Sobre Prioridades – Glen Moray Classic

O Cão Engarrafado - Glen Moray Classic

Devemos ter prioridades. Foi a frase dita a mim por meu pai, em tom de negação, quando lhe disse que preferia continuar jogando videogame a ir à escola. E apesar de ter entendido seu sentido muito bem, fingi que não. Ou melhor, resolvi que iria adaptá-lo. Assim, para mim, a necessidade de ter prioridades tornou-se a justificativa para não fazer tudo aquilo que não queria, e – em grande parte das vezes – para justificar algo que desejava.

Assim, meu conjunto de prioridades durante a infância englobava tudo aquilo que fosse comestível, e era excludente de todo tipo de higiene pessoal e atividade acadêmica forçada. Outras prioridades, além de comer, incluíam ler, assistir filmes, jogar videogame, procrastinar e contemplar o teto de meu quarto.

Quando comecei a apreciar whisky, estabeleci também algumas prioridades. E os single malts da Glen Moray nunca estiveram entre elas. Por algum motivo, possuía pouca curiosidade sobre aquele whisky e, apresentada uma situação em que eu pudesse optar entre ele e um single malt conhecido, minha escolha sempre pendia para o segundo.

Por conta disso, demorei muito tempo até experimentar o Glen Moray. A primeira vez foi na Escócia, em um bar próximo à sua destilaria. Mas em vista da oferta quase aviltante de whiskies, a experiência de tomá-lo acabou se perdendo. A segunda vez foi somente agora, no ano de 2016, quando finalmente uma de suas expressões desembarcou por aqui. O Glen Moray Classic, importado pela Expand.

Antes de falar um pouco sobre esta expressão, visitarei a destilaria. A Glen Moray localiza-se às margens do rio Lossie, na região de Speyside. Há poucos quilômetros da destilaria está a cidade de Elgin. Por isso os rótulos de Glen Moray contam com uma espécie de brasão, onde se lê “Elgin Classic” ou “Classico de Elgin”.

Aliás, Elgin merece um parágrafo a parte. Fundada no século doze como um burgo real, sua primeira menção escrita data do ano de 1190. A cidade – nessa história cheia de prioridades deturpadas – não recebeu muita atenção até 1224, quando foi construída a fundação do que seria a Catedral de Elgin, um dos prédios mais impressionantes que este Cão já viu, e certamente um ponto obrigatório de visita para qualquer turista viajando pela Escócia.

Fantástica (fonte: trekearth.com)
Fantástica (fonte: trekearth.com)

Fundada como uma cervejaria chamada West Brewery, a Glen Moray foi convertida em destilaria em 1897 por Robert Thorne & Sons, também proprietários da famosa Aberlour. Mas o grupo possuía suas prioridades e – assim como eu – a Glen Moray não era uma delas. Quando a Aberlour passou por um incêndio no começo do século 20, estas preferencias tornaram-se ainda mais claras.

Para recuperar a jóia de Lour, a Glen Moray foi vendida para o grupo McDonald&Muir, posteriormente rebatizado de Glenmorangie PLC. E como você já deve ter deduzido pela renomeação, a balança da predileção estava novamente em desfavor da Glen Moray. Com o plano de focar na produção de Single Malts, a Glenmorangie PLC então decidiu alienar, em 2008, sua participação na destilaria, permanecendo com aquela que rebatizou o grupo – A Glenmorangie. Atualmente, o controlador da Glen Moray é o grupo francês La Martiniquaise, também proprietários do blended whisky Label 5.

Durante sua fase sob a tutela da McDonald&Muir, a Glen Moray adquiriu certa distinção. Seguindo os passos de sua irmã maior – a Glenmorangie – a destilaria de Elgin lançou uma série de whiskies com finalizações especiais, em barricas antes usadas por vinhos Chardonnay e Chenin Blanc. Com a aquisição pela La Martiniquaise, porém, a destilaria conseguiu mais liberdade e campo para experimentação. Atualmente, há, inclusive, uma versão defumada, ainda que rara.

Versão melhorada - aham - defumada.
Versão melhorada – aham – defumada.

O Glen Moray Classic é o single malt de entrada da destilaria. Apesar de não possuir idade declarada, sua maturação é, em média, de sete anos. As barricas utilizadas são exclusivamente de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Grande parte delas usadas pela primeira vez para maturar single malt whisky (first-fill). O resultado é um single malt leve, com sabor frutado, com baunilha, mel e caramelo. Não há qualquer traço de defumação ou especiarias. O Glen Moray Classic é extremamente bebível, e provavelmente será apreciado mesmo por aqueles que têm outras prioridades na vida além de experimentar whiskies.

No Brasil, um Glen Moray custa aproximadamente R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais). Não é barato, ainda mais se comparado ao preço em seu país de origem – GPB 20,00 (vinte libras). Por lá, o Glen Moray Classic é um excelente custo benefício. Por aqui, talvez, nem tanto, o que ofusca bastante sua qualidade – que, para falar a verdade, é excelente.

Assim, o conselho deste Cão é relativo. Se você já conhece a maioria dos single malts à venda em nosso país, e está com vontade de descobrir algo novo sem sair muito de sua zona de conforto, o Glen Moray será uma ótima compra. Apesar de seu preço e da aparente singeleza, é um whisky agradável e perfeito para quase toda situação em que seria socialmente aceitável beber whisky. Entretanto, se ainda estiver no início de sua jornada pelo mundo deste maravilhoso líquido – ainda mais se seu orçamento estiver apertado – talvez seja melhor deixa-lo para depois.

Afinal, como disse uma vez meu pai, devemos todos ter prioridades.

GLEN MORAY CLASSIC

Tipo: Single Malt sem idade definiada (NAS)

Destilaria: Glen Moray

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, açúcar e mel.

Sabor: frutado, com pera e maçã. Final suave, com baunilha, mel e caramelo

Com Água: Mais adocicado, com final menos aparente. O caramelo se perde um pouco.

 Preço: em torno de R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais)

 

Drops – Macallan Estate Reserve

Macallan Estate Reserve - O Cão Engarrafado-1

Sabe o que James Bond e Harvey Specter tem em comum? Bem, além do terno? Ambos têm como whisky preferido o single malt The Macallan. No Brasil, podemos encontrar três das quatro expressões da The Macallan 1824 Series – o Amber, Sienna e Ruby, todos já revistos nestas páginas caninas.

No entanto, além deles, caso você esteja de passagem em algum aeroporto brasileiro com destino para o exterior, poderá encontrar outras expressões da destilaria – Select Oak, Whisky Maker’s Edition, Estate Reserve. Estas são três dos cinco whiskies da 1824 Collection, que também conta com o The Macallan Oscuro e o raríssimo Limited Release MMXII.

O Estate Reserve é a versão mais exclusiva da destilaria em nossos aeroportos. Sua composição inclui uma parcela de barricas de carvalho espanhol selecionado que antes foram usadas para envelhecer vinho Jerez – muitas delas, usadas pela primeira vez para whisky. A graduação alcoólica é sensivelmente mais alta do que a tradicional: 45,7%. Além disso, ele não é filtrado a frio, tornando-o bastante oleoso, marca registrada da destilaria.

The Macallan é – com razão – um dos single malts mais respeitados do mundo. O cuidado com os detalhes em todo o processo produtivo chega a ser exaustivo. A destilaria é uma das únicas do mundo que conta com um profissional cuja única função é avaliar e escolher cada uma das barricas que irá maturar o whisky. É o master of wood, função hoje desempenhada por Stuart MacPherson.

O preço dessa maravilha? Bem, nos Freeshops de nossos aeroportos, o The Macallan Estate Reserve custa US$ 273,00 (duzentos e setenta e três dólares). Ou seja, mais do que a metade de toda a quota do Duty Free. Não é nada barato. Mas também, se fosse, você realmente acha que um dos melhores advogados da ficção e o agente secreto mais famoso do mundo o beberiam?

 

O Cão Viajante – Whiskies para comprar no Duty Free

Duty Free - O Cão Engarrafado-1

Sabe, eu adoro viajar. Conhecer lugares novos, cenários e culturas é uma coisa fantástica.  Cada viagem tem seus pontos fortes, seus charmes. Talvez sejam as ruas de uma bela cidade, as ruínas de uma antiga catedral ou mesmo a praia de areia fininha daquela ilha paradisíaca. Ah, e a gastronomia. Para um Cão como eu, que é absolutamente fascinado por tudo que pode ser deglutido, experimentar novos temperos é uma das melhores experiências do mundo. Tudo sobre viajar é ótimo. Exceto, claro, a parte de chegar ao seu destino. Voar é um saco.

Só para esclarecer, não é que eu tenha medo de aviões. Eu não tenho. Não tenho qualquer temor que o avião entre em estol e se arrebente no chão, nem que exploda porque havia alguma rachadura microscópica na fuselagem, muito menos que algum terrorista resolva tomar conta da cabine usando aqueles talheres ridículos de plástico.

O que me incomoda mesmo é o voo. Do ponto A ao ponto B, há horas de desconforto, câimbra e uma intimidade nem sempre desejada com o passageiro do lado. Isso sem falar no ar-condicionado. Todo tipo de moléstia – e odor corporal – transmissível pelo ar circula livremente. E esse mesmo ar que dissemina a doença, seca tudo. Tudo no avião adquire uma certa crocância. Menos a comida, claro, que é molenga e sem sal.

Delícia!
Delícia!

Soma-se a tudo isso o fato de que sou relativamente impaciente e um pouco hiperativo. Assim, a ideia de ser obrigado a passar horas sentado no mesmo lugar (sendo contaminado) para mim, soa como uma sentença de prisão perpétua.

Minha sorte é que, ao final daquele marasmo interminável, há uma recompensa. Uma recompensa que está lá mesmo quando volto de viagem. A loja do Duty Free. Minhas viagens sempre começam e terminam no Freeshop. Sou completamente incapaz de viajar sem visita-las, e ainda mais incapaz de sair sem ao menos uma garrafa na mão. Mesmo antes da aeronave pousar, já começo a ficar angustiado sobre o que irei comprar naquela oportunista loja.

Se você, assim como eu, não consegue conceber a ideia de entrar ou sair de uma aeronave comercial sem comprar uma garrafa de alguma bebida alcoolica, este post é para você. Aí vai uma lista de seis whiskies que podem ser facilmente encontrados nos Duty Frees de aeroportos brasileiros, no embarque ou desembarque de voos internacionais. Organizados por preço, do maior para o menor. Faça como este Cão. Aproveite as férias de julho para beber melhor.

THE MACALLAN ESTATE RESERVE

Macallan Estate Reserve - O Cão Engarrafado-1

Vamos começar essa lista de forma triunfal. O The Macallan Estate Reserve é a expressão mais cara da destilaria à venda em nossos aeroportos. E (tenha isso em mente) somente em aeroportos. É que a 1824 Collection – diferentemente da 1824 Series – da qual fazem parte também Select Oak, Whisky Maker’s Edition, Oscuro e MMXII, é exclusivamente comercializada nos freeshops de aeroportos internacionais.

O Estate Reserve é engarrafado a 45,7% de graduação alcoólica, e possui um sabor profundamente frutado, cítrico e de especiarias. Toda essa maravilha, entretanto, não é nada barata. Uma garrafa deste single malt custa US$ 273,00 (duzentos e setenta e três dólares) no Freeshop. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

GLENFIDDICH 125 EDIÇÃO LIMITADA

Glenfiddich 125

Sério, é um Glenfiddich defumado. Se isso não for razão suficiente para você, saiba que ele é também uma edição limitada, comemorativa dos 125 anos de fundação da destilaria. Cada garrafa vem com um certificado, um extravagante estojo de metal e uma rolha especial, para substituir a que veio com o lacre.

Seu preço, entretanto, não é muito palatável. US$ 150,00 (cento e cinquenta dólares) no Duty Free. Mas veja pelo lado bom, comprando um destes e o Macallan Estate Reserve, sua quota, angústia e solvência financeira estarão todas praticamente zeradas.

Se quiser saber mais detalhes sobre essa maravilha líquida, leia aqui.

BRUICHLADDICH ORGANIC BARLEY

Bruichladdich Organic

Como o nome já diz, o Bruichladdich Organic Barley é um whisky orgânico. Mas não orgânico no sentido semente de linhaça com inhame. Sua cevada, que lhe serve de matéria prima, é produzida por fazendas certificadas. A Bruichladdich inclusive as identifica em seu rótulo: Mains of Tullibardine, Mid Coull e Coulmore.

Produzido em Islay, famosa por seus whiskies com sabor esfumaçado, o Organic Barley é uma preciosidade. Ele não possui qualquer sinal de defumação. Sua graduação alcoolica também é bastante incomum. Cinquenta por cento. Em um mundo de padronizações, o Bruichalddich Organic Barley é um animal raro. Seu preço no Duty Free é de US$ 88,00 (oitenta e oito dolares)

GLENLIVET NADURRA OLOROSO

Nadurra Oloroso
Foto do colega Maurício Salvi para O Cão Engarrafado

O Nadurra Oloroso praticamente gabarita a prova do que seria um whisky delicioso. Um dos mais respeitados single malts de Speyside, maturado em barricas de carvalho europeu que antes continham vinho jerez Oloroso e alta octanagem. Sinceramente, não dá para ficar muito melhor do que isso.

O Glenlivet Nadurra Oloroso custa US$ 80,00 (oitenta dólares) no Duty Free. É um preço bem convidativo para uma edição especial encontrada apenas em freeshops. Além, claro, de ser excelente.

JACK DANIEL’S SILVER SELECT

SIlver Select

Nada é tão bom que não possa ser melhorado. Exceto, talvez, o Porsche 911 e a aparência da Amber Heard. O Jack Daniel’s Silver Select é a prova disso. Ele é uma versão turbinada do Jack Daniel’s Single Barrel (na singela opinião deste canídeo, melhor dos Jack Daniel’s à venda em nosso país), engarrafado com menos diluição, resultando em uma graduação alcoólica maior, de 50%. O preço desta preciosidade prateada no Duty Free é de US$ 63,00 (sessenta e três dólares).

Se quiser saber mais sobre ele, leia aqui.

JOHNNIE WALKER THE SPICE ROAD

Foto feita para o Cão Engarrafado pelos amigos da Whisky Capital
Foto feita para o Cão Engarrafado pelos amigos da Whisky Capital

O Spice Road é o segundo de uma série de quatro whiskies da Johnnie Walker exclusivos para freeshop. É a – sugestivamente denominada – Explorer’s Club Collection, que presta homenagem a antigos exploradores e às históricas rotas comerciais, como a rota da seda e do ouro.

O Johnnie Walker Spice Road é um whisky leve e relativamente seco. Há um sabor que remonta o de frutas cristalizadas e caramelo. O final é progressivamente seco e defumado. Pense nele como uma espécie de Johnnie Walker Black Label sofisticado. Seu preço no Duty Free é de US$ 43,00 (quarenta e três dólares).

 

Do Autocontrole – Black Grouse

Black Grouse - O Cão Engarrafado

Hoje vou falar sobre autocontrole. Autocontrole – ou melhor, a ausência dele – é o que te faz comer aquele quarto (ou quinto) pedaço de pizza. Ou tomar a terceira saideira no bar. Ou mesmo continuar comendo aquele rodízio de sushi até acabar, ainda que o correspondente à fauna inteira do oceano pacífico já esteja, lentamente, se liquefazendo em seu estômago.

A vida moderna oferece uma infinidade de oportunidades áureas para se despir totalmente do autocontrole. Maratonas da sua série preferida, rodízios infinitos de comida, lojas com descontos progressivos, smartphones e internet quando se está bêbado. E, finalmente e fatalmente, bares.

Bares são uma espécie invertida de videogames de autocontrole. Porque toda vez que você perde – ou seja, toma mais uma – fica mais difícil de exercer o autocontrole para a próxima. E, assim como videogames, existem bares mais difíceis do que outros. Para meu azar – e iminente insolvência – um dos meus preferidos provavelmente seria classificado “hard as hell”.

É que naquele bar, ao invés do garçom te servir uma dose, ele deixa a garrafa na sua mesa, com umas marcações. E você mesmo deve ser o juiz de seu bom senso, e colocar o quanto quiser – e considerar prudente – no copo. Para piorar, ele deixa a garrafa lá, o que atrapalha bastante a tarefa de permanecer com o copo vazio. Ao final da noite, basta medir quantas doses foram consumidas e surpreender seu cliente.

O quêêê?
O quêêê?

Da ultima vez que fui, combinei de encontrar a Cã lá, para que depois fossemos ao shopping comprar alguns presentes para conhecidos. Cheguei adiantado e resolvi que – numa tentativa de pagar menos – escolheria uma dose mais em conta. Minha escolha foi óbvia: o Black Grouse. Um whisky suave e muito equilibrado, com final intenso e esfumaçado. Defumados são mesmo meu ponto fraco. Aquela provavelmente era uma das minhas expressões favoritas da marca do tetraz. Logo que desci o conteúdo da garrafa no copo (com certa parcimônia) pude sentir o aroma turfado e, ao mesmo tempo, cítrico e frutado do whisky. Sentia que estava no caminho certo.

Tomei o primeiro gole lentamente. Era um whisky mais adocicado no paladar do que no aroma, com defumado também mais presente no olfato. Havia ainda um leve sabor cítrico e de vinho jerez.  Muito bom. Os segundo, terceiro e quarto goles se sucederam rapidamente.

Olhei para o relógio. Meia hora e nada de minha melhor metade. Vi-me obrigado a, novamente, encher o copo.  Sorte que a dose não era cara, e a garrafa que havia me sido cedida já estava na metade. Esforcei-me um pouco para lembrar o que sabia sobre aquele whisky. Lançado em 2007, o Black Grouse é produzido pela Famous Grouse, empresa pertencente ao Erdington Group, que também detém os single malts The Macallan, Highland Park e Glenturret.

O blend do Black Grouse seria composto, principalmente, de The Macallan e Glenturret. Ou seria Glenturret e Highland Park? A nova garrafa, do Smoky Black, categoricamente diz que “contem um raro Glenturret turfado, proporcionando a oportunidade de experimentar algo ímpar da mais antiga destilaria da Escócia“. Tomei mais alguns demorados goles, na vã tentativa de identificar e isolar os single malts. Apesar de ser claramente defumado, o equilíbrio dos demais sabores (ou será que era efeito do primeiro copo?) tornou a tarefa um pouco complicada.

Pelo fundo do copo seco podia ver um borrão que provavelmente correspondia ao garçom. O borrão então me perguntou se eu queria algo. Apoiando lentamente o copo vazio na mesa e constatando que era, de fato, o garçom, respondi que uma garrafinha de água seria uma ideia prudente. Poderia, assim, experimentar o whisky também com água. Enchi novamente o copo. Mas, dessa vez, fui bem mais generoso e auto-indulgente. Vi-me obrigado a equilibra-lo para evitar que o líquido derramasse ao beber.

Comecei a divagar sobre aquela garrafa e seu rótulo. Lembrei-me que aquele whisky havia mudado de visual e nome em 2015. De lá pra cá, o Black Grouse passou a chamar-se Famous Grouse Smoky Black. No entanto, a identidade visual da garrafa não havia mudado muito. Continuava a portar aquela ave, que, segundo uma rápida consulta à Wikipedia, era um Tetrao tetrix. Também conhecido como Black Game, blackcock (juro que não estou inventando) ou Galo-Lira.

Não é um peru.
Não é um peru.

Tomei mais alguns goles e notei que meu celular tocava. Era a querida Cã, dizendo que preferia fazer as compras outro dia. Ela se deixara levar jogando um novo jogo de videogame, e agora estava atrasada e com preguiça de se arrumar. E, além disso, a Cãzinha acabara de chegar, e estava pronta para mais uma maratona de algum desenho insuportável. Pelo jeito, autocontrole era um traço genético na família.

Fiz o sinal universal da conta para o garçom, que, com um discreto salto, fez que entendera meu gesto. Tomei meu último gole daquela dose enquanto ele removia a garrafa da mesa e, com um olhar ao mesmo tempo surpreso e sádico, calculava minha conta com base nas marcações da garrafa. Com desgosto e igual surpresa recebi a conta. R$ 150,00. O preço médio de um Black Grouse nas prateleiras de lojas!

Um pouco cambaleante e desnorteado – talvez pela conta, talvez pelas doses de whisky – entrei no táxi e liguei para a Cã. Perguntei a ela se queria que levasse algo para jantarmos. Respondeu-me que não, não precisava, pois pediria pizza. Respondi que tudo bem, mas que era para pedir duas, não uma só. Só para garantir.

Afinal, o quinto pedaço é sempre o melhor.

BLACK GROUSE (FAMOUS GROUSE SMOKY BLACK)

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Famous Grouse

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: fumaça, frutado, levemente cítrico. Mais defumado do que medicinal.

Sabor: Frutado, cítrico, especiarias. Café, talvez? Final progressivamente defumado.

Com Água: Adicionar agua reduz o sabor frutado, deixando o whisky mais seco.

 Preço: em torno de R$ 150,00 (cento e cinquenta reais)

Drops – Talisker Port Ruighe

Talisker Port Ruighe - O Cão Engarrafado

Você gosta de vinho do porto? E de whiskies defumados? Bem, se a resposta for afirmativa para as duas perguntas, provavelmente você se tornará apaixonado pelo Talisker Port Ruighe.

Lançado em 2013 como uma das novas expressões do portfólio permanente da destilaria Talisker, o Port Ruighe é maturado em uma combinação de barricas que antes contiveram bourbon whisky e vinho jerez e finalizado em pipas (isso é um tipo de barril) que antes envelheceram vinho do porto. Daí o nome espertinho, que remete tanto ao vinho fortificado português quanto ao antigo porto comercial da ilha de Skye – Port Ruighe, atualmente denominado Portree – onde a Talisker se localiza.

Aliás, falando nisso, Skye é um dos mais belos cenários de toda a Escócia. A ilha, considerada como a maior extensão de terra das Hébridas Internas, possui uma geografia dramática. Há grandes barrancos à beira do oceano e grandes picos rochosos, entremeados por campos verdes e montanhas. Não é a toa que Skye é considerado um dos mais desejados destinos de lua de mel para os escoceses que não querem sair de sua terra natal.

Talvez por conta do cenário paradisíaco, ou talvez por ser um dos single malts mais conhecidos da Escócia, a destilaria Talisker é a mais visitada dentre todas as da Diageo, grupo que detém seu controle (também responsável pela marca Johnnie Walker, e por destilarias como Cragganmore, Lagavulin, Caol Ila, Cardhu, Clynelish, Dalwhinnie e Glenkinchie).

O Talisker Port Ruighe, assim como grande parte da linha da Talisker, é turfado. Mas ao contrário de seu irmão Talisker Dark Storm e de seu primo Lagavulin, sua defumação é bem mais discreta, na medida perfeita para combinar com os sabores emprestados dos três tipos de barricas que compõe sua maturação. Apesar de não ter idade definida, o Port Ruighe é bem complexo. Há aroma de fumaça, mel, especiarias, frutas vermelhas, com final levemente cítrico e progressivamente defumado.

O Port Ruighe não está à venda no Brasil. Entretanto, fora de nosso país, seu preço é bastante convidativo. Em torno de GPB 50,00 (cinquenta libras), ou seja, R$ 215,00 (duzentos e quinze reais).

Drops – Glen Scotia Double Cask

Glen Scotia - O Cão Engarrafado

Às vezes nomes infelizes escondem bons produtos. Foi o caso, por exemplo, do Ford Pinto. Um ótimo automóvel dos anos setenta. Quer dizer, ao menos as unidades que não entravam em combustão espontânea.

Não sei quanto a você, mas se eu não soubesse o que é um Pinto – sem trocadilhos aqui, veja que escrevi com “P” maiúsculo – daria simplesmente uma risada meio debochada, e pronto. Seguiria com a vida sem jamais prestar o devido reconhecimento – não sei bem por que – àquele automóvel. Este é o caso também do single malt Glen Scotia, cretinamente batizado de “vale escocês” em gaélico. Um nome óbvio e com todo ar de produto de segunda.

Mas, no caso do Glen Scotia, esta impressão não poderia estar mais equivocada. É que assim como Springbank, a Glen Scotia é uma das únicas três destilarias sobreviventes de Campbeltown, cidade que fora, por muito tempo, considerada a capital mundial do whisky. A região, que chegou a contar com trinta e quatro destilarias durante a década de cinquenta, hoje possui apenas três delas. Springbank, Glen Scotia e Glengyle. Esta última, ressuscitada apenas no começo deste século. O que, aliás, causa uma certa confusão entre os admiradores da região. Porque o single malt denominado Glengyle é, na verdade, produzido pela Glen Scotia, detentora dos direitos sobre o nome. E o single malt produzido pela Glengyle mesmo tem o nome de Kilkerran.

E aí vai mais uma curiosidade sobre a região. Se você é fã de Paul McCartney, provavelmente já ouviu Mull of Kintyre. A música foi escrita como tributo à península de Kintyre, onde está localizada Campbeltown. Até 1966, Paul McCartney possuía uma fazenda próxima à cidade, chamada High Park Farm. Pelo jeito Paul bebeu muito bem lá pelos seus trinta anos de idade. Provavelmente daí que vem o tom nostálgico da canção.

A fazenda de Paul(Foto: REX/Tom Farmer)

O Glen Scotia Double Cask está longe de ser um single malt genérico. Este pequeno notável ganhou prêmio de melhor whisky de Campbeltown em 2016. Nada mau, considerando que concorreu com três diferentes linhas de Springbank, e de Glengyle, ou melhor, Kilkerran. O nome desta expressão – Double Cask – vem de seu processo de maturação. new make spirit é primeiro maturado em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey, para depois ser finalizado em uma combinação de barricas de ex-jerez e ex-bourbon usadas pela primeira vez para maturar single malt (first-fill). O resultado é um single malt adocicado e cítrico, que – para este Cão – lembra laranja lima. O final é progressivamente mais puxado para o jerez.

Infelizmente, nenhuma expressão de Campbeltown – muito menos os Glen Scotia – estão disponíveis em nosso país. Com um pouco de garimpo, entretanto, podemos encontrá-los em nossos vizinhos da América Latina, como o Chile e Uruguai. Além disso, Glen Scotias são uma visão relativamente comum em lojas especializadas na Europa e no Reino Unido. Por lá, uma garrafa deste single malt premiado custa, em média, GBP 50,00 (cinquenta libras).

GLEN SCOTIA DOUBLE CASK

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Glen Scotia

Região: Campbeltown

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: cítrico, com mel, baunilha, laranja.

Sabor: Mel, laranja lima, com final relativamente longo e progressivamente mais cítrico. Um pouco de baunilha e especiarias no final. Álcool bem pouco notável.

Mais seis personagens que amam whisky

6 personagens que amam whisky - O Cão Engarrafado

No começo deste ano, resolvi que faria um exercício mental em forma de texto. Resolvi que, sem qualquer consulta à internet, e recorrendo apenas à minha – progressivamente decadente – memória, enumeraria alguns personagens do cinema e televisão que apreciam whisky. Se você perdeu este post, leia-o aqui. 

Mas vou confessar uma coisa. Quando escrevi aquele texto, fiquei um pouco receoso em contar uma mania que tenho. Que é a de tentar identificar todos os rótulos de whiskies que aparecem em filmes, mesmo que borrados, desfigurados ou virados. Essa maluquice, com o tempo, se estendeu também para outras coisas, como séries de televisão e até documentários. Mas depois de refletir um pouco, resolvi que a contaria. Porque como já disse Caetano, de perto, ninguém é normal mesmo.

Os dois primeiros dias que sucederam o lançamento do post foram de uma certa tensão. Achei que alguém pudesse identificar algum traço psicopático em mim, que, ao invés de condoer-me com os personagens, ficava preocupado com o que estava no copo deles.

Mas, para minha agradável surpresa, não recebi mensagens de ódio ou oferta de ajuda profissional. Não. Pelo contrário. Muitos leitores confessaram que faziam o mesmo, e até apontaram inúmeros personagens que eu havia esquecido completamente.

Assim, em homenagem a este sentimento kitsch, essa sensação de se sentir um pouco mais normal – ainda que talvez essa normalidade seja bem relativa – resolvi enumerar mais seis personagens que adoram a melhor bebida do mundo. Só que com uma diferença. Todos eles, sugestões dos leitores deste ébrio blog.

CONSTANTINE (FILME)

Constantine - O Cão Engarrafado

John Constantine também não é um homem muito normal. A começar pelo fato de que ele possui a estranha habilidade de se comunicar com demônios e anjos, mesmo que fora de seus arquétipos. Seu objetivo é encontrar a salvação, após ter tentado se suicidar em sua infância. Para isso, John exorciza demônios, enviando-os de volta para o inferno, na esperança de obter perdão divino.

Enquanto não está destruindo entidades demoníacas ou divinas, Constantine bebe e fuma. Seu whisky preferido é praticamente a liquefação de sua personalidade. Ardbeg Ten.

CHARLIE HARPER

Charlie - O Cão Engarrafado

Charlie é muitas coisas. Misógino, egoísta e autoindulgente. Seu senso de humor é acido e sarcástico, e suas escolhas normalmente baseadas em valores completamente deturpados. Por conta disso, Charlie normalmente se mete em situações difíceis, das quais nem sempre se safa.

Apesar de ser um ser humano mais ou menos desprezível, Charlie tem um gosto relativamente sofisticado para bebida, e é fã de um bom whisky. Durante a série, podemos vê-lo tomando Balvenie, Glenlivet, Glenmorangie e Johnnie Walker Black Label, além do bourbon whiskey Woodford Reserve.

Não que isso o torne alguém melhor.

DON DRAPER

Don Draper - O Cão Engarrafado

Mad Men é uma série meio atormentadora para pessoas com a minha mania. Porque os personagens estão bebendo quase absolutamente tudo, o tempo todo. Isso torna a tarefa de prestar atenção na história bem dificil. O alcoolismo dos personagens de Mad Men somente é superado por seu tabagismo. Sorte minha que este não é um blog sobre cigarros.

Don Draper, protagonista da série, não foge à regra. Apesar de sua bebida de combate ser o coquetel Old Fashioned – já revisto por aqui – Don deglute quase tudo que seja etílico. No campo do whisky, seu preferido é o Canadian Club, um blended whisky canadense bastante suave, perfeito para ser bebido em quantidades copiosas.

BARNEY STINSON

Barney Stinsson - O Cão Engarrafado

Se você assistiu ao menos a um episódio de How I Met Your Mother, sabe que Barney é um cara competitivo. Sua paixão é vencer desafios, na maioria das vezes, criados por seus amigos. Ou, às vezes, impostos a si mesmo, e que ninguém – exceto ele mesmo – se importariam se ele vencesse ou não.

Uma das bebidas mais cobiçadas por Barney é o single malt ficcional Glen McKenna. Talvez porque alguém sempre quebra a garrafa antes, toda vez que ele tem a oportunidade de bebê-lo.

RAYMOND REDDINGTON

reddington - Cao Engarrafado

O antagonista de The Blacklist é sofisticado, elegante e completamente obcecado pela agente Elizabeth Keen, do FBI. Quase tão elegante quanto outro outro grande vilão da ficção, Hannibal Lecter (que, aliás, também é obcecado por outra agente, Clarice Starling). Só que Reddington tem mais bom gosto: ao invés de comer pessoas, Raymond trabalha como um grande lobista do crime organizado. E, ao invés de chianti, sua bebida de preferência é whisky.

Descobrir o single malt que Raymond aprecia foi quase uma missão de agente secreto. O formato da garrafa e seu rótulo são relativamente comuns, e ela quase nunca aparece em primeiro plano. Após cuidadosa investigação – e algumas horas pausando a gravação da série – encontrei a resposta. Glen Dochart. Um single malt ficcional, criado pelos produtores da série. Decepção.

 

ABE LUCAS

Abe Lucas - O Cão Engarrafado

Abe, protagonista do filme O Homem Irracional, de Woody Allen, é um personagem complexo. Professor de filosofia na faculdade ficcional de Braylin, Abe se encontra em uma crise existencial. Antes desprovido de propósito, Abe encontra uma razão para viver no assassinato de um completo estranho. Somente para ajudar a outro completo estranho.

Abe é apaixonado por single malts. Tão apaixonado que carrega sempre consigo um pequeno frasco da bebida. Talvez porque, como uma vez escreveu W. C. Fields (certamente de conhecimento de Abe): sempre carregue um pequeno frasco de whisky contra picadas de cobra, e, além disso, sempre leve uma pequena cobra.

Drops – Longrow 14 anos

Longrow 14 - O Cão Engarrafado
Você já ouviu falar de Springbank? E Campbeltown? Esta última é uma cidade escocesa, que já foi conhecida como a capital mundial do whisky. O vilarejo já chegou a abrigar trinta distilarias distintas. Entretanto, por conta da recessão da década de 30 e a lei seca norte-americana – um dos maiores mercados consumidores na época – apenas três destilarias sobreviveram. Glen Scotia, Glengyle e, claro, a famosíssima Springbank.
 
A Springbank produz três linhas distintas de whisky. A primeira, homônima – Springbank – é muito levemente turfada. Já a segunda, Hazelburn, não possui qualquer defumação, e é triplamente destilada, dando origem a um whisky adocicado e extremamente leve. Já a terceira – batizada de Longrow – é o oposto da segunda. É um whisky bastante defumado e relativamente oleoso.
 
A Springbank é uma das únicas da Escócia que ainda faz sua própria malteação – em malting floors na própria destilaria – e engarrafa seus próprios whiskies. Aliás, cem por cento do processo é feito completamente “in-house”. Da malteação ao engarrafamento, tudo ocorre sob o teto da lendária Springbank.
 
Os primeiros Longrow foram destilados na Springbank em 1973, como uma experiência do então presidente da destilaria, que queria provar que single malts turfados (clássico estilo de Islay, como Laphroaig e Ardbeg) poderiam muito bem ser destilados na parte “continental” da Escócia.
 
As duas garrafas da foto – dez e quatorze anos – já foram descontinuadas. Atualmente, a Longrow possui três expressões, sendo que duas delas não possuem idade declarada no rótulo: Peated, Red e 18 anos. Ainda que o processo de maturação das expressões varie, todas elas guardam o DNA turfado dos primeiros Longrow produzidos.
 
Springbanks não podem ser encontrados no Brasil. Entretanto, com sorte, podem ser adquiridos em países próximos, como Chile e Argentina, bem como em Duty Frees europeus.

LONGROW SINGLE MALT PEATED 14 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 14 anos

Destilaria: Glen Scotia

Região: Campbeltown

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: medicinal, carvão, levemente cítrico.

Sabor: floral, bastante iodado, medicinal. Final defumado, apimentado e amargo. O álcool fica em evidência, mas não desequilibra o whisky.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Do Zênite – Johnnie Walker Blue Label

 

O Cão Engarrafado - Johnnie Walker Blue Label

O desejo é uma coisa interessante. Porque, na maioria das vezes, a satisfação é nada além de efêmera. Para mim, isso vale para quase tudo na vida. Um livro concluído, um prato experimentado, uma música descoberta. Mas quando pensamos em bens materiais, a coisa fica ainda mais estranha.

Porque, curiosamente, as maiorias das coisas que desejo absurdamente são, na verdade, versões diferentes daquelas que já tenho. Por exemplo, eu tenho uma coqueteleira. Mas adoraria um Cardington Shaker do Cocktail Kingdom Reseve. Tenho também uma televisão. Mas uma SmartTV 4K não seria nada mau. Eu tenho um carro, mas ficaria bem mais feliz com um Maserati Quattroporte ou um Aston Martin Vanquish.

E ainda que a razão me diga que qualquer destas coisas não faria a menor diferença – porque eu continuaria chacoalhando meus coquetéis do mesmo jeito, assistindo a mesma Galinha Pintadinha com a Cãzinha, e preso no mesmo engarrafamento – esta força schopenhauriana que sempre me faz desejar mais é implacável.

Isso, fatalmente, se reflete nos whiskies. E na aurora de meu interesse, o Johnnie Walker Blue Label ocupava espaço de destaque. Aquele, imaginava, era o blended whisky mais caro da mais famosa linha de blended whiskies do mundo. Ele era a atmosfera rarefeita após galgar todos os degraus coloridos da escada da marca do andarilho. Um objeto de desejo absoluto e – provavelmente – o único perene. Porque, afinal, o que haveria depois da Cardington, da SmartTV ou da Maserati?

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Antes de prosseguir com minhas impressões, vou fazer uma pausa dramática para algumas informações técnicas. Como vocês já devem saber, o Johnnie Walker Blue Label é um whisky sem idade definida, composto tanto por single malts quanto whisky de grão. Seu principal componente é o single malt Royal Lochnagar, curiosamente, também o coração do Vat 69.

De acordo com a Johnnie Walker, o Blue Label foi elaborado para recriar o sabor e a experiência dos primeiros blended whiskies da marca, do início do século dezenove. As garrafas, de uma cor azul pálida, são numeradas, e apresentadas em um belo estojo de veludo. Talvez o mesmo veludo usado nos painéis das Maseratis. Eu não saberia dizer. Há veludo nos painéis das Maseratis?

Atualmente, uma garrafa de Blue Label custa em torno de R$ 1.000,00. Se você analisar friamente, é muito dinheiro para um blended whisky sem idade definida, cuja maioria de seus componentes é filtrada a frio, e com 40% de graduação alcoólica. Mas se fosse assim, para que alguém precisaria de um superesportivo italiano, uma coqueteleira de prata de lei ou uma televisão tão precisa que nem os programas são filmados com tanta qualidade?

Palmas. Mas e daí?
Palmas. Mas e daí?

Foi ainda antes de minha estreia no universo dos single malts que tive a oportunidade de experimentar o Blue Label. E, uma década depois, novamente me concedi esta experiência. Ele é um whisky extremamente suave, mas, ao mesmo tempo, com sabor residual persistente. Há uma certa defumação, marca da Johnnie Walker, mas que está lá apenas timidamente. Ainda que – para o gosto deste canídeo – ele seja talvez adocicado demais, não há qualquer aroma ou sabor fora do lugar. O álcool é quase imperceptível, mesmo se tomado puro e sem água.

O Johnnie Walker Blue Label é, ao mesmo tempo, um dos whiskies mais desejados e mais polêmicos do mundo. Grande parte desta polêmica, porém, gira mais em torno de seu preço do que, realmente, de sua complexidade. Há uma falsa crença de que blended whiskies são produtos inferiores a single malts, e, portanto, não devem ser caros. Aqui não estou tentando justificar seu preço que, aliás, é bem alto. Mas apontar que – ultrapassada a barreira de seu valor – ele é um whisky bem bom.

Pelo faro deste Cão, nota-se que alguns whiskies bastante maturados fizeram parte de sua composição. Assim como, claro, alguns mais jovens. Isto, entretanto, não é um demérito. Em certos casos, whiskies jovens funcionam melhor para emprestar certo sabor ao blend. É o que ocorre com o aroma defumado, por exemplo, que é mais presente em single malts com menor maturação. Além disso, blended whiskies devem possuir constância. Ao longo dos anos, não deve haver muita variação de qualidade, de forma que o consumidor saiba que aqueles sabores que já sentiu estarão lá. Estarão lá independentemente de quando comprou sua última garrafa.

O Johnnie Walker Blue Label, como se não bastasse, também é o protagonista de diversas edições limitadas. Em algumas delas, há efetiva mudança do líquido, como é o caso do Blue Label Casks Edition, versão com 55,8% de graduação alcoolica. Em outras, porém, o que muda é a embalagem, como no Blue Label Porsche Design Edition e no – belíssimo – Blue Label Dunhill.

Dito tudo isso, a impressão deste Cão é que o Johnnie Walker Blue Label é, na verdade, uma autoindulgência. Assim como, claro, coqueteleiras de prata, televisores de alta definição e superesportivos ingleses e italianos. Seu preço se justifica em sua exclusividade, e na promessa da experiência especial que irão lhe proporcionar. Porque, para ser sincero, não existe uma boa razão para tê-los, exceto, claro, pelo fato de serem todos maravilhosos.

Por favor, protejam-me daquilo que mais desejo.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Adocicado, com mel e especiarias, levemente defumado.

Sabor: frutado (frutas em calda), mel, castanhas, nozes, especiarias. Final longo e progressivamente mais seco. Funciona muito bem puro.

Com água: A agua reduz a impressão do defumado e do adocicado, deixando o whisky ainda mais leve.

Preço Médio: R$ 1000,00 (mil reais)

 

Drops – Lagavulin 8 Anos

O Cão Engarrafado - Lagavulin 8 anos
Menino prodígio. Este é o Lagavulin 8 anos, uma edição especial limitada que comemora o ducentésimo aniversário da destilaria Lagavulin, localizada na ilha de Islay, na Escócia. A destilaria, famosa por seus whiskies com aroma turfado, defumado e medicinal, é uma das mais admiradas de toda a Escócia.
 
A Lagavulin foi inaugurada (oficialmente) em 1816 por John Jonston e Archibald Campbell. Atualmente, é detida pela Diageo, a mesma empresa que controla a marca Johnnie Walker. Além de participar no blend de muitos whiskies do andarilho, Lagavulin é também é um dos principais componentes do despretensioso White Horse.
 
O Lagavulin 8 anos presta homenagem a Alfred Barnard, um proeminente historiador – especializado em bebidas – e conhecedor de whisky, que, no começo da década de oitenta, experimentou um Lagavulin 8 anos em uma visita que fez à destilaria. Alfred o descreveu como “excepcionalmente bom”.
 
Maturado em barricas de carvalho americano que antes continham bourbon whiskey e engarrafado com graduação alcoolica de 48%, o Lagavulin 8 anos é tudo que se espera de um jovem single malt de Islay. É defumado, oleoso e medicinal. A fumaça está ainda mais presente do que em seu irmão mais velho, o 16 anos. Além disso, é incrivelmente complexo para sua idade.
O Lagavulin 8 anos não está à venda no Brasil. Nas lojas internacionais, porém, ele custa um pouco mais do que 50 (cinquenta) libras. Ainda que não seja uma pechincha, o Lagavulin 8 anos vale a pena. Sua destilaria é uma das mais colecionáveis da Escócia. É raríssimo que lancem edições especiais como esta, e seu portfólio permanente é extremamente pequeno.
 
Muitos dizem que whiskies defumados são um caso de amor ou ódio. Se não amá-los, provavelmente os detestará. O Lagavulin 8 anos não foge a essa regra. Você até pode não gostar. Mas ele certamente irá surpreender.