Um Desvio à Moda Antiga – Brooklyn Brewery Improved Old Fashioned

Esses dias acordei e, como não encontrasse nada na geladeira que me apetecesse, fui com fome ao supermercado. E isso, como vocês devem saber, é péssimo. Ao invés de cuidadosamente separar os itens para um café da manhã saudável, resolvi fazer um voo solo pelas gôndolas que mais me interessavam naquele momento. A dos salgadinhos. Parei lá, contemplando em silêncio as dezenas de opções para aquele desjejum nutritivo.

Dentre inúmeros saquinhos coloridos, um chamou minha atenção. Batatinhas sabor picanha. Sabor. Picanha. E enquanto salivava pensando em um churrasco instantâneo, comecei a pensar o que faria aquilo ter, especificamente, o gosto de picanha. Porque picanha é uma coisa bem específica. O que diferenciaria, por exemplo, um salgadinho sabor picanha de um com gosto de contrafilé?

E aí, quando voltei para casa, resolvi pesquisar este fascinante mundo da comida deliciosamente artificial. A internet, prontamente, me apresentou um mundo de produtos estranhos. Batatinhas de sabores tão improváveis quanto borsh (isso é uma sopa), chocolate ao leite, salada césar – porque, se é para ser trash, melhor algo com sabor de comida saudável – e uma opção que quase me levou ao nirvana psicológico-gastronômico: chips com gosto de vieiras com alho e manteiga.

Meu deus. E que língua é essa?
Meu deus. E que língua é essa?

Acompanhei, na semana passada, com interesse comparável àquele que tive por esta delícia falsamente marítima, o lançamento de uma cerveja. A Brooklyn Improved Old Fashioned, que aconteceu no Bar Cateto, dia 11 de junho. A ideia era a mesma dos salgadinhos. Só que muito melhor. Porque, afinal, era cerveja. Uma cerveja com o mesmo perfil de sabor do clássico coquetel de whiskey. O Old Fashioned.

Antes de descrever como o pessoal da Brooklyn Brewery, localizada em Nova Iorque, conseguiu essa façanha, deixe-me fazer um mea culpa. Este não é um texto sobre whisky, mas sobre uma cerveja. Uma cerveja, entretanto, que guarda uma relação muito íntima com a melhor bebida do mundo. Uma relação, aliás, bem mais próxima do que aquela daquela batatinha com um aroma que remonta, remotamente, um corte bovino. Ela é, na verdade, a recriação em forma fermentada de um dos mais icônicos coquetéis que levam whiskey.

A Brooklyn Improved Old Fashioned faz parte de um projeto da Brooklyn Brewery e Garrett Olivier, seu brewmaster, de criar cervejas com perfil de sabor semelhantes àqueles dos melhores coquetéis do mundo. A primeira edição prestigiou o já prestigiadíssimo Manhattan. A segunda – que me dá ansiedade só de pensar – denominada The Concotion, foi uma releitura cervejeira do Penicillin, e teve o auxílio de seu criador, Sam Ross, para ser desenvolvida.

Para recriar o sabor do coquetel, ao invés de recorrer a alguma essência industrialmente produzida, Garrett usou como ponto de partida uma rye ale – ou seja, uma cerveja produzida com centeio – de forma a enfatizar o sabor picante proporcionado por aquele grão. Depois, deixou que a cerveja descansasse em barricas previamente utilizadas para maturar o Whiskey WhistlePig Rye. Esse estágio trouxe à bebida os sabores de fumaça e madeira. Por fim, foi desenvolvida uma tintura especial que emulasse os bitters e botânicos do Old Fashioned.

WhistlePig Rye
WhistlePig Rye

Nas palavras – traduzidas, claro – de Garrett “Existem coisas que você consegue fazer, e outras não. Por exemplo, não dá para replicar a sensação de calor proporcionado por um destilado. Mas você pode fazer outras coisas, e acho que fizemos bem. A parte mais difícil foi provavelmente balancear os componentes dos elementos do bitter, especialmente o cravo. Um pouquinho só já é muito. A outra parte difícil foi acertar na sensação da casca de laranja. Não usamos quaisquer extratos ou óleos comerciais (…). Acabamos oor usar uma casca de laranja asiática, desidratada a frio, que proporciona um aroma fantástico.”

O resultado, provado por este Cão, é realmente incrível. Aliás, incrível como a maioria das cervejas produzidas pela Brooklyn. Há um claro aroma cítrico, que é curiosamente complementado por uma sensação picante e, ao mesmo tempo, herbal. É uma sensação agradavelmente confusa. Tipo sentir vieiras em batatinhas pré-fritas. Mas vieiras de verdade.

Para experimentar a Brooklyn Improved Old Fashioned, não será necessário visitar algum país esquisito e comer salgadinhos de sabores improváveis – não que isso seja ruim. A BeerManiacs, mesma abençoada importadora que nos traz a deliciosa Ola Dubh, trouxe um número limitado de garrafas da cerveja para cá. O preço sugerido é de R$ 300,00. Elas serão vendidas em lojas especializadas, como, por exemplo, o Empório Alto dos Pinheiros e, claro, o Bar Cateto.

Para os ecléticos ébrios, a Improved Old Fashioned é uma cerveja obrigatória. E para os não tão ecléticos também. Porque você nem precisa gostar de cerveja. Basta admirar um bom whisky. E se você não gostar de um bom whisky – o que me faz perguntar por que você teria chegado até aqui no texto – basta ser fã de coquetelaria.

Este Cão garante. É uma experiência bem melhor do que qualquer batatinha.

BROOKLYN BREWERY IMPROVED OLD FASHIONED

Tipo: Rye Ale maturada em barricas de whiskey

Cervejaria: Brooklyn Brewery

País: Estados Unidos

ABV: 12.8%

Notas de prova:

Aroma: cravo, canela, especiarias, pão, pimenta do reino.

Sabor: picante e cítrica, com finalização longa, com cravo, canela e especiarias.

Preço sugerido: R$ 300,00

 

 

Sobre o Frio – Irish Coffee

O Cão Engarrafado - Irish Coffee

Não sei se vocês estão sentindo. Mas aqui está bem frio. E ainda que eu claramente prefira essa congelante brisa invernal – apesar de não estarmos ainda no inverno – ao calor senegalês do verão, há uma série de coisas que eu realmente prefiro fazer quando está mais quente. Como, por exemplo, ir ao banheiro. Eu odeio ir ao banheiro de casaco.

Aliás, vou contar uma coisa mais ou menos porca para vocês. Nada relacionado a higiene pessoal é legal no frio. Escovar os dentes exige que se bocheche e, consequentemente, suas mãos sejam congeladas. Acordar de manhã e percorrer a distância até o chuveiro – e aguardar o chuveiro esquentar – só para passar frio novamente ao sair é torturante.

No entanto, há uma infinidade de atividades que ficam bem melhores no frio. Cole Porter já descreveu uma delas, ao dizer que “de acordo com os Estudos de Kinsey, todo homem médio que se conhece, prefere praticar seu esporte favorito, quando a temperatura está baixa”. As outras são, por exemplo, dormir, assistir filmes no conforto do lar e, claro, beber whisky. Aliás, o frio é um ótimo pretexto para se consumir a melhor bebida do mundo.

Cole, pensando em seu esporte favorito.
Cole, pensando em seu esporte favorito.

Acontece que, às vezes, você precisa de algo realmente quente. Uma bebida cuja temperatura natural já seja capaz de reanimar suas congeladas células. E, neste quesito, nada no mundo supera o Irish Coffee.

O Irish Coffee é, na verdade, a combinação de duas das melhores coisas já inventadas em estado líquido. Whiskey e café. Reza a lenda que ele foi criado na década de quarenta por Joe Sheridan, um chef de cozinha responsável por um restaurante e café localizado no terminal aeroportuário de Foynes, na Irlanda. O restaurante de Joe era conhecido naquela época como um dos melhores do país.

O coquetel teria sido concebido quando um grupo de passageiros americanos desembarcou de um hidroavião, em uma manhã de inverno, em 1940, naquele condado. Sheridan, prestativo e criativo, adicionou whiskey irlandês ao café, para aquecer ainda mais aqueles pobres viajantes. Quando indagado se aquilo era café brasileiro – uma iguaria na época – Sheridan simplesmente respondeu “é Café Irlandês”.

O Irish Coffee alçou voo internacional quando Jack Koeppler, proprietário do Buena Vista Café de São Francisco o incluiu em seu cardápio. O restaurante alega ter aperfeiçoado a receita de Sheridan após muita pesquisa e até mesmo uma visita à terra natal do coquetel.

Para evitar qualquer discussão acalorada, a receita apresentada nestas páginas caninas será a mesma da International Bartender’s Association. Porém, este Cão encoraja que você, leitor, teste até atingir sua receita preferida. Mexa um pouco nas proporções e mude os ingredientes. Se você quer algo mais amargo, adicione mais café ou reduza o açúcar. Se quer mais cremoso, aumente a proporção do creme. Teste com mais de um tipo de café. Seja corajoso. Quase tão corajoso quanto alguém que saiu da cama para tomar banho hoje.

IRISH COFFEE

INGREDIENTES

  • 1 Dose de Whiskey Irlandês (este Cão utilizou Jameson Irish Whiskey)
  • 2 Doses de Café Quente
  • ¾ dose de chantilly (ou espuma de leite) – Tá bom, eu assumo que coloquei um pouco mais do que isso para a foto.
  • 1 colher de chá de açúcar mascavo

PREPARO

  • Em um copo especial para bebidas quentes – pode ser uma caneca de vidro ou mesmo de porcelana – adicione o café, o whiskey e o açúcar mascavo. Mexa um pouco. Adicione o chantilly sobre a mistura.

Drops – St. Austell Smuggler’s Grand Cru

O Cão Engarrafado - Smugglers Grand Cru

Tá com frio? Que tal uma cerveja com graduação alcoolica de 11,5% e maturada em barricas de whisky para aquecer? Essa é a St. Austell Smuggler’s Grand Cru.

A St. Austell Brewery, localizada em Cornwall, é uma conhecidíssima cervejaria inglesa, famosa por cervejas como as curiosamente batizadas Proper Job e Big Job que significam, numa tradução tosca, Trabalho de Verdade e Trabalho Importante. Assim, se alguém te mandar arrumar um “Trabalho de Verdade”, não se ofenda mais. Vá para o bar.

A Smuggler’s Grand Cru é uma edição especial da St. Austell. É uma Belgian Strong Ale, maturada por até nove meses em barricas que antes continham o single malt da destilaria Tomintoul, de Perthshire. Após a maturação, a cerveja é engarrafada pelo método champagnoise – em que há segunda fermentação dentro da garrafa – na vinícola Camel Valley, também em Cornwall.

O resultado é uma cerveja bastante complexa, que remonta açúcar mascavo, vinho, fumaça, baunilha e caramelo. Ela é levemente azeda por conta de seu processo de maturação, que a faz lembrar uma Lambic. Entretanto, este sabor é equilibrado pelas notas de baunilha e caramelo.

A Smuggler’s Grand Cru pode ser encontrada em algumas lojas especializadas, como o Empório Alto dos Pinheiros. Seu preço é quase de single malt. R$ 250,00, em média.

O Cão Didático – Cereais usados no Whisky

Grãos

Conhecimento é sempre bom. Mesmo sobre assuntos enfadonhos, como botânica. Esta foi minha conclusão após uma viagem com alguns amigos para o sítio de um deles, lá pelos meus dezoito anos de idade.

Como quase todo adolescente recém-chegado à maioridade legal, nosso foco principal era beber. Beber qualquer coisa. Não tínhamos muitos critérios. Só podia ser natural. Afinal, não havíamos tido tempo de criar quaisquer critérios.  Nosso manifesto de viagem contava com umas quatro garrafas da vodka – da mais barata encontrada no supermercado local – bem como uma dúzia de engradados de uma cerveja que poderia ser definida, de forma muito benevolente, como a pior coisa que já bebi depois de gasolina (leia mais sobre isso aqui).

Com o problema líquido solucionado, nosso próximo passo seria decidir o que comer. E ainda que a ideia de adquirir um estoque de salgadinhos fosse tentadora, em um lampejo de consciência, resolvemos que teríamos tempo de sobra para cozinhar. Assim, resolvemos preparar uma massa. Uma pequena caixa de spaghetti e alguns tomates dariam uma refeição decente e descomplicada.

No primeiro dia, demos cabo de boa parte da cerveja e duas garrafas daquela maravilha cristalina destilada e – bastante animados – começamos a preparar a primeira refeição do dia. Nosso jantar. Chovia bastante e fazia bastante frio. Nosso colega encarregado de preparar a refeição então pediu para que um dos outros fosse à horta e trouxesse manjericão. Porque ele havia ouvido que manjericão combinaria com o molho de tomate.

E ele – ensopado e tremendo – trouxe capim. Capim mesmo, desse que as vacas comem. Um punhado de capim, bem verdinho. Havia até uns três brotos, cuidadosamente arrancados na base de seus frágeis talos. Mas como estávamos um pouco ao sul da linha da sobriedade, ninguém percebeu que aquilo era capim.

 

Nham...
Nham…

Ninguém percebeu até começar a comer. Porque mesmo que não estivéssemos lá muito sóbrios, ao saborear nossa criação, logo notamos que havia algo errado. Era um gosto meio vegetal, diferente naquela massa. Primeiro pensamos que os tomates pudessem estar estragados, mas uma inspeção mais cuidadosa mostrou a natureza das gramíneas no prato. E, no segundo lampejo de consciência do dia, votamos que seria melhor passar fome mesmo.

Nessa altura do sétimo parágrafo, você deve estar se perguntando o que essa história toda tem a ver com o seu whisky. Bem, ela não tem. Mas serve para ilustrar que, às vezes, é importante saber o que está no seu prato. Ou melhor, no seu copo. E aí é que o whisky entra na história. Porque whisky – dependendo do país – pode ser feito pela destilação de quase qualquer coisa. Então, vou explicar, nesse post, um pouco sobre as variações mais comuns.

Vamos começar com o whisky escocês single malt. Single malts escoceses devem ter, obrigatoriamente, como matéria prima, apenas cevada maltada. O mosto fermentado dessa cevada maltada deve ser destilado somente em alambiques de cobre em uma única destilaria. No mundo dos single malts escoceses, o único cereal aceitável é a cevada. Sem dramas aqui.

Mas a conversa começa a ficar diferente quando falamos de bourbon. Ou melhor, de whiskey americano, de uma forma mais genérica. Whiskies americanos normalmente são destilados em destiladores contínuos, ou em uma mistura entre destiladores contínuos e alambiques. Para eles, há um monte de cereais utilizáveis. Centeio, trigo, milho e cevada maltada (que ajuda catalizar enzimas que quebrarão amido em açúcar dos outros grãos) são os mais comuns. A maioria dos whiskeys americanos é produzido com uma combinação destes cereais.

A variação mais comum de whiskey americano é o Bourbon. Bourbons devem empregar 51% ou mais de milho na composição de seu mosto. Entretanto, caso este percentual chegue a 79, ele passa a ser considerado um Corn Whiskey. O milho confere sabor adocicado à bebida. A maioria dos whiskeys americanos vendidos em nosso país têm predominância de milho em seu mosto, como é o caso do Woodford Reserve e Maker’s Mark.

Por outro lado, quando um whiskey americano possui mais do que 51% de centeio em seu mosto, ele passa a ser conhecido como um rye whiskey. O centeio confere ao destilado sabor de especiarias (pimenta do reino, páprica etc.), menta e canela. Mesmo quando não predomina, o centeio deixa sua marca. É o caso, por exemplo, do bourbon Woodford Reserve, que utiliza boa quantidade do cereal em sua composição, ainda que a predominância seja de milho. Recentemente o Brasil recebeu um lote do Wild Turkey 101 Rye. Este é o único Rye Whiskey a venda em nosso país.

Por sua vez, 51% de trigo em no mosto confere o titulo de wheat whiskey. Wheat whiskeys são bastante incomuns. Entretanto, bourbons com boa proporção de trigo – ainda que inferior a 51% – são mais frequentes. O mais comum é o Maker’s Mark, que utiliza uma combinação entre milho – seu principal ingrediente – trigo e cevada maltada.

Por fim, a regra do tennessee whiskey é similar a do bourbon, exigindo no mínimo 51% de milho no mosto. É o caso dos Jack Daniel’s, como o Old No. 7, Sinatra Select, Gentlemen Jack e Single Barrel.

Ou seja, de uma forma bem superficial e genérica, pode-se dizer que o centeio empresta sabor de especiarias, enquanto que o milho sabores mais adocicados. O trigo, por sua vez, torna a bebida mais suave e palatável. Obviamente, estes fatores tornam-se mais ou menos evidentes dependendo da forma de maturação do whisk(e)y.

 

Praticamente a versão liquefeita de uma barra de cereal.
Praticamente a versão liquefeita de uma barra de cereal.

Mais curioso ainda é quando voltamos para a Escócia para falar de grain whisky, que é o whisky produzido em destiladores contínuos em uma única destilaria a partir do mosto fermentado de quaisquer grãos. Ao contrário do conhecimento popular, estes whiskies levam obrigatoriamente cevada maltada. Na Escócia, é ilegal que se produza qualquer whisky com uma única espécie de cereal (exceto se esse cereal for a própria cevada maltada).

Assim, single grains são whiskies produzidos com a combinação, em uma única destilaria, de mais de um tipo de cereal, sendo que um deles deve, obrigatoriamente, ser a cevada maltada. Como dito anteriormente, a cevada maltada fornece as enzimas necessárias para transformar o amido em açúcar dos demais grãos utilizados. Isto porque, na Escócia, é proibida a adição de enzimas no whisky.

Até a década de oitenta, um dos cereais mais comuns na produção de grain whiskies era o milho. Atualmente, é o trigo. Grain whiskies são geralmente destilados em destiladores de coluna, e não alambiques, por razões econômicas de eficiência e escala de produção.

Entretanto, não é apenas de cereais que se vive a indústria do whisky. Existem ótimos whiskies em improváveis países. Tão improváveis quanto a India. Um exemplo disso é o (quase) famoso Amrut. Na Índia, não é incomum que se produza whiskies pela destilação do mosto fermentado do melaço da cana de açúcar. É isso mesmo. Como é o caso do rum e parecido também com a nossa cachaça (destilado do mosto fermentado do caldo da cana de açúcar).

E se você me perguntar qual é melhor, vou te dizer que não sei. Não sei porque não existe um estilo melhor. O melhor whisky é sempre o seu próximo. Ou é aquele que é tomado em uma roda de amigos, enquanto se conversa sobre alguma amenidade. Alguma amenidade como, por exemplo, o cereal usado no whisky que você está tomando.

Está vendo? Como eu havia dito – e parafraseando Fernando Pessoa – todo conhecimento vale a pena, quando a alma não é pequena.

 

Drops – Glenfiddich 125 Anniversary Edition

Glenfiddich 125

Quer saber como era o sabor dos whiskies há mais de 125 anos, na época em que grande parte das destilarias da Escócia foram fundadas? Então conheça o Glenfiddich 125 Anniversary Edition.

Lançado como uma edição limitada para comemorar os cento e vinte e cinco anos de fundação da destilaria, o Glenfiddich 125 foi elaborado por Brian Kinsman – seu malt master – utilzando os mesmos métodos utilizados no século de sua inauguração.

Como já explicado por aqui, no século dezoito, era muito comum que a cevada maltada fosse secada em uma fogueira de turfa (peat). Isso dava ao whisky um aroma turfado, de bacon, bastante característico. Este processo é até hoje reproduzido por muitas destilarias, principalmente aquelas localizadas em Islay, mesmo que poucas delas ainda produzam seu próprio malte.

O Glenfiddich 125 é, na verdade, uma combinação de barricas de dievrsas idades, de Glenfiddichs defumados e não defumados, proporcionando complexidade e profundidade.

A garrafa vem em um estojo de metal, com uma rolha especial de cobre e um certificado de autenticidade. Há também um pequeno livreto, que você pode usar para se distrair enquanto toma uma dose desta maravilha.

O Glenfiddich 125 Anniversary Edition podia ser encontrado, até ano passado, nos aeroportos internacionais brasileiros e internacionais. Atualmente, entretanto, não é fácil esbarrar em uma garrafa.

O Cão Engarrafado já fez a prova de outras expressões da Glenfiddich, todas disponíveis em nosso país. Confira aqui.

Da excelência e notoriedade – Manhattan

Manhattan

Há poucas coisas e pessoas no mundo que são tão distintas que realmente dispensam apresentações. São aqueles ícones, quase divindades em seus respectivos altares. O tempo, catalisador do oblívio, não os apagou. Pelo contrário, os alçou à categoria de lendas. Algumas delas são Bach, Ferrari, Dostoievski, Coca-Cola, Orson Welles, Cohiba e bacon – sim, caso você não tenha notado a letra minúscula, refiro-me a bacon. Isso. As costas do porco.

No mundo da coquetelaria, talvez o coquetel mais emblemático do mundo seja o Manhattan. O Manhattan é a música clássica do mundo dos coquetéis. Atemporal, elegante e profundo. Três adjetivos que lhe garantiram a entrada no rol das mais distintas coisas do mundo, trazendo-lhe à imortalidade.

Apesar de sua fama incontestável, não se sabe a origem do Manhattan. A história mais famosa é que ele tenha sido elaborado no Manhattan Club, em Nova Iorque, no ano de 1874, para a comemoração do aniversário de uma – também bastante distinta – senhora. Madame Jennie Jerome, mais conhecida por ser a mãe de Winston Churchill.

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Talvez por isso seu filho fosse tão próximo aos copos?

Acontece que, como ensina David Wondrich, em seu – também icônico – livro Inbibe!, Madame Churchill não poderia estar em Nova Iorque naquele ano. Simplesmente porque estava grávida, na expectativa de conceber um dos – mais uma vez – mais icônicos e absolutos líderes de todos os tempos. O primeiro ministro da Inglaterra e amante das boas coisas do mundo, Winston Churchill.

Uma das teorias mais prováveis é que o Manhattan tenha sido inventado na década de 1860, por um homem chamado Black, em Nova Iorque. Essa é a história contada por William Mulhal, outro bartender que trabalhou na conhecida Hoffman House por mais de trinta anos, também no final do século dezenove.

Talvez você já saiba disso. Talvez não. Mas a receita original do Manhattan leva Rye Whiskey (whiskey de centeio). Este Cão, por sorte, possuía uma garrafa do recém-chegado ao Brasil, Wild Turkey 101 Rye e, por isso, resolveu utiliza-lo na preparação do coquetel. Entretanto, não há nenhum demérito em utilizar Bourbon whiskey. Isso é completamente – e absolutamente – aceitável. Mesmo porque era assim que a maioria dos bartenders de nosso pais faziam antes do desembarque do referido peru de centeio.

MANHATTAN

INGREDIENTES

  • 2 doses de rye whiskey (conforme falado acima, este Cão utilizou o Wild Turkey 101 Rye. Entretanto, se você não possuir um Rye – o que é bem provável – utilize um bourbon. Recomendo, neste caso, o Woodford Reserve).
  • 1 dose de vermute tinto (desta vez, este Cão utilizou o Carpano Classico. Mas sinta-se livre para experimentar seu vermute preferido).
  • 3 dashes (isso são sacudidelas) de Angostura
  • 1 cereja Maraschino (este Cão pede desculpas antecipadas por não ilustrar, na foto, a cereja. Faltou).
  • Mixing Glass (ou qualquer lugar para misturar seu coquetel)
  • Colher bailarina (ou qualquer colher pra mexer seu coquetel)
  • Strainer (ou qualquer peneira para coar o gelo)
  • Taça Coupé (a taça da foto acima) ou taça de martini.

 

PREPARO

  1. Adicione no mixing glass as duas doses de whiskey, a Angostura, e a dose de vermute tinto. Adicione gelo e misture levemente, utilizando a colher bailarina, por alguns poucos segundos.
  2. Com o auxilio do strainer – para coar o gelo – desça o conteúdo do mixing glass na taça.
  3. Decore com a cereja maraschino
  4. Pronto. Contemple a excelência líquida.

Drops – Ledaig 18 Anos

Ledaig 18

Às vezes, apenas o tempo é capaz de nos mostrar a significância de algo. Há experiências que temos certeza que permanecerão por muito tempo em nossa memória. Mas há outras que não parecem grande coisa no momento e que, depois, se revelam importantíssimas. Tive uma dessas com o Ledaig 18 anos.

Comprei o whisky durante minha primeira viagem à Escócia. Assumo que, em boa parte, devido à bela caixa de madeira gravada. Passei um bom tempo sem abri-lo, até que, certo dia, resolvi que o experimentaria. Logo ao abrir a rolha percebi que era algo que me agradaria. Aroma, primeiro gole, segundo. Um whisky excelente. Entretanto, não dei muita importância. Era uma delícia como muitos.

O curioso aconteceu depois. À medida que experimentava outros whiskies com perfil semelhante – Bowmores, Longrows, Juras – minha memória sempre recorria àquele Ledaig 18. Era como se ele fosse a base de comparação. Uma base de comparação bem alta. E o mais estranho é que, muitas vezes, quando alguém me perguntava qual whisky eu era apaixonado, ainda que muitas vezes respondesse de forma política, no fundo do meu pensamento, o Ledaig 18 surgia.

Levou um bom tempo para eu perceber isso, e ainda mais para assumir. Mas aquele era, provavelmente, um dos whiskies que mais me apaixonara na vida. Um estranho notável, que havia causado uma excelente e duradoura impressão. Mas não é para menos. Produzido pela destilaria Tobermory, localizada na ilha de Mull, ele é um whisky claramente defumado, cuja maturação ocorre tanto em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey quanto carvalho europeu, que antes possuía vinho jerez espanhol.

A Tobermory é a única destilaria da ilha de Mull, a segunda maior porção de terra das Hébridas Interiores (Inner Hebrides). Apesar de seu tamanho razoável – quase 880 quilômetros quadrados – Mull possui menos de três mil habitantes. O que é bom – a ilha de Mull é um pequeno paraíso. Há muitos destroços de naufrágios ao seu redor, perfeitos para a prática de mergulho. Além disso, há um rali de carros, que acontece anualmente, nas poucas estradas da ilha.

E ele nem bebeu o Ledaig 18.

A Tobermory produz duas linhas diferentes de whisky. A primeira, com o mesmo nome da destilaria, é composta de whiskies pouco turfados, com notas cítricas e de especiarias. A outra, Ledaig, é defumada, com sabor de iodo e turfa. Seu whisky de entrada é o Ledaig 10 anos. Já o Ledaig 18 anos é uma das expressões mais queridas desta linha.

Infelizmente, e para o total desespero deste canídeo, o Ledaig 18 anos não está disponível no Brasil. O whisky importado oficialmente para o Brasil que mais se aproxima desta maravilha é o Jura Prophecy. Porém, se cruzar com este belíssimo estojo de madeira em alguma viagem, saiba que ele é muito mais do que uma bela marchetaria. Dentro dele, há um dos mais incríveis líquidos já produzidos pelas ilhas escocesas.

LEDAIG 18 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 18 anos.

Destilaria: Tobermory

Região: Highlands – Ilhas – Mull

ABV: 46,3%

Notas de prova:

Aroma: turfado e defumado, com um fundo de frutas vermelhas e especiarias.

Sabor: Início defumado, com carvão, que progressivamente se torna mais frutado e rico. Frutas vermelhas, pimenta do reino, caramelo.

 

Da Arqueologia e Evolução – Glenmorangie Lasanta

Glenmorangie Lasanta

Essa semana fiz uma descoberta arqueológica em minha dispensa. Encontrei lá, escondido, num cantinho, atrás das caixas de Macallan Ruby e Glenlivet 18 anos, um panetone. Fechado, na caixa. Totalmente intocado. Uma reminiscência do de nosso último natal. Visualmente, estava intacto, ainda que aparentasse levemente ressecado. Não sei o que me levou a fazer isto. Mas, quando menos percebi, já provava um pedaço.

E estava horrível. Não bastasse o leve aroma de gorgonzola que aquela peça arqueológica exalava, havia um exagero de frutas cristalizadas. Não passas. Eu até gosto de uvas passas. Mas uns perdigotos de frutas inominadas. Recobrei minha razão com a primeira mordida. Sério. Quem poderia, em sã consciência, colocar tantas frutas assim num panetone?

O pior é que eu realmente, realmente gosto da massa do panetone. Há aquele sabor adocicado, leve, que às vezes remonta a especiarias e às vezes a baunilha. É quase um whisky em formato sólido. Felizmente, alguma mente fértil e com bom gosto idealizou algo que resolveria este problema. O Chocolate. Assim, nascia a versão aprimorada – ou melhor, corrigida – do panetone. O Chocotone.

Putz.
Putz.

O Chocotone é a salvação para todos aqueles que – assim como eu – gostam muito da massa, mas levam em torno de quarenta minutos para comer uma fatia de panetone. Porque antes, é necessário realizar uma verdadeira biópsia em cada pedaço, enchendo a lateral do prato com aqueles fragmentos asquerosos multicoloridos.

O Chocotone é, na verdade, como o Glenmorangie Lasanta. O novo Glenmorangie Lasanta. Se você não sabia nem que havia um novo e um antigo, eu explico.

É que a versão anterior, após passar dez anos em barricas de caravalho americano que antes continham Jack Daniel’s e Heaven Hill, era finalizada apenas em barricas de carvalho europeu que antes continham Jerez oloroso. A atual, com o rótulo dividido, entretanto, é finalizada em barricas de dois tipos de vinho Jerez. Oloroso e Pedro Ximénez. A mudança no processo de finalização do Lasanta trouxe a complexidade que a versão antiga carecia, e transformou o single malt em um excelente companheiro para charutos.

As mudanças pelo jeito surtiram efeito e foram muito bem recebidas. Nas palavras (porcamente traduzidas) de Dave Broom, um dos maiores especialistas em whisky do mundo “a comparação entre o antigo e o novo Glenmorangie (Lasanta) – há melhor integração, torando-o claramente maior. Não é mais apenas Jerez despejado sobre Glenmorangie”. Além disso, o whisky foi eleito como o melhor single malts das highlands na World Whisky Awards de 2017.

Veja bem, a versão antiga já era bem boa. Mas para mim, ela sempre pareceu menos atrativa se comparada ao Nectar D’Or e o maravilhoso Quinta Ruban, expressões equivalentes da Glenmorangie, finalizadas em barricas que continham vinho de sobremesa sauternes e vinho do porto, respectivamente. No caso destes últimos dois, a finalização trazia um claro ganho de complexidade. No caso do Lasanta, entretanto, havia uma troca – do dulçor pelo seco – e faltava algo.

 

Lasanta: antigo e novo.
Lasanta: novo (esquerda) antigo (direita)

Em 2014, então, a Glenmorangie – sob o comando de Bill Lumsden, seu genialmente desajustado head distiller e whisky creator – resolveu alterar a receita de seu Lasanta. A adição das barricas de Jerez Pedro Ximénez trouxeram o que faltava para aquele whisky. Além disso, a graduação alcoólica foi reduzida em três pontos percentuais, para 43%. Agora, há um certo dulçor, um sabor de – veja lá – panetone, que não havia na versão anterior.

Além disso, o whisky tornou-se mais palatável e não tão seco. É incrível como a simples redução do grau alcoólico e a mudança no tipo de vinho jerez que antes envelhecia nas barricas utilizadas pela Glenmorangie impactaram no sabor final do Lasanta, torando-o mais rico. É quase como tirar as frutas cristalizadas e colocar chocolate. Na verdade, é até melhor do que tirar as frutas cristalizadas e colocar chocolate. Porque é whisky, e não panetone.

Como já exaustivamente explicado neste blog, a destilaria Glenmorangie é conhecida por possuir os alambiques mais altos de toda a Escócia. A altura dos alambiques, aliada a seu formato, fazem com que apenas os vapores mais leves do processo de destilação cheguem ao seu topo, o que produz um whisky leve e elegante. Além disso, nenhuma barrica é utilizada mais do que duas vezes.

Se você é fã dos whiskies finalizados em barricas de ex-jerez, se já apreciava o antigo Lasanta ou se está em busca de um whisky para harmonizar com seu charuto preferido, não pode deixar de experimentar a versão reformulada deste single malt. Ele não deve mais nada a seus irmãos, tampouco a outros grandes whiskies com maturação semelhante. Será como experimentar um grande chocotone líquido. E dessa vez, garanto que não será preciso arrancar nenhuma uva passa.

GLENMORANGIE LASANTA

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 12 anos

Destilaria: Glenmorangie

Região: Highlands

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com  especiarias e açúcar mascavo.

Sabor: frutas em calda, jerez, baunilha, açúcar mascavo. Finalização longa, com frutas e baunilha.

Com água: A água deixa o whisky menos adocicado e evidencia as especiarias e jerez.

Preço médio: R$ 350,00 (trezentos reais)

Drops – Glenmorangie Pride 1981

glenmorangie Pride

 

Aí vai um whisky despretensioso para sua tarde de quarta-feira. Este é o Glenmorangie Pride 1981, maturado por 28 anos, uma das mais exclusivas e cobiçadas expressões da destilaria de Tain.

A maturação do Glenmorangie Pride ocorreu em duas etapas. Em 1981, seu precioso líquido foi destilado e colocado em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Segundo Bill Lumsden, master distiller da Glenmorangie, a ideia teria sido produzir uma edição especial, maturada por 18 anos.

Entretanto, em 1999, a Glenmorangie adquiriu uma pequena quantidade de barricas de carvalho que antes teriam sido usadas para envelhecer um dos mais famosos e caros vinhos sauternes do mundo, o Chateau D’Yquem. Ou seja, joias em forma de barril.

Na posse dessas maravilhas, Lumsden então decidiu que produziria um whisky ainda mais especial. Transferiu o conteúdo das barricas de bourbon – que lá já descansavam por 18 anos – para aquelas de Chateau D’Yquem, e lá deixou por mais dez anos. Na época, o maior tempo de finalização (ou maturação extra) já praticada pela Glenmorangie.

Segundo Bill “Percebi que se deixasse o whisky nas barricas por mais tempo, sabores resinosos, picantes e de taninos do carvalho francês poderiam começar a se sobrepor à delicadeza do Whisky (…) por isso que o Pride 1981 não é um whisky 30 anos. Sua idade exata é de 28 anos, 9 meses, 17 dias e oito horas. Este é o risco que se corre ao maturar whiskes como este – você deve agir quando entender que é o momento perfeito“.

A experiência de Lumsden rendeu apenas mil garrafas de 1L no mundo inteiro. Aliás, garrafas não. Decanters de cristal, desenhados pelo designer francês Laurence Brabant, e apresentados em uma caixa de madeira produzida pelo artesão holandês Wouter Scheublin.

O preço deste orgulho líquido? Bem, se você tiver a incrível sorte de encontrar, prepare-se para desembolsar algo em torno de GPB 3.000,00 (três mil libras), ou, em uma conta porca, R$ 15.000,00.

O Cão Engarrafado já fez a prova completa de alguns whiskies da Glenmorangie, diremos assim, mais acessíveis, como o Glenmorangie Quinta Ruban, Nectar D’Or e o incrível Signet.

Sem Medo – Finalistas do Jameson Bartenders Ball

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O cinema está cheio de improvisação. Algumas das cenas mais antológicas nasceram de atores, que, numa impressionante demonstração de técnica e audácia, fizeram o improvável.

Uma das histórias que mais gosto é a de Laranja Mecânica. A sequência em que Malcolm MacDowell ataca um escritor e sua esposa não estava totalmente planejada. Kubrick teria passado quatro dias filmando e refilmando a mesma cena, mas, como é natural àquele cineasta, ele não estava satisfeito. Exausto e irritado, ele então disse a Malcolm “sinceramente, faça o que você quiser”.

E então o ator refez a cena. Uma cena de espancamento. Sem medo, dançando e cantando. Aliás, cantando a única música que conseguia lembrar. A de “dançando na chuva”. E assim, uma das mais memoráveis cenas de um dos mais memoráveis filmes surgiu.

Porque sem a dancinha já não era estranho o suficiente
Porque sem a dancinha já não era estranho o suficiente

Uma vez, o ator Christopher Walken disse “Improvisar é maravilhoso. Mas o problema é que você não consegue improvisar, a não ser que você saiba exatamente o que está fazendo. Esse é o tipo de coisa paradoxal sobre improvisar”.

E apesar da frase de Walken, aparentemente, não fazer muito sentido, ela, paradoxalmente faz. A improvisação, ou melhor, a boa improvisação, exige conhecimento, experiência e técnica. E, além de tudo isso, exige destemor. Para se improvisar, não se pode ter medo.

Lembrei deste falso paradoxo ao comparecer, na última quarta-feira, a convite de Jameson Irish Whiskey, à final do campeonato Jameson’s Bartenders Ball, no Estúdio Dama, em São Paulo. A competição reuniu dez bartenders finalistas, que deveriam, na hora, improvisar um coquetel.

As regras eram para destemidos. Haviam papéis com o nome de diversos ingredientes. Cada bartender deveria sortear seis deles, divididos nas seguintes categorias: cítricos, frutas, amaros e vermutes, especiarias e botânicos, espumantes e cervejas. Destes seis, deveria, então, selecionar três ingredientes que fariam parte de seu coquetel. Além de Jameson, claro. Para elaborar os ingredientes, teriam apenas quarenta minutos. E pouco mais de sete para preparar o drink na frente dos jurados, junto com sua apresentação.

Os responsáveis por escolher os melhores coquetéis da noite eram o professor Cesar Adames, do Bares, Drinks & Destilados, Carolina Ronconi, do blog Meninas no Boteco, e James Guimarães, mixologista da Jameson Irish Whiskey. Além do experiente bartender Fernando Lisboa, que – veja só – é também consultor de coquetéis deste (nem tão) distinto blog.

Após experimentar os dez drinks, o vencedor foi escolhido. Matheus Cunha, bartender com mais de quinze anos atrás do balcão, hoje, responsável pelos drinks da Casa 92, de São Paulo, com seu coquetel batizado de Sem Medo. O segundo e terceiro lugares ficaram, respectivamente, com Ed Carneiro, do The Lord’s Pub, de Campinas e Fabio Magueta, do Johnnie Wash, de São Paulo.

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Sem Medo. O coquetel vencedor

Matheus sorteou os seguintes ingredientes: água com gás, manjericão, caju, cerveja stout, abacaxi e vermute tinto. Destes, escolheu os últimos três para seu drink. Os dois primeiros ingredientes fizeram parte de sua apresentação.

Segundo ele “Eu me inspirei em Sine Metu, um dos lemas de John Jameson. Como eu não sabia o que ia vir dos ingredientes e qual seria meu desafio, eu vim sem medo. Mesmo não recebendo nada cítrico para equilibrar, consegui criar uma complexidade para o meu cocktail e tive um ótimo resultado. O mais importante foi não esconder o whiskey Jameson e sim potencializar o que ele tem de melhor. Eu quis provar que o medo não existe, que é uma coisa que você cria. Essa é a mensagem que eu quis passar

A apresentação de Matheus foi um show de improvisação. O bartender serviu aos jurados, antes de preparar seu coquetel, agua aromatizada com manjericão, para complementar o drink. Junto, de forma enigmática, deu a cada um cartão, com a palavra “medo” escrita, e pediu que os guardasse. Após provarem sua criação, pediu que passassem o cartão sobre uma vela. A palavra escrita, então, desapareceu. Ao que Matheus, de uma forma quase profética, disse “o medo se apagou. Por não existir

Matheus. Sem medo de cair
Matheus. Sem medo de cair

O coquetel que Matheus criou é amargo e, ao mesmo tempo, levemente cítrico. Há um equilíbrio curioso entre o vermute e a cerveja com abacaxi, que – apesar dos sabores fortes – não esconderam o Jameson Irish Whiskey. É um drink que demonstra técnica e total domínio sobre os elementos sorteados.

Eu poderia aqui simplesmente finalizar o texto, parabenizando o destemido Matheus pela vitória, e desejando-lhe boa viagem para a Irlanda, onde disputará a final internacional do campeonato. Mas, se fizesse isso, não daria a você, querido leitor, qualquer razão para chegar com seus olhos até aqui.

Então, aí vai, em primeira mão, a receita completa de Sem Medo. Para que você, audaz leitor, possa, em sua casa, reproduzir com intrepidez o coquetel do valente Matheus.

SEM MEDO

INGREDIENTES:

  • 50ml de Jameson Irish Whiskey
  • 40ml de vermute tinto
  • 20ml de redução de cerveja preta com abacaxi (este Cão recomenda uma cerveja stout seca. Nem pense em uma malzbier qualquer. Não vai dar certo)
  • 5 gotas de Bitter Jameson (não tenha medo de substituir por Angostura Orange Bitters. Funcionará também)
  • Mixing glass
  • Colher bailarina (ou alguma colher para misturar as coisas)
  • Strainer (ou peneira mesmo).
  • Taça vintage (isso é a taça fotografada acima. Se não tiver, tente uma coupé)

PREPARO:

  1. No mixing glass, adicionar todos os ingredientes. Colocar bastante gelo e, com o auxilio da colher bailarina, mexer com cuidado por bons quatro segundos.
  2. Descer o conteúdo do coquetel na taça vintage.

PARA A REDUÇÃO DE CERVEJA PRETA:

INGREDIENTES:

  • 200ml de Cerveja preta seca
  • 175 gramas de açúcar
  • 5 cubos de abacaxi (quadradinhos de, mais ou menos, dois centímetros de lado)

PREPARO:

  1. Adicione, em uma panela, a cerveja preta e o abacaxi. Deixe reduzir por quase quinze minutos, em fogo baixo.
  2. Ainda com a panela no fogo, adicione o açúcar e vá mexendo até que ele todo tenha se dissolvido na água. Tire do fogo e deixe esfriar.