Visita à Union – Leviatã

Criaturas mitológicas gigantes povoaram a imaginação humana desde tempos imemoriáveis. São a materialização do temor do desconhecido. Seja por mares jamais navegados ou terras nunca desbravadas. A lista é grande, e se alonga pela mitologia, folclore e literatura. Moby Dick, Kraken, Leviatã, Amarok (o lobo, não o carro). Em comum, seu tamanho gargantual, e a incredulidade de quem os supostamente viu em carne e osso. A Union Distillery, em Bento Gonçalves, talvez seja uma lenda destas, no folclore do whisky brasileiro. Uma destilaria enorme, instalada em um vale cheio de vinícolas, e capaz de rivalizar em tamanho e capacidade com algumas notáveis fábricas escocesas. Parece material de lendas. Mas, neste caso, por mais cafona que pareça esta introdução, é verdade. Desavisados que desconhecem a dimensão da Union surpreendem-se. Avisados, também. Vista por fora ou por dentro, a Union é um gigante. Ela produz em torno de 1,5 milhões e meio de litros por ano de single malt, com capacidade máxima de aproximadamente 3,5 milhões. Importante apontar que a Union possui duas destilarias. Uma menor – a primeira a ser construída – em Veranópolis. E uma maior em Bento Gonçalves. Foi esta que visitamos. A destilaria de Veranópolis não destila mais […]

Suburban Cocktail – Dos cavalos

Este é um daqueles posts cuja introdução já vem pronta. O Suburban Cocktail tem uma história tão legal, que é desnecessária qualquer digressão introdutória. Entretanto, em nome da coerencia narrativa, meu preâmbulo envolverá cavalos, investimentos em mineração e uma copiosa quantidade de álcool. Para entender de onde veio o coquetel, é preciso conhecer James Robert Keene. Um britânico expatriado, que se mudou com sua abastada família para os Estados Unidos, em 1852. Sua vida foi relativamente agitada. Keene começou como jornalista, mas abandonou a profissão para investir em mineração. A estratégia deu certo. Em pouco tempo, Robert possuía uma fortuna. Em pouco tempo, mas não por muito tempo. Perdeu tudo que tinha ao diversificar seus investimentos, focando em grãos. Entretanto, em 1884, ele fez um retorno extraordinário. Foi contratado pelo investidor William Havemeyer para gerenciar fundos de investimento. Naquele ponto, Keene já conhecia uma ou outra estratégia de manipulação do mercado – como por exemplo espalhar rumores sobre companhias para inflacionar o preço de suas ações. Logo recobrou sua notoriedade, e foi contratado pelo J. P. Morgan e Rockfeller para gerenciar seus fundos. Apesar de extremamente talentoso, Keene tornou-se notório não por seu trabalho com fundos de investimento. Mas, sim, […]

A História da Glenlivet – Dos Abacaxis

Este é o primeiro de uma série de posts eventuais sobre histórias de marcas de whisky. Quando outras matérias surgirem, você poderá acessá-las por aqui. Hoje fui ao supermercado e vi um abacaxi. Aliás, um não, vários. Pensei em comprar, mas achei caro. Dez reais. Gosto bastante de abacaxi, mas não tenho nenhum grande fascínio pela fruta. Porém, se eu vivesse na Europa do século dezoito, certamente teria uma opinião bem diferente. É que naquela época o abacaxi era considerado o supra (desculpem-me pela ambiguidade cretina hifenizada)-sumo do luxo. A mera presença da fruta exalava requinte. Muitas vezes, o abacaxi nem era comido – era apenas uma peça de decoração. E quem não podia comprar um, alugava. Mas tinha que tomar cuidado, porque era capaz de algum convidado comer a peça de decoração. O abacaxi se tornou tão desejado na Europa do século dezoito, que virou símbolo de hospitalidade. Tanto é que muitas mansões construídas naquela época exibiam esculturas de abacaxi na entrada, para dar as boas vindas a seus visitantes. O abacaxi figurou também em brasões, cabeceiras de cama e pratos de porcelana. Imaginem, então, o sucesso que um whisky com notas de abacaxi teria feito. Bom, e foi […]

A praga que fez o whisky um sucesso

“Vou ensinar um estorninho a repetir apenas “Mortimer”, e lho darei de presente, para manter sua raiva ativa“. Quando William Shakespeare pousou sua pluma para escrever a passagem acima, parte da obra Henrique IV, jamais teria aventado que causaria uma catástrofe aérea. Mas, por uma curiosa conjunção de coincidências, foi justamente o que ocorreu. Em Boston, quatro de outubro de 1960. A história, entretanto, começou bem antes, em 1860, com Eugene Schieffelin. Eugene era um ornitólogo, parte do American Acclimatization Society, um grupo cujo objetivo era introduzir flora e fauna européias nos Estados Unidos, por razões completamente malucas hoje em dia. Eugene era também apaixonado por Shakespeare. Tão apaixonado, que importou todas as aves citadas nas obras do bardo para os EUA. Corujas, cormorões, pardais e cotovias e as soltou pelo país. A maioria delas, entretanto, não prosperou. O clima era diferente, e a adaptação difícil. Uma, entretanto, logrou enorme sucesso. O estorninho.  Sucesso tamanho que teve consequências catastróficas. Eugene soltou em torno de 80 casais da ave no Central Park, em Nova York, em 1860. Hoje, estima-se que haja mais de dois milhões de estorninhos no país. E o que ele tem de bonitinho, tem de destruidor. Além de […]

Red Hook – Autoparáfrase

Eu já falei uma vez aqui da jornada do herói. É uma estrutura narrativa clássica, dividida em três etapas principais, cada elas, com subdivisões. Harry Potter, Perseu, Rei Leão, Iron Man e Matrix são exemplos de filmes e livros que se inspiram na estrutura, conhecida como Monomito. Aqui, vou pela primeira de duas vezes neste texto, fazer uma digressão arriscada, e me auto-parafrasear. “O termo monomito foi descrito pela primeira vez por Joseph Campbell em seu livro “The Hero With a Thousand Faces”. Campbell pegou o termo emprestado de uma obra de James Joyce, chamada Finnegan’s Wake. O monomito é dividido em três atos: a partida, a iniciação e o retorno. Cada um deles possui subcapítulos, como o mundo cotidiano e a chamada À aventura, a estrada de provas, o momento em que tudo está perdido, a apoteose e o retorno.“ Se você pensar na coquetelaria, um drink que funciona exatamente como o monomito é o Manhattan. Ele é um dos coquetéis mais inspiradores de toda a história, com dezenas de variações. É curioso como ele mesmo foi inspirado num Old-Fashioned, mas estendeu seus afluentes por um delta etílco quiçá mais vasto que seu antecessor. Nele estão o Brooklyn, Bronx, Rob […]

Lamas The Dog’s Bollocks – O Quarto Filho

Dar um nome para um ser humano é uma grande responsabilidade. É por meio do nome que a pessoa se relacionará com as demais. O nome é o cerne da identidade individual de cada um – é a marca de um ser distinto, que se identifica por aquela palavra. Diz-se até mesmo que o nome pode influenciar na vida futura profissional e amorosa da pessoa. Faz sentido. Exceto se você for herdeiro de um megaconglomerado aeroespacial, se chamar X Æ A-12 não ajudará muito a encontrar um amor. Ou um emprego. No Brasil, há uma série de nomes que são, inclusive, proibidos. Dentre eles estão Calcinha, Inexistente, Dita-cuja, Taturana, Cadáver, Suruba, Andarilho, Bizarro, Sujismundo e – maravilhosamente, se você me perguntar – my precious. Triângulo é também um nome proibido. O que é surpreendente, por que as demais formas geométricas tão liberadas. Então, você pode batizar seu bebezinho de hexágono, cilindro, toroide ou octaedro. Mas, triângulo não. Dar nome a coisas é bem mais fácil. Quando comecei este blog, não tinha certeza de nada. Mas, o nome O Cão Engarrafado parecia o único possível. E até hoje adoro. Especialmente quando alguem grita “Cão” na rua e eu olho. “Caledonia” para […]

4 whiskies (e 1 gin) para o Natal

Mas cara, estamos no meio de novembro – refleti, observando meu vizinho de apartamento, do outro lado da rua, pendurando um cordão de luzinhas em sua varanda. Realmente, não entendo a ansiedade que a turma fica com o Natal. Natal, pra mim, é época de passar. Passar calor, passar vergonha na festa da firma, passar mal vendo gente que você não viu o ano inteiro e nem sentiu falta. Mas, acho que sou um caso isolado. É natal! Já preparou seu peru? – é o título sugestivo de um e-mail em minha caixa de entrada, recebido há uns dois dias. A quinta-série que mora em mim regojiza-se num delicioso receio em abrir. Sei lá qual a conotação deste peru. Observo, com certo desgosto, que aquele não é a única mensagem que faz referência às festividades de final de ano. Mas que insanidade coletiva é essa que faz o natal começar no meio de novembro? Bem, melhor não perder essa oportunidade, concluo. Então, aí está. Antes que você possa sequer pensar que deve comprar presentes. Antes mesmo de fazer calor. Antes de receber o zap da tia chamando você pra cilada de família. Uma lista com quatro whiskies – e um […]

O Cão Geek – Filtragem a Frio

“Eu não poderia usar minhocas no hambúrguer, elas são mais caras do que carne bovina” foi a respota do executivo Ray Kroc ao New York TImes, sobre os boatos de que o McDonald’s recheava seus burguers com anelídeos. A história surgiu em 1978, quando um ex-funcionário do méqui foi entrevistado em um talk-show, e supostamente revelou o segredo da companhia – vermes. O boato ganhou tanta força que, no ano seguinte, a rede de fast-foods teve sua receita (financeira, não de hambúrguer de minhoca) reduzida a dois terços, e teve que dispensar boa parte da força de trabalho. O restaurante se viu na obrigação de dar explicações. Encomendou laudos ao FDA e lançou uma campanha explicando de onde vinham seus burguers – gado, no caso. Até hoje, para evitar quaisquer dúvidas, anunciam ativamente que seus patties são feitos 100% de carne bovina. Vai que um dia muda. O argumento mais convincente, entretanto, foi o de Ray Kroc. Se não for pra reduzir o custo, pra que usar vermes? O mais engraçado é a razão da eficácia da declaração. Ninguém espera que um megaconglomerado de alimentação tenha princípios – se for mais barato, tá liberado comer minhoca, porque o consumidor não […]

New York Sour Clarificado

Plantar feijão no algodão e prender gelo no barbante usando sal são dois experimentos que quase toda criança já fez. Mas, a preferida, sem dúvidas, é o chafariz de Coca e Mentos. O experimento é tão famoso que há até composições artísticas, com fotos elaboradíssimas. A Coca-Cola com Mentos não é só um experimento científico infantil. É quase uma lenda. E como quase todas as lendas, ela pode ser moldada ao prazer do interlocutor. A vovó diria que olha só, esse negócio explode porque é tudo porcaria, feito de borracha e produto químico. Meu filho, inquisitivo, indagaria o que aconteceria com o estômago dele se bebesse o refrigerante e engolisse uma balinha logo em seguida. Será que eu ia explodir também, papai? O mais curioso é que até pouco tempo, não havia consenso sobre a razão do curioso fenômeno. Atualmente, a teoria mais aceita envolve tensão superficial e carbonatação. O mentos não é perfeitamente liso. Suas reentrâncias fazem que as ligações entre o líquido e o dióxido de carbono (o gás) se desestabilizem, causando o aparecimento de bolhas. Essas bolhas provocam mais bolhas, em uma reação em cadeia que culmina numa erupção curiosamente fascinante e ao mesmo tempo meio nojenta. […]

Tobermory Gin – Diversificação

Há trinta e cinco anos, um jovem empresário, proprietário de uma gravadora, teve seu voo cancelado. Ele estava em Porto Rico, e queria chegar às Ilhas Virgens Britânicas o mais rápido possível, para encontrar sua namorada. Se fosse eu, teria simplesmente me resignado. Abriria uma garrafa de whisky da mala, daria um gole, e aceitaria meu destino. Passaria uma noite mal dormida em qualquer hotel com paredes gordurentas e carpete manchado próximo ao aeroporto, para, finalmente, embarcar no dia seguinte. Mas o jovem empresário não era eu. Era Richard Branson. Ao invés de se alcoolizar e dormir, Richard tomou uma atitude. Calculou quanto custaria para fretar uma aeronave e dividiu os custos com os demais passageiros do voo cancelado. Chamou aquilo de “Virgin Atlantic First Flight”. Fast-foward, Branson compraria um Boeing 747 e fundaria sua companhia aérea. E depois, uma aeroespacial. Isso sem abrir mão de seu antigo negócio, no ramo musical. Diversificar de uma forma selvagem, assim, é raro. Na verdade, é como dizem. É raro, mas acontece muito. O que é realmente inusitado, é dar certo. E foi o que aconteceu com Branson e suas Virgins (perdão pela digressão aqui, mas que nome horrível este, que faz tudo […]