Meritocracia – Glenkinchie 12 anos

Se você for um engenheiro ou metereólogo, provavelmente conhece a Teoria do Caos. Mas se não, eu explico. A Teoria do Caos postula que em sistemas complexos, onde há grande número de variáveis, a sensibilidade torna certo resultado imprevisível a longo prazo, devido a ação e iteração, ainda que haja recorrência destas variáveis, ou elementos.

Se não entendeu, permita-me exemplificar com um singelo objeto. O guarda-chuvas. Decidir se levará ou não um guarda-chuvas depende de muitos fatores. A temperatura, a quantidade de nuvens no céu, a umidade do ar, entre outros. E talvez você acerte. Mas talvez você erre e fique terrivelmente molhado. Ou esqueça aquele equipamento absolutamente inútil em um restaurante, durante um belíssimo dia ensolarado de verão. A verdade é que impossível prever o tempo com certeza absoluta, porque há muitas variáveis.

Mas a teoria do Caos não serve apenas para explicar fenômenos meteorológicos. Ela pode ser aplicada a tudo em nossa vida. E a indústria do whisky não é exceção. Um bom exemplo é a história da Glenkinchie e de sua finada – e agora renascida – irmã Rosebank. É que no começo do século XVIII, quando ambas foram fundadas, nunca alguém imaginaria que a eutanásia de uma dela se daria por um fator tao frívolo quanto sua beleza. Mas foi justamente o que aconteceu.

A Rosebank foi fundada em meados do século XVIII, apenas algumas décadas após sua irmã Glenkinchie. Ambas ficavam na região das Lowlands. A Rosebank, no entanto, ficava em um lugar mais ou menos feio próxima ao canal Forth & Clyde. O fluxo de água do canal chegou a ser interrompido, muitos anos mais tarde, devido ao acúmulo de detritos. Já Glenkinchie se localiza até hoje no vale de Kinchie Burn (daí Glen-Kinchie), um lugar belíssimo, próximo à – também bonita – vila de Pencaitland.

Feio para os padrões escoceses, claro.

Acontece que em 1914 a Rosebank, Glenkinchie e mais três outras destilarias da região resolveram fundar um grupo comercial, chamado Scottish Malt Distillers. Este grupo foi comprado em pela Distillers Company Limited  em 1919, que mais tarde se tornou a gigante Diageo. Reza a lenda que em 1993, o grupo resolveu que fecharia uma de suas destilarias das Lowlands, para concentrar o investimento na outra. A Rosebank era considerada a rainha de todas as destilarias daquela região. Seus whiskies estavam entre os melhores da Escócia. Os da Glenkinchie, porém, eram considerados apenas bons. A lógica teria sido fechar Glenkinchie, e manter a coroa sobre a metafórica cabeça da Rosebank.

Mas eu não teira começado este texto falando sobre a Teoria do Caos, se isso tivesse ocorrido. Como havia dito, a Rosebank ficava em um canal feio. A Glenkinchie, em uma paisagem escocesa de cartão postal. Além disso, alguns anos antes, a Glenkinchie fora escolhida para fazer parte dos Classic Malts of Scoland, um grupo de destilarias da Diageo representativas de suas respectivas regiões (que conta com Talisker, Lagavulin e Oban, entre outros). Aliás, um dos projetos da Diageo seria construir um belo centro de visitantes, para que turistas pudessem conhecer de perto os processos de suas destilarias mais importantes. E nesse assunto, não havia qualquer discussão. O destino da Rosebank foi selado por sua aparência, algo que jamais poderia ter sido previsto.

É claro que há outros fatores em jogo. A Glenkinchie era uma destilaria mais conhecida, graças à sua inclusão no seleto grupo dos Classic Malts. Sua capacidade produtiva também era superior. A Rosebank, por sua vez, tinha papel apenas coadjuvante, fornecendo maltes para blended whiskies. Sua única expressão fazia parte da – um tanto obscura – linha Flora & Fauna. Já a Glenkinchie possuia expressões próprias, como sua espinha dorsal na época, o Glenkinchie 10 anos. Este, que foi recentemente substituído pelo Glenkinchie 12 anos, tema deste post, e único representante das Lowlands que chega oficialmente ao Brasil.

O Glenkinchie 12 anos é um whisky com corpo leve, e bastante delicado. Muitos atribuem isso à tripla destilação, prática comum nas Lowlands em um passado não muito distante. Porém, a Glenkinchie emprega apenas dupla destilação – a praxe da indústria escocesa. O pouco corpo se deve ao tamanho e ao formato de lâmpada de seus alambiques, que incentivam o refluxo. Os condensadores em forma de serpentina ajudam a trazer um certo sabor de enxofre ao malte, que é levemente defumado.

Alambiques da Glenkinchie

A destilaria não divulga com clareza o processo de maturação de seu Glenkinchie 12 anos. Porém, pelas características sensoriais, o palpite educado deste Cão é que seja inteiramente feito em carvalho americano que antes contivera bourbon whiskey. Isso faz sentido, se pensarmos que a outra expressão de seu portfólio – o Glenkinchie Distiller’s Edition – é finalizado em barricas de carvalho europeu de ex-jerez, e possui a mesma idade.

No Brasil, uma garrafa do Glenkinchie 12 anos custa, em média, R$ 250,00. Sensorialmente, o Glenkinchie 12 anos é floral e levemente amargo, com final um pouco sulfúrico e curto. Ainda que não seja um malte muito complexo e (discutivelmente) caro pelo que oferece, é também um whisky muito fácil de ser bebido, e que agradará à maioria dos paladares. Um daqueles whiskies que dispensam a Teoria do Caos e podem ser bebidos a qualquer hora e em qualquer situação, faça chuva ou faça sol.

GLENKINCHIE 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos

Destilaria: Glenkinchie

Região: Lowlands

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: sulfúrico e floral (vegetal).

Sabor: levemente amargo e picante, com uma nota vegetal bastante clara. O final é seco e curto, com quase nenhuma fumaça.

Com água: o whisky se torna ainda mais seco, e final mais curto.

 

6 thoughts on “Meritocracia – Glenkinchie 12 anos

  1. Belo review, como sempre!
    Tinha muita curiosidade sobre esse whisky, mas sempre acabei escolhendo outro para comprar ou beber, em seu detrimento. Mas a aparência dele, especialmente a cor, foi algo que sempre me apeteceu rs.

  2. Como vai, mestre?
    Afinal, quem disse que ser bonito é sempre uma vantagem? Hahaha
    Me parece um whisky bem diferente. Legal por ser uma oportunidade de provar um Lowland, mas ainda tenho prioridades.
    Abraço!

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