvido, capaz de concorrer sem nenhum esforço com a falta de civilismo musical do habitante do apartamento contíguo ao meu. Um desses com cancelamento de ruído e bluetooth. E ainda que o uso de um fone de ouvido não tenha nenhum mistério, resolvi que leria o manual de instruções, só para ver se estava perdendo alguma peculiaridade interessante.

Mas minha curiosidade não foi recompensada. A primeira página do manual já continha a instrução mais inútil que se poderia dar: antes de usar este produto, leia o manual de instruções. Aquilo era provavelmente a melhor definição que eu poderia encontrar do conceito de “contingência” em filosofia. Dentro do rol de instruções inúteis (como, por exemplo, coloque o fone esquerdo no ouvido esquerdo) lá estava, sem sombra de dúvida, a mais inútil de todas. Afinal, se você está lendo a instrução falando para você ler as instruções, você já está lendo as instruções. Fui claro?

 

Alguma montagem talvez possa ser necessária
Alguma montagem talvez possa ser necessária

E ainda que aparentemente não se extraia nada da leitura de manuais de aparelhos eletrônicos caros, a leitura do rótulo ou da caixa de um whisky pode dizer muito – mas muito mesmo – sobre aquilo que se está bebendo. Além disso, eu nunca vi uma caixa de whisky que instruísse o apreciador a, antes de beber, ler a caixa do whisky.

Então resolvi criar este pequeno manual, explicando – bem por cima – o tipo de informação que se pode obter com essa simples e recompensadora leitura. Vou me ater aqui aos escoceses e somente às informações básicas, porque poucas pessoas realmente teriam tempo e paciência em ler instruções gigantes sobre algo. Exceto se estiverem no banheiro. Aí até o rótulo do shampoo funciona.

Tipo whiskies possuem diversas classificações. A título exemplificativo, podem ser single malts (o que significa que é produzido cem por cento com cevada maltada, e destilado em alambiques de cobre em uma única destilaria, como um Glenfiddich 15 anos), single grain (whiskies de grão, inclusive cevada maltada, destilado em destiladores industriais em uma única destilaria, como o Haig Club), blended whiskies (mistura de single malts e single grains, como é o caso do Johnnie Walker Gold Label Reserve), blended malts (mistura de vários single malts, como é o caso do Monkey Shoulder ou Johnnie Walker Green Label) ou blended grain (uma mistura de diversos single grains, como é o caso do Snow Grouse).

Idade – Whiskies escoceses – sejam eles blends ou single malts – podem ou não ter o tempo de maturação estampado na caixa. Por regra, um whisky escocês deve maturar por, no mínimo, três anos em barrica de carvalho. Isso porque o produtor tem a faculdade de escolher se vai ou não indicar sua idade. Em caso afirmativo, o número deve corresponder ao tempo de maturação do whisky mais jovem que está em sua composição. Por exemplo, no caso do Royal Salute 38 anos Stone of Destiny, o whisky mais jovem que está lá dentro possui trinta e oito anos, sem prejuízo de haver whiskies ainda mais maturados na mistura!

O produtor, entretanto, tem a liberdade de não informar a idade. Nestes casos, o whisky é conhecido como “no-age-statement” ou sem idade determinada. É o caso, por exemplo, do Macallan Ruby, Chivas Regal Extra e – pasme – Johnnie Walker Red Label. E mesmo para um paladar treinado, em alguns casos, é realmente difícil tentar adivinhar a idade do destilado. Tipo adivinhar a idade do Silvio Santos.

Graduação Alcoólica – O padrão da indústria é que, para que seja considerado whisky escocês, a graduação alcoólica mínima seja de 40%. Entretanto, whiskies podem sair do barril em qualquer graduação alcoólica entre 65% (mais ou menos) e 40%. Isso, inclusive, varia de barrica para barrica, sendo impossível controlar a evaporação de uma forma absolutamente eficaz. A maioria das destilarias e blenders, assim, diluem o whisky utilizando água industrial, para que atinjam uma graduação alcoólica uniforme e mais, como direi, humana.

 

Ou, para alguns, automobilística.
Ou, para alguns, automobilística.

No entanto, como nem todo ser humano possui bom senso – como é o caso do meu vizinho e do cara que escreveu o manual dos meus fones de ouvido, por exemplo – existem whiskies estampados com a expressão “cask strength”. Um exemplo deles é o Kavalan Solist Vinho Barrique. São edições mais raras, e nenhum cask strength é comercializado no Brasil. Mas a expressão significa que o whisky foi engarrafado sem diluição nenhuma, direto do barril.

Região – Single malts geralmente possuem a região em que sua destilaria se localiza estampado no rótulo e na caixa. Isso pode dar alguma ideia do sabor e aroma que aquele whisky terá. Existem exceções em todos os casos, mas, em tese, whiskies provenientes de Speyside são mais frutados e muito levemente defumados, enquanto que os das highlands, por sua vez, são mais florais. Whiskies provenientes de Islay costumam ter caráter defumado pronunciado. Já whiskies das lowlands são mais leves e adocicados. Ou não. Afinal, isso está bem longe de ser uma regra absoluta.

Além dessas informações básicas, a caixa e o rótulo do whisky podem conter dados interessantíssimos sobre aquilo que se está prestes a beber. Foi lendo a embalagem que descobri que a Glenmorangie possui os alambiques mais altos da Escócia, que a Balvenie ainda emprega um grupo próprio de tanoeiros. Aprendi também que o Ardbeg Corryvreckan foi batizado em homenagem ao segundo maior redemoinho de água salgada do mundo, mesmo que eu não saiba bem o que fazer com essa informação ainda.

Assim, a dica de hoje deste Cão é a seguinte: antes de comprar, leia a caixa. Normalmente, tudo que se precisa saber – exceto se você for absolutamente obcecado pelo assunto, como eu – estará lá. E se você não sair com uma garrafa embaixo do braço, pelo menos sairá mais sábio. E, para conhecimento, não existe limite de bom senso.

 

Sobre Adversidade / O Cão Econômico 1 de 3 – Glen Grant

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John Lennon uma vez disse que a vida é o que acontece quando se está ocupado fazendo outros planos. Já William Cowper disse que a variedade é o tempero da vida. É verdade. Se juntarmos os dois, teremos que o verdadeiro tempero da vida é a infinidade de coisas que podem acontecer enquanto fazemos outra coisa.

A vida é o que acontece quando você está pronto para dormir, mas pisa nas necessidades que seu cachorro fez no corredor, em sinal de protesto por não o ter levado para passear. Ou quando você está refletindo sobre o que vai beliscar, nu, na frente da geladeira, e ouve sua sogra entrando pela única porta que separa a cozinha do quarto de sua casa. Ou quando você acabou de colocar sua filha no berço, e chuta uma boneca que começa a cantar a música do Frozen. Ou ainda quando você já terminou, mas acabou de descobrir que sua esposa usou todo o papel higiênico e não o repôs.

Talvez fosse mais fácil passear com o cachorro, usar uma bermuda, guardar os brinquedos e checar com antecedência o lugar do papel. Mas a verdade é que o imprevisto é a especiaria da vida. Seu tempero secreto. O ingrediente que nos tira da zona de conforto. Na maioria das vezes, contra nossa vontade.

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Pimenta no ** dos outros.

Foi isso que aconteceu comigo na semana passada, quando planejava os próximos textos que colocaria neste blog. Planejava rever algum bom single malt. Algo da série O Cão Sofisticado. Mas meus planos se desintegraram em uma névoa espessa com cheiro metálico quando um transformador da rua explodiu, consequentemente queimando minha máquina de lavar e televisão da sala.

As coisas pioraram quando fui informado que os eletrodomésticos estavam além do reparável. Então, me vi mais uma vez obrigado a rever meu orçamento alcoólico. E por conta disso, meus caros, por conta desta pitada de pimenta do reino em minha existência, farei novamente três posts sobre três whiskies abaixo de cem reais. Mas dessa vez começarei com coisa fina. Um single malt. Falarei do Glen Grant.

É seguro dizer que o Glen Grant é, sem nenhuma sombra de dúvida, o melhor single malt abaixo de cem reais. Mesmo porque ele é o único. Ele é um whisky leve, extremamente bebível, com aroma de baunilha e sabor adocicado e frutado. E apesar de não ser muito complexo, é um single malt bem agradável.

Tudo na Glen Grant contribui para a leveza de seu whisky. Seus washbacks (tanques de fermentação) são feitos de madeira de pinho, e não de metal. O pinho absorve mais calor durante o período de fermentação, contribuindo para a suavidade do single malt. Muitas destilarias, entretanto, utilizam tanques feitos de aço inoxidável, o que reduz muito o custo de manutenção.

Além disso, os alambiques da Glen Grant são bastante altos, fazendo com que apenas as partículas mais leves atinjam seu topo, durante o processo de destilação. Além disso, a Glen Grant é uma das únicas destilarias que utiliza purificadores em seus alambiques de primeira e segunda destilação. Estes fatores contribuem para que o whisky se torne bastante leve e agradável para a maioria dos paladares.

Para os mais afeitos à ciência, os purificadores funcionam como pequenos condensadores, que fazem com que uma parte dos vapores decorrentes da destilação condensem, retornando ao alambique, para que sejam re-destilados. Mais uma vez, como as destilarias escocesas não têm muito interesse em divulgar fotos de suas instalações e segredos industriais, aí vai uma bela obra de arte, orgulhosamente elaborada por este canídeo, para seu deleite:

 

Não é um disco voador. É um alambique.
Não. Não é um disco voador. Nem um sombrero. É um alambique.

A maturação do Glen Grant ocorre em barricas de carvalho americano que antes maturaram Bourbon whiskey. Apesar de não haver idade no rótulo, pode-se notar que é um whisky jovem. O álcool ainda é bastante aparente, apesar de não ser agressivo. Tipo a nudez na frente da geladeira.

Assim como metade de tudo que existe na Escócia, a destilaria, localizada em Speyside, foi fundada em 1840 por alguém cujo sobrenome era Grant. James Grant, no caso. James passou o negócio para seu filho, também James. Depois a história fica um pouco complicada. Em 1972, a destilaria foi comprada pela Longmorn-Glenlivet e Hill Thompson & Co, que, por sua vez, foi comprada pela Seagram’s. Mas em 2001 a Seagrams foi adquirida pela Diageo e pela Pernod Ricard, que a dividiram. A Glen Grant então ficou com a Pernod Ricard, que, por sua vez, a vendeu para Davide Campari. E apesar desta verdadeira quadrilha (veja Drummond) de mergers & acquisitions, a Glen Grant permaneceu com o nome de seu fundador. Um nome raríssimo. Grant.

No Brasil, uma garrafa do Glen Grant custa em torno d R$ 95,00 (noventa e cinco reais). Apenas cinco reais abaixo de nosso limite orçamentário. E ainda que, em termos de sabor e aroma, o Glen Grant se aproxime bastante de um bom blended whisky, seu preço torna-o uma opção quase irrecusável para aqueles que querem experimentar um single malt, mas sem comprometer valores com mais de dois dígitos.

Para ser sincero, o Glen Grant não é o melhor single malt que já experimentei. Mas também está bem longe de ser o pior. Entretanto, mesmo que você não vá morrer de paixão por ele, é também difícil que não vá gostar. Ele é uma aposta absolutamente segura, com retorno certo. Porque o imprevisto até pode ser o tempero da vida. Mas às vezes, tudo que queremos é segurança.

GLEN GRANT

Tipo: Single Malt sem idade definida (NAS)

Destilaria: Glen Grant

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: compota de frutas, baunilha.

Sabor: frutado, doce, com clara baunilha. Final médio e adocicado.

Com água: A água ressalta o sabor doce e a baunilha. Talvez seja um whisky que funcione melhor puro.

Preço: R$ 95,00 (noventa e cinco reais)

Um Não Post / Sobre a Inércia – Glenmorangie Nectar D’Or

 

Nectar D'Or

Há dias que realmente não queremos fazer absolutamente nada. Ontem foi um desses. Deitado no sofá, estava eu com uma preguiça petrificante de escrever um post. Eram cinco horas da tarde e eu pensava em tudo aquilo que poderia fazer, caso somente tivesse energia para levantar daquele meu leito. Sem mover sequer um milímetro de qualquer membro de meu corpo, pensava que poderia ir à academia, afinal, não corria há uma semana, e precisava me exercitar.

Poderia também cozinhar alguma coisa. Havia comprado ovos, pancetta e uma caixa de spaghettini no supermercado, e com alguma disposição e um pouco de auxílio do mundo digital, poderia improvisar um carbonara para o jantar da Cã e da Cãzinha. Mas não. Porque aquilo exigiria que eu me movesse, e aquele estado de pré-sonolência me embalava de uma forma irresistível.

Ao lado do sofá, a poucos centímetros do meu alcance máximo, havia uma garrafa do single malt que deveria ser o tema do post dessa semana. O Glenmorangie Nectar D’Or. Um ótimo whisky. Aliás, um dos três whiskies que fizeram com que eu começasse a me interessar pela bebida.

Mas para pegá-lo, seria necessário que eu me esticasse e saísse de minha posição de conforto, arriscando assassinar brutalmente a sensação de torpor que sentia. Com cuidado cirúrgico, movimentei os olhos em direção à garrafa, mobilizando o menor número possível de músculos de minha cabeça.

Fiquei com preguiça de pensar em uma piada para a imagem, então colocarei fotos de animais dormindo em posições confortáveis.
Fiquei com preguiça de pensar em uma piada para a imagem, então colocarei fotos de animais dormindo em posições confortáveis.

A visão da garrafa, com o rótulo recentemente reformulado, evocou em minha memória seus aromas e sabores. Algo como chocolate branco e baunilha, com um leve toque cítrico. Era um single malt extremamente doce, mas muito equilibrado. Li, com cuidado, o que já havia lido centenas de vezes no rótulo, que – graças a uma conveniência literária – estava virado em minha direção: extra matured in sauternes casks.

Lembrei-me do post que fiz sobre o Glenmorangie Quinta Ruban. Ah, se eu apenas tivesse energia para levantar do sofá e escrever um post como aquele. Mas não, a sensação de imobilidade havia me conquistado por completo. Quanto tempo será que eu conseguiria ficar completamente parado antes de ficar com câimbra, ou alguma coisa gangrenar? Deve ser bastante tempo, afinal, tem uns Sikhs que passam a vida toda com o braço levantado.

Naquele post, havia explicado o conceito de maturação extra, algo que teria sido inventado pela Glenmorangie com seu Glenmorangie Portwood Finish, e depois transportado para outros lançamentos da destilaria, como seu Quinta Ruban. No caso do Nectar D’Or, a maturação ocorre por dez anos em barricas de carvalho americano que antes continham bourbon, para que depois o destilado seja transferido para barricas de ex-sauternes francês, um vinho de sobremesa, onde passa mais dois anos antes de ser engarrafado. Quanto trabalho. Só de imaginar já ficava cansado. Será que se eu ficasse mais algumas horas imóvel grudaria no sofá?

Logo descobri que os Sikhs realmente eram esforçados. Meu pescoço começava a latejar, de leve. Será que seria hora de levantar? Não, a pequena dor na nuca não seria suficiente para superar a quase completa sensação de conforto que sentia. Entretanto, serviu para lembrar-me que os alambiques da Glenmorangie são os mais altos da Escócia. Cada um, com mais de cinco metros de comprimento. Por conta disso, apenas as moléculas mais leves do produto da destilação alcançam seu topo.

Sono gostoso.
Sono gostoso.

Já estava há boas duas horas imóvel. Deitara-me quando a Cã saiu com a Cãzinha para ir ao parque, e disse que não demoraria. Aliás, pedira que eu preparasse o jantar. Se ela voltasse e me encontrasse naquela posição, talvez eu tivesse um preço a pagar. E com este falso parônimo, lembrei-me que o preço de um Nectar D’Or no Brasil é de R$ 300,00 (trezentos reais).

Lembrei-me rapidamente que o Nectar D’Or recebeu vários prêmios em competições internacionais, como, por exemplo, a medalha de prata na International Wine and Spirits Competition de 2014 na categoria de melhores single malts das highlands, e medalha de ouro na International Spirits Challenge de 2014, na categoria de single malts de até doze anos. Talvez, se eu levantasse e preparasse aquele carbonara, trocaria a represália por uma recompensa, ainda que afetiva.

É. Talvez fosse mesmo a hora de me movimentar. Lentamente, levei meu pé em direção ao chão. Iria direto para a cozinha organizar o mis-en-place para começar a preparar o jantar. Mas não antes de me esticar para alcançar a garrafa e servir-me de uma dose daquele single malt espetacular. Para aquilo tudo sim, valia a pena vencer qualquer preguiça.

GLENMORANGIE NECTAR D’OR

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 12 anos

Destilaria: Glenmorangie

Região: Highlands

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: cítrico, bastante frutado, com laranja e maçã.

Sabor: levemente cítrico, com chocolate branco e coco. Bastante adocicado, mas longe de ser enjoativo. Final médio para prolongado, levemente picante, com predominância também de frutas cítricas.

Com água: A agua ressalta ainda mais as notas de coco e chocolate branco, e reduz um pouco o aroma cítrico. Com água ou sem água, fica excelente.

Preço: R$ 300,00 (trezentos reais)