Toronto Cocktail – Gosto Adquirido

Na semana passada levei a Cãzinha para experimentar sushi pela primeira vez. Dei todas as coordenadas básicas, inclusive sobre como segurar o hashi. Notei, no entanto, que essa parte exigia uma certa prática, e pedi que o garçom a ajudasse. Isso foi até engraçado, porque ele trouxe um mini pikachu de borracha que, quando espetado nas partes baixas, fazia uma espécie de mola que segurava os palitinhos abertos. Mas, enfim, não é isso que importa. Mas papai, isso é bem esquisito, é arroz grudado com peixe cru, não é bom não. Levantei as sobrancelhas. Olha, cria, eu não tinha muito critério sobre o que comer quando era criança, mas, reconheço que eu também não gostei da primeira vez. E continuei. Acho que sushi é tipo anchovas, gorgonzola ou relacionamentos de longo prazo, é o que a gente chama de gosto adquirido. Se você insistir, vai passar a gostar tanto que até vai ficar com saudades. Ela acenou com a cabeça, fez plec-plec com os palitinhos presos pelo pokemon e pegou mais um hossomaki. Missão cumprida. Depois, fiquei pensando como é engraçado esse lance de gosto adquirido. Tem coisas que eu detestava. E hoje, até corro atrás pra comprar. Dizem que […]

The Macallan Harmony Collection Rich Cacao

Quando eu era criança, fazia uma porção de coisas bobas sem muito motivo. Não coisas grandes, tipo me arrebentar de boca depois de desafiar as leis da física numa bicicleta e tal. Mas, pequenas experiências. Como, por exemplo, sentar em cima da mão durante a aula, para retirá-la depois e perceber uma certa concavidade no derriére. Tentar empurrar todas as cores daquela caneta multicolorida. Ou enfiar um alfinete na pelinha do dedo, só pra ver ele pendurado. Ou, então, a clássica de colocar uma mão na bacia quente e outra na fria, e depois as duas na morna, para notar que a fria ficou mais quente que a quente. Ou algo assim. Para falar a verdade, quando a gente cresce, não deixa de fazer essas coisas. Quer dizer, essas coisas não, mas coisas bem parecidas. Faz parte de nossa natureza fazer experimentações. Algumas, meio inúteis e sem graça. Outras, maravilhosas. E como um entusiasta de whiskies e gastronomia, para mim, pouca coisa supera a harmonização de sabores. E é justamente aí que entra o The Macallan Harmony Collection: Rich Cacao – recente lançamento da The Macallan. O The Macallan Harmony Collection: Rich Cacao foi desenvolvido pela whisky maker Polly Logan, […]

Dia dos Namorados com Whisky – presentes e eventos

Eu não quero que você queira porque eu quero. Eu quero que você queira porque você quer de verdade. Foi assim que terminou uma discussão de aproximadamente cinco minutos entre eu e minha querida Cã. O quase trava-línguas, proferido por ela, não dava muito espaço para réplica. Não importava ter boas intenções, eu tinha que querer de verdade. A contenda começou com ela perguntando se eu queria sair pra jantar no dia dos namorados. Respondi, com toda minha pragmaticidade, que não. Que eu preferia demonstrar meu amor por ela por meio da gastronomia nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano – quando não tem fila e bacalhau pelo dobro do preço. “mas então a gente não vai comemorar?” indagou ela, já num tom inquisitivo. “Podemos, não quer que eu cozinhe?“. “Você cozinha quase todo dia. Aliás, seu presente tá comprado, e o meu?“ Meu silêncio me condenou. Faltavam ainda duas semanas pro dia dos namorados. Meu horizonte de planejamento de vinte e quatro horas não tinha chegado lá ainda. Acenei negativamente com a cabeça dei um sorrisinho doloso.” Acho que a gente podia ir naquele português que você ama, pensando bem.”. E foi aí, nesse momento, que […]

Arroz de frutos do mar com whisky

Recentemente viajei para Portugal com a Cã. A viagem foi bem legal, bebemos vinhos ótimos e conhecemos lugares maravilhosos. Mas o que a gente mais fez lá foi, seguramente, comer. E é engraçado, porque os portugueses tem a mesma obsessão culinária que eu – tudo que vem do mar. Deve estar impresso no código genético de alguma forma. Naturalmente, aproveitei para experimentar algumas coisinhas inéditas. Como, por exemplo, ligueirão – que é um bicho compridinho, que parece mexilhão de sabor e textura. E percebes, que além do nome curioso, é outro molusco estranho – visualmente, parecem várias mini-patas de triceratops. E, óbvio, lampréia, aquela sanguessuga enorme cheia de dentes. Que eles tradicionalmente fazem com um molho de vinho maravilhoso, para evitar que você pense que está a comer uma sanguessuga enorme cheia de dentes. Quando voltei para o Brasil, permaneci por algum tempo com a chavinha da obsessão ligada. E resolvi arriscar alguns pratos que havia provado lá. Dentre eles, um arroz de frutos do mar, que eu tenho apenas uma vaga lembrança do original, por motivos de vinhos do douro e do Porto. De toda forma, usurpei a memória que tinha e a adequei para minha habilidade culinária – […]

Union Vintage 2005 – Flashback

Cento e sessenta e quatro milhões de reais em notas de cinquenta. São três milhões, duzentas e oitenta mil cédulas. Se alguém resolvesse, algum dia, empilhá-las, a torre chegaria a trinta e três metros de altura. E se pesadas, dariam aproximadamente três toneladas e meia. Três toneladas e meia de dinheiro, em notas de cinquenta reais. Em volume, dariam para preencher mais de seis caixas d’agua de um metro cúbico. Só pelo puro volume e peso, pode parecer uma quantidade infurtável de dinheiro. Mas foi justamente isso que aconteceu em Fortaleza, no segundo maior roubo a bancos do mundo – o tal assalto ao Banco Central, que até deu origem a um filme da Netflix. Os ladrões agiram por mais de três meses, planejando cada detalhe. Cavaram um túnel até o cofre e tiraram, pacientemente, todas as seis toneladas e meia com o uso de bacias e cordas. Nenhum alarme foi disparado. A notícia do roubo chegou a imprensa apenas no dia seguinte. Que você, querido leitor, provavelmente leu ao utilizar algum sistema de busca como o Altavista e o Yahoo. Ou, se fosse conectado as últimas tendências digitais, viu no recém-fundado YouTube. Pois é. O evento aconteceu em 2005. […]

Cinco whiskies que deixaram saudades

Naquela época, os carros eram bem melhores – disse meu amigo, afagando, numa direção só, o teto de seu Opala. Olha o design disso, olha o motor. Apertei os lábios em aprovação e pedi: Liga aí, vamos ouvir o barulho dele. Empolgado, colocou a chave no contato. O motor de arranque girou, girou, mas nada daquele reconfortante barulho dos gases em combustão saíndo do escape. Deve estar frio, concluiu. É, normal, naquela época era normal – concordei – abrindo a porta e sentando ao seu lado, no banco inteiriço. Me conta, faz quantos quilômetros por litro, indaguei. Cara, quando tô descendo a serra, uns quatro. Dei uma risadinha. Puxa, não é nada econômico. Mas né, mesmo com a gasolina custando o mesmo que o PIB de um país europeu, vale a pena. Naquela época eles eram muito mais legais – comentei, firme. Ele concordou com a cabeça e completou: A única coisa que fico um pouco cabreiro é com a frenagem e segurança. Só cinto de segurança, e não tem ABS, nada, só o freio a disco mesmo. Levantei as palmas pra cima e dei de ombros – normal, coisa daquela época, que era bem melhor. Meu amigo baixou as […]

A História do whisky japonês – Parte II

Na semana passada contamos os primeiros capítulos da história do whisky japonês. Do desembarque de Matthew Perry no porto de Edo, até a fundação da Suntory por Shinjiro Torii e Masataka Taketsuru. Por ora, tudo estava em paz. Mas sossego nenhum dura pra sempre, então, retomaremos a história com: Conflitos domésticos e internacionais Em 1934, Masataka Taketsuru resolveu alçar voo solo. Demitiu-se da Kotobukiya e começou a trabalhar no projeto de sua nova destilaria. Essa, onde ele sempre sonhara. A ilha de Hokkaido. Por não ser um empreendedor tão nato quanto Torii, Masataka resolveu batizar seu novo empreendimento de Dainipponkaju – perfeito para se falar depois de algumas doses de Kakubin. Depois, e provavelmente ao ouvir a voz da razão de Rita, mudou o nome da empresa para algo mais pronunciável mesmo alcoolizado. Nikka. Em 1940 a Yoichi, primiera destilaria do grupo Nikka, passou a funcionar. Foi nessa época que a Kotobukiya também alterou a denominação, e passou a atender por Suntory. Que, caso não tenha notado, é Torii-San ao contrário. E você, que achava que “Daslu” ou “Apple” eram ideias cretinas. Ao longo da década de trinta, o consumo de whisky no Japão ainda era pequeno e – apesar […]

A História do Whiskey Japonês – Parte I

Todos nós conhecemos o estereótipo de cientista maluco. Aquele cara que tem um sonho bizarro, quase inalcançável, é socialmente inapto e meio esquisitão. Se for personagem de um filme, ele usa jaleco branco, não penteia o cabelo e às vezes dá umas tremidas esquisitas, como se estivesse possuído pelo capiroto. Mas, por trás da bizarrice toda, está um gênio, capaz de criar algo que mudaria a história da humanidade. É uma hipérbole, como todo estereótipo. Mas, isso não significa que ele não poderia existir. Um exemplo quase perfeito é John Whiteside Parsons – conhecido como Jack Parsons. Caso você não conheça, vou preguiçosamente transcrever aqui a descrição do primeiro parágrafo da Wikipedia. “Parsons foi um engenheiro de foguetes, químico e ocultista Telemita americano“. Convenhamos, é um currículo impressionante. Pouca gente é ocultista e mexe com foguetes. Parsons era justamente isso. Ele foi um dos principais fundadores do Jet Propulsion Laboratory, e desenvolveu um combustível sólido para jatos composto, basicamente, por amida, nitrato de amônia e amido de milho. Além de ser um cientista brilhante, Parsons era também um ocultista. Mergulhou fervorosamente no mundo da magia negra em 1945, quando conheceu o escritor L. Ron Hubbart. Ambos conduziram uma série de […]

Drops – Compass Box Menagerie

A humanidade já teve uns períodos bem esquisitos. E nem tô falando da década de oitenta, em que tudo era horroroso a ponto de até o Almodóvar fazer um filme inassistível. Me refiro a épocas bem mais remotas. Como, por exemplo, a idade média. Além da inexistência de padrões mínimos de higiene, o povo medieval curtia uns troços bem esquisitos. Especialmente os nobres. Por exemplo, muitos deles mantinham coleções de animais exóticos em suas cortes reais. Algo que, pra mim, e talvez aqui denuncie a idade, parece coisa do Sigfried & Ross. Essas coleções malucas se chamavam Menageries, e eram símbolos de poder, usados com o único fim de ostentar. Ao invés de ter uma Lamborghini – mesmo porque Lambos não existiam – o cara comprava um par de, sei lá, hipopótamos. E aí, tinha que ter um cara só pra limpar a montanha de caca no meio do palácio. E evitar que o tigre de bengala, que fora presente de outro nobre sem noção, não tentasse devorá-los – ou devorar o cuidador. Mas tudo era recompensador, porque quando a corte inteira ficava fedendo a cocô, o nobre podia dizer “ah, esse aroma é porque eu ganhei um casal adorável […]

Lamas Robustus – Slogan

Tem mil e uma utilidades. A primeira impressão é a que fica. Uma boa idéia. Vale por um bifinho. Quem pede um, pede bis. Seria até redundante dizer, mas, vou fazê-lo mesmo assim. Estes são os slogans de algumas marcas conhecidíssimas de produtos. Bombril, Axe, 51, Danoninho e Bis. Mais do que frases que colam ao seu cérebro mais do que super bonder – cujo slogan devia ser “cola tudo, até mesmo a tampa do tubo” – são frases que definem, com precisão, a essência de suas marcas. Bombril, por exemplo, é perfeito. Há usos bem tradicionais, como limpar fogão, talheres e pratos. Há usos mais criativos, mas, ainda assim, lícitos, como usar de booster para a antena do televisor de tubo, ou esculpir uma lagartixa de ferro e dar pra alguma criança. E há todos aqueles que desafiam a lógica e a lei. Como, por exemplo, extensor para gato na rede elétrica (cuidado, vocês não ouviram isso aqui). Outros, no entanto, são como bombril. Servem pra quase tudo – por exemplo “uma boa ideia”. Qualquer coisa pode ser uma boa ideia. Até mesmo ideias cujo resultado é bem ruim, quando concebidas, parecem ser boas ideias. Tipo beber uma garrafa […]