Das Lacunas – Ballantine’s 17 anos

 

ballantines 17 - O Cão Engarrafado

Do que você gosta? Imagino que whisky seja uma resposta óbvia, já que está lendo este blog. Mas quais seus outros interesses? Muitas vezes por aqui já disse que cultura é sempre bom, cultura nunca é demais. Mas como todo ser humano, às vezes não sigo o que penso. Há assuntos que – talvez por preconceito, talvez por preguiça – definitivamente não me interessam.

Sou incapaz de falar sobre novelas. A última que assisti foi Rei do Gado. Não tenho a menor condição de conversar sobre moda feminina, e os dois ou três nomes famosos que memorizei de música sertaneja não prestam nem para seis minutos de conversa sobre o assunto. Ah, e futebol. Eu e um bidê temos conhecimento equiparável sobre futebol.

Aliás, também não sei muito sobre bidês.
Aliás, também não sei muito sobre bidês.

Já cinema, carros e whiskies (claro) é outra história. Aliás, whiskies não. Qualquer coisa que seja minimamente potável e que contenha alguma proporção de álcool. São assuntos que naturalmente me fascinam. Mas mesmo aí, mesmo nestes inebriantes (às vezes literalmente) assuntos, há lacunas. Lacunas que prometo a mim mesmo preencher o quanto antes, mas que, novamente por preguiça ou preconceito, não o faço.

E ter um blog sobre whisky não ajuda. Não ajuda porque com ele, é fácil ter um pretexto para focar na exceção. Falar de Glen Scotias, Springbanks, Port Ellens e Ledaigs. E esquecer daquilo que está muito mais próximo de nós. Aquilo que apesar de não ser necessariamente corriqueiro, é muito mais palpável. Então, resolvi que farei alguns textos sobre essas lacunas. Começando por uma das maiores. Um Ballantine’s.

Antes de tudo, devo desculpas aos leitores destas páginas. Porque em quase dois anos de Cão Engarrafado, esta é a primeira vez que um blend da marca é protagonista em uma prova. Para mitigar esta falha, então, decidi escolher a minha expressão favorita da linha. O Ballantine’s 17 anos.

Caso você esteja ficando com preguiça, aí vai uma informação interessante. Em 2011 houve certo furor no mundo do whisky. E no centro dele estava, justamente, o Ballantine’s 17 anos. É que ele foi escolhido naquele ano por Jim Murray como o melhor whisky do mundo, em sua 2011 Whisky Bible. Veja bem, melhor whisky do mundo. Não blend. O que significa que, para Jim Murray, naquele ano, o Ballantine’s 17 anos havia superado todos os single malts por ele provados.

A serenidade nos olhos de quem escolheu um blend como melhor whisky do mundo.
A serenidade nos olhos de quem escolheu um blend como melhor whisky do mundo.

E ainda que este Cão suspeite que Jim tenha exagerado um pouco, não há como negar que o Ballantine’s 17 anos é um blend impressionante. Até mesmo esta versão avaliada, com 40% de graduação alcoólica – diferente da provada por Jim, que contava com 43%.

Produzido pela Pernod Ricard – os mesmos detentores da Chivas Regal – seus single malts base são Scapa, Glenburgie, Miltonduff e Glentauchers. Ou não. Ou não porque essas coisas mudam com o tempo, e sinceramente, é impossível identificar sua composição com base somente no paladar.

O Ballantine’s 17 anos é bastante complexo para um blend de sua idade. Há um certo dulçor inicial, que se torna progressivamente frutado, para depois terminar com um pouco de fumaça e vinho fortificado. Mas o que mais impressiona não é sua complexidade, mas sim a completa ausência de aspereza do whisky de grão utilizado.

Isso, na verdade, é um fenômeno interessante para blended whiskies com idade semelhante à dele. Ainda que – segundo a Scottish Whisky Association – single malts demorem mais tempo para atingir a maturidade do que grain whiskies, estes últimos se beneficiam muito de um tempo médio de maturação, que lhes tira a aspereza e empresta suavidade. Isso fica ainda mais claro em seu primo, o Chivas 18 anos.

Durante toda sua existência, a Ballantine’s teve apenas cinco diferentes master blenders, responsáveis por elaborar seus whiskies, bem como zelar por sua qualidade e consistência. O atual é Sandy Hysop, um homem com mais de trinta anos de experiência no ramo. Em uma entrevista recente para a whisky wire, Sandy descreveu o Ballantine’s 17 anos ao descrever uma visita que fez à Craigduff:

Tomei uma dose de um novo lote de Ballantine’s 17. Excelente e sempre consistente, com sua conhecida delicadeza, equilíbrio, dulçor, sabor de frutas e um fundo de fumaça. Sou certamente um homem privilegiado por poder justificar estas experiências como trabalho.”

Trabalho dificil, hein, Sandy!
Trabalho dificil, hein, Sandy!

Uma garrafa do Ballantine’s 17 anos custa, em média 300 reais. Considerando sua idade, e, comparando-o com os demais blended whiskies à venda no Brasil, ele se apresenta como um ótimo custo-benefício. Especialmente se seu gosto pender para os whiskies mais adocicados e leves, como o Chivas 18 anos.

Assim, meus caros leitores, deixem de lado a preguiça e quiçá o preconceito. Porque eles são grandes inimigos do conhecimento. Sirva-se de uma dose de Ballantine’s 17 anos e contemplem: às vezes, as grandes descobertas estão apenas a alguns metros de nossos dedos.

BALLANTINE’S 17 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida (17 anos)

Marca: Ballantine’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, mel, especiarias e um pouco de fumaça.

Sabor: Adocicado no início e progressivamente  frutado, final médio, com um pouco de fumaça e vinho fortificado.

Com Água: Água torna o whisky mais adocicado e ressalta a fumaça.

 Preço: em torno de R$ 300,00 (trezentos reais)

 

Verdade Relativa – Bulleit Bourbon Frontier Whiskey

Bulleit Bourbon - O Cão Engarrafado

O cinema deve muito ao faroeste. Alguns dos melhores filmes da história usaram a temática daquele tempo sem lei. Um tempo em que destemidos e elegantes vaqueiros enfrentavam índios, perseguiam bandidos e encantavam frágeis donzelas indefesas. Um tempo em que a morte pelo gatilho era corriqueira, e que apenas homens resilientes e com valores íntegros sobreviviam. Ou não.

Ou não porque, assim como o cinema deve ao faroeste, o faroeste também deve ao cinema. Para começar, ninguém realmente se vestia ou se portava como Clint Eastwood ou John Wayne. Os valentes vaqueiros eram, na verdade, em sua grande maioria, absolutamente iletrados, mais ou menos bêbados, e raramente prezavam por quaisquer valores ou moral. Além disso, a criminalidade era relativamente baixa, e os conflitos com índios, praticamente inexistentes.

A imagem que temos hoje daquele tempo foi cunhada no cinema. O maior expoente, responsável por criar o gênero western como o conhecemos hoje, foi John Ford. De acordo com um grande amigo, crítico de cinema e entusiasta do álcool, Ford inventou o faroeste como gênero a ser levado a sério com No Tempo das Diligências (apresentando John Wayne ao mundo, em um entrada inesquecível e triunfal) e, depois, ainda inventou o faroeste moderno, ou revisionista, ou crepuscular, com O Homem que Matou Facínora, onde questionou toda a mitologia fundada por ele mesmo. E aí está a genialidade do gênero western. O western, na verdade, nunca aconteceu.

Nunca aconteceu MESMO
Nunca aconteceu MESMO

Assim como o cinema, a indústria de whiskey americano deve muito ao faroeste. A começar pelo fato de que as raízes da bebida estão lá. Ou, mais uma vez, talvez não.

Talvez não porque lá por mil e oitocentos, apenas uma pequena fração do que era destilado poderia hoje ser considerado Bourbon conforme nossos padrões atuais. Ou American Whiskey. É que os cowboys, como já apontado, não eram exatamente grandes conhecedores e bebentes sofisticados. Então qualquer coisa que envolvesse muito álcool era bem recebida nos saloons. Incluindo misturas com melaço, glicerina e ácido sulfúrico. Sim, ácido sulfúrico, aquele mesmo usado para derreter metais, pedras e, eventualmente, pessoas.

Isso não impediu que grande parte das marcas que hoje conhecemos e apreciamos ainda faça referência ao romântico tempo das diligências. Basta pensar nas famosíssimas Jack Daniel’s, Buffallo Trace e também nos whiskeys da High West. É o caso também do Bulleit Burbon: Frontier Whiskey, recentemente desembarcado no Brasil.

Apesar da alcunha – Frontier Whiskey – em referência aos whiskeys produzidos e transportados durante a colonização do oeste selvagem, o Bulleit não tem nada de fronteiriço. Ele é produzido no Kentucky e seu proprietário é a gigante Diageo (a mesma responsável pela Johnnie Walker). Além disso, ainda que já tenha havido no passado um whiskey homônimo, a Bulleit atual possui menos de três décadas. Seu compromisso com o velho oeste é o mesmo de um filme de John Ford.

A história da marca é que Thomas (Tom) E. Bulleit Jr., o bis-bisneto do imigrante francês Augustus Bulleit, resolveu que reviveria a antiga receita de whiskey de sua família. Uma receita que, na verdade, teria morrido com Augustus, há cento e cinquenta anos, na época dos vaqueiros. Para isso, Thomas fundou, em 1987, a Bulleit Distilling Company. Por conta de seu enorme sucesso, a empresa foi vendida para a Seagram’s, que, por sua vez, foi adquirida pela Diageo. Mas ainda que tenha alienado sua companhia, Tom até hoje trabalha como consultor para sua (outrora) marca.

Howdy.
Howdy.

Ainda que a Diageo não revele exatamente onde ele é fabricado, o boato que circula pelos saloons de hoje em dia é que seja na mesma destilaria responsável pelo Four Roses. Como a maioria dos bourbons, ele é uma mistura entre o destilado de coluna e aquele produzido em alambiques. Além disso, segundo a marca, água filtrada em calcário – comum na região de Lawrenceburg – é usada em sua fabricação.

Seu tempo de maturação é outro mistério. Como é comum com bourbons e cada vez mais frequente no universo de single malts, não há qualquer indicação de idade no rótulo do Bulleit. No entanto, sabe-se que, em média, o whiskey passa em torno de sete anos em barricas virgens de carvalho americano. É bastante tempo, considerando os barris novos e o clima quente do Kentucky.

A composição da Mashbill do Bulleit Bourbon é 68% milho, 28% centeio e 4% de cevada maltada. É bastante centeio. Isso lhe proporciona um sabor acentuado de especiarias, especialmente pimenta do reino. A tradicional baunilha ainda está lá, mas com um papel bem mais coadjuvante do que o costumeiro. Outro ponto incomum para este Bourbon é sua graduação alcoólica. Quarenta e cinco por cento. Havia uma versão com apenas quarenta, comercializada em alguns mercados, como o Europeu. Mas, para nossa sorte, a trazida para cá é a mesma consumida nos Estados Unidos e México. Os cowboys aprovariam esta decisão.

Para conseguir um Bulleit Bourbon, não é preciso assaltar um saloon ou sequestrar uma diligência. O whiskey já está à venda em muitas lojas especializadas, e sua distribuição aumentará ainda nas próximas semanas. Assim, fique de olho quando este forasteiro chegar em sua cidade. E agradeça por ele não ser um autêntico whiskey do oeste selvagem – afinal, ele é muito melhor.

Pelo jeito, o faroeste também deve muito à indústria do whiskey.

BULLEIT BOURBON – FRONTIER WHISKEY

Tipo: Bourbon Whiskey

Marca: Bulleit

Região: N/A

ABV: 45%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo, açúcar mascavo, especiarias, frutas adocicadas.

Sabor: Adocicado e seco, com açúcar mascavo, especiarias e pimenta do reino.

Com Água: Água torna o whiskey ainda mais seco, e reduz a impressão do apimentado.

 Preço: em torno de R$ 150,00 (cento e cinquenta reais)

Drops – Bruichladdich Organic Barley

 

Quando ouço falar de comida orgânica, logo penso naqueles vegetais chochos e maltratados, aquelas batatas meio acinzentadas e alface murchinha. Ou na Bela Gil. Na Bela Gil, recomendando substituir alguma coisa deliciosa (como sei lá, bacon crocante) por algo detestável (tipo chips de abobrinha desidratada). Desenvolvi naturalmente uma certa resistência preconceituosa a tudo que é orgânico.

Uma exceção, porém, é o Bruichladdich Organic Barley. Produzido em Islay, região da Escócia muito conhecida por seus whiskies com caráter defumado, o Organic Barley é uma criação curiosa. Não há qualquer traço de turfa em seu aroma ou sabor. Mas isso não é novidade para aqueles que conhecem a destilaria Bruichladdich. Ela é, seguramente, uma das mais corajosas destilarias escocesas. Talvez por isso se auto denominem “Progressive Hebridean Distillers” – ou algo como “Destiladores Progressistas das Hébridas”.

A cevada, utilizada como matéria prima para a produção do Bruichladdich Organic Barley provém inteiramente de três fazendas certificadas: Mains of Tullibardine, Mid Coull e Coulmore. Segundo a própria Bruichladdich “nos tempos vitorianos, quando a Bruichladdich foi construída, toda cevada escocesa era cultivada de forma orgânica. A relação entre o destilador, o fazendeiro e o solo era íntima e duradoura. Estes laços foram perdidos à medida que o cultivo industrial rompeu essas sinergias e uma era de insipidez (monotonia) super eficiente surgiu. Em parceiria com nossos fazendeiros orgânicos – Sr. William Robert de Mains of Tullibardine, William Rose de Mid Coull e Neil Scorbie de Coulmore – estamos redescobrindo essas sinergias. Nós acreditamos que essa relação é importante. E novamente, unimos a terra à dose.”

Além da certificação de sua cevada, o Organic Scottish Barley não passa por qualquer processo de filtragem a frio, e não há adição de corante caramelo. Por fim, sua graduação alcoólica é relativamente incomum. Cinquenta por cento. Sua cor é clara, quase de palha, com aroma  e sabor adocicado e frutado, com pera, laranja e baunilha. É um whisky leve e muito agradável. Sua graduação alcoólica alta é pouquíssimo perceptível.

O Organic Barley é o animal recessivo em todos os aspectos do mundo do whisky – sem defumação onde todos são defumados, orgânico, sem cor artificial e filtragem a frio e com alta octanagem. Ele pode ser encontrado nos terminais internacionais de nossos aeroportos, e seu preço é de US$ 88,00 (oitenta e oito dólares).

BRUICHLADDICH THE ORGANIC SCOTTISH BARLEY

Tipo – Single Malt sem idade definida (NAS)

ABV – 50%

Região: Islay

País: Escócia

NOTAS DE PROVA

Aroma: baunilha, frutas, mel.

Sabor: Frutado, com pera, maçã e frutas doces. Há um certo sabor de cereais, como mingau de aveia. Final médio e adocicado.

Sobre Prioridades – Glen Moray Classic

O Cão Engarrafado - Glen Moray Classic

Devemos ter prioridades. Foi a frase dita a mim por meu pai, em tom de negação, quando lhe disse que preferia continuar jogando videogame a ir à escola. E apesar de ter entendido seu sentido muito bem, fingi que não. Ou melhor, resolvi que iria adaptá-lo. Assim, para mim, a necessidade de ter prioridades tornou-se a justificativa para não fazer tudo aquilo que não queria, e – em grande parte das vezes – para justificar algo que desejava.

Assim, meu conjunto de prioridades durante a infância englobava tudo aquilo que fosse comestível, e era excludente de todo tipo de higiene pessoal e atividade acadêmica forçada. Outras prioridades, além de comer, incluíam ler, assistir filmes, jogar videogame, procrastinar e contemplar o teto de meu quarto.

Quando comecei a apreciar whisky, estabeleci também algumas prioridades. E os single malts da Glen Moray nunca estiveram entre elas. Por algum motivo, possuía pouca curiosidade sobre aquele whisky e, apresentada uma situação em que eu pudesse optar entre ele e um single malt conhecido, minha escolha sempre pendia para o segundo.

Por conta disso, demorei muito tempo até experimentar o Glen Moray. A primeira vez foi na Escócia, em um bar próximo à sua destilaria. Mas em vista da oferta quase aviltante de whiskies, a experiência de tomá-lo acabou se perdendo. A segunda vez foi somente agora, no ano de 2016, quando finalmente uma de suas expressões desembarcou por aqui. O Glen Moray Classic, importado pela Expand.

Antes de falar um pouco sobre esta expressão, visitarei a destilaria. A Glen Moray localiza-se às margens do rio Lossie, na região de Speyside. Há poucos quilômetros da destilaria está a cidade de Elgin. Por isso os rótulos de Glen Moray contam com uma espécie de brasão, onde se lê “Elgin Classic” ou “Classico de Elgin”.

Aliás, Elgin merece um parágrafo a parte. Fundada no século doze como um burgo real, sua primeira menção escrita data do ano de 1190. A cidade – nessa história cheia de prioridades deturpadas – não recebeu muita atenção até 1224, quando foi construída a fundação do que seria a Catedral de Elgin, um dos prédios mais impressionantes que este Cão já viu, e certamente um ponto obrigatório de visita para qualquer turista viajando pela Escócia.

Fantástica (fonte: trekearth.com)
Fantástica (fonte: trekearth.com)

Fundada como uma cervejaria chamada West Brewery, a Glen Moray foi convertida em destilaria em 1897 por Robert Thorne & Sons, também proprietários da famosa Aberlour. Mas o grupo possuía suas prioridades e – assim como eu – a Glen Moray não era uma delas. Quando a Aberlour passou por um incêndio no começo do século 20, estas preferencias tornaram-se ainda mais claras.

Para recuperar a jóia de Lour, a Glen Moray foi vendida para o grupo McDonald&Muir, posteriormente rebatizado de Glenmorangie PLC. E como você já deve ter deduzido pela renomeação, a balança da predileção estava novamente em desfavor da Glen Moray. Com o plano de focar na produção de Single Malts, a Glenmorangie PLC então decidiu alienar, em 2008, sua participação na destilaria, permanecendo com aquela que rebatizou o grupo – A Glenmorangie. Atualmente, o controlador da Glen Moray é o grupo francês La Martiniquaise, também proprietários do blended whisky Label 5.

Durante sua fase sob a tutela da McDonald&Muir, a Glen Moray adquiriu certa distinção. Seguindo os passos de sua irmã maior – a Glenmorangie – a destilaria de Elgin lançou uma série de whiskies com finalizações especiais, em barricas antes usadas por vinhos Chardonnay e Chenin Blanc. Com a aquisição pela La Martiniquaise, porém, a destilaria conseguiu mais liberdade e campo para experimentação. Atualmente, há, inclusive, uma versão defumada, ainda que rara.

Versão melhorada - aham - defumada.
Versão melhorada – aham – defumada.

O Glen Moray Classic é o single malt de entrada da destilaria. Apesar de não possuir idade declarada, sua maturação é, em média, de sete anos. As barricas utilizadas são exclusivamente de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Grande parte delas usadas pela primeira vez para maturar single malt whisky (first-fill). O resultado é um single malt leve, com sabor frutado, com baunilha, mel e caramelo. Não há qualquer traço de defumação ou especiarias. O Glen Moray Classic é extremamente bebível, e provavelmente será apreciado mesmo por aqueles que têm outras prioridades na vida além de experimentar whiskies.

No Brasil, um Glen Moray custa aproximadamente R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais). Não é barato, ainda mais se comparado ao preço em seu país de origem – GPB 20,00 (vinte libras). Por lá, o Glen Moray Classic é um excelente custo benefício. Por aqui, talvez, nem tanto, o que ofusca bastante sua qualidade – que, para falar a verdade, é excelente.

Assim, o conselho deste Cão é relativo. Se você já conhece a maioria dos single malts à venda em nosso país, e está com vontade de descobrir algo novo sem sair muito de sua zona de conforto, o Glen Moray será uma ótima compra. Apesar de seu preço e da aparente singeleza, é um whisky agradável e perfeito para quase toda situação em que seria socialmente aceitável beber whisky. Entretanto, se ainda estiver no início de sua jornada pelo mundo deste maravilhoso líquido – ainda mais se seu orçamento estiver apertado – talvez seja melhor deixa-lo para depois.

Afinal, como disse uma vez meu pai, devemos todos ter prioridades.

GLEN MORAY CLASSIC

Tipo: Single Malt sem idade definiada (NAS)

Destilaria: Glen Moray

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, açúcar e mel.

Sabor: frutado, com pera e maçã. Final suave, com baunilha, mel e caramelo

Com Água: Mais adocicado, com final menos aparente. O caramelo se perde um pouco.

 Preço: em torno de R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais)

 

Drops – Macallan Estate Reserve

Macallan Estate Reserve - O Cão Engarrafado-1

Sabe o que James Bond e Harvey Specter tem em comum? Bem, além do terno? Ambos têm como whisky preferido o single malt The Macallan. No Brasil, podemos encontrar três das quatro expressões da The Macallan 1824 Series – o Amber, Sienna e Ruby, todos já revistos nestas páginas caninas.

No entanto, além deles, caso você esteja de passagem em algum aeroporto brasileiro com destino para o exterior, poderá encontrar outras expressões da destilaria – Select Oak, Whisky Maker’s Edition, Estate Reserve. Estas são três dos cinco whiskies da 1824 Collection, que também conta com o The Macallan Oscuro e o raríssimo Limited Release MMXII.

O Estate Reserve é a versão mais exclusiva da destilaria em nossos aeroportos. Sua composição inclui uma parcela de barricas de carvalho espanhol selecionado que antes foram usadas para envelhecer vinho Jerez – muitas delas, usadas pela primeira vez para whisky. A graduação alcoólica é sensivelmente mais alta do que a tradicional: 45,7%. Além disso, ele não é filtrado a frio, tornando-o bastante oleoso, marca registrada da destilaria.

The Macallan é – com razão – um dos single malts mais respeitados do mundo. O cuidado com os detalhes em todo o processo produtivo chega a ser exaustivo. A destilaria é uma das únicas do mundo que conta com um profissional cuja única função é avaliar e escolher cada uma das barricas que irá maturar o whisky. É o master of wood, função hoje desempenhada por Stuart MacPherson.

O preço dessa maravilha? Bem, nos Freeshops de nossos aeroportos, o The Macallan Estate Reserve custa US$ 273,00 (duzentos e setenta e três dólares). Ou seja, mais do que a metade de toda a quota do Duty Free. Não é nada barato. Mas também, se fosse, você realmente acha que um dos melhores advogados da ficção e o agente secreto mais famoso do mundo o beberiam?

 

O Cão Viajante – Whiskies para comprar no Duty Free

Duty Free - O Cão Engarrafado-1

Sabe, eu adoro viajar. Conhecer lugares novos, cenários e culturas é uma coisa fantástica.  Cada viagem tem seus pontos fortes, seus charmes. Talvez sejam as ruas de uma bela cidade, as ruínas de uma antiga catedral ou mesmo a praia de areia fininha daquela ilha paradisíaca. Ah, e a gastronomia. Para um Cão como eu, que é absolutamente fascinado por tudo que pode ser deglutido, experimentar novos temperos é uma das melhores experiências do mundo. Tudo sobre viajar é ótimo. Exceto, claro, a parte de chegar ao seu destino. Voar é um saco.

Só para esclarecer, não é que eu tenha medo de aviões. Eu não tenho. Não tenho qualquer temor que o avião entre em estol e se arrebente no chão, nem que exploda porque havia alguma rachadura microscópica na fuselagem, muito menos que algum terrorista resolva tomar conta da cabine usando aqueles talheres ridículos de plástico.

O que me incomoda mesmo é o voo. Do ponto A ao ponto B, há horas de desconforto, câimbra e uma intimidade nem sempre desejada com o passageiro do lado. Isso sem falar no ar-condicionado. Todo tipo de moléstia – e odor corporal – transmissível pelo ar circula livremente. E esse mesmo ar que dissemina a doença, seca tudo. Tudo no avião adquire uma certa crocância. Menos a comida, claro, que é molenga e sem sal.

Delícia!
Delícia!

Soma-se a tudo isso o fato de que sou relativamente impaciente e um pouco hiperativo. Assim, a ideia de ser obrigado a passar horas sentado no mesmo lugar (sendo contaminado) para mim, soa como uma sentença de prisão perpétua.

Minha sorte é que, ao final daquele marasmo interminável, há uma recompensa. Uma recompensa que está lá mesmo quando volto de viagem. A loja do Duty Free. Minhas viagens sempre começam e terminam no Freeshop. Sou completamente incapaz de viajar sem visita-las, e ainda mais incapaz de sair sem ao menos uma garrafa na mão. Mesmo antes da aeronave pousar, já começo a ficar angustiado sobre o que irei comprar naquela oportunista loja.

Se você, assim como eu, não consegue conceber a ideia de entrar ou sair de uma aeronave comercial sem comprar uma garrafa de alguma bebida alcoolica, este post é para você. Aí vai uma lista de seis whiskies que podem ser facilmente encontrados nos Duty Frees de aeroportos brasileiros, no embarque ou desembarque de voos internacionais. Organizados por preço, do maior para o menor. Faça como este Cão. Aproveite as férias de julho para beber melhor.

THE MACALLAN ESTATE RESERVE

Macallan Estate Reserve - O Cão Engarrafado-1

Vamos começar essa lista de forma triunfal. O The Macallan Estate Reserve é a expressão mais cara da destilaria à venda em nossos aeroportos. E (tenha isso em mente) somente em aeroportos. É que a 1824 Collection – diferentemente da 1824 Series – da qual fazem parte também Select Oak, Whisky Maker’s Edition, Oscuro e MMXII, é exclusivamente comercializada nos freeshops de aeroportos internacionais.

O Estate Reserve é engarrafado a 45,7% de graduação alcoólica, e possui um sabor profundamente frutado, cítrico e de especiarias. Toda essa maravilha, entretanto, não é nada barata. Uma garrafa deste single malt custa US$ 273,00 (duzentos e setenta e três dólares) no Freeshop. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

GLENFIDDICH 125 EDIÇÃO LIMITADA

Glenfiddich 125

Sério, é um Glenfiddich defumado. Se isso não for razão suficiente para você, saiba que ele é também uma edição limitada, comemorativa dos 125 anos de fundação da destilaria. Cada garrafa vem com um certificado, um extravagante estojo de metal e uma rolha especial, para substituir a que veio com o lacre.

Seu preço, entretanto, não é muito palatável. US$ 150,00 (cento e cinquenta dólares) no Duty Free. Mas veja pelo lado bom, comprando um destes e o Macallan Estate Reserve, sua quota, angústia e solvência financeira estarão todas praticamente zeradas.

Se quiser saber mais detalhes sobre essa maravilha líquida, leia aqui.

BRUICHLADDICH ORGANIC BARLEY

Bruichladdich Organic

Como o nome já diz, o Bruichladdich Organic Barley é um whisky orgânico. Mas não orgânico no sentido semente de linhaça com inhame. Sua cevada, que lhe serve de matéria prima, é produzida por fazendas certificadas. A Bruichladdich inclusive as identifica em seu rótulo: Mains of Tullibardine, Mid Coull e Coulmore.

Produzido em Islay, famosa por seus whiskies com sabor esfumaçado, o Organic Barley é uma preciosidade. Ele não possui qualquer sinal de defumação. Sua graduação alcoolica também é bastante incomum. Cinquenta por cento. Em um mundo de padronizações, o Bruichalddich Organic Barley é um animal raro. Seu preço no Duty Free é de US$ 88,00 (oitenta e oito dolares)

GLENLIVET NADURRA OLOROSO

Nadurra Oloroso
Foto do colega Maurício Salvi para O Cão Engarrafado

O Nadurra Oloroso praticamente gabarita a prova do que seria um whisky delicioso. Um dos mais respeitados single malts de Speyside, maturado em barricas de carvalho europeu que antes continham vinho jerez Oloroso e alta octanagem. Sinceramente, não dá para ficar muito melhor do que isso.

O Glenlivet Nadurra Oloroso custa US$ 80,00 (oitenta dólares) no Duty Free. É um preço bem convidativo para uma edição especial encontrada apenas em freeshops. Além, claro, de ser excelente.

JACK DANIEL’S SILVER SELECT

SIlver Select

Nada é tão bom que não possa ser melhorado. Exceto, talvez, o Porsche 911 e a aparência da Amber Heard. O Jack Daniel’s Silver Select é a prova disso. Ele é uma versão turbinada do Jack Daniel’s Single Barrel (na singela opinião deste canídeo, melhor dos Jack Daniel’s à venda em nosso país), engarrafado com menos diluição, resultando em uma graduação alcoólica maior, de 50%. O preço desta preciosidade prateada no Duty Free é de US$ 63,00 (sessenta e três dólares).

Se quiser saber mais sobre ele, leia aqui.

JOHNNIE WALKER THE SPICE ROAD

Foto feita para o Cão Engarrafado pelos amigos da Whisky Capital
Foto feita para o Cão Engarrafado pelos amigos da Whisky Capital

O Spice Road é o segundo de uma série de quatro whiskies da Johnnie Walker exclusivos para freeshop. É a – sugestivamente denominada – Explorer’s Club Collection, que presta homenagem a antigos exploradores e às históricas rotas comerciais, como a rota da seda e do ouro.

O Johnnie Walker Spice Road é um whisky leve e relativamente seco. Há um sabor que remonta o de frutas cristalizadas e caramelo. O final é progressivamente seco e defumado. Pense nele como uma espécie de Johnnie Walker Black Label sofisticado. Seu preço no Duty Free é de US$ 43,00 (quarenta e três dólares).

 

Do Autocontrole – Black Grouse

Black Grouse - O Cão Engarrafado

Hoje vou falar sobre autocontrole. Autocontrole – ou melhor, a ausência dele – é o que te faz comer aquele quarto (ou quinto) pedaço de pizza. Ou tomar a terceira saideira no bar. Ou mesmo continuar comendo aquele rodízio de sushi até acabar, ainda que o correspondente à fauna inteira do oceano pacífico já esteja, lentamente, se liquefazendo em seu estômago.

A vida moderna oferece uma infinidade de oportunidades áureas para se despir totalmente do autocontrole. Maratonas da sua série preferida, rodízios infinitos de comida, lojas com descontos progressivos, smartphones e internet quando se está bêbado. E, finalmente e fatalmente, bares.

Bares são uma espécie invertida de videogames de autocontrole. Porque toda vez que você perde – ou seja, toma mais uma – fica mais difícil de exercer o autocontrole para a próxima. E, assim como videogames, existem bares mais difíceis do que outros. Para meu azar – e iminente insolvência – um dos meus preferidos provavelmente seria classificado “hard as hell”.

É que naquele bar, ao invés do garçom te servir uma dose, ele deixa a garrafa na sua mesa, com umas marcações. E você mesmo deve ser o juiz de seu bom senso, e colocar o quanto quiser – e considerar prudente – no copo. Para piorar, ele deixa a garrafa lá, o que atrapalha bastante a tarefa de permanecer com o copo vazio. Ao final da noite, basta medir quantas doses foram consumidas e surpreender seu cliente.

O quêêê?
O quêêê?

Da ultima vez que fui, combinei de encontrar a Cã lá, para que depois fossemos ao shopping comprar alguns presentes para conhecidos. Cheguei adiantado e resolvi que – numa tentativa de pagar menos – escolheria uma dose mais em conta. Minha escolha foi óbvia: o Black Grouse. Um whisky suave e muito equilibrado, com final intenso e esfumaçado. Defumados são mesmo meu ponto fraco. Aquela provavelmente era uma das minhas expressões favoritas da marca do tetraz. Logo que desci o conteúdo da garrafa no copo (com certa parcimônia) pude sentir o aroma turfado e, ao mesmo tempo, cítrico e frutado do whisky. Sentia que estava no caminho certo.

Tomei o primeiro gole lentamente. Era um whisky mais adocicado no paladar do que no aroma, com defumado também mais presente no olfato. Havia ainda um leve sabor cítrico e de vinho jerez.  Muito bom. Os segundo, terceiro e quarto goles se sucederam rapidamente.

Olhei para o relógio. Meia hora e nada de minha melhor metade. Vi-me obrigado a, novamente, encher o copo.  Sorte que a dose não era cara, e a garrafa que havia me sido cedida já estava na metade. Esforcei-me um pouco para lembrar o que sabia sobre aquele whisky. Lançado em 2007, o Black Grouse é produzido pela Famous Grouse, empresa pertencente ao Erdington Group, que também detém os single malts The Macallan, Highland Park e Glenturret.

O blend do Black Grouse seria composto, principalmente, de The Macallan e Glenturret. Ou seria Glenturret e Highland Park? A nova garrafa, do Smoky Black, categoricamente diz que “contem um raro Glenturret turfado, proporcionando a oportunidade de experimentar algo ímpar da mais antiga destilaria da Escócia“. Tomei mais alguns demorados goles, na vã tentativa de identificar e isolar os single malts. Apesar de ser claramente defumado, o equilíbrio dos demais sabores (ou será que era efeito do primeiro copo?) tornou a tarefa um pouco complicada.

Pelo fundo do copo seco podia ver um borrão que provavelmente correspondia ao garçom. O borrão então me perguntou se eu queria algo. Apoiando lentamente o copo vazio na mesa e constatando que era, de fato, o garçom, respondi que uma garrafinha de água seria uma ideia prudente. Poderia, assim, experimentar o whisky também com água. Enchi novamente o copo. Mas, dessa vez, fui bem mais generoso e auto-indulgente. Vi-me obrigado a equilibra-lo para evitar que o líquido derramasse ao beber.

Comecei a divagar sobre aquela garrafa e seu rótulo. Lembrei-me que aquele whisky havia mudado de visual e nome em 2015. De lá pra cá, o Black Grouse passou a chamar-se Famous Grouse Smoky Black. No entanto, a identidade visual da garrafa não havia mudado muito. Continuava a portar aquela ave, que, segundo uma rápida consulta à Wikipedia, era um Tetrao tetrix. Também conhecido como Black Game, blackcock (juro que não estou inventando) ou Galo-Lira.

Não é um peru.
Não é um peru.

Tomei mais alguns goles e notei que meu celular tocava. Era a querida Cã, dizendo que preferia fazer as compras outro dia. Ela se deixara levar jogando um novo jogo de videogame, e agora estava atrasada e com preguiça de se arrumar. E, além disso, a Cãzinha acabara de chegar, e estava pronta para mais uma maratona de algum desenho insuportável. Pelo jeito, autocontrole era um traço genético na família.

Fiz o sinal universal da conta para o garçom, que, com um discreto salto, fez que entendera meu gesto. Tomei meu último gole daquela dose enquanto ele removia a garrafa da mesa e, com um olhar ao mesmo tempo surpreso e sádico, calculava minha conta com base nas marcações da garrafa. Com desgosto e igual surpresa recebi a conta. R$ 150,00. O preço médio de um Black Grouse nas prateleiras de lojas!

Um pouco cambaleante e desnorteado – talvez pela conta, talvez pelas doses de whisky – entrei no táxi e liguei para a Cã. Perguntei a ela se queria que levasse algo para jantarmos. Respondeu-me que não, não precisava, pois pediria pizza. Respondi que tudo bem, mas que era para pedir duas, não uma só. Só para garantir.

Afinal, o quinto pedaço é sempre o melhor.

BLACK GROUSE (FAMOUS GROUSE SMOKY BLACK)

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Famous Grouse

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: fumaça, frutado, levemente cítrico. Mais defumado do que medicinal.

Sabor: Frutado, cítrico, especiarias. Café, talvez? Final progressivamente defumado.

Com Água: Adicionar agua reduz o sabor frutado, deixando o whisky mais seco.

 Preço: em torno de R$ 150,00 (cento e cinquenta reais)

Drops – Talisker Port Ruighe

Talisker Port Ruighe - O Cão Engarrafado

Você gosta de vinho do porto? E de whiskies defumados? Bem, se a resposta for afirmativa para as duas perguntas, provavelmente você se tornará apaixonado pelo Talisker Port Ruighe.

Lançado em 2013 como uma das novas expressões do portfólio permanente da destilaria Talisker, o Port Ruighe é maturado em uma combinação de barricas que antes contiveram bourbon whisky e vinho jerez e finalizado em pipas (isso é um tipo de barril) que antes envelheceram vinho do porto. Daí o nome espertinho, que remete tanto ao vinho fortificado português quanto ao antigo porto comercial da ilha de Skye – Port Ruighe, atualmente denominado Portree – onde a Talisker se localiza.

Aliás, falando nisso, Skye é um dos mais belos cenários de toda a Escócia. A ilha, considerada como a maior extensão de terra das Hébridas Internas, possui uma geografia dramática. Há grandes barrancos à beira do oceano e grandes picos rochosos, entremeados por campos verdes e montanhas. Não é a toa que Skye é considerado um dos mais desejados destinos de lua de mel para os escoceses que não querem sair de sua terra natal.

Talvez por conta do cenário paradisíaco, ou talvez por ser um dos single malts mais conhecidos da Escócia, a destilaria Talisker é a mais visitada dentre todas as da Diageo, grupo que detém seu controle (também responsável pela marca Johnnie Walker, e por destilarias como Cragganmore, Lagavulin, Caol Ila, Cardhu, Clynelish, Dalwhinnie e Glenkinchie).

O Talisker Port Ruighe, assim como grande parte da linha da Talisker, é turfado. Mas ao contrário de seu irmão Talisker Dark Storm e de seu primo Lagavulin, sua defumação é bem mais discreta, na medida perfeita para combinar com os sabores emprestados dos três tipos de barricas que compõe sua maturação. Apesar de não ter idade definida, o Port Ruighe é bem complexo. Há aroma de fumaça, mel, especiarias, frutas vermelhas, com final levemente cítrico e progressivamente defumado.

O Port Ruighe não está à venda no Brasil. Entretanto, fora de nosso país, seu preço é bastante convidativo. Em torno de GPB 50,00 (cinquenta libras), ou seja, R$ 215,00 (duzentos e quinze reais).

Drops – Glen Scotia Double Cask

Glen Scotia - O Cão Engarrafado

Às vezes nomes infelizes escondem bons produtos. Foi o caso, por exemplo, do Ford Pinto. Um ótimo automóvel dos anos setenta. Quer dizer, ao menos as unidades que não entravam em combustão espontânea.

Não sei quanto a você, mas se eu não soubesse o que é um Pinto – sem trocadilhos aqui, veja que escrevi com “P” maiúsculo – daria simplesmente uma risada meio debochada, e pronto. Seguiria com a vida sem jamais prestar o devido reconhecimento – não sei bem por que – àquele automóvel. Este é o caso também do single malt Glen Scotia, cretinamente batizado de “vale escocês” em gaélico. Um nome óbvio e com todo ar de produto de segunda.

Mas, no caso do Glen Scotia, esta impressão não poderia estar mais equivocada. É que assim como Springbank, a Glen Scotia é uma das únicas três destilarias sobreviventes de Campbeltown, cidade que fora, por muito tempo, considerada a capital mundial do whisky. A região, que chegou a contar com trinta e quatro destilarias durante a década de cinquenta, hoje possui apenas três delas. Springbank, Glen Scotia e Glengyle. Esta última, ressuscitada apenas no começo deste século. O que, aliás, causa uma certa confusão entre os admiradores da região. Porque o single malt denominado Glengyle é, na verdade, produzido pela Glen Scotia, detentora dos direitos sobre o nome. E o single malt produzido pela Glengyle mesmo tem o nome de Kilkerran.

E aí vai mais uma curiosidade sobre a região. Se você é fã de Paul McCartney, provavelmente já ouviu Mull of Kintyre. A música foi escrita como tributo à península de Kintyre, onde está localizada Campbeltown. Até 1966, Paul McCartney possuía uma fazenda próxima à cidade, chamada High Park Farm. Pelo jeito Paul bebeu muito bem lá pelos seus trinta anos de idade. Provavelmente daí que vem o tom nostálgico da canção.

A fazenda de Paul(Foto: REX/Tom Farmer)

O Glen Scotia Double Cask está longe de ser um single malt genérico. Este pequeno notável ganhou prêmio de melhor whisky de Campbeltown em 2016. Nada mau, considerando que concorreu com três diferentes linhas de Springbank, e de Glengyle, ou melhor, Kilkerran. O nome desta expressão – Double Cask – vem de seu processo de maturação. new make spirit é primeiro maturado em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey, para depois ser finalizado em uma combinação de barricas de ex-jerez e ex-bourbon usadas pela primeira vez para maturar single malt (first-fill). O resultado é um single malt adocicado e cítrico, que – para este Cão – lembra laranja lima. O final é progressivamente mais puxado para o jerez.

Infelizmente, nenhuma expressão de Campbeltown – muito menos os Glen Scotia – estão disponíveis em nosso país. Com um pouco de garimpo, entretanto, podemos encontrá-los em nossos vizinhos da América Latina, como o Chile e Uruguai. Além disso, Glen Scotias são uma visão relativamente comum em lojas especializadas na Europa e no Reino Unido. Por lá, uma garrafa deste single malt premiado custa, em média, GBP 50,00 (cinquenta libras).

GLEN SCOTIA DOUBLE CASK

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Glen Scotia

Região: Campbeltown

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: cítrico, com mel, baunilha, laranja.

Sabor: Mel, laranja lima, com final relativamente longo e progressivamente mais cítrico. Um pouco de baunilha e especiarias no final. Álcool bem pouco notável.

Mais seis personagens que amam whisky

6 personagens que amam whisky - O Cão Engarrafado

No começo deste ano, resolvi que faria um exercício mental em forma de texto. Resolvi que, sem qualquer consulta à internet, e recorrendo apenas à minha – progressivamente decadente – memória, enumeraria alguns personagens do cinema e televisão que apreciam whisky. Se você perdeu este post, leia-o aqui. 

Mas vou confessar uma coisa. Quando escrevi aquele texto, fiquei um pouco receoso em contar uma mania que tenho. Que é a de tentar identificar todos os rótulos de whiskies que aparecem em filmes, mesmo que borrados, desfigurados ou virados. Essa maluquice, com o tempo, se estendeu também para outras coisas, como séries de televisão e até documentários. Mas depois de refletir um pouco, resolvi que a contaria. Porque como já disse Caetano, de perto, ninguém é normal mesmo.

Os dois primeiros dias que sucederam o lançamento do post foram de uma certa tensão. Achei que alguém pudesse identificar algum traço psicopático em mim, que, ao invés de condoer-me com os personagens, ficava preocupado com o que estava no copo deles.

Mas, para minha agradável surpresa, não recebi mensagens de ódio ou oferta de ajuda profissional. Não. Pelo contrário. Muitos leitores confessaram que faziam o mesmo, e até apontaram inúmeros personagens que eu havia esquecido completamente.

Assim, em homenagem a este sentimento kitsch, essa sensação de se sentir um pouco mais normal – ainda que talvez essa normalidade seja bem relativa – resolvi enumerar mais seis personagens que adoram a melhor bebida do mundo. Só que com uma diferença. Todos eles, sugestões dos leitores deste ébrio blog.

CONSTANTINE (FILME)

Constantine - O Cão Engarrafado

John Constantine também não é um homem muito normal. A começar pelo fato de que ele possui a estranha habilidade de se comunicar com demônios e anjos, mesmo que fora de seus arquétipos. Seu objetivo é encontrar a salvação, após ter tentado se suicidar em sua infância. Para isso, John exorciza demônios, enviando-os de volta para o inferno, na esperança de obter perdão divino.

Enquanto não está destruindo entidades demoníacas ou divinas, Constantine bebe e fuma. Seu whisky preferido é praticamente a liquefação de sua personalidade. Ardbeg Ten.

CHARLIE HARPER

Charlie - O Cão Engarrafado

Charlie é muitas coisas. Misógino, egoísta e autoindulgente. Seu senso de humor é acido e sarcástico, e suas escolhas normalmente baseadas em valores completamente deturpados. Por conta disso, Charlie normalmente se mete em situações difíceis, das quais nem sempre se safa.

Apesar de ser um ser humano mais ou menos desprezível, Charlie tem um gosto relativamente sofisticado para bebida, e é fã de um bom whisky. Durante a série, podemos vê-lo tomando Balvenie, Glenlivet, Glenmorangie e Johnnie Walker Black Label, além do bourbon whiskey Woodford Reserve.

Não que isso o torne alguém melhor.

DON DRAPER

Don Draper - O Cão Engarrafado

Mad Men é uma série meio atormentadora para pessoas com a minha mania. Porque os personagens estão bebendo quase absolutamente tudo, o tempo todo. Isso torna a tarefa de prestar atenção na história bem dificil. O alcoolismo dos personagens de Mad Men somente é superado por seu tabagismo. Sorte minha que este não é um blog sobre cigarros.

Don Draper, protagonista da série, não foge à regra. Apesar de sua bebida de combate ser o coquetel Old Fashioned – já revisto por aqui – Don deglute quase tudo que seja etílico. No campo do whisky, seu preferido é o Canadian Club, um blended whisky canadense bastante suave, perfeito para ser bebido em quantidades copiosas.

BARNEY STINSON

Barney Stinsson - O Cão Engarrafado

Se você assistiu ao menos a um episódio de How I Met Your Mother, sabe que Barney é um cara competitivo. Sua paixão é vencer desafios, na maioria das vezes, criados por seus amigos. Ou, às vezes, impostos a si mesmo, e que ninguém – exceto ele mesmo – se importariam se ele vencesse ou não.

Uma das bebidas mais cobiçadas por Barney é o single malt ficcional Glen McKenna. Talvez porque alguém sempre quebra a garrafa antes, toda vez que ele tem a oportunidade de bebê-lo.

RAYMOND REDDINGTON

reddington - Cao Engarrafado

O antagonista de The Blacklist é sofisticado, elegante e completamente obcecado pela agente Elizabeth Keen, do FBI. Quase tão elegante quanto outro outro grande vilão da ficção, Hannibal Lecter (que, aliás, também é obcecado por outra agente, Clarice Starling). Só que Reddington tem mais bom gosto: ao invés de comer pessoas, Raymond trabalha como um grande lobista do crime organizado. E, ao invés de chianti, sua bebida de preferência é whisky.

Descobrir o single malt que Raymond aprecia foi quase uma missão de agente secreto. O formato da garrafa e seu rótulo são relativamente comuns, e ela quase nunca aparece em primeiro plano. Após cuidadosa investigação – e algumas horas pausando a gravação da série – encontrei a resposta. Glen Dochart. Um single malt ficcional, criado pelos produtores da série. Decepção.

 

ABE LUCAS

Abe Lucas - O Cão Engarrafado

Abe, protagonista do filme O Homem Irracional, de Woody Allen, é um personagem complexo. Professor de filosofia na faculdade ficcional de Braylin, Abe se encontra em uma crise existencial. Antes desprovido de propósito, Abe encontra uma razão para viver no assassinato de um completo estranho. Somente para ajudar a outro completo estranho.

Abe é apaixonado por single malts. Tão apaixonado que carrega sempre consigo um pequeno frasco da bebida. Talvez porque, como uma vez escreveu W. C. Fields (certamente de conhecimento de Abe): sempre carregue um pequeno frasco de whisky contra picadas de cobra, e, além disso, sempre leve uma pequena cobra.