Febre de Consumo – Dalmore 15 anos

Existem várias atividades que me proporcionam sentimentos conflitantes. Um deles é fazer exercício. Por mais que eu deteste qualquer tipo de esforço, sei que, para um Cão como eu, correr é essencial para a saúde. Além disso, tenho que admitir: depois de uns vinte minutos de trote rápido, a sensação é quase boa. Quase. Porque bom mesmo é tomar whisky e fumar charuto. Pensando bem, fazer exercício está, no máximo, no nível “recompensador” da escala de prazer deste Cão. Outra dessas atividades é ir ao supermercado. Assim como correr, ir ao supermercado é uma obrigação inevitável. Inevitável principalmente quando a Sra. “Cã” Engarrafada, solicita, com a suavidade de uma voadora no rim, que eu compre mantimentos para nosso lar. Pensando objetivamente, ir ao supermercado é um saco. Não há prazer nenhum em comprar litros de água sanitária, detergente e arroz agulhinha tipo um. Ou papel higiênico. Aliás, tenho um problema com isso. Sempre que passo o papel higiênico no caixa, entrego para a senhorinha com certo ar de vergonha. Eu sei que é perfeitamente normal se limpar. E que todo mundo faz isso, ou pelo menos deveria. Mas não consigo evitar esse sentimento de culpa infantil. Mas às vezes, com […]

Serendipidade – Glenglassaugh Revival

A língua portuguesa é fascinante. Para tudo há uma palavra. Algumas, inclusive, que são absolutamente redundantes, específicas e sem utilidade. Uma delas é “defenestrar”. Defenestrar é o ato de atirar algo por uma janela. Não basta jogar longe. E não vale ser através de uma porta também. Tem que haver uma janela envolvida. Defenestrar, assim, é uma palavra inútil. Primeiro porque quase ninguém sabe o ela significa. Depois, simplesmente porque não há dificuldade nenhuma em construir uma frase dizendo que algo foi lançado por uma janela. Aliás, é pior usar a palavra “defenestrar” para depois ter que explicar seu significado, do que simplesmente dizer que jogou certa coisa pela janela. Outra palavra mais específica ainda é serendipidade. Ou serendiptismo. Ou serendipitia. Serendipidade é tão estranha que nem o corretor ortográfico do Word a reconhece. Ela é uma adaptação da palavra inglesa “serendipity”, cujo significado é algo na linha de capacidade de uma pessoa de realizar descobertas bem-afortunadas por acaso; ou a ocorrência destas descobertas. A história está cheia de serendipidade. O forno de micro-ondas. A penicilina. E talvez a maior serendipidade de todas, uma tal pílula azul, cujo objetivo original era tratar dores no peito. Essa pílula havia sido pensada para contrair […]

Glenmorangie Quinta Ruban

Às vezes fico pensando sobre invenções e descobertas improváveis. Uma das que mais me fascina é o sabonete. Em algum lugar da história, um fenício achou que seria uma ideia razoável ferver cinzas de madeira com banha de cabra. Sério – o cara ferveu banha de um caprino e resolveu que aquilo seria um produto apropriado para limpar o chão da casa dele. Ou pior ainda, o próprio corpo. Ele era absolutamente desajustado. E genial. Tudo bem, o fogo foi uma descoberta incrível. O primeiro hominídeo que resolveu bater duas pedras, ou esfregar um graveto no outro era um cara iluminado. Ou estava terrivelmente entediado, porque não vejo nenhuma boa razão para passar horas batendo uma pedra na outra. Mas convenhamos, o fogo mal se compara à bizarra ideia do sabonete. Outro aspecto destas descobertas que me intriga, principalmente no ramo “gastronômico”, por assim dizer, é a experimentação. Como saber se determinado alimento era gostoso ou não era? Ou pior, se seria venenoso? Você já alguma vez pensou na quantidade de gente que morreu tentando, sei lá, comer uma mamona ou uma perereca?  A verdade é que essa questão da experimentação é uma das características que mais nos define como […]