Fondue de Chocolate e Whisky

 

O inverno brasileiro é engraçado. As pessoas aguardam ansiosas o fim da sudorese e a chegada de uma temperatura mais amena. A ansiedade é tanta que, às vezes, nem começou a fazer frio e já está todo mundo de casaco. Quer dizer, quase todo mundo. Alguns, poucos, não foram avisados sobre a chegada do inverno, e fizeram o que fazem todos os dias – se vestiram de acordo com a real temperatura externa. O resultado disso é que, a dois metros de uma moça de sobretudo há um rapaz de bermuda e camiseta. E ninguém acha isso esquisito. É como se o figurinista da Globo tivesse escolhido a roupa de todo mundo.

Outra coisa curiosa que acontece no inverno é a mudança dos hábitos alimentares. O inverno não precisa nem ser sentido – basta que seja anunciado – para que centenas de caixinhas de fondue invadam os supermercados. Nos mais sofisticados, há bem mais do que as duas clássicas variedades de queijo e chocolate. Hoje em dia, há especificidade. Fondues de chocolate amargo, chocolate ao leite, queijos emmental, gouda e gorgonzola. É muito fondue para tão pouco frio.

E vou contar um negócio. Adoro queijo e gosto de chocolate, mas nunca entendi a graça de passar calor e depois ter que lavar uma arroba de louça só para comer queijo derretido com pão. Eu nunca fui um grande fã de fondue. Até agora. É que na semana passada resolvi que mudaria isso. A começar pelo fondue de chocolate, que era o último na minha lista de predileções. Mudaria, é claro, da única forma que sei. Adicionando whisky. E incrivelmente, o resultado foi ótimo.

É obvio que, neste ponto, eu poderia simplesmente sugerir que fossem ao supermercado mais próximo, comprassem uma caixinha de algum fondue de chocolate pronto e, na hora de preparar, descesse uma talagada de algum bourbon. Mas, meus caros, não vou fazer isso. Porque valorizo o tempo de vocês, e imagino que esta óbvia ideia já tenha percorrido suas mentes. Se fosse assim, ler este texto seria uma terrível perda de tempo.

Por isso vou explicar como preparar a receita do começo. Sem atalhos. E se você achava que o fondue pronto já fazia sujeira, preparem-se para transformar sua cozinha numa obra de arte do Vik Muniz. Peguem seus caderninhos e agarrem suas sinvastatinas. Aí vai uma receita que vai te aquecer e elevar seu nível glicêmico só de ver a foto.

FONDUE DE CHOCOLATE COM WHISK(E)Y

Antes de qualquer coisa, isto é um blog de whisky. Então vamos discutir o whisky. A ideia aqui é que a bebida realmente complemente o sabor de chocolate. Não apenas com aquele aroma e sabor alcoolico. Mas que, de fato, empreste sabores novos. Assim, a escolha do whisky é importantíssima.

Este Cão testou algumas vezes, com whiskies de preços e estilos diferentes. Primeiro – esqueça os defumados. O medicinal e marítimo deles não funciona direito com o fondue. Whiskies com alguma maturação em jerez ficaram ótimos – como o Famous Grouse, Chivas Extra e o Whyte & Mackay. Bourbons, especialmente os mais adocicados como o Maker’s Mark também – nem precisa dizer – ficaram excelentes. Estes emprestam baunilha e uma certa profundidade à sobremesa.

INGREDIENTES:

  • 225g de chocolate meio amargo (1 barra e meia)
  • 225g de chocolate ao leite (1 barra e meia)
  • 200g de creme de leite fresco
  • whisky a gosto – sim, isso é uma medida discricionária. Este cão obteve os melhores resultados com algo próximo de 150ml.
  • frutas, bolachas ou qualquer coisa que fique boa no fondue.

PREPARO

  1. Quebre os chocolates em pequenos pedaços
  2. em uma panela, adicione o creme de leite e o chocolate, e derreta enquanto mistura. Talvez fazer isso em banho maria seja providencial.
  3. Quando a mistura já estiver quase homogênea, adicione o whisky.
  4. Pode servir!

Drops – Royal Brackla 16 anos

 

Você sabe o que é um Royal Warrant? Um Royal Warrant é uma espécie de selo de aprovação da família real. Isso, na prática, significa que certa marca – a qual o Royal Warrant é concedido – fornece um serviço ou produto de altíssimo nivel para a corte real. E que, por conta disto, merecem deferência. Ou que a marca – a destilaria, no caso – é profundamente admirada por certa celebridade de sangue azul.

A maioria dos países que, em algum momento, adotaram o regime monárquico possuem Royal Warrants. Até mesmo no Brasil isto aconteceu. Ao todo, foi concedido o inacreditável numero de dois. Um para a Granado – sim, aquela que faz os sabonetes – e outra para Henry Poole & Co, alfaiataria britânica que produzia parte das vestimentas de Dom Pedro II. A família real inglesa, porém, não foi tão seletiva. Ao longo de sua história, ela já forneceu milhares de royal warrants. Atualmente, há pouco menos do que novecentos. Companhias em ramos tão diversos quanto a Aston Martin, Nestlé, Twinings e Burberry possuem estes selos.

A Brackla foi a primeira destilaria a receber o Royal Warrant. O Royal Warrant da Brackla foi concedido pelo Rei William IV em 1833, quando a destilaria possuía apenas 23 anos de idade. Em 1838 a Rainha Victória renovou o Warrant. Por conta dessa história os whiskies da Brackla até hoje são vendidos com os dizeres “The King’s Own Whisky” ou “O Whisky do Próprio Rei” em seus rótulos. Além disso, a destilaria pode utilizar a denominação “Royal” em seu nome.

O Royal Brackla 16 anos foi lançado apenas recentemente, em 2015. Juntamente com Glen Deveron, Craigellachie, Aberfeldy e Aultmore, ele compõe os “Last Great Malts of Scotland”. Um nome com bastante pompa e certa presunção, mas que, na realidade, é somente a reunião das destilarias sob comando da multinacional Bacardi. Ainda que a comercialização como single malts e o lançamento dos Last Great Malts sejam fenômenos recentes, os maltes já são velhos conhecidos do mercado. São eles os principais ingredientes dos blended whiskies da Bacardi, como o Dewar’s.

A primeira versão lançada do Brackla foi um whisky com 35 anos de idade, com preço sugerido de 15.000,00 (sim, quinze mil mesmo) dólares. Em seguida, a Bacardi revelou que não seria necessário vender um automóvel para experimentar um whisky da destilaria. As expressões do portfólio permanente da marca seriam bem mais acessíveis, ainda que não exatamente uma pechincha. O Royal Brackla 16 custa, atualmente, em torno de 70 libras.

Pechincha

O processo produtivo da Brackla é baseado no refluxo. O processo de fermentação – em washbacks de pinho – é longo. Os alambiques possuem pescoço de cisne, inclinados levemente para cima. O processo de destilação é também demorado, e o alambique começa seu processo bastante cheio. Tudo isso contribui para um destilado leve e pouco maltoso. Não há informação se os whiskies sofrem processo de filtragem a frio ou recebem a adição de corante caramelo.

O Royal Brackla 16 é maturado em barricas de carvalho americano de bourbon whiskey e finalizado em barricas de carvalho europeu de ex-jerez. E tudo seria lindo, não fosse um pequeno detalhe. Sua graduação alcoólica. Para um whisky como ele, leve e puxado para o vinho jerez, talvez um grau mais elevado de álcool funcionasse bem. Isso é uma pena, porque apesar de excelente, o Royal Brackla 16 anos teria o potencial para ser uma expressão incrível. De qualquer forma, se você cruzar com uma garrafa do Royal Brackla 16 anos, não perca a oportunidade de experimentá-lo. Afinal, não é sempre que se tem a oportunidade de provar um whisky digno de um rei.

ROYAL BRACKLA 16 ANOS

Tipo: Single malt com idade definida (16 anos)

Destilaria: Brackla

Região: Highlands

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Frutado, creme de baunilha, manteiga.

Sabor: Frutado e ao mesmo tempo seco. Frutas cristalizadas, crème brûlée, manteiga. Final longo e seco.

Disponibilidade: Duty Free de embarque internacional/lojas internacionais

 

 

Drink do Cão – Sazerac

Há algumas semanas falei sobre a incrível combinação de influências que trouxe a cidade de New Orleans sua riqueza cultural. Na oportunidade, entretanto, deixei de mencionar o cinema. É que a cidade também foi palco de mais de uma dezena de filmes memoráveis, como Bad Lieutenant, Um Bonde Chamado Desejo, O Curioso Caso de Benjamin Button, Ray e Doze Anos de Escravidão.

Além destas películas incriveis, New Orleans também foi a ambientação escolhida para o filme mais esquisito e surreal de James Bond. Live and Let Die – em português, Com 007 vida e deixe morrer. Se você nunca viu, ou não acha estranho, deixe-me apresentar alguns elementos da película. Há o improvável assassinato de um homem por uma banda de instrumentos de sopro. Há a tradicional misoginia, magia negra, um espírito imortal do vodu, tarô – ou melhor, uma taróloga – e um personagem que explode ao engolir um tanque de ar comprimido. Elementos que aparentemente não combinam. E, na verdade, não combinam mesmo.

Sério, que viagem.

Apesar de estar lá na borderline entre o medíocre e o cult, Live and Let Die possui alguns ótimos momentos. A perseguição de lanchas, que conta com uma piscina, um casamento e um incrível salto é excelente. E, claro, aquele já antecipado momento em que nosso agente secreto preferido vai aos copos.

Em Live and Let Die, 007 troca sua bebida de combate. Ao invés de dry martinis ou The Macallan, 007 bebe Sazeracs. Há uma cena em que ele e Felix leiter – sua versão americana na CIA – entram em um bar. Bond pede bourbon sem gelo. Mas Felix o impede, e solicita dois Sazeracs. Ao notar o semblante surpreso do agente inglês, Felix diz “onde está seu apetite pela aventura? – Estamos em Nova Orleans, relaxa!”.

E se eu fosse Leiter, teria feito justamente o mesmo pedido. É que o Sazerac, um dos mais clássicos coqueteis de todos os tempos, foi justamente criado naquela cidade. Seu nome vem do conhaque Sazerac de Forge, que compunha sua receita original. O tal conhaque era importado por um bartender chamado Sewell Taylor, que possuía uma espécie de híbrido entre loja e bar, o Merchants Exchange Coffee House, em New Orleans, lá por 1850.

Algum tempo mais tarde, Sewell vendeu seu empreendimento para Aaron Bird, que resolveu renomeá-lo de “Sazerac Coffee House”. Para promover o lugar, Bird inventou um drink da casa, que levava o aclamado conhaque, açucar e Peychaud’s bitters, produzidos pelo apotecário do Sr. Peychaud, que ficava apenas alguns metros distante.

Crocodilos. Porque faz mais sentido que o filme do 007.

Acontece que, mesmo sendo uma invenção excelente, aquele Sazerac não seria o mesmo por muito tempo. Durante a segunda metade do século dezenove, obter conhaque estava cada vez mais difícil. O fungo phylloxera – o mesmo que auxiliou o whisky escocês ganhar espaço internacional – havia devastado as vinícolas francesas. Assim, engenhosamente, aquele brandy foi substituído por Rye Whiskey.

E esta não foi a única mudança. O absinto era outra bebida em alta naquela época. Assim, nada mais natural do que, em algum ponto do percurso, alguém ter a ideia de adicioná-lo ao coquetel. E assim nasceu o Sazerac que hoje conhecemos. Com Rye Whiskey ao invés de conhaque. E com um toque de absinto.

A preparação do Sazerac é interessantíssima. O absinto é apenas usado para untar o copo. Os demais ingredientes, porém, são preparados como em um old fashioned – que provavelmente foi a inspiração da receita original daquele coquetel de conhaque.

Mas vamos parar com o papo. Com vocês, um dos mais clássicos entre os clássicos. Uma reunião de ingredientes tão improvável quanto um filme que une espionagem, magia negra e tráfico de drogas. A fusão entre o absinto e o whiskey. O Sazerac.

SAZERAC

INGREDIENTES

  • 2 Doses de Rye Whiskey (se não tiver, aposte em um bourbon com boa proporção de centeio em sua composição, como o Woodford Reserve ou o Bulleit).
  • 1/2 dose de calda de açúcar (proporção 1:1. Veja como fazê-la aqui) ou 1 torrão de açúcar
  • 3 dashes de Peychaud’s bitters – Se não tiver, vá sem, ou use sua criatividade.
  • 2 dashes de Angostura bitters
  • Absinto
  • Copo baixo ou taça coupé (existe uma certa polêmica aqui. Sério, escolha o que você achar mais bonito)
  • Mixing Glass (ou um copo para misturar)
  • Colher bailarina (ou algum instrumento apto a misturar)
  • Strainer (já sabe, improvise com uma peneira)
  • gelo
  • casca de limão siciliano para guarnição

 

PREPARO

  1. Pegue o copo baixo ou a taça coupé e despeje uma pequena quantidade de absinto. Gire a taça, como se a tivesse untando e depois descarte o excesso de absinto. A ideia é que a taça – ou copo – fique com o aroma da bebida.
  2. No mixing glass com bastante gelo, adicione o whiskey, a calda de açúcar e os bitters. Misture com a bailarina. Se optar pelo torrão de açúcar, adicione o torrão, depois embeba com os bitters. Adicione o whiskey e mexa até que o açúcar tenha se dissolvido quase inteiramente. Depois, adicione o gelo e mexa novamente.
  3. Com o auxílio do strainer, desça naquele primeiro copo, que você passou o absinto.
  4. Adicione uma pequena casca de limão siciliano como guarnição.

 

 

 

Juntos & Extraordinários – Campeonato de Coquetelaria Chivas Extra

Se há um whisky que acompanhou com destaque a história do Cão Engarrafado, este whisky é o Chivas Extra.

O Chivas Extra foi o protagonista de momentos extraordinários para este blog. Ele foi o vedete do primeiro convite recebido pelo Cão de uma marca de whisky – participar de um jantar harmonizado com aquele mais recente lançamento da Chivas Regal. Foi também, por muito tempo, nosso campeão de audiência. Em poucos dias, sua prova tornou-se o texto mais lido deste infame website, e, atualmente, faz parte dos cinco mais visitados de toda sua história.

O engraçado é que, até hoje, não consegui atribuir razão para isto. Talvez o sucesso do texto tenha sido uma sorte extraordinária. E talvez, por alguma extraordinária coincidência, o Extra tenha pontuado momentos tão extraordinários da história deste blog. Poderia acreditar nisso. Mas, para falar a verdade, cada vez têm sido mais difícil. Porque esta semana novamente um fato veio se juntar ao extraordinário rol de conquistas deste extraordinário whisky. Este Cão foi convidado por Mijung Kim, embaixadora da Chivas Regal, para acompanhar de perto um concurso de coquetelaria envolvendo o Chivas Extra.

O Concurso, jocosamente batizado de “Juntos & Extraordinários” foi concebido para marcar o lançamento do Chivas Extra para os bares brasileiros. A ideia é mostrar a versatilidade do whisky também do lado de lá do balcão. Na verdade, foram organizados dois concursos em paralelo – um na região nordeste, envolvendo Recife, Salvador e Fortaleza e outro na Cidade de São Paulo.

Segundo o regulamento, na primeira fase – concluída no dia 26 deste mês – o bartender deveria elaborar um coquetel que tivesse como base o Chivas Extra, dentro do tema “Quais ingredientes que juntos formam um drink etraordinário” e divulgá-lo via Instagram. Dentre os competidores, cinco de cada região foram selecionados para a final regional – a segunda fase – que ocorrerá no dia 10 de julho. Em São Paulo, os seguintes profissionais foram selecionados para a semifinal: Royter Correia, do Barê, Silas Rocha do Riviera, Ivo Rangel do The View, Thiago Pereira do Sala Especial e Vladimir Cabral do SubAstor.

Os finalistas de Recife, Salvador e Fortaleza são Alex Yuji do Orbita Blue (Fortaleza), Rodrigo Damasceno do SP 20 (Salvador), Reinaldo dos Santos do Anjo Solto (Recife), Paulo de Melo do Le Chef (Recife) e Mauro Melo, do Em Cima Gim Bar (Recife).

Os vencedores da primeira fase de São Paulo.

A segunda fase do campeonato acontecerá no dia 10 de julho. Nela, os finalistas serão avaliados por um corpo de quatro jurados, e deverão improvisar novos coquetéis com Chivas Extra. O bartender deverá se inspirar na campanha #comemorejunto e criar um ritual para sua criação, seguindo o tema “como você comemoraria um momento especial com Chivas?“. Neste dia, serão escolhidos dois finalistas – um para cada região do concurso. Estes finalistas, então, ganharão uma viagem para Lima, para participar do evento de mixologia Clase Maestra 2017.

E aí vai a notícia boa. Até o dia 10 de julho os finalistas deverão inserir sua criação na carta de coquetéis de seus respectivos bares ou restaurantes, para que todos tenham oportunidade de prová-los. Assim, se visitar uma das casas até esta data, peça pelo drink da competição. Vai que ele se torna o protagonista de um momento especial, ou melhor, extraordinário para você também.

Whiskies para comprar no Duty Free III

Esta é a terceira edição de um texto sazonal com novidades nos Duty Free shops de aeroportos brasileiros que valem a pena. Confiram aqui o primeiro, e neste link o segundo texto sobre este tema.

Esses dias estava vendo uns desenhos com a Cãzinha no YouTube. Depois de alguns episódios de Sara e o Pato e Masha e o Urso (afinal, o que há com jovens meninas e animais?) resolvi mostrá-la alguns desenhos da minha época. Percorremos em bons quarenta minutos coisas como Tom e Jerry, Papa Léguas e Caverna do Dragão. Desenhos que eu julgava adorar.

Mas aí eu percebi como eles eram irritantes. Porque o Frajola nunca conseguiu pegar aquele passarinho. E o Coiote descobriu mais de uma centena de formas de morrer – explodido, dilacerado, esmagado, dividido, entre outras – tentando transformar o papa-léguas em almoço. Passei anos e anos de raiva esperando que eles tivessem sucesso. Sucesso que nunca veio. Eu devia ser uma criança estúpida, esperançosa ou muito masoquista mesmo.

cretino

Mas o pior deles era o que eu julgava ser meu preferido. Caverna do Dragão. Tudo que aquele pessoal queria era voltar para casa. Só que por mais próxima e mais palpável que parecesse a oportunidade, algo sempre acontecia. A chance era perdida – por acaso ou escolha – e tudo voltava àquele status quo. Se Caverna do Dragão me ensinou qualquer coisa, é que boas oportunidades são fugazes.

Sempre lembro desse desenho ao passar por um Duty Free. A loja do Duty Free é como aquele portal, que se abre apenas por poucos minutos, concedendo aos personagens a chance de algo extraordinário. Chance esta que eles sempre desperdiçam, mesmo com a ajuda de unicórnios e anciões misteriosos.

Mas aqui, meus caros, o desfecho da história será diferente. Porque este Cão hoje bancará o Mestre dos Magos, e guiará vocês pelo lindo portal das oportunidades do Freeshop, para que possam volta para casa em segurança e bem acompanhados. Os whiskies estão organizados por preço, do mais caro para o mais barato.

BRUICHLADDICH OCTOMORE 07.2

Apesar de (discutivelmente) bonita, a garrafa alta e opaca não cabe em quase nenhuma prateleira. Além disso, não dá para ver quanto whisky resta lá dentro. No entanto, o Bruichladdich Octomore 07.2 é absolutamente fantástico. Ele é um dos whiskies mais defumados do mundo – com 208 ppm (a título de comparação, um Ardbeg 10 possui em torno de 50ppm). Além disso, sua graduação alcoolica é de deixar qualquer um tonto – literalmente: 58,7%.

A maturação do Octomore 07.2 também é pouco ortodoxa. Ela ocorre em uma combinação de barricas de carvalho americano com barricas que antes contiveram vinho de uva syrah do vale do Rhone. O tempo de amadurecimento é de apenas cinco anos, mas é o suficiente para trazer adocicado e especiarias para este monstro enfumaçado.

No Duty Free, uma garrafa desta fumaça líquida custa US$ 190,00 (cento e noventa dólares). Tome uma dose antes, desce mais fácil.

AULTMORE 18 ANOS

O Aultmore 18 foi lançado em 2015, e faz parte de um grupo com um nome bastante modesto. The Last Great Malts. São representantes das cinco destilarias sob o comando do grupo Dewars (Bacardi). As outras são Aberfeldy, The Deveron, Royal Brackla e Craigellachie.

Aultmore é quase o contraponto do Octomore citado acima. É um whisky delicado, com notas vegetais e adocicadas. Há um sabor enfumaçado quase imperceptível que, de acordo com a destilaria, advém da água usada. É um whisky extremamente equilibrado e refinado, que certamente agradará entusiastas de blends de luxo, como meu querido Chivas Regal 18 anos.

O preço da ampola – maravilhosamente desenhada, por sinal – é de US$ 99,00 (noventa e nove dólares). Se você estiver se sentindo abastado, dá para comprar cinco dessas com a quota, e sobra cinco dólares para o chocolate do pessoal do trabalho.

CHIVAS REGAL BROTHERS BLEND

Se você é apaixonado pelo Chivas 18, mas flerta com o Chivas 12, o Brother’s Blend é seu whisky. Ele é uma variação do Chivas Regal 12 anos. O ponto de partida de sua fórmula é a mesma – o single malt Strathisla. Entretanto, a proporção é diferente. Ele leva uma quantidade bem mais generosa do single malt, o que o torna mais floral e frutado, como seu irmão mais velho.

O objetivo do Brother’s Blend é ser um whisky extremamente suave e agradável. Um blended whisky de qualidade, para se tomar acompanhado dos amigos, quiçá conversando sobre viagens passadas, ou combinando a próxima visita ao duty free. O Brother’s Blend custa, nos Duty Frees brasileiros, US$ 51,00 (cinquenta e um dólares)

WOODFORD RESERVE DOUBLE OAKED

Vai parecer que este Cão fez a escolha dos whiskies pela aparência das garrafas. Porque esta também é lindíssima.

O Woodford Reserve Double Oaked é uma versão turbinada do nosso conhecido Woodford Reserve Distiller’s Select. Aliás, ele começa a vida da mesma forma. Maturado em barricas virgens de carvalho americano. Porém, antes de ser engarrafado, ele é finalizado em barricas altamente tostadas e levemente torradas. Isso lhe traz um certo sabor de caramelo ou açúcar queimado que é absolutamente delicioso.

Além de ser um whiskey ótimo para se tomar puro, seu sabor mais forte o torna ideal para utilizar em coquetéis cuja base exige um bourbon adocicado. O preço desta maravilha torrada? US$ 50 (cinquenta dólares). Mê vê dez, por favor.

Como Bourbon (e Tennessee Whiskey) é feito – Parte II

Esta é a segunda parte de um texto sobre o processo de fabricação da maior contribuição norte-americana para a humanidade. O Bourbon Whiskey. Não, meus caros, não foi o iPod. Nem o automóvel, tampouco o telefone. Muito menos o termostato ou a metralhadora.

No texto anterior paramos justamente no processo de destilação. O white dog acabara de sair dos destiladores. Continuaremos hoje com esta incrível história.

É neste momento, logo após a destilação, que nosso cãozinho branco pode tomar dois caminhos. O primeiro é ir para as barricas, onde passará alguns anos até emergir um whiskey. O segundo é passar pelo que se chama Lincoln County Process.

O Lincoln County Process é o que diferencia bourbons de Tennessee Whiskeys – além, claro, do fato dos Tennessee whiskeys serem produzidos no Tennessee. Por este processo, o destilado passa por um filtro de carvão de bordo antes de ir para as barricas. O destilado pinga vagarosamente por pequenos tubos em um grande tanque contendo o carvão. Para que consiga atravessar o filtro, o white dog pode levar dias. Também conhecido como charcoal mellowing, muitas pessoas julgam que este processo adiciona sabores ao whisky. Porém, na opinião deste canídeo, o processo é subtrativo. O filtro retém partículas maiores, e deixa o whiskey mais leve e menos oleoso.

terapia.

De qualquer modo, seja qual for o caminho trilhado por nosso futuro whiskey, o próximo passo será a maturação. Para que possa ser colocado nos barris, o White dog deve sofrer redução em sua graduação alcoolica. É que a lei determina que a graduação máxima de entrada nas barricas deve ser de 62,5%. Há, no entanto, bourbons que saem das barricas após a maturação com graduação alcoolica superior a esta. Se quiser saber por que, clique aqui.

A maturação de Bourbon whiskeys deve ocorrer obrigatoriamente em barricas de carvalho americano virgens e tostadas e torradas. A tosta e a torra são importantes. Além de impactar no sabor – trazendo notas de caramelo e enfumaçadas – elas ativam o barril, promovendo maior contato entre o destilado e a madeira. O tempo de maturação de um Bourbon varia. Porém, ela tende a ser menor do que dos whiskies escoceses. Há duas razões para isso.

A primeira é o clima. A maioria dos bourbons é produzido em estados que possuem ao menos uma estação do ano bem quente – algo que não acontece na Escócia. Quanto mais quente, mais rápida será a maturação, já que a expansão e contração da madeira contribuem para acelerar o processo. A segunda é a natureza das barricas. Barris virgens possuem muito maior capacidade para transferir sabores para o destilado. É o mesmo papo sobre barricas de primeiro uso, segundo uso ou reuso (refill) que tivemos aqui.

Ao contrário do whisky escocês, bourbons não possuem, por regra, tempo mínimo de maturação. Porém, para que possa ser denominado “straight Bourbon”, ele deve passar ao menos dois anos nos barris. Além disso, não deve haver adição de corante caramelo – algo permitido para os scotch whiskies – tampouco adição de outros sabores como, apenas para citar alguns, assim, aleatoriamente e sem nenhum respaldo na vida real: mel, cereja e canela.

Mas não é apenas o tempo que influencia na maturação dos bourbons. A posição de sua barrica nos armazéns também tem enorme influência. Bourbons costumam ser armazenados em enormes depósitos e suas barricas empilhadas em estruturas com muitos andares.

Armazém da Labrot&Graham – Woodford Reserve (fonte: whisky.com)

Os barris mantidos nos pontos mais quentes destes armazéns tendem a maturar mais rápido. Isso porque, mais uma vez, a variação térmica lá é maior. Barricas que maturam mais próximas ao solo, ao contrário, levam mais tempo para atingir os mesmos resultados daquelas dos andares mais altos. Por isso muitas destilarias empregam uma espécie de rodízio de barricas. As expressões mais nobres, no entanto, costumam vir daquelas mantidas nos últimos andares e nos cantos. Os corner-offices do mundo do Bourbon!

Após a maturação, o Bourbon está pronto para ser engarrafado. Ou não. Assim como nos single malts escoceses, a maioria deles é diluída, para que atinja uma graduação alcoólica uniforme e mais palatável para o publico em geral. Há, no entanto, bourbons que não sofrem qualquer diluição. É o caso, por exemplo, do Stagg Jr., já revisto por aqui. O Stagg Jr., aliás, aumenta sua graduação alcoólica durante a maturação, por conta da posição que suas barricas ocupam no armazém.

A maioria das destilarias americanas possui sua própria linha de engarrafamento. De uma forma simplista, as barricas são esvaziadas sobre uma espécie de filtro, que segura eventuais pedaços torrados da barrica que possam ter se desprendido durante a maturação. Depois, o whisky é bombeado até um recipiente de armazenamento, para que depois seja engarrafado.

Alguns raros bourbon whiskeys carregam a expressão “bottled in bond” em seu rótulo. Essa denominação surgiu durante o século XIX, e servia para assegurar a qualidade da bebida. Naquela época, bebia-se absolutamente qualquer coisa. O destilado era produzido sem qualquer cuidado e podia ser extremamente tóxico. Por isso, o governo americano promulgou o “Bottled-in-Bond-Act” – uma série de regras que buscavam estabelecer um padrão de qualidade para a bebida. Atualmente, para que possa carregar os dizeres “bottled in bond” o whiskey americano engarrafado deve ser destilado em um único ano (de janeiro a dezembro) e destilaria, possuir mínimo de quatro anos de maturação e graduação alcoólica de exatamente 50%.

E assim termina o processo de fabricação da mais importante contribuição dos norte-americanos para a humanidade. Não, meus caros. Já disse. Não é o laser, nem a cadeira giratória e tampouco o robô-aspirador. É o bourbon whiskey. O bourbon whiskey e talvez, em segundo lugar, a internet. Porque, óbvio, sem ela, este alter-ego Cão nem existiria.

Drops – Compass Box Hedonism Blended Grain

Se você viveu no Brasil durante os anos noventa, provavelmente lembra de um animal lendário, que tomou conta dos noticiários por algum tempo. o Chupacabras. O chupacabras era, alegadamente, um bicho sem pelos, feio, fedido e que se alimentava do sangue de animais de rebanho, deixando corpos de suas vítimas completamente secos.

Sua história começou em Porto Rico, em 1995, e se espalhou rapidamente. O monstro começou a ser visto em locais tão distantes quanto o Texas e a Argentina, num estranho caso de proliferação instantânea internacional. Até mesmo corpos do que muitos acreditavam ser chupacabras começaram a surgir.

O Chupacabras tornou-se tão famoso que Bejamin Radford – um homem cuja profissão de “cético profissional” é ainda mais bizarra do que o chupacabras – conduziu uma investigação de cinco anos para descobrir o que todo mundo com alguma inteligência já sabia. O Chupacabras não existe.

Benjamin concluiu que a descrição inicial do Chupacabras fora resultado da maluquice de uma senhora que assistira um fime B na televisão – Species – que apresentava um bicho bem parecido. E os corpos encontrados também eram falsos. A maioria  das carcaças era de guaxinins e cachorros com sarna, com exceção de um que – brilhantemente na minha opinião – era um peixe.

medo.

Uma lenda parecida com o chupacabras no mundo do whisky era o do blended grain. Blended grains são whiskies produzidos somente com whiskies de grão, de duas ou mais destilarias, sem qualquer adição de malt whiskies. Apesar de possível, até pouco tempo, ninguém tinha visto. Principalmente porque julgava-se que whiskies de grão eram produtos inferiores, menos complexos e interessantes. Sua função era apenas proporcionar certa leveza a blended whiskies – a parte do caráter e personalidade ficaria com os whiskies de malte. Era como fazer um filme apenas com figurantes!

No entanto, com o advento do novo milênio, a outrora recém fundada Compass Box Whisky Co. resolveu desafiar este dogma. Pelas mãos de seu presidente, John Glaser, nascia o primeiro blended grain scotch whisky da história – o Hedonism. A ideia era justamente mostrar que utilizando grain whiskies de qualidade, podia-se criar um blended grain tão complexo e agradável quanto um single malt.

Até hoje, com exceção das edições especiais limitadas, o Hedonism é o whisky com produção mais contida dentro da Compass Box. São misturados entre quinze e vinte barricas por vez apenas, produzindo entre um e dois lotes por ano. Por conta da disponibilidade variável dos whiskies de grão, há uma sensível variação de sabor de lote para lote. A própria Compass Box divulga a receita parcial deles em seu website – a deste Cão continha whiskies de Camronbridge e da Port Dundas, uma destilaria de grain whiskies fechada em 2010! Aliás, para os whisky-geeks, a garrafa é quase uma aula de história. Port Dundas foi fechada justamente porque a Diageo – sua proprietária – decidira concentrar a produção de seus whiskies de grão em Cameronbridge.

A famosa chaminé de Port Dundas sendo demolida (fonte: BBC)

Nas palavras de John Glaser “Hedonism representa um estilo pelo qual somos meticulosos. Ele é baseado em dois pontos-chave: usar whisky de grão escocês de destilarias que possuam o “estilo adocicado” (p.e. Cameronbridge), e maturando apenas em barricas de carvalho americano de primeiro uso. Ao produzir cada lote de Hedonism, rejeitamos mais de metade das amostras que recebemos. Como as barricas podem variar consideravelmente entre si, mesmo que de uma mesma destilaria e na mesma idade, este processo de seleção é crítico para um whisky tão delicado quanto o Hedonism“.

Assim, se você gosta de whiskies leves, adocicados e florais, ou se tem curiosidade de saber o resultado desta experiência da Compass Box, não deixe de procurar o Hedonism.  Longe de ser um animal lendário, ele não é uma visão rara nas prateleiras de lojas internacionais. E vá por mim, assim como o chupacabras, você tomaria até a ultima gota.

COMPASS BOX HEDONISM

Tipo: Blended Grain Whisky

Marca: Compass Box Whisky Co.

Região: N/A

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, coco, mel, baunilha. O álcool está bastante aparente no olfato.

Sabor: Coco bastante aparente, mel, baunilha, balinha de doce de leite (daquelas duras). Final médio, com baunilha e mel.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Especial dia dos Namorados – Almas gêmeas do whisky

Olha, isto aqui é um texto sobre o dia dos namorados. Eu sei. E eu sei que o que você espera é que eu indique três ou quatro whiskies perfeitos para data. Ou passe a receita de algum coquetel afrodisíaco que leva a bebida. Mas terei que desapontá-lo. Aqui não há nada disso. Primeiro porque o whisky perfeito para a data é aquele que você mais gosta, e seria muita presunção da minha parte propor algo diferente. Em segundo, porque convenhamos, whisky pode ser quase tudo, mas afrodisíaco é algo que ele não é.

Mas a terceira e a mais eminente razão é que eu detesto o dia dos namorados. O dia dos namorados não é bom pra ninguém. Ele é péssimo para quem é solteiro – que se sente excluído das comemorações – e especialmente detestável para alguém que está em uma relação. Para aqueles, é difícil ignorar o dia dos namorados. Para estes, é desaconselhável. Se você discorda, segure em minha proverbial mão e acompanhe-me nesta singela digressão: quantos de vocês já brigaram no dia dos namorados por conta do dia dos namorados?

A obrigação de fazer algo especial, dar um presente único – leia-se, caro – ou demonstrar afeto daquela forma espontaneamente coagida torna aquele dia uma tortura. Que é a última coisa que ele deveria ser. O dia dos namorados devia ser justamente o que o nome diz, e nada além disso. Um dia para que os casais pudessem aproveitar juntos. Um dia talvez para relembrar porque aquelas duas pessoas combinam tanto. Ou porque você gosta tanto de certa coisa. Sem presentes, sem refeições caras, sem demonstrações públicas de afeto.

E este texto é justamente sobre isso. Sobre combinação. Harmonia. Ou melhor, harmonização. Assim, meus caros, aqui vão três coisas que combinam  tanto com whisky quanto você combina com sua alma gêmea. Seja ela qual for.

1. Chocolate

 

Pois é. Pode parecer um pouco óbvio, já que a combinação de duas coisas boas só poderia mesmo ficar ótima. Mas não é só isso. O whisky e o chocolate certos têm a capacidade de potencializar a experiência dos dois, se consumidos juntos. Experimente, por exemplo, um chocolate ao leite com um bourbon whiskey menos adocicado, como o Woodford Reserve. Ou então um chocolate branco com o single malt Glenmorangie Nectar D’Or, finalizado em barricas que antes continham vinho de sobremesa sauternes. Tente também combinar um chocolate meio-amargo com algum whisky como o Chivas Extra, em que grande parte matura em barricas de vinho espanhol Jerez, especialmente PX e Oloroso.

A exceção fica por conta dos whiskys defumados. A combinação deles com chocolate não funciona bem, talvez pelo caráter iodado ou medicinal do destilado. Quer dizer, é óbvio que não fica ruim, porque chocolate é bom, e whisky defumado também. Mas se me perguntar, prefiro só a bebida mesmo, sem o doce. Normal – mesmo para aqueles que nasceram um para o outro, sempre há aquela pequena parcela – aquele hábito estranho, aquele gosto musical esquisito – que não combina.

2. Queijo

Se você ainda acha que o melhor acompanhamento para um queijo é uma boa taça de vinho, é porque nunca tentou com whisky. Aqui não tem muito segredo. Pense em algo que combinaria com aquele queijo, e procure um exemplar que tenha aquelas características. Assim, um whisky leve ou de corpo medio e notas de mel, baunilha e de especiarias (como um Bulleit, por exemplo) funciona bem com um Camembert ou cheddar. Um whisky mais frutado e oleoso com maturação em barricas de jerez – um The Macallan Amber – combina bastante com um parmesão ou um canastra maturado.

Minha combinação preferida, no entanto, é de whiskies defumados – como um Laphroaig 10 anos ou Johnnie Walker Double Black – com queijos fortes, como um gorgonzola ou gouda. Sério, isso sim é amor de verdade.

3. Carne, frutos do mar, doces (quer dizer, quase tudo)

Não é segredo que whisky melhora as coisas. Whisky é uma espécie de Photoshop gastronômico. Aqui a ideia não é exatamente encontrar algo que acompanhe um copo ou taça da bebida, mas sim usa-la em uma receita. Esta dica baseia-se em um método que somente poderia ser definido como pragmático. Por ele, eu cozinho algo e tento adicionar whisky a alguma parte da receita. Ainda que certas vezes falhe miseravelmente, a pequena parcela de derrotas é facilmente eclipsada pelas incríveis vitórias. Uma das minhas experiências favoritas é um medalhão de filé mignon flambado com whisky defumado e pimenta rosa. E no campo dos doces, um brigadeiro meio amargo com bourbon whiskey.

Minha experiência é que combinar por similaridade funciona melhor do que por contraste. Assim, a receita de um doce irá casar com um whisky doce. Já um prato picante ou temperado, com um whisky cujas notas remetem a especiarias. Aliás, sei que prometi que não mencionaria nada caro ou (discutivelmente) afrodisíaco aqui. Me desculpem. Mas experimentem derramar uma pequena quantidade de algum whisky defumado sobre ostras frescas. Ostras frescas e whisky defumado são a prova de que mesmo o mais improvável amor pode ser glorioso.

E não é apenas com alimentos que whisky combina. Para falar a verdade, whisky combina com momentos alegres. Esteja você sozinho ou acompanhado. Afinal, o propósito de qualquer bebida é exatamente potencializar estes momentos. E para isso, a data comemorativa – seja ela o dia que for – não é nada além de irrelevante.

 

 

Drink do Cão – Vieux Carré – Revisto 05/20

New Orleans é uma cidade curiosa. Ela possui pouco menos de trezentos e noventa mil habitantes. Porém, é um verdadeiro caldeirão de influências e produção cultural. É um pólo da cultura Creole e Cajun. Foi o lar de Tennessee Williams, dramaturgo e autor de peças como Boneca de Carne e Gata em teto de Zinco. Além disso, a cidade foi um dos berços do Jazz.

Toda essa prolífica produção tem uma razão. A incrível conjunção das mais distintas culturas. Ao longo de sua história, New Orleans foi influenciada por franceses, espanhóis, ingleses e negros de diversas nações africanas. Foi a combinação de elementos destes povos que trouxe à cidade sua riqueza cultural – hoje um pólo turístico para amantes de música, literatura, cinema, arquitetura e culinária.

Aliás, a cidade é excelente em justamente isto. Misturar. Porque lá foi lá também que nasceram alguns dos mais incríveis coquetéis clássicos, como o Sazerac e o Vieux Carré. Este último, batizado justamente em homenagem ao quarteirão mais conhecido da cidade – o French Quarter, também conhecido como Vieux Carré (“praça velha”).

O Vieux Carré foi criado na década de trinta por Walter Bergeron, do Carousel Bar – que até hoje existe, dentro do Monteleone Hotel, em Nova Orleans. Assim como seu primo mais idoso, o Sazerac, um de seus ingredientes é um bitter criado na própria cidade, o Peychaud’s.

O quarteirão.

Essa, aliás, é uma história interessante. Antoine Amedie Peychaud, imigrante haitiano e proprietário de um apotecário em Nova Orleans – isso é uma farmácia antiga – o teria criado durante o século dezenove. Naquela época, os bitters eram usados para fins medicinais, como se fossem nossos (tão conhecidos) fitoterápicos de hoje. Antoine os misturava com destilado e açúcar, para que seus clientes o consumissem.

Os bitters de Antoine adquiriram notoriedade com o surgimento do Sazerac, outro coquetel criado em Nova Orleans. A fama foi tanta que, mais tarde, a Sazerac Company, responsável por produzir o rye whiskey homônimo, comprou sua receita. Isso sim que é concentração de mercado.

O Vieux Carré é Nova Orleans em estado líquido. Há ingredientes franceses – o conhaque e o Benedictine – e americanos – o Rye whiskey. Há elementos adocicados, secos e amargos. O coquetel é a coexistência equilibrada liquefeita.

A receita abaixo precisa de uma ressalva por conta de uma pequena inconveniência. Os bitters Peychaud’s não desembarcam oficialmente em nosso país. Assim, você tem duas opções. Não usar nada ou usar sua criatividade. Dentro da segunda alternativa, a recomendação seria utilizar algum bitter artesanal com perfil semelhante àquele de Peychaud’s – floral, com anis.  Mas, se você for um afortunado proprietário de uma garrafinha de Peychaud’s, basta ignorar minha substituição.

Então, caros leitores, aí vai a receita de um coquetel que é mais cosmopolita do que um Cosmopolitan. Uma verdadeira celebração liquefeita da pacífica convivência entre culturas. O Vieux Carré.

VIEUX CARRÉ

INGREDIENTES

  • 3/4 dose de Vermute doce
  • 3/4 dose de Conhaque (ou algum brandy semelhante)
  • 3/4 dose de Rye Whiskey como o Wild Turkey 101 Rye (outro ingrediente raro por aqui. Se não tiver, arrisque um Bulleit, por conta do alto grau de centeio em sua mashbill. Se preferir algo um pouco menos picante, vá de Jack Daniel’s Single Barrel ou um Evan Williams 1783 )
  • 1/4 dose de Benedictine
  • 2 dashes (isso é uma chacoalhada) de Angostura (não adianta nem tentar substituir)
  • 2 dashes de Peychaud’s Bitters.
  • gelo
  • cereja (opcional, para guarnição)

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass (ou um copo grande) com bastante gelo. Misture com uma colher bailarina (ou algo semelhante).
  2. Desça a mistura em um copo baixo com um gelo grande. Adicione a cereja (pode usar um palito, como na foto).