Sobre a Força – Glenlivet Founder’s Reserve

Glenlivet founders

Este não é um post sobre whisky. Me desculpem pela decepção. Este é um post sobre um modesto filme que transformou a internet em uma convulsão maníaca. Este é mais um post sobre Star Wars. Mas pode continuar lendo. Eu prometo que não contarei nenhum spoiler para estragar sua experiência. Ou talvez um só. Nada grave. Prometo que valerá a pena.

Quando soube que J. J. Abrams dirigiria um novo filme da saga, fiquei apreensivo. Apreensão que só aumentou quando descobri que alguns personagens dos episódios IV, V e VI apareceriam. É que eu realmente gostava dos três primeiros filmes, e não queria ninguém estragando a imagem de Han Solo, Leia e mesmo Luke para as gerações vindouras.

Mas assim que me sentei na cadeira de cinema, percebi que meus medos eram completamente infundados. O Despertar da Força é um caso raro de sucesso absoluto. Os números estão aí para comprovar. Ele arrecadou, só nas primeiras semanas, um bilhão de dólares. Foi a abertura de maior sucesso da história do cinema.

Na modesta opinião deste ébrio Canídeo, o sucesso reside no equilíbrio. Mas não no equilíbrio da Força. No equilíbrio irretocável entre os elementos clássicos da saga e a inovação necessária para trazer Star Wars para o século XXI. O filme dialoga tanto com o publico mais jovem, que assistirá um filme da franquia pela primeira vez, quanto com os geeks mais, diremos, maduros. Aqueles que já cansaram de tentar usar a força para pegar a fita cassete que estava ao lado do VHS sem se levantar. Tipo, bom, tipo eu.

Vem fitinha, vem...
Vem fitinha, vem…

Em outras palavras, ainda que os principais elementos sejam clássicos, O Despertar da Força é um dos filmes mais inovadores da série. É, por exemplo, a primeira vez que uma mulher está no papel de protagonista. E também é a primeira vez que um desumano stormtrooper é humanizado.

Tive uma sensação parecida de apreensão quando soube, no começo do ano passado, que em alguns países – incluindo o Brasil – o clássico Glenlivet 12 anos seria substituído pelo Founder’s Reserve, uma expressão da destilaria sem idade definida. Substituir o Glenlivet 12 anos era uma grande responsabilidade. Ele é, ainda hoje, o rótulo mais vendido da segunda marca de single malts mais vendida do mundo. Era como substituir o Han Solo em um Star Wars. Sério. Era quase impossível.

Mas a Foça interveio. E tive a oportunidade – apenas recentemente – de provar, em primeira mão, o whisky que substituirá no Brasil uma das expressões mais antológicas de uma das maiores destilarias do mundo. E, mais uma vez, reconheci que minhas preocupações eram completamente infundadas.

O Founder’s Reserve é um whisky extremamente leve e bebível, com o equilíbrio e os sabores cítrico e frutado característicos da marca. Entretanto, se comparado ao 12 anos, ele é muito mais leve e adocicado. Uma inovação que, certamente, agradará aos paladares daqueles que estão se aventurando pela primeira vez no território dos single malts.

Para falar a verdade, ainda que – em mercados como o Brasil – o Founder’s Reserve vá entrar em cena ao mesmo tempo que o doze anos sairá, substituir não é a palavra mais correta. Primeiro porque o 12 anos continuará existindo em muitos países. Em segundo, porque são produtos bem distintos. Nas palavras de Ian Logan, embaixador global da marca, “com o Founder’s Reseve, estamos aprimorando (o whisky de entrada da destilaria), dando-lhe um ângulo mais moderno. Não se trata de substituir a expressão doze anos”.  E, na opinião deste humilde cão, eles foram muito bem-sucedidos nesta missão.

Como muitos single malts escoceses, o Founder’s Reserve é maturado em uma combinação de barricas de carvalho americano de primeiro uso, que antes continham Bourbon whisky, com outras barricas de carvalho americano que já haviam maturado The Glenlivet antes. Essa combinação permitiu que Alan Winchester, o master distiller da marca, produzisse um whisky consistente, escolhendo e combinando as barricas pelo sabor, e não pelo tempo de maturação em seus armazéns.

Outra vantagem pouco observada sobre a ausência de idade é que, com isso, é possível sentir com mais clareza as características próprias do whisky, dadas pelos seus alambiques, no caso da Glenlivet, em forma de lanterna. Estas características estão presentes em todos os whiskies da marca, mas acabam ficando mais mascaradas – alguém aqui pensou no Kylo Ren? – em expressões com maturação mais prolongada.

E como ficou bom!
E como ficou bom!

O nome do whisky foi escolhido em homenagem ao fundador da destilaria, George Smith. George foi o primeiro homem a legalizar sua destilaria em 1823. Seu produto era tão bom que ganhou a simpatia de homens importantes da época, como o Duque de Gordon. Se quiser saber mais sobre essa história, confira o post do Cão sobre o Glenlivet 18 anos.

No Brasil, o preço sugerido pelo Glenlivet Founder’s Reserve é de R$ 166,90 (cento e sessenta e seis reais e noventa centavos). É um preço equiparável a blended whiskies premium, como o Chivas Regal Extra e o Johnnie Walker Black Label. O Founder’s Reserve será quase o single malt mais acessível a venda em nosso país. O que faz dele uma excelente escolha para aqueles que estão começando a experimentar single malts.

O Glenlivet Founder’s Reserve é O Despertar da Força da The Glenlivet. É um whisky que agradará tanto os fãs já catequizados da marca quanto aqueles que estão dando seus primeiros passos no mundo dos whiskies single malt. Assim, quando ele chegar aos bares e às prateleiras das lojas físicas e virtuais, não deixe de experimentar. Afinal, você realmente deixaria de ver um filme como o Star Wars?

GLENLIVET FOUNDER’S RESERVE

Tipo: Single Malt sem idade definida (NAS)

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: claramente cítrico, com frutas vermelhas.

Sabor: sabor frutado e levemente cítrico. Final de médio para longo, com baunilha e açúcar refinado. Muito leve e fácil de ser bebido.

Com água: a água reduz o sabor adocicado, permitindo que o sabor frutado e cítrico seja sentido com mais clareza.

Preço (sugerido pela marca): R$ 166,90 (cento e sessenta e seis reais e noventa centavos)

 

20 thoughts on “Sobre a Força – Glenlivet Founder’s Reserve

  1. Uma boa opção pra quem não gosta do Glen Grant (meu caso) e quer um whisky acessível. E aí, dog, tem ideia de quando começa as vendas aqui no Brasil?

  2. Dear Dog, nunca fui favorável a acrescentar nada que não fosse gêlo ou água ao whisky. Afinal se o Master Blender queima as pestanas pra encontrar a fórmula perfeita por quê comprometer anos de dedicação e desqualificar o seu sagrado trabalho? No entanto, com esse calor africano que tem feito em alguns dias, depois de anos de resistência, acabei por sucumbir e adicionei aos meus drams doses generosas de refrigerante Citrus. E não é que ficou bom. E refrescante.
    Por essa impertinência, meu caro Oráculo, devo me penitenciar com 10 Pai Nossos e 20 Aves Marias ou os fins justificam os meios?
    P.S. Não tenho conseguido dormir pensando nisso.

    1. Meu nobre fiel Antônio, não há motivo para se preocupar. Consultei os deuses da manguaça, e a resposta, em divino coro unânime é que o elixir sagrado pode sim, ser misturado com outros líquidos mundanos sem perder suas propriedades abençoadas. Mesmo porque vários coqueteis são feitos com whisky, até mesmo single malt.

      Assim, não há razão para penitência. Mas, se ainda assim você estiver se sentindo como se tivesse praticado uma heresia, sua penitência será tomar duas doses puras de um bom single malt. Essa pena não poderá ser permutada!

  3. Olha só, eu também estou aderindo ao gelo nesse calor infernal! E por coincidência, assim como o Antonio, também usei refrigerante Citrus. Algumas vezes já fiz também o famoso Jack Coke, seja com Jack ou com outro bourbon. Mas essas misturas eu só faço com bourbons ou blended scotchs, não com single malts. Esses são sagrados!

  4. Pois é, na minha confissão eu omiti que a mistura que fiz havia sido com um single malt. Não um SINGLE MALT, mas um single malt, o Glen Grant. O whisky mais baratinho que eu tinha à mão. Isto posto, cumprirei a minha penitência com 2 doses puras de Cardhu ou Glenlivet, que junto com o Glenfiddich são, por ora, os meus preferidos.
    Ainda bem que o meu ato tresloucado não se constituiu em uma heresia diante dos deuses etílicos. Por essas e outras é que me mantenho fiel e sigo a liturgia da água da vida religiosamente. Amém (Cheers!).

  5. Caro bottled dog,
    Acompanho seu blog e tenho me deliciado com a criatividade literária e o conhecimento do elixir dourado que você tem demonstrado em cada post. Tenho andado a “trilha do whisky” bebendo os blends NAS e 12 years (dos quais meus favoritos são Chivas Regal, Black Grouse e Johnnie Walker black label). Desejo fazer a passagem para o single malts, mas gostaria da sua opinião para o single malt de entrada: Glenfiddich 12 ou The Glenlivet Founder’s Reserve? Ou há melhores opções na mesma faixa de preço? Desde já agradeço. Abraço.

    1. Fala Osmar, tudo bem?

      Puxa, acho que eu iria para o lado do Glenfiddich 12. O Founder’s é bacana, mas não vai chocar um bebedor de blends. Há também a opção dos novos single malts da Diageo que acabaram de chegar por aqui e estão com preço de combate – especialmente o Singleton of Glen Ord. Se esbarrar num destes, acho que vale a pena conferir.

      1. Caro Bottled Dog,
        Muito obrigado pela sugestão. Sou um homem muito afortunado, sabendo que queria me aventurar nos single malts, a patroa me presenteio com um Founder’s (está sob a nossa árvore de natal todo embrulhado ainda rsrs). E seguindo vossa sugestão adquiri o Glenfiddich 12, que logo estará chegando. Experimentarei os dois e darei minha humildes opinião.
        Esqueci de mencionar que também gosto de borbouns (fanático de Jack Daniel’s), mas depois de um certo sacrifício monetário estou degustando um Gentleman Jack que, eu diria é talvez três vezes melhor que o old # 7. Gosto das sua “resenhas” porque apesar de já estar trilhando o paraíso das bebidas de alta qualidade, consegue ser justo com bebidas menos complexas.
        Um grande abraço e Boas festas

        1. Olá Osmar, muito obrigado 🙂

          A essa altura você já deve ter experimentado os dois? O que achou? Considero o Glenfiddich 12 um ótimo custo/benefício !

          1. Olá B.D,
            Concordo, o Glenfiddich 12 é um ótimo custo/benefício. É superior em comparação com o Founder’s, mas a comparação é injusta pois o Founder’s é mais jovem (muito mais jovem aparentemente).
            Sinceramente, estou curtindo os dois. Em minha opinião é uma guerra entre pêra (Glenfiddich) versus laranja (Glenlivet) kkk
            Agora, depois de pagar os impostos, e sobreviver janeiro penso em investir no Glen Ord e no Talisker.
            As suas sugestões são muito úteis. Um ótimo 2017 para você, sua melhor metade e a Cãzinha kkk
            Grande abraço

          2. Haha B.D.!

            Concordo que é uma comparação injusta. Seria mais correto comparar com o finado Glenlivet 12 anos, acredito. Ou talvez com O Glenmorangie 10 anos…

            Vai fundo nos Talisker e Glen Ord. São dois single malts muito bons, e estão com excelente preço!

            Abraços

  6. Gostaria de saber qual a resposta aos meu clientes ao vender este whisky pelo mesmo preço do Glenlivet 12 anos sendo que ele não tem idade referida no rótulo?

    1. Hum, fala Francisco, tudo bem? Olha eu responderia assim:

      “Ele não tem idade assim como o Red Label e o Blue Label. Mas independentemente da idade, é um whisky adocicado e leve, muito fácil de ser bebido e saboroso. O que acontece é que como ele é um lançamento, as pessoas acabam criando um preconceito contra ele. Mas veja bem, há quanto tempo o Blue Label está no mercado? O fato de ele não ter idade o torna menos interessante para você?”

      Acho que é uma resposta boa, desafiadora e até certo ponto imparcial. Porque na minha opinião, o número é um número, e está longe de ser um indicativo de qualidade.

  7. Saudações,

    O Glenlivet Founder’s Reserve foi o primeiro Single Malt que provei (comecei essa brincadeira há bem pouco tempo). Tive muita dificuldade em perceber os aromas. Inicialmente, senti algo doce e frutado e não consegui nada mais do que isso. Adicionando um pouquinho de água (bem pouco mesmo), achei que ficou mais adocicado. E foi só então que achei o aroma de banana! Muita banana. Até apreciei o aroma, mas fiquei decepcionado ao beber. O aroma prometia mais do que o paladar entregou. O final deixou um gosto que achei desagradável. Algo adstringente ou metálico, sei lá.

    Entendo que minhas impressões são erráticas e sofrem com a falta de experiência. Estou aprendendo. Mas estou empolgado com essa brincadeira.

    Já tenho um Glenfiddich 12 pedindo para ser degustado. Espero ter uma experiência mais agradável.

    Forte abraço.

    1. Marcio, você está no caminho certo!! O sabor “metálico” é bem característico de whiskies jovens, que é o caso do Founder’s. Esse sabor não aparece tanto no aroma, mas se revela mais no sabor. Apesar disso, acho um single malt bem honesto. Muita gente criticou o Founder’s quando saiu. Mas na minha – um pouco polemica – opinião, as críticas foram mais acirradas porque ele substituiu o 12 anos do que, efetivamente, sobre sua qualidade.

      Depois me conte o que achou do ‘fiddich.

      1. Então, provei o Glenfiddich 12 anos. Primeiramente, admito que single malts são para apreciadores mais experientes e com o olfato e paladar treinados. Tive uma enorme dificuldade em achar os sabores. Tudo o que posso oferecer são palpites.

        No aroma, só achei, doce amadeirado, caramelo, maçã, e talvez pera.

        No sabor, achei um doce frutado e suave. Poderia arriscar uma contradição dizendo que é um doce frutado, encorpado (ou seria arredondado?), porém não enjoativo. Depois caramelo. Maçã ou pera, talvez? Segue com um forte amadeirado. Algo relacionado ao tronco de uma árvore. Casca, seiva, uma lasca… sei lá. E uma picância agradável. Embora mesmo com essa pimentinha, desce suavemente.

        Eu gostei, mas claramente estou aquém do que o Glenfiddich tem a oferecer.

        1. Márcio, acho que você está bem além do que ele tem para oferecer. O 12 anos é um excelente single malt, mas não é nada com uma complexidade de outro mundo. Se você encontrou pêra e maçã, com caramelo, já está muito bom! A nota predominante é mesmo pera, como eles mesmo alardeiam. Vá com calma, não é preciso também entender ele todo de uma vez. Beba outro whisky e depois o revisite. Com o tempo seu paladar vai ficar mais apurado e você passará a identificar sabores que passaram em branco.

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