Suburban Cocktail – Dos cavalos

Este é um daqueles posts cuja introdução já vem pronta. O Suburban Cocktail tem uma história tão legal, que é desnecessária qualquer digressão introdutória. Entretanto, em nome da coerencia narrativa, meu preâmbulo envolverá cavalos, investimentos em mineração e uma copiosa quantidade de álcool.

Para entender de onde veio o coquetel, é preciso conhecer James Robert Keene. Um britânico expatriado, que se mudou com sua abastada família para os Estados Unidos, em 1852. Sua vida foi relativamente agitada. Keene começou como jornalista, mas abandonou a profissão para investir em mineração. A estratégia deu certo. Em pouco tempo, Robert possuía uma fortuna. Em pouco tempo, mas não por muito tempo. Perdeu tudo que tinha ao diversificar seus investimentos, focando em grãos.

Um distinto colecionador de bigodes.

Entretanto, em 1884, ele fez um retorno extraordinário. Foi contratado pelo investidor William Havemeyer para gerenciar fundos de investimento. Naquele ponto, Keene já conhecia uma ou outra estratégia de manipulação do mercado – como por exemplo espalhar rumores sobre companhias para inflacionar o preço de suas ações. Logo recobrou sua notoriedade, e foi contratado pelo J. P. Morgan e Rockfeller para gerenciar seus fundos.

Apesar de extremamente talentoso, Keene tornou-se notório não por seu trabalho com fundos de investimento. Mas, sim, cavalos de corrida. Vivendo em Nova Iorque, envolveu-se com criação de puro-sangues, e fez um enorme investimento neles. Alguns de seus animais eram ainda mais notáveis do que ele próprio. Os belos Colin, Peter Pan, Commando, Maskette e Sysonby lhe renderam seis vitórias no Belmont Stakes e uma no Preakness Stakes – parte da Tríplice Coroa.

E aí que está o ponto de conexão com o Suburban. Corrida de cavalos era um passatempo muito popular na classe alta de Nova Iorque. Outro destes passatempos – quiçá mais barato – era beber. Naturalmente, em algum ponto, surgiria um ponto de tangência entre os dois. Coquetéis como o Suburban foram criados em homenagem a estes criadores e entusiastas equestres. Em 1935, uma edição do Old Waldorf-Astoria Bar Book explicitou que “coquetéis como Futurity, Suburban e outros celebravam os triunfos de Robert Keene e seus companheiros de corrida, e outros notáveis proprietários de estábulos ou pistas de corridas“.

É importante apontar, como lembrado por Marcelo Sant’Iago, do Top Cocktails, que o Suburban provavelmente foi criado muito antes – provavelmente, antes da Lei-Seca norte-americana. Há registros do Suburban Stakes – a corrida que empresta o nome ao drink desde 1884. A vitória de James Keene é de 1908, de um cavalo chamado Ballot.

Suburban Stakes é uma corrida anual, que acontece em Nova Iorque

O coquetel seria apenas mais uma criação ligada ao mundo equestre, não fosse o grande David Wondrich. Incluiu a mistura em seu Esquire Drinks, e elevou o coquetel a um elixir. Escreveu que “se você pudesse destilar painéis de carvalho esculpido e poltronas, volumes encadernados em couro e mesas de bilhar com três almofadas, isso é o que você conseguiria.” E, de certa forma, a descrição de Wondrich tem pouco de hiperbólica.

O coquetel tem mais ou menos a estutura de um vieux carré, com boas modificações em seus ingredientes. Leva Rye Whiskey, rum maturado, vinho do porto e bitters aromáticos e de laranja. É intenso e oleoso, mas é menos adocicado na língua do que parece no papel. Claro, o equilíbrio dependerá dos ingredientes. A dica deste Cão é utilizar um rum bem puxado para baunilha, ou bastante aromático, como o Havana Club 7 anos. O porto utilizado aqui foi um Niepoort Tawny sem idade. Mas, sinta-se a vontade para testar com o que tiver. Com vocês, o Suburban.

SUBURBAN COCKTAIL

INGREDIENTES

  • 45ml Rye Whiskey
  • 15ml Rum (Havana Club 7)
  • 15ml vinho do porto
  • 1 dash Orange Bitters
  • 1 dash Angostura Bitters
  • Parafernália para mexer
  • taça coupé, de martini ou Nick & Nora.

PREPARO:

  1. Mexa todos os ingredientes num mixing glass com bastante gelo
  2. desça na taça
  3. beba e comemore a vitória de seus cavalos imaginários.

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