Glen Scotia 15 anos – Darwinismo

Você provavelmente já ouviu falar de Charles Darwin. Charles Darwin foi um naturalista britânico, que fez uma longa expedição a bordo de um navio chamado HMS Beagle, comendo tudo de exótico que encontrava pela frente. Aliás, um de seus traços era justamente a curiosidade para saber o gosto de tudo vivo que encontrava. Durante sua viagem no Beagle, Darwin se esbaldou em bichos como iguanas, tatus (sem piadinhas com os Mamonas, por favor) e tartarugas gigantes. Darwin foi o primeiro hipster gastronômico.

Mas não foi por conta de seu gosto excêntrico que Darwin ficou famoso. Foi porque ele que cunhou a teoria da evolução. De acordo com sua teoria – que, convenhamos, é uma certeza – todas as espécies de organismos se desenvolvem por meio da seleção natural. Essa seleção faz com que apenas os organismos mais capazes de sobreviver conseguissem se reproduzir. O que garante mais chances de manutenção daquela espécie, em um meio ambiente selvagem e desafiador.

O exemplo clássico é a girafa. A girafa parece um bicho desajeitado e pescoçudo, mas é, na verdade genial. Por conta de sua altura e pescoço, ela é capaz de alcançar os frutos mais altos das árvores, impossíveis para espécies – ou mesmo outras girafas – mais baixas. De acordo com a teoria de Darwin, ao longo de milhares de anos, girafas progressivamente mais pescoçudas foram selecionadas, porque mais comida estava disponível para elas. O mesmo se aplica ao leão com sua força, e ao ornitorrinco. Ainda que eu não saiba bem qual o talento do ornitorrinco.

Suar leite, talvez?

Mas a teoria da evolução (ou melhor, a seleção natural) não funciona apenas para animais. Ela poderia perfeitamente ser aplicada a destilarias. Em especial, aquelas de Campbeltown. É que a região outrora fora conhecida como a capital mundial do whisky. O vilarejo chegou a contar com trinta e quatro destilarias, mas, atualmente, possui apenas três. O maior responsável foi o Volstead Act, mais conhecido como a Lei Seca Norte-Americana da década de 20.

Ocorre que naquela época, um dos mercados consumidores mais importantes de scotch whisky eram os Estados Unidos. E com a proibição, as destilarias de Campbeltown se viram, da noite para o dia, com estoque enorme de scotch whisky e nenhum comprador. Endividadas e sem ter muito para onde correr, a vasta maioria fechou suas portas. Apenas um par delas sobreviveu até os dias de hoje. As mais fortes: Springbank e Glen Scotia.

E ao provar o Glen Scotia 15 anos, é fácil entender o porquê. Ele é um whisky pungente, mas com complexidade e equilíbrio incríveis. Há um sabor frutado, de laranja e damasco, que vai se desenvolvendo para baunilha e caramelo, provenientes da maturação em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Não é um whisky demasiadamente pesado, a ponto de ser intimidador. Mas não é leve e delicado a ponto de carecer de personalidade.

Assim como o Victoriana e Double Cask,  já revistos nestas páginas caninas, o Glen Scotia 15 faz parte do portfólio permanente da destilaria. Recentemente outras expressões foram introduzidas, como o 16 anos, 18 anos (talvez a Glen Scotia queira ter uma expressão para cada idade?) o incrível 25 anos e o defumado Campbeltown 1932. Todas são parte de uma reformulação na linha da Glen Scotia, que mudou drasticamente sua identidade visual e seus maltes.

O Glen Scotia 15 anos recebeu uma miríade de prêmios desde seu lançamento. Entre eles, medalha de ouro na San Francisco World Spirits Competition na World Whiskies Awards e IWSC, todas em 2016. Em 2017, recebeu outro ouro pela Scotch Whisky Masters. E, se você me perguntar, direi que foram merecidas. Se a teoria da seleção natural fosse aplicada aos whiskies, seria fácil entender como a Glen Scotia sobreviveu.

GLEN SCOTIA 15 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 15 anos

Destilaria: Glen Scotia

Região: Campbeltown

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: frutado, um pouco de cereais, cítrico.

Sabor: açúcar mascavo, baunilha, compota de frutas. Final levemente seco, com pêssego e especiarias (canela, pimenta do reino).

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