Como investir em whisky – O Cão Didático

Hoje vou começar o texto com um conceito basilar da economia. A lei da oferta e da procura. É um princípio da microeconomia, que postula que o preço de um bem será determinado pelo equilíbrio entre a quantidade procurada e a oferecida. Assim, se há muita demanda por algo, mas poucos exemplares, o preço tende a subir. Porém, se o produto está largamente disponível, mas poucas pessoas têm interesse nele, seu preço diminuirá. O conceito clássico dessa teoria foi cunhado por Adam Smith e, mais tarde, aprimorado por estudiosos e economistas.

Mas deixe-me ilustrar com algo mais concreto. Minha filha de três anos, brócolis e brigadeiros. Brigadeiros são produtos de altíssimo interesse para ela. Se minha filha tivesse dinheiro, pagaria uma grana preta por brigadeiros. Mas ela tem apenas três anos e só umas duas ou três moedinhas que demos para ela colocar no cofre de dinossauro. Brócolis, no entanto, não exercem o mesmo fascínio. Se ela pudesse, jamais comeria brócolis novamente. Numa economia regida pelas regras da cãzinha, brigadeiros custariam uma fortuna, mas brócolis seriam terrivelmente baratos.

Sua demanda por brigadeiros é muito maior do que a minha oferta. Mesmo porque a demanda dela por brigadeiros quase não tem limite. Acontece que, como eu disse, ela não tem dinheiro. Então, para conseguir brigadeiro, deve usar outras moedas de troca. Afeto e obediência, por exemplo. Para conseguir brigadeiro, ela está disposta a comer aquele brócolis, ir dormir na hora certa e escovar os dentes.

Até aí, beleza. O cenário microeconômico do bri-bro (economistas adoram neologismos) aqui em casa está em perfeito equilíbrio. Às vezes, para conseguir que ela faça algo bem difícil, até mesmo ofereço uns quatro brigadeiros de uma vez só, com a condição que ela coma apenas um por dia. Uma espécie de poupança de brigadeiros. O problema – que a cãzinha não percebe – é que há aqui um elemento crucial. O tempo. Brigadeiros não valorizam. Não há brigadeiros edição limitada, nem colecionismo de brigadeiros. Ter brigadeiros de reserva é bom até certo ponto, porque brigadeiros são produtos efêmeros. Um brigadeiro velho não vale mais afeto ou obediência do que um brigadeiro novo. Aliás, muito pelo contrário. Brigadeiros são um péssimo investimento, por serem perecíveis.

Quer dizer, a não ser que você tenha uma brigaderia

Whisky, no entanto, não. Whisky – ainda que não seja o melhor investimento do mundo – é algo que pode trazer dinheiro. E o melhor tipo de dinheiro, aquele que une o prazer com a rentabilidade. De acordo com matéria do website Great Drams, essa união de entusiamo e investimento traz enorme satisfação para os investidores em whisky. Pela matéria, desde 2008 o valor de whiskies raros, medidos pelo índice Rare Whisky 101 Apex 1000 aumentou 361.09%. Para a próxima década, estima-se que o retorno será de aproximadamente 41%. Ainda de acordo com a matéria, em 2015, os whiskies raros superaram outros investimentos históricos, como vinho e ouro. E certamente mais do que brigadeiros.

Investir em whisky, porém, possui seus riscos. Há muitos brigadeiros e brócolis no mundo do whisky. Uma garrafa guardada há décadas de um produto muito comum antigamente talvez não tenha valorizado tanto. É, novamente, a lei da oferta e da demanda. Não há uma grande demanda por blended whiskies de entrada que eram largamente comercializados e consumidos no passado. Não é um item colecionável para a maioria das pessoas. Além disso, há muito mais garrafas do que colecionadores interessados em adquiri-las. É o caso, por exemplo, das centenas de Chivas 12, White Horses (até certa idade), Buchanan’s, Ballantine’s, Johnnie Walkers Black Label e Pinwinnies antigos à venda por aí.

Pois é. Não vale dois mil reais.

É, porém, um investimento de baixo risco. De acordo com Markus Stadlmann, CIO do Lloyds Private Banking, na matéria veiculada no Great Dramsnormalmente ativos tangiveis, como whisky, retém seu valor e não são desvalorizados pela inflação. A longo prazo, estes ativos não se correlacionam de perto com outras ações ou ativos mais tradicionais, e oferecem oportunidade de diversificação. Investir em algo que você gosta é uma forma excelente de tornar seu portfólio especial para você“.

Como tudo, o importante é escolher o whisky correto. Regra geral, single malts valorizam muito mais do que blends. E produtos de certas destilarias tendem a valorizar mais do que de outras. Ardbeg, Macallan e Lagavulin são bons exemplos. São destilarias consagradas, que, ao longo do tempo, galgaram o difícil caminho da confiança. Os consumidores confiam, admiram e até mesmo cultuam estas destilarias. Seus lançamentos – em especial os mais limitados ou mais maturados – então tem maior procura. O que, claro, elevam seus preços.

Permitam-me mais uma digressão. Diamantes, vassouras, teorias econômicas, Jevons e Walras. A teoria clássica da economia diz que o valor das coisas é determinado pelo custo de produção dessas coisas, a qual se aplica um pequeno percentual, que é o lucro do produtor. Este é seu valor intrínseco, justo. Assim, uma vassoura, que é barata de se produzir, será barata para ser adquirida. Marx complementou a teoria, cunhando o conceito da mais valia – o percentual do lucro que fica com o capitalista, e não o produtor. Mas vamos deixar isso para outra oportunidade.

O problema é quando pensamos em diamantes. O processo de extração, limpeza e lapidação de um diamante não é exatamente caro. Mas diamantes são raros e desejados. Bem mais raros e desejados do que vassouras.  E é aí quem entram Jevons e Walras. Segundo eles, há itens que não são valorados apenas por seu valor intrínseco. Mas por sua raridade e o desejo em adquiri-los. O custo de produção de um diamante  é infinitamente inferior ao seu preço, justamente por conta desse desejo e escassez. O mesmo acontece com whiskies. Especialmente aqueles de destilarias inativas ou demolidas.

Aposto que se fosse um diamante, seria mais barato.

Destilarias inativas ou demolidas são uma enorme tendência. Muitos tem um interesse meio geek em experimentar whiskies que não serão mais produzidos. É mais ou menos o que ocorre com alguns artistas plásticos após a sua morte. Com a perspectiva – causada pela morte ou pela demolição, no caso de artistas e destilarias, respectivamente – da interrupção de produção, os produtos (ou quadros) já produzidos se valorizam. Foi o que ocorreu com a Brora, Port Ellen e Rosebank.

Mas talvez o seu negócio não seja capitalizar na morte de algo ou alguém, mas sim na aurora da vida. Por sorte, o atual mercado de whisky está crescendo bastante. E com a alta demanda, novas destilarias tem surgido. É o caso da Arran há alguns anos e, mais recentemente, da Wolfburn. A primeira edição lançada por uma destilaria pode ter uma enorme valorização. Afinal, ela é a liquefação de um marco histórico. Há, porém, um risco maior aqui. Aquela destilaria pode se revelar como um fracasso. Ou como uma destilaria capaz de produzir apenas maltes medíocres. Nestes casos, o valor do whisky não se elevará tanto. Mas também, na pior das hipóteses, você pode beber seu investimento.

Com dinheiro aposto que não não é tão gostoso.

Aliás, falando em beber, às vezes a resposta sobre a perspectiva de valorização de uma garrafa está na ponta da língua. Literalmente. É que whiskies mais bem avaliados, ou que foram elogiados por críticos ou consumidores tendem a ser mais bebidos. Quanto mais garrafas bebidas, menor é a oferta de garrafas disponíveis. E com a fama crescendo – mais pessoas elogiando – e o número de ampolas se reduzindo, o preço, obviamente, tende a se elevar. É o caso do Kavalan Solist Vinho Barrique e do Yamazaki Sherry, por exemplo, eleitos pelo Jim Murray como melhores whiskies do mundo há alguns anos. É óbvio que há aqui o fator raridade, já explicado acima – note que o Crown Royal Northern Harvest Rye não valorizou muito.

Por fim, séries costumam valorizar bastante, especialmente se forem bastante limitadas. Um exemplo são os Macallan Decades – um kit com quatro expressões da The Macallan, prestando homenagem a algumas décadas do século XX. Ou, mais recentemente, os Glenfiddich Experimental Series, que apresentam formas pouco tradicionais de produzir ou maturar whisky, utilizando elementos como barricas de cerveja IPA e Ice Wine.

Na hora de vender, note que o mercado de colecionismo de whisky depende muito de cada país. Algumas expressões possuem cotação internacional e são muito valorizadas na Escócia, mas possuem pouca liquidez no Brasil. Pesquise o melhor mercado e avalie todos os custos. Lembre-se que uma garrafa mais cara lhe trará mais dinheiro no futuro, porém, o investimento inicial também será maior e a liquidez menor. Certos colecionadores brasileiros vêem mais vantagem em enviar as garrafas para o Reino Unido e leiloá-las lá do que vender em nosso mercado, justamente por conta da falta de liquidez em nosso mercado. No entanto, esta não é a única alternativa – o contato com um colecionador brasileiro ou uma casa de leilões podem auxiliá-lo por aqui.

Seja como for, investir em whisky demanda paciência e leitura. É necessário acompanhar o mercado e tentar prever tendências. Porém, nada disso importa sem a paixão. Acompanhe sua destilaria preferida, busque seus lançamentos e crie uma coleção que não apenas poderá valorizar, mas te trará orgulho toda vez que olhar para ela. E não esqueça, claro, de se divertir. Compre garrafas que lhe parecem deliciosas para abrir e beber. Afinal, às vezes o melhor investimento que um whisky pode trazer nem é financeiro. É mesmo em sua felicidade.

 

10 thoughts on “Como investir em whisky – O Cão Didático

    1. Fala Márcio!

      Bom, na verdade, não. O Gold Label é um whisky de linha, bastante comum. A procura por garrafas dele para colecionismo é bem menor do que a oferta – é o que acontece com o Crown Royal Northern Harvest Rye também. Mas, se algum dia ele se tornasse raro (mas raro mesmo!) talvez pudesse se tornar um item bacana de colecionador, ainda que blends não valorizem tanto quanto single malts, de uma forma geral.

      1. Valeu pela resposta!
        Tem razão, só pensei em uma valorização por ter lido que o Gold iria sair de linha, porém como você mesmo salientou é uma whisky de linha de produção alta.

        1. Márcio, compre um aí para guardar. Abre num dia especial, ou deixa fechado só para contar a história – olha só, esse aqui é o melhor blend do mundo!

          Meio como disse no texto – às vezes o maior investimento é mesmo na felicidade…rs

  1. Olá Cão, acompanho tudo o que escreve. Coleciono tudo da Lagavulin. Adoro o Lagavulin 16 ti. Gostaria de saber qual o seu malte preferido hoje. Abç.

    1. Fala Wilson! Você em muito bom gosto!

      Meu malte preferido…. qual é o seu prato preferido?

      Difícil né? Porque como é que dá pra comparar peixe, com carne, com sobremesa? rs 🙂

      Tenho alguns queridos. A lista vai mudando. O meu preferido acho que é o proximo que vou beber!!

  2. Cara achei o laphroaig 18 anos por 600 pila aqui. Uma loja física, muito tradicional. Preço espetacular certo? O único problema é que perderam a caixa, e a garrafa tá lá, exposta na luz, bem na frente da prateleira. Pergunto: será que a luminosidade pode ter estragado? Faz quase 1 ano que tá lá, encalhado no mesmo lugar..

    1. Meu caro, a resposta é a seguinte: se você não comprar, eu compro.

      Brincadeira. O nível está baixo? normalmente o líquido fica no meio do pescoço. Se sim, não compra. Se estiver normal, tocaria o pau. Demora bastante tempo para a luz estragar o whisky, especialmente uma garrafa escura como do Laph.

  3. Muito interessante, mestre!
    Vejo bastante a constante busca pelos exemplares da Port Ellen e como elas são “liberadas” aos poucos e vendidas a um alto custo.
    Tenho visto bastante gente comprando o Platinum Label para manter na coleção, ou revender no futuro. Não sei se seria bem o caso, já que a mudança foi apenas no nome e não no conteúdo.
    Inclusive, acabo de receber meu Laphroaig Quarter Cask, o qual foi bem difícil para mim encontrar no Brasil.

    PS: muito provavelmente o meu próximo chegando será o Kilchoman Sanaig. Definitivamente, eu preciso te escrever um e-mail haha.

    Grande abraço!

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