Do Eterno Retorno – Chivas Regal 18 anos

Chivas 18

Quinta-feira cheguei em casa mais tarde. A querida Cã já havia jantado, e estava deitada na varanda, completamente absorvida por alguma leitura. Aproximei-me e tentei introduzir algum assunto prosaico, ao que ela me respondeu apenas com grunhidos, sem descolar os olhos do livro. Aí resolvi perguntar o que estava lendo. E ela, por duas horas, discorreu sobre a teoria do Eterno Retorno de Nietzsche, combinada com a do multiuniverso.

O que, basicamente, minha melhor metade me explicou, traduzido para uma linguagem de boteco, é o seguinte. Segundo a teoria do multiuniverso, não há apenas um universo. Mas infinitos universos paralelos. Haverá universos paralelos absolutamente idênticos. Outros drasticamente diferentes. E alguns, apenas um pouco divergentes daquele em que vivemos. Soma-se a isso o Eterno Retorno, que ensina que, dentro de um leque virtualmente infinito de possibilidades, mesmo o evento mais insólito e improvável se repetirá infinitamente. Neste universo. E também em outros.

Difícil? Então deixe-me ilustrar. Por exemplo, em certo universo paralelo, você está vivendo este mesmo sábado, tomando café e lendo este blog. Em outro, talvez não seja café sua bebida, mas whisky. E em outro talvez você esteja ainda lendo este texto, mas flutuando sentado em uma cadeira antigravitacional, enquanto conversa com um tigre adestrado, seu recém-adquirido bicho de estimação. Porque, naquele universo, tigres falam. E talvez, ainda, em outro, você não esteja lendo nada, porque o tigre comeu você. Gastronomicamente falando, claro.

Pode acontecer em um universo paralelo.
Pode acontecer em um universo paralelo.

E aí me pus a pensar sobre isso. Que é muito doido, na verdade. Em algum universo paralelo, este blog não existe. Nem este texto. E talvez, em outro, nem eu mesmo exista. Em algum universo paralelo, o mundo foi completamente dominado por ursos panda, que resolveram largar o celibato e procriar loucamente para destronar os humanos do controle do mundo.

Mas uma única certeza eu tenho. Uma certeza pétrea em todos os universos em que eu e Chivas Regal 18 anos existem. A certeza irrefutável e imutável de que ele é um dos meus blended whiskies preferidos. Aliás, assim como o Black Label para muitos, o Chivas Regal 18 anos foi um dos meus primeiros blended whiskies, que estabeleceu o benchmark – no meu caso – pelo qual todos os outros seriam julgados. E, provavelmente, aquele que sempre recorri como um porto seguro.

O Chivas Regal 18 é uma mistura de algo entre dez e sessenta single malts e grain whiskies (o número real é um segredo muito em guardado), todos eles maturados por, no mínimo, dezoito anos em barricas de carvalho. O blend foi elaborado por Colin Scott, master blender da Chivas Regal, e criador do também excelente Chivas Regal Extra, já visitado nestas páginas canídeas.

A base do Chivas Regal 18 anos é o single malt Strathisla, que lhe empresta um claro perfume floral e frutado, comparável a jasmim. Strathisla é uma das mais antigas destilarias da Escócia. Localizada na região de Speyside, ela é também o lar espiritual da Chivas Regal, e uma das destilarias mais vistosas de toda região. Seus whiskies são extremamente aromáticos, e possuem sabor frutado, floral e de especiarias. Nas palavras de Colin, “este clássico single malt de Speyside é profundamente frutado, com uma gama de sabores de nozes e flores, e é o coração de todos os blends da Chivas Regal

Chivas, logo abaixo do nome da destilaria, afixado em seus portões.
Chivas, logo abaixo do nome da destilaria, afixado em seus portões.

Além de Strathisla, o blend emprega uma boa quantidade de Longmorn, além de uma discreta quantidade de um single malt de Islay, que não é divulgado.  Segundo a Chivas Regal, há um verdadeiro multiuniverso de sabores identificáveis no Chivas Regal 18 anos. Oitenta e cinco ao todo. E ainda que seja impossível isolar todos eles, pode-se dizer que é um blend equilibradíssimo. Há um pouco de fumaça, combinado com um claro aroma floral, um adocicado frutado e de mel, que se complementa com sabor de especiarias e vinho jerez.

Muitos acham o Chivas 18 anos um whisky insosso. Por ser suave e equilibrado demais, na opinião destes, ele careceria de personalidade. E ainda que a primeira parte da sentença seja verdadeira – ele é, realmente, suave e equilibrado demais – a conclusão é falsa. Ele bem que poderia ser um pouco mais intenso. Mas isso não significa que seja um whisky sem identidade, genérico.  É um blend com personalidade, bastante floral e aromático.

O Chivas Regal 18 anos é um dos mais premiados blended whiskies do mundo. Em 2014, recebeu o prêmio de melhor blended whisky do mundo pela International Wine and Spirits Competition, importantíssimo concurso do setor de bebidas. Um ano depois, foi premiado como melhor blended whisky 18 anos pela International Whicky Competition. Além disso, angariou também premiações pela revista Malt Advocate em 2008, e pela San Francisco World Spirits Challenge. Um currículo como poucos.

Pode ser que, infelizmente, em algum universo paralelo o Chivas Regal 18 anos não exista. Ou pode ser que eu mesmo não tenha nascido, e, portanto, não esteja escrevendo este texto. Mas em todos os outros – dentro da infinita e eterna recorrência de fatos que fundamenta a teoria do multiuniverso – o Chivas Regal 18 anos será, provavelmente, uma das minhas primeiras escolhas ao pensar em blended whiskies. O Chivas Regal 18 anos é meu Eterno Retorno.

CHIVAS REGAL 18 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 18 anos

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma claramente floral, com baunilha. Adocicado, com defumação muito, muito discreta.

Sabor: extremamente suave, com frutas em calda, chocolate, baunilha e um pouco de especiarias. É um whisky menos agressivo do que o Chivas Regal Extra, ainda que igualmente complexo.

Com água: A agua torna o whisky menos adocicado. É um blended whisky que funciona melhor sem gelo.

Preço: R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais)

Especial Jameson Bartenders Ball – Irish Pleasure

Bossa

Este é o segundo post de uma série de receitas dos coquetéis provados durante o Jameson Bartenders Ball Bar Crawl, que, a convite da Jameson Irish Whiskey, tivemos o prazer de participar. O primeiro foi o Barrel Cocktail, de Vinícius Gomes.

O Coquetel desta semana é o Irish Pleasure, criado pelo bartender Jean Dall Acqua, do restaurante Bossa.

O Irish pleasure é um coquetel predominantemente cítrico, à moda de um whisky sour, mas com sabores secundários de nozes e especiarias. A ideia de Jean foi criar um drink com cara brasileira, mas que preservasse o toque irlandês do Jameson Irish Whiskey.

Segundo Dall Acqua, “Para criar este coquetel fui pego de surpresa, somente dois dias antes de apresentar o drink, fui avisado sobre o Campeonato da Jameson. (…) basicamente todos os ingredientes eu já tinha em meu local de trabalho, exceto o mel que é temperado com pimenta, tabasco e vinagre de maçã. Acabei achando esse ingrediente em nossa cozinha. (usado no prato Medalha de Tapioca –  uma entrada em nosso restaurante)”

Jean diz que, ao provar o mel temperado, notou que era perfeito para o coquetel. O ingrediente era, ao mesmo tempo, cítrico, adocicado e apimentado. Para aguçar o sabor cítrico, então Jean utilizou suco de limão cravo. O amargo do coquetel, por sua vez, teve quer ser produzido pelo bartender. Dall Acqua criou um bitter de alecrim, de forma a equilibrar o sabor do limão e o adocicado. Para dar cremosidade, utilizou clara de ovo.

O toque final ficou por conta de semente de puxuri, algo que, aliás, este Cão sinceramente nunca tinha ouvido falar. Conforme Jean “Ainda nessas minhas ‘idas e vindas’ à cozinha do restaurante à procura de ingredientes, fui apresentado à semente de Puxuri (semente da região do médio e baixo Amazonas) que possui um aroma doce inconfundível, que nos faz lembrar um pouco de avelã e nozes”. Como guarnição, Dall Acqua utilizou laranja desidratada.

agora, uma dose de leite de cabra virgem barbuda do Nepal...
Agora, uma dose de leite de cabra virgem barbuda do Nepal…

O resultado foi precisamente o que Dall Acqua desejava. O Irish Pleasure é cremoso, cítrico, adocicado e com um leve sabor de pimenta. O whiskey ainda está lá, trazendo um pouco de seu dulçor e do sabor de baunilha proveniente de sua maturação.

Por conta da utilização de alguns ingredientes – sério, onde eu compro puxuri? E como eu faço um bitter de alecrim? – o conselho sincero deste Cão é que visite o Bossa e experimente o coquetel original. Reproduzi-lo em casa não é nada fácil. Entretanto, para aqueles espíritos mais aventureiros, a receita deste prazer cítrico é a seguinte:

IRISH PLEASURE

INGREDIENTES:

  • 60 ml de Jameson Irish Whiskey
  • 20 ml de suco de limão cravo.
  • 20 ml de mel temperado com pimenta, tabasco e vinagre de maçã.
  • 5ml de bitter de alecrim.
  • 01 clara de ovo.
  • raspas de semente de puxuri (uma pitada)
  • Guarnição: laranja desidratada e ramo de alecrim.

PREPARO:

  1. Numa coqueteleira com bastante gelo adicione o Jameson Irish Whiskey, o suco de limão cravo, o mel temperado, os bitters e a clara de ovo. Bata vigorosamente, por uns quatro segundos.
  2. Desça o conteúdo da coqueteleira, filtrando o gelo, em um copo baixo contendo uma pedra grande de gelo, ou algumas menores.
  3. Por conta da clara de ovo, uma espuma espessa se formará sobre o coquetel. Jogue as raspas de puxuri sobre a espuma. Decore com a laranja desidratada e o ramo de alecrim.

Drops – Talisker Dark Storm

dark storm

Você sabia que não é só o processo de secagem da cevada maltada utilizando turfa que contribui para o sabor defumado e turfado de alguns whiskies?

Pois é. Outro fator que aumenta a impressão de fumaça dos whiskies defumados é a tosta ou torra da barrica. Barricas altamente torradas (existe uma diferença aqui entre torra e tosta) costumam empresar ao whisky que lá maturou notas de fumaça e bacon. É o caso, por exemplo, do Talisker Dark Storm.

O Dark Storm é um single malt sem idade definida, produzido pela destilaria Talisker, a única da ilha de Skye. Seu destilado é levemente turfado, mesmo antes de entrar no barril. Mas o que realmente contribui para o sabor defumado, no caso deste whisky, é a maturação em barricas torradas. O sabor emprestado pelas barricas tostadas é levemente diferente daquele proveniente da secagem do malte. As barricas trazem também um sabor residual de caramelo queimado, ou calda de açúcar.

A Talisker é a única destilaria localizada na belíssima ilha de Skye, ao noroeste da Escócia. A ilha é famosa por suas paisagens bucólicas e, muitas vezes, é palco de casamentos e luas-de-mel dos escoceses. Atualmente, a destilaria pertence à Diageo, o mesmo grupo que controla a famosíssima Johnnie Walker, bem como algumas das mais importantes destilarias escocesas, como Lagavulin, Caol Ila e Cardhu.

Se você gosta daquele sabor de defumado, mas também com um pouco de caramelo e açúcar, o Talisker Dark Storm é para você.

Drink do Cão – Wood Aged Boulevardier

woodagedboulevardier

Quando fiz quatorze anos resolvi que tocaria um instrumento. Minha escolha foi tão improvável quanto infeliz. Escolhi o violoncelo. Até hoje os motivos que me fizeram tomar esta decisão desafiam minha lógica. Porque é difícil demais. Tocar violoncelo foi provavelmente a coisa mais difícil que eu me propus a fazer durante minha vida inteira.

Violoncelo exige disciplina, tempo e estudo. E o meu eu recém púbere não atendia nenhum destes prerrequisitos. Eu era indisciplinado, preguiçoso e preferia ocupar meu tempo com todo tipo de futilidade efêmera. Além de que minha coordenação sempre foi comparável àquela de um canhoto bêbado escrevendo com a mão direita.

Por essa razão, nunca fui um bom violoncelista. Depois de muitos anos, o máximo que consegui foi, orgulhosamente, executar de uma forma porca o primeiro movimento do concerto de Elgar. Mas minha versão da peça do compositor clássico inglês mais se assemelhava a uma briga entre um serrote e um pterodátilo. Um pterodátilo com olhos de laser.

Obrigado, internet, por esta ilustração.
Obrigado, internet, por esta ilustração.

Pablo Casals, no entanto, foi um dos maiores mestres do violoncelo de todos os tempos. Suas execuções, mesmo das peças mais difíceis do repertório erudito eram absolutamente irretocáveis. E apesar de já ter atingido a perfeição há muito tempo, Pablo, com oitenta e um anos de idade, continuava diligentemente treinando, por cinco horas, diariamente. Quando questionado sobre a razão de tamanha dedicação, Casals respondeu “é que eu acho que estou melhorando!”.

Me lembrei dessa história ao provar, após uma quaresma de espera, um Boulevardier maturado em barrica de carvalho europeu, que diligentemente preparei no Carnaval, e que, pacientemente e de forma disciplinada, aguardei até a pascoa para engarrafar. Modéstia a parte, sempre achei meu boulevardier tradicional bem bom. Mesmo porque não há dificuldade nenhuma em preparar um boulevardier. Entretanto, eu sentia que havia espaço para progresso!

Foi aí que Fernando Lisboa, da Treze Cocktails, então me sugeriu que fizesse o experimento de envelhecê-lo em carvalho europeu.

E deu incrivelmente certo. As notas de especiarias e baunilha advindas do carvalho casaram, quase perfeitamente, com o amargor do Campari e do vermute, e com o adocicado do boubon. Os sabores do boulevardier original estão todos lá, mas há uma complexidade e uma suavidade que somente os dois meses na madeira teria proporcionado.

Então, meus caros, aí vai tudo que vocês precisam para preparar essa experiência em casa. Notem que a proporção está calculada para um barril de 2,5L de carvalho europeu. Se a ideia for ser maravilhosamente imprudente e comprar um barril maior, as quantidades deverão ser proporcionalmente modificadas. Observe, entretanto, que quanto maior for a barrica, mais tempo será necessário para maturar a bebida.

WOOD AGED BOULEVARDIER

Será estupidamente óbvio o que escreverei em seguida. Mas o Wood Aged Boulevardier não é nada além de um boulevardier comum, maturado – neste caso – em barricas de carvalho europeu. Assim, para conhecer a história do coquetel e entender seu preparo e apresentação corretos, leia o texto original do Cão Engarrafado sobre ele, aqui. Note também que o Boulevardier original ensinado nas páginas caninas tem proporção diferente de sua versão maturada. Isso porque você poderá, ao longo do processo de maturação, alterar a proporção de acordo com sua prova. Explicarei isso mais abaixo.

INGREDIENTES:Wood aged boulevardier

  1. Barril de Carvalho Europeu de 2,5L. – Parece difícil obter um destes, mas é incrivelmente fácil. A Benedetti Shop vende o barrilzinho contendo cachaça da Fazenda Benedetti, que é ótima. Pode-se, assim, ser duplamente feliz. Ainda que a barrica desta primeira já seja bem apresentável, se a ideia for expor orgulhosamente o contêiner, sugiro procurar nas Dornas Havana.
  2. 750ml de bourbon – Este cão utilizou Maker’s Mark. E dessa vez serei categórico ao recomendar o uso do Maker’s Mark. O sabor de um bourbon menos adocicado ou mais fraco irá, muito provavelmente, ser eclipsado pelo sabor advindo da madeira. Se achar o Maker’s Mark um exagero, procure Wild Turkey. Nem tente um bourbon mais amargo.
  3. 750ML de Vermute – Utilizei o Miró Etiqueta Negra. Ficou excelente. A maturação prévia do Etiqueta Negra e seu sabor seco combinaram perfeitamente com a maturação na barrica. Minha sugestão é que, se não encontrar o Miró, vá para um vermute mais seco. O Carpano Classico está ótimo. Evite o Punt e Mes. Na opinião deste Cão, fica doce demais.
  4. 750ml de Campari.
  5. Funil
  6. Garrafas vazias totalizando 2,5L ou mais.

PREPARO

A preparação dependerá do barril comprado. Se seu barril veio com alguma bebida, o conselho deste canídeo é que engarrafe o produto que estava lá dentro e o preencha com o coquetel em seguida.

Você pode, alternativamente, esvaziar o barril, preenche-lo com uma garrafa de Campari e aguardar alguns dias. Isso reduzirá o sabor residual da bebida que esteve lá dentro. Depois, descarte o Campari e o preencha com o coquetel. Note que, neste caso, será necessário (a) muita paciência; (b) sangue frio para jogar o Campari fora; e (c) obviamente, duas garrafas de Campari.

Caso seu barril tenha vindo vazio, aconselho fortemente que preencha com o Campari e aguarde uma semana, de forma que a madeira absorva parte da bebida e estanque eventuais vazamentos. Isso acontece bastante. Nem tente preparar o coquetel direto, caso a barrica tenha vindo vazia. A chance de vazar é altíssima.

Alternativamente, ferva 2L de água, deixe esfriar, preencha a barrica e aguarde uns quatro dias. Não é a alternativa mais segura, porque a água poderá conter bactérias que influenciarão no sabor final da bebida. Entretanto, esta é, seguramente, a alternativa mais barata.

Para preparar o coquetel e não errar na medida, comece pela garrafa menor. Despeje seu conteúdo  na barrica. Depois, utilize essa garrafa como medida para os demais ingredientes. O importante é que sejam misturadas partes iguais dos três ingredientes.

Após preencher a barrica com o coquetel, armazene-a em um local fresco e relativamente ao abrigo de luz. Aguarde entre seis e oito semanas até engarrafa-lo. Utilize a torneirinha e um copinho de dose para provar semanalmente sua criação, controlando sua maturação. Aí entra a questão da proporção. Caso você considere que o coquetel está com gosto muito predominante de algum de seus ingredientes, utilize os 250ml que restaram da barrica para correção. Adicione um pouco mais do ingrediente que quer que seja ressaltado. Apenas lembre-se que o Campari costuma, naturalmente, dominar o drink. O whiskey, entretanto, ainda deve ser sentido.

Para servir o Boulevardier, coloque bastante gelo em um copo que será usado para mistura. Adicione três doses do coquetel e misture por alguns segundos utilizando uma colher bailarina (ou qualquer colher mesmo). Isso providenciará a diluição correta, como se o coquetel tivesse sido preparado na hora.

Com a ajuda de um strainer ou uma peneira, transfira o conteúdo deste copo para outro copo, contendo um gelo grande – ou três pequenos. Se estiver se sentindo inspirado, utilize uma casca de laranja torcida como guarnição.

Especial Jameson Bartenders Ball – Barrel Cocktail

Riviera

Este é o primeiro de uma série de três posts, com as receitas dos coquetéis que provamos durante o Jameson Bartenders Ball Pub Crawl. Porque falta de tempo – ou preguiça – não deve ser um empecilho para se beber bem. E experimentar coisas novas, claro. Se você perdeu o post introdutório sobre o Jameson Bartenders Ball, confira aqui.

Durante o evento, tivemos a oportunidade de conhecer Vinicius Gomes, chefe de bar do Riviera, e criador do coquetel Barrel Cocktail, que participa da competição organizada pela Jameson. O Barrel Cocktail é um drink predominantemente seco, com amargor e cítrico pronunciado. Há um dulçor que surge somente no final. É um coquetel com complexidade e sabor forte, mas que preserva o sabor de sua base – o Jameson Irish Whiskey.

Vinícius, com oito anos de experiência atrás do balcão e passagem pelo Beato e Paradiso Bar e Cucina, preparou a rodada de coquetéis que foram servidos com a mesma naturalidade que nos explicou o conceito por trás de sua criação. Aliás, fez as duas coisas ao mesmo tempo. Sem gaguejar. E – mais importante de tudo – sem derramar nada.

Segundo Vinicius, o desenvolvimento do coquetel busca responder duas questões básicas enfrentadas diariamente por bartenders. A primeira delas é a base de preferência do cliente. A base é, geralmente, o item alcoólico mais abundante. No caso do Barrel Cocktail, conforme mencionado acima, o Jameson Irish Whiskey. A segunda questão é sobre o sabor predominante. Aqui, há infinitas possibilidades. As principais são seco, amargo, cítrico, adocicado e frutado.

Acho que o pessoal gostou.
Acho que o pessoal gostou.

Com base em observação e estudo, Vinicius notou que a maioria dos coquetéis preparados para concursos desta espécie eram predominantemente cítricos, frutados ou adocicados e, em casos mais raros, amargos. O seco, entretanto, era pouquíssimo explorado.

Assim, para fugir do lugar comum, resolveu que criaria um drink seco. A ideia era marcar a memória sensorial dos jurados, que dificilmente se esqueceriam daquele sabor diferente dos demais. Além disso, o coquetel deveria ter apelo comercial.

Segundo ele, o maior desafio foi encontrar as proporções perfeitas para que o sabor naturalmente seco do whiskey irlandês não se perdesse no meio dos coadjuvantes, como o amargo e o cítrico. Além disso, um coquetel puramente seco não teria apelo comercial, algo que também era requisito do concurso. Por isso, Vinícius buscou acrescentar sabores secundários adocicados e cítricos.

Assim, aí vai para vocês, queridos leitores, com exclusividade, a receita do Barrel Cocktail de Vinicius Gomes. E ainda que reproduzi-lo não seja tão difícil, este Cão recomenda que – se tiverem a oportunidade – experimentem a versão original pela mão de seu criador. Realmente vale a pena.

BARREL COCKTAIL

INGREDIENTES:

  • 60 ml de Jameson (por ser um whiskey suave, a dosagem é um pouco maior do que se fosse com outro whisk(e)y)
  • 25 ml de licor de cereja (Cherry Heering)
  • 10 ml de licor de laranja/triple sec (Cointreau)
  • 2 dash de bitter de laranja (Angostura orange Bitter)
  • Mixing glass (ou qualquer copo para misturar tudo)
  • Strainer (também conhecido como coador. Ou uma peneira)
  • Taça coupé (ou uma taça de Martini, se preferir)
  • Colher bailarina (ou aquela colher de sopa horrível que a gente usa para misturar as coisas)
  • Casca de laranja, para aroma e decoração

PREPARO:

  1. Adicionar os ingredientes líquidos em um mixing glass, com bastante gelo. Misturar suavemente.
  2. Descer o coquetel na taça – que, em um mundo ideal, deveria estar gelada – filtrando o gelo com a ajuda do strainer.
  3. Cortar um pedaço circular da casca da laranja, de mais ou menos dois centímetros de diâmetro. Colocar com a parte da casca virada para cima no centro do coquetel.

 

Drops – Kavalan Sherry Oak

kavalan sherry

O whisky dessa semana vem de um lugar improvável. Da ilha de Taiwan. É isso mesmo. Além do seu notebook, do seu celular e, muito provavelmente, o seu roteador, Taiwan também produz whisky. E bom. Este é o single malt Kavalan Sherry Oak, produzido pela King Car Distillery.

O Sherry Oak é maturado exclusivamente em barricas de ex-jerez Oloroso. Além disso, não sofre qualquer processo de filtragem a frio nem adição de corante caramelo. Apesar de não ter idade definida, o Sherry Oak – assim como os demais whiskies da King Car – é maturado nos armazéns da própria destilaria. O clima subtropical de Taiwan contribui muito para o processo de maturação. Há menos evaporação, e por conta da variação térmica, a maturação ocorre mais rápido do que em climas mais frios.

A destilaria foi fundada em 2005 por um destemido senhor chamado Tien-Tsai Lee. De lá pra cá, seus whiskies tem recebido inúmeros prêmios em competições internacionais importantes, como a WWA.

O Cão Engarrafado já fez a prova de uma das mais famosas expressões da marca. O Kavalan Solist Vinho Barrique.

O Cão Exclusivo – Johnnie Walker Odyssey

Johnnie Walker Odyssey

Essa semana marquei de encontrar um velho amigo em um bar. Acontece que o trânsito e o trabalho atrapalharam, e eu atrasei bastante. Chegando lá, o encontrei jogando paciência em uma das mesas na calçada. Ao invés de me cumprimentar, entretanto, ele simplesmente apertou minha mão e disse, com olhar vidrado nas cartas “Estava aqui pensando. A vida é como um jogo de paciência”.

Notando que eu havia interpretado sua frase como uma provocação por meu atraso, ele se sentiu obrigado a elaborar. Mas é. Não tem nada a ver com esperar. É que a possibilidade de você vencer ou perder uma partida depende, principalmente, da sua mão. Não é uma questão de técnica, ainda que a técnica ajude um pouco.  Mas mesmo com todo talento do mundo, às vezes é praticamente impossível vencer, por conta da ordem em que as cartas foram embaralhadas. É como a vida.

Percebendo que eu ainda aparentava levemente insultado e, além disso, não inteiramente satisfeito com aquela filosofia, ele continuou. Não é como, por exemplo, damas. Se, ao invés de paciência, estivéssemos os dois jogando damas, o mais talentoso – ou o mais experiente – venceria – disse ele. E continuou – Damas não depende de sorte. Damas é um jogo de habilidade. Damas é puramente meritocrático.

 

Menos neste caso.
Menos neste caso.

Enquanto bebíamos, continuei a refletir sobre o que ele havia dito. Era incômodo, mas fazia sentido. Sem querer polemizar, mas o mundo não é puramente meritocrático. O mérito certamente é vedete do sucesso. Mas há uma infinidade de outros fatores que podem contribuir para a vitória e que não dependem dele. Sorte é uma delas.

Embalado por esta filosofia de boteco, este texto é para você, que teve a improvável sorte de sair com as cartas da vida embaralhadas do jeito perfeito e conseguiu terminar o jogo sem virar o morto (perdão aqui pelo duplo sentido de mau gosto). Ou para você que, desafiando as adversidades, deu um show de técnica e terminou um jogo praticamente impossível. E para todos aqueles entre os dois extremos. Falarei hoje do Johnnie Walker Odyssey.

Antes de tudo, é preciso mencionar seu preço. Quando chegou ao Brasil, uma garrafa do whisky custava quatro mil e quinhentos reais. É isso mesmo, por extenso, para você não achar que eu coloquei um zero a mais sem querer. Atualmente, não é difícil ver um decanter destes por quase sete mil reais. Isso o torna o whisky mais caro já revisto nestas páginas Canídeas. Quase o dobro do segundo mais caro, o Royal Salute 38 anos Stone of Destiny. Dito isso, aqui vai a história por trás deste whisky.

O Johnnie Walker Odyssey foi o protagonista da épica viagem inaugural do John Waker & Sons Voyager, um humilde iate de cento e cinquenta e sete pés, desenhado à moda da década de vinte. Ao longo de seis meses, a embarcação percorreu mais de sete mil e quinhentas milhas náuticas, promovendo festas e degustações para consumidores chave em quinze dos mais importantes portos asiáticos.

Tom Jones, embaixador global da Johnnie Walker, fez o enorme sacrifício de permanecer a bordo do palacete flutuante durante todo o percurso.  Sua estimativa é que, durante as paradas do Voyager, tenha conduziudo degustações para mais de quatorze mil consumidores, divulgando os produtos e a história da marca. A coroa da viagem, entretanto, foi o lançamento do Johnnie Walker Odyssey.

Vida difícil, hein, Tom?
Vida difícil, hein, Tom?

Tudo que há no Odyssey transpira exclusividade. Seu belo decanter de cristal possui uma base arredondada, que permite que o whisky balance. A – peculiar – ideia é que a garrafa não caia com o movimento do mar. Seu estojo também possui um conjunto de roldanas que permite que a garrafa permaneça sempre na posição vertical. Porque claro, se você um dia levar seu whisky de sete mil reais em seu iate de cento e cinquenta pés, não conseguiria pensar em um desastre maior do que estragar sua tapeçaria, caso o whisky caia no chão.

O Johnnie Walker Odyssey é um blended malt, composto somente por três single malts. E desde que o queridíssimo Green Label foi praticamente extinto – hoje, disponível em pouquíssimos mercados – pode-se dizer que o Odyssey é, incrivelmente, o blended malt mais barato da marca do andarilho em muitos países.

A identidade dos single malts que o compõe é segredo. Adivinhar suas origens seria um blefe digno de um mestre no truco. Entretanto, este Cão diria que há um adocicado semelhante a mel de engenho, além de um certo defumado, com uma finalização própria dos single malts maturados em barricas de carvalho europeu de ex-jerez. É um blended malt extremamente equilibrado e encorpado. Não me atrevi a adicionar água, mesmo porque não há qualquer traço de aspereza, mesmo a quarenta por cento de graduação alcoólica.

Outro mistério por trás do whisky é sua idade. Não há nenhuma indicação da maturação mínima dos maltes que o compõe. Quem explica essa decisão é o master blender da Johnnie Walker,  um homem predestinado, por seu sobrenome, a trabalhar no mundo das bebidas. Jim Beveridge. Nas palavras de Jim “temos mais de oito milhões de barricas para escolher (…) e há pouquíssimas que realmente poderiam ser utilizadas neste blended malt. Ele é bem maturado, mas a idade não é o que o define. A ausência de indicação de idade me permite escolher as melhores barricas quando estão em seu ponto ótimo”.

Segundo Jim, produzir um blended malt é um desafio muito grande. “Sou um master blender. Eu valorizo whiskies de grão enormemente. Tive que pensar muito quando me foi pedido que elaborasse um blended malt assim”.

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Desafio maior, só mesmo viajar nesse iate…

Perguntar se um whisky deste valor vale a pena seria injusto. O Johnnie Walker Odyssey é uma criação sublime de uma das mais respeitadas marcas mundiais de blended whisky. Tecnicamente, ele beira a perfeição. Mas não é apenas isto. Ele é, na verdade, uma perfeita materialização do luxo que a Johnnie Walker emana. Ele é como atravessar o oceano em um iate gigante – ainda que eu nunca tenha atravessado o oceano em um iate gigante. Ou vencer aquele jogo praticamente insolucionável de paciência. O Johnnie Walker Odyssey é simplesmente vitória líquida.

Você até pode dizer que a vida é como paciência, ou na versão em inglês “solitaire” (solitário). E escolher entre o nome ou sua tradução é, mais ou menos, como aquela história entre o copo meio cheio e meio vazio. Mas lembre-se, um copo inteiramente vazio é uma dose de whisky que você ainda não tomou.

E vai que a próxima dose não é do Odyssey?

JOHNNIE WALKER ODYSSEY

Tipo: Blended Malt sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Defumado, frutado, com bala de caramelo e frutas em calda.

Sabor: Levemente defumado, com frutas secas e especiarias, um pouco de caramelo. Bastante encorpado, com finalização média. O sabor inicial é adocicado com turfa, que vai, progressivamente, evoluindo para o jerez, até que a fumaça some completamente e resta apenas o frutado proveniente do vinho.

Drops – Aberlour A’Bunadh

abunadh stilring Silver

Aí vai um whisky para quem gosta de emoções fortes. Este é o Aberlour A’Bunadh. Ele é produzido em pequenos lotes anuais, não sofre qualquer diluição e não passa por filtragem a frio.A maturação ocorre exclusivamente em barricas de carvalho europeu que antes continham vinho jerez. Isso o torna um whisky extremamente oleoso, de sabor frutado e especiarias.

Como ele não é diluído (Cask Strength), a graduação alcoólica varia de lote para lote. Varia, aliás, de altíssima para absurda. A garrafa deitada na foto é de lote 50, com 59,6% de álcool.

Já a garrafa em pé tem uma história interessante. Seu nome é A’Bunadh Sterling Silver Label. É uma edição especial, lançada em 1999, limitada a apenas 2.000 garrafas. O nome faz alusão a seu rótulo, que é feito de prata de lei. O A’Bunadh Sterling Silver é o único da série que possui idade estampada no rótulo – 12 anos. Sua graduação alcoolica é de 58,7%

A Aberlour é uma conhecida destilaria da região de Speyside. A’Bunadh é uma de suas expressões mais famosas, juntamente com seu 15 e 18 anos. Atualmente, a destilaria pertence à Pernod Ricard, o mesmo grupo que detém o controle da marca Chivas Regal. Inclusive, os whiskies da Aberlour são importantes componentes de alguns blends da marca, como, por exemplo, o Chivas Regal Extra, já revisto nestas páginas canídeas.

Extra

É curioso como o Aberlour A’Bunadh é um whisky saboroso e bem finalizado, apesar da alta graduação alcoolica. Parte dessa característica se dá por conta de seus alambiques. a destilaria utiliza alambiques, que têm formato de pêra e são relativamente baixos. Seus lyne arms são voltados para baixo, para maximizar a condensação e reduzir o refluxo. Para reduzir a pungência de seu new-make, a Aberlour possui um processo bastante vagaroso de destilação. Tudo isso contribui para um destilado bastante oleoso, mas menos agressivo do que aparentaria.

Se você é o tipo de pessoa que tempera sua salada com veneno de cobra, ou que é atendido ao pedir um Big Mac no Bob’s, o Aberlour A’Bunadh é seu número. Ele é o Chuck Norris do mundo dos whiskies!

ABERLOUR A’BUNADH (BATCH 50)

Tipo: Single Malt com sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Aberlour

Região: Speyside

ABV: 59,6% (variável de acordo com o lote)

Notas de prova:

Aroma: frutado e adocicado, com especiarias. Álcool proeminente.

Sabor: frutado, frutas vermelhas e passas (mas de um jeito bom). Final longo, vínico e picante.

Com água: o sabor fica mais adocicado e menos picante.

Disponibilidade: Lojas internacionais

Especial do Cão – Jameson Bartenders Ball Pub Crawl

jameson pub crawl

Quando eu era criança, minha mãe me ensinou que eu deveria ignorar ofertas muito tentadoras. Essas que você até desconfia da veracidade, de tão incríveis que parecem. No auge da minha infância, poderia ser alguém oferecendo chocolate. Ou macarrão. Ou qualquer coisa comestível, no meu caso. Afinal, poderia ser uma pessoa tentando levar alguma vantagem. Algum mal intencionado. Ou pior, um sequestrador.

Na vida adulta, são aqueles e-mails de spam. Como aquele de uma ucraniana maravilhosa oferecendo amor eterno em troca de exílio em nosso país tropical. Ou aquele bilionário da Costa do Marfim que somente poderia confiar em você para esconder sua fortuna.

É como, certa feita, disse um amigo meu – queria viver em um mundo onde todo spam que recebo se torna automaticamente real. Eu seria milionário sem sair de casa, namoraria uma imigrante suíça e teria barriga tanquinho comendo sanduíche de calabresa todo dia. O único problema é que eu andaria o tempo todo curvado para frente…

Assim, nada mais natural do que o estranhamento que senti ao receber um e-mail com, mais ou menos, o seguinte conteúdo:

DE: JAMESON – Boa noite Cão. Gostaria de convidá-lo para participar do Jameson Pub Crawl, na próxima quinta-feira (7), a partir das 19h. Será um tour do “Jameson Bartenders Ball” em três bares participantes da competição (Bossa, Alberta e Riviera). Você gostaria de participar? Se sim, avise onde a van poderá lhe pegar. Obrigado.

Bartender’s Ball é uma competição internacional de bartenders, em que cada um deve criar um coquetel próprio, utilizando Jameson. No Brasil, quarenta e cinco casas entraram no concurso. Dentre elas, as três mencionadas no e-mail. Os coquetéis ficam disponíveis ao público até o dia 01 de maio. Depois desta data, um juri escolherá os melhores, que passarão para a etapa internacional do concurso.

Minha primeira reação foi imaginar que se tratava de spam. Mas havia meu nome. Então deveria ser um sequestrador. Um sequestrador muito inteligente, que sabia exatamente como me atrair. Um sequestrador com uma oferta absolutamente irrecusável. Tão irrecusável que, se fosse mesmo um sequestrador, não teria precisado esperar nem duas horas para receber uma resposta afirmativa minha.

Acontece que, para minha sorte – e contrariando os sábios ensinamentos de minha progenitora – o e-mail era legítimo. Assim, às dezenove horas daquela quinta feira, me surpreendi ao ver uma van com bexigas – sim, bexigas – da Jameson, encostando no ponto indicado por mim no e-mail. E foi assim que fui consensualmente sequestrado naquela quinta-feira para um promissor tour.

Bossa
O Irish Pleasure

A primeira parada foi no Bossa Restaurante Bar e Estúdio, onde fomos recepcionados por Juliana, embaixadora da Jameson no Brasil.

O Bossa, localizado em um espaço – realmente – impressionante na Alameda Lorena, é uma mistura entre um restaurante, um bar e um estúdio musical. Como este não é um blog sobre gastronomia ou artes audiovisuais, focaremos na parte que interessa. O balcão.

Para a competição, Jean Dall Acqua, conhecido bartender do Bossa, elaborou o Irish Pleasure, que leva praticamente um carrinho de supermercado de ingredientes tipicamente brasileiros: suco de limão cravo, bitter de alecrim, whiskey Jameson, um toque de mel temperado com tabasco e vinagre de maçã, finalizado com espuma de clara de ovo e rapas de semente de pixuri.

Este Cão conseguiu o incrível feito de finalizar o coquetel antes mesmo de terminar de ler a lista de ingredientes. E, inclusive – seguindo o conselho de Dall Acqua – comer a laranja desidratada. Refrescante e complexo, o Irish Pleasure é um coquetel que agradará a quase todos os gostos.

Após percorrermos, um pouco cambaleantes, o corredor externo do lindíssimo prédio, seguimos para o segundo destino. O Riviera. Localizado na esquina da Rua da Consolação com a Avenida Paulista, o restaurante/bar conta com cardápio do renomado chef Alex Atala, que recriou pratos do antigo bar homônimo, que funcionava naquele espaço desde 1949.

Por lá, o responsável pela criação do coquetel foi Vinícius Gomes. Seu Barrel Cocktail leva Jameson, Licor de cereja e laranja e dois tipos de angostura – natural e com laranja. É um coquetel frutado, mas ao mesmo tempo, complexo, com especiarias e laranja. O sabor adocicado e de baunilha do whisky irlandês casou perfeitamente com o cherry heering e os bitters. Um coquetel clássico e elegante, como sua casa. O Barrel Cocktail foi unanimidade entre os presentes.

Riviera
Barrel Cocktail

A terceira e ultima parada foi no Alberta #3. Localizado na Avenida São Luiz, no centro da cidade de São Paulo. Ao som de rock acústico e sob luz baixa – aliás, bem baixa – tivemos a oportunidade de experimentar o  Liffey, elaborado por Barbara Salles. Dessa vez, o tema era laranja. O coquetel do Alberta ofereceu um belo contraponto àquele do Bossa. Enquanto o último é cítrico, à moda de um whisky sour, o primeiro é bastante adocicado.

Ao final do passeio, as impressões de todos foram as mesmas. Em primeiro, que São Paulo está muito bem servida quando o assunto é coquetelaria. E, em segundo, que o Jameson Irish Whisky é ótimo para se tomar puro ou com gelo, mas é também excelente para preparar drinks. É um whiskey versátil, que funciona bem em coquetéis amargos, cítricos ou adocicados.

alberta3
Liffey

Se estiver pensando em vistar qualquer uma das casas até o dia primeiro de maio, não deixe de pedir o coquetel que faz parte da competição. Além dos provados naquela noite, este Cão teve – por conta própria – a oportunidade de degustar os servidos no Mori Sushi Ohta e Z Carniceria. E talvez por sorte, ou talvez por conta da qualidade do whisky e dos bartenders, este Cão ficou extremamente surpreso. Todos ótimos dentro de suas propostas.

Além dos bares visitados, o Jameson’s Bartenders Ball conta com mais quarenta e duas casas. São elas: Grão, em Bauru, Bar do nicola, Iff Bar, Piola Cambuí e Lord’s Pub em Campinas, Arpoador, Casimiros, Goa Lounge e Nuit em Ribeirão Preto, Só Santo, em Santo André, Butreco Butiquim e Casa Berolli em São José do Rio Preto; Barltazar em Votuporanga e, em São Paulo, Aurora, Bababa Café, Blue Pub, Brexó, Camdem House, Cão Veio, Casa 92, Gracia Bar, Jet Lag Pub, Johnnie Wash, Mori Sushi, Quintana, Republic, Rey Castro, Rhino Pub, Riviera, Sarau, Seu Justino, Skull Bar, The Sailor, Villa Baronesa, Z Carniceria, Hangar 51 e Kingsford.

Quiçá minha caixa de spams sempre trouxesse boas notícias como esta.

Ah, e aguardem. Algumas receitas serão divulgadas aqui no Cão a partir da semana que vem! Fiquem ligados!

O Cão Maduro – Johnnie Walker Platinum Label

Platinum Label

Ernst Hemingway, dentro da miríade de célebres e sábias frases, em uma carta a Ivan Kashkin, escreveu “Quando se trabalha o dia todo com sua cabeça, e tem-se a certeza que se trabalhará também no dia seguinte, o que mais poderia transmutar suas ideias e fazê-las funcionar em um plano diferente, como whisky? (…) A vida moderna, também, é geralmente uma opressão mecânica, e o álcool é o único alívio mecânico

Eu arriscaria, dentro de minha humildade, complementar a peça de sabedora de Hemingway. Eu diria que o cinema, a literatura e a música são como o whisky. Alívios eficazes, ainda que não tão mecânicos. Um bom filme, um grande livro, ou até uma bela canção têm o poder de nos colocar em uma rotação diferente daquela rotineira, despindo e transformando nossas ideias. São como peças coincidentemente complementares, cunhadas a quilômetros de distância, mas que, estranhamente, se encaixam perfeitamente.

Sabendo disso, tento ler e ver filmes o máximo que posso. Tenho vontade de ver uma centena deles. Mas por algum motivo que foge à minha razão, há aqueles que sempre deixo para depois. Talvez por falta de tempo, ou talvez porque sinta que aquela película específica deveria ser assistida em outra situação. Um desses filmes é Cães de Aluguel (Reservoir Dogs), do Tarantino.

Se você não sabe, Cães de Aluguel foi o primeiro filme realmente famoso de Tarantino. Mas por algum motivo inexplicável, eu consegui ver quase todos os filmes dele antes, para, por fim, ver seu primeiro. Não fez sentido para você? Para mim também não. Quando finalmente me concedi a oportunidade de assisti-lo, fiquei impressionado. O ritmo, as atuações e os diálogos são ótimos. E o mais incrível é que a marca do cineasta que Tarantino se tornaria já estava lá, quase integralmente.

Ele já era um péssimo ator, por exemplo.
Ele já era um péssimo ator, por exemplo.

Com whiskies, algo muito semelhante me aconteceu com o Johnnie Walker Platinum Label. Quando soube de seu lançamento, tinha a certeza que não levaria nem duas semanas para experimentá-lo. Este deve ter sido o par de semanas mais longo da humanidade. Demorei quase dois anos inteiros até finalmente prová-lo. E ainda que estes dois anos tenham aumentado consideravelmente a expectativa sobre o blend, admito que ele não me decepcionou nem um pouco.

Assim como em Cães de Aluguel, a marca inconfundível da Johnnie Walker se faz presente no Platinum Label. A fumaça. O Platinum Label é levemente defumado, mas guarda também um certo dulçor e sabor cítrico que o tornam quase perfeitamente equilibrado. Não há uma nota predominante, como no caso do Double Black (defumado) ou do Gold Label Reserve (adocidado). O Platinum Label é um blend sisudo, sofisticado e elegante. Há uma troca clara do apelo pela complexidade.

Assim como seu irmão mais jovem, o Johnnie Walker Black Label, e ao contrário dos demais blends da Johnnie Walker à venda no Brasil (Red Label, Double Black, Gold Label e Blue Label), o Platinum possui idade estampada no rótulo. Dezoito anos. Isso significa que o whisky mais jovem em sua fórmula passou dezoito anos maturando antes de compor seu blend.

Falando em sua fórmula, a Diageo, detentora da marca Johnnie Walker, é bastante reservada quanto aos whiskies que compõe seus blends. Um palpite educado, entretanto, é que o single malt base do Platinum Label poderia ser Caol Ila. Essa teoria ganha força ao lembrar que, quase concomitantemente ao lançamento do novo blend, a Diageo deixou de distribuir no mercado a expressão 18 anos daquele single malt.

Há únicas duas ressalvas que me sinto obrigado a fazer em relação ao Johnnie Walker Platinum Label. A primeira é seu preço. Não se trata de custo-benefício. Mas acompanhe minha frágil lógica econômica. No Brasil, uma garrafa do Platinum Label custa, em média, R$ 450,00. É quase o triplo do preço da superestrela da família, o Johnnie Walker Black Label, e aproximadamente R$ 200,00 mais caro do que a expressão imediatamente anterior, o Gold Label Reserve.

Acontece que duzentos reais é um pulo bem alto, principalmente considerando que a diferença entre Black e Gold não chega à metade disso. É uma diferença que, na verdade, acaba por impedir a evolução natural de um consumidor que, à medida que vai experimentando os blended whiskies da marca, busca sempre algo mais sofisticado. E isto é uma pena, porque o Platinum Label é realmente bom.

Tá, você não precisa me dizer quão bom o whisky é.
Tá, você não precisa me dizer quão bom o whisky é.

A segunda é sobre seu corpo. Na singela e humildíssima opinião deste canídeo, o Johnnie Walker Platinum Label poderia, talvez, se não fosse muito esforço, claro, ser um pouco mais encorpado. Veja bem, não é que o fato dele ter pouco corpo estraga a experiência de toma-lo. Mas seus aromas, sabores e complexidade combinariam perfeitamente com um whisky mais oleoso. Tá bom, ignore isso. Talvez seja petulância demais.

Apesar destas ressalvas, o Johnnie Walker Platinum Label é, certamente, um blended whisky que se deve experimentar. Há um notável ganho de complexidade entre ele e as expressões mais em conta da marca. Ele é, na verdade, exatamente como aquele grande filme ou livro que você sempre deixou para depois. Um grande clássico, apenas aguardando a sua chance de te surpreender.

JOHNNIE WALKER PLATINUM LABEL

Tipo: Blended Whisky com idade definida (18 anos)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma de frutas secas com pouca fumaça e especiarias.

Sabor: cítrico, frutas secas, levemente herbal, com final discretamente e elegantemente defumado.

Com água: A água reduz o sabor e aroma de especiarias e ressalta o final defumado.