Seis whiskies que fazem muita falta no Brasil

Hiraeth. Não poderia começar este post de outra forma, senão por hiraeth. O correspondente galês de nossa intraduzível saudade. Mas com um significado extra. Hiraeth também se refere àquele vazio existencial causado pelo desejo de algo que você jamais teve. As saudades que um filho único sente de seu irmão que jamais nascera. Ou que eu tenho de possuir um Bowmore 1957 de 54 anos. Ah, que me falta faz esse Bowmore.

De certa forma, hiraeth é um sentimento um pouco paradoxal. É a nostalgia de tudo aquilo que não vemos e não podemos ter. Mas pior que ela, é mesmo aquela saudade de algo que já tivemos, mas que acabou. Um amor, uma época da vida. E claro, uma garrafa de whisky. Aquela, que trouxe de uma viagem, e que bebi sofrendo a cada gotinha que escorria no copo à medida que a garrafa esvaziava.

Como um brasileiro apaixonado por whiskies, devo dizer que exerço bastante esse sentimento. Vontade de provar de novo um rótulo que já tive. Ou de poder abrir um que jamais provei, mas que não posso, porque ele simplesmente in existe em nossas terras.

Neste post, selecionei seis especiais. São aqueles que já tivemos mas foram embora, ou que jamais desembarcaram por aqui. Mas deveriam. Acompanhe-me, querido leitor, nesta jornada de nostalgia, e vamos passar vontade juntos.

LAGAVULIN 16

Não poderia começar a lista de outra forma. O Lagavulin é um clássico absoluto dos single malts, e talvez o mais nobre e proeminente representante de Islay e seus whiskies enfumaçados e medicinais. Assim como para muitas pessoas, foi ele o responsável por acender minha paixão por whiskies.

Infelizmente, por algum motivo que foge à lógica deste Cão, o Lagavulin 16 anos não está à venda em nosso país. Sua proprietária, a Diageo, prefere trazer whiskies com preço de combate e sabor amável, por talvez imaginar que, nós, brasileiros, possuímos paladar doce e pouco desenvolvido para single malts. E nem adianta argumentar sobre o preço. Se há um whisky capaz de se vender sozinho, independentemente de seu valor, é o Lagavulin. Quiçá no futuro.

SPRINGBANK (LONGROW & HAZELBURN)

A Springbank possui status de malte cult entre os entusiastas, e suas edições limitadas praticamente sublimam das estantes, quase instantaneamente depois de terem sido lançadas. É também uma das únicas destilarias independentes de toda a Escócia, e uma das poucas que realiza todo o processo – da maltagem ao engarrafamento – totalmente em casa. Eles possuem três linhas diferentes de single malts. Springbank (levemente defumado), Longrow (indiscutivelmente defumado) e Hazelburn (triplamente destilado).

Longrows

A Springbank é uma das únicas três destilarias sobreviventes de Campbeltown, cidade que fora, por muito tempo, considerada a capital mundial do whisky. A região, que chegou a contar com trinta e quatro destilarias durante a década de cinquenta, hoje possui apenas três delas. As outras duas são Glengyle e Glen Scotia. Infelizmente, o sucesso da Springbank é tanto que sua produção está absolutamente alocada, e não há planos para vir para terras tupiniquins. Ao menos por enquanto.

BUFFALO TRACE (EAGLE RARE & BLANTONS)

Eagle Rare

A Buffalo Trace é uma das maiores destilarias de todos os Estados Unidos, e é responsável por marcas de renome, como George T. Stagg, E. H. Taylor, W. L. Weller, Sazerac Rye, a preciosíssima linha de Pappy Van Winkle e os Blanton’s e Stagg. Jr. Um de seus bourbons mais queridos – e com custo benefício fantástico em sua terra natal – é o Eagle Rare. Ele foi o único whiskey a conseguir cinco medalhas de duplo ouro na San Francisco Spirits Competition, sendo que três delas foram concedidas em anos consecutivos – de 2003 a 2005.

Infelizmente, nenhum Buffalo Trace desembarca no Brasil. Nem mesmo os mais humildes. A marca não possui contrato com qualquer importadora, e nenhuma representação em nosso país.

COMPASS BOX

A Compass Box Whisky Co. foi criada por John Glaser, executivo que antes trabalhou como diretor de marketing na Johnnie Walker. Glaser resolveu abandonar a empresa e fundar sua própria marca, dedicando-se a produzir apenas whiskies de altíssima qualidade, especialmente blended malts. Atualmente, a empresa possui cinco expressões em seu portfólio permanente (Asyla, Oak Cross, Hedonism, Spice Tree e Peat Monster), além da linha Great King Street. Além disso, constantemente lança edições limitadas especiais. E são todos uma delícia.

Edição Limitada The Lost Blend

Apesar de serem facilmente encontráveis em países vizinhos, como a Argentina, a Compass Box nunca desembarcou em nosso país. Sorte minha: entraria em insolvência instantânea tentando comprar todas as garrafas que encontrasse, especialmente de seu Peat Monster.

SUNTORY (HIBIKI, YAMAZAKI, HAKUSHU)

A Suntory, fundada na década de vinte por Shinjiro Torii, um japonês maluco que resolveu que produziria whisky no Japão. Atualmente, a empresa é a maior produtora da bebida naquele país, e tem sob seu guarda-chuvas os incríveis Yamazaki, Hakushu, Kakubin, Toki e Chita, para citar alguns. Os produtos são mundialmente reconhecidos, e foram também os principais responsáveis pela febre de consumo dos whiskies japoneses ao redor do globo.

Alguns produtos da Suntory – como o Kakubin, Yamazaki e Hakushu 12 anos – até chegaram às nossas remotas terras tupiniquins. Porém, a importação (que era feita pela Tradbrás) foi pouco a pouco suspensa, e a Suntory resolveu focar seus produtos em mercados emergentes, como a Ásia. Com sorte – ou algum garimpo – ainda se pode encontrar uma ou outra garrafa dessas maravilhas em empórios e mercados da vida. Mas o preço muito provavelmente será o equivalente a uma passagem de ida e volta pro Japão.

OUTRO IRLANDÊS

É isso mesmo. O único whisky irlandês a desembarcar em nossas terras é o Jameson. E tudo bem, porque ele é bem bom, muito versátil e tem preço de combate.

Mas para aqueles que apreciam variedade, isso é quase um suicídio. Um outro rótulo da própria marca – como o Black Barrel – já ajudaria bastante. Ou, talvez, o Tullamore Dew, que em muitos países é uma alternativa ao nosso conhecido irish whiskey. Sonhando mais alto, não seria nada mal ter um Midleton ou Redbreast por nossas terras.

10 thoughts on “Seis whiskies que fazem muita falta no Brasil

  1. Grande cão!

    Não está talvez bem à altura do Lagavulin. Mas a Diageo já comercializa no Brasil, até em um preço razoável para essas terras, o Talisker 10 anos — quem sabe já não estão testando o nosso paladar? (Pena que a divulgação desse single malt genial me pareça inexistente).

    Em um fórum gringo, quando elogiava o Talisker, me foi reconendado o Springbank. Muito curioso para prová-lo.

    BT, Hibiki e irlandeses também nunca provei. Mas que vontade…

    1. Rodrigo, são animais parecidos, mas diferentes. O laga é mais oleoso, defumado e medicinal. Mas concordo, estão no mesmo campo de sabor. Adoraria acreditar que estão testando nosso paladar.

      Prove springbank, Tobermory, Highland Park, Ardmore e a linha defumada da AnCnoc (Rascan, Cutter etc) São destiarias que defumam discretamente seus maltes. E todas incríveis!

      Abraços!

      1. O consumo de Lagavulin nos EUA é bem expressivo; em NYC então domina. Acredito que seja por isso, e pelo fato de o brasileiro dar preferência aos blendeds. Tenho comprado o Talisker 10y direto da Diageo/TheBar.com, e também o Laphroaig Q Cask, este no ML mesmo, muito bom, por sinal. No ML se pode comprar o Laga16, mas está muito caro. O problema no nosso país é o nosso país…

  2. Lagavulin é desejo antigo, quando consegui duas garrafas 20 anos atrás e nunca mais desde então. Pura lembrança de um prazer único, que na falta dele, matei com outros single malts. E os Suntory é curiosidade pura. Falam tão bem!

    1. Paul, Lagavulin você pode conseguir, com alguma sorte, em mercados de países vizinhos, como Argentina. Os suntory tem tido distribuição cada vez mais “retraída”. Estratégia da própria empresa, que têm focado em mercados mais relevantes. E adivinhe – não estamos entre eles.

  3. Como vai, mestre?
    Excelentes sugestões, mas tenho que fazer uma menção especial ao Longrow e uma especial³ ao Lagavulin. Este último que vou ter que dar um jeito de adquirir hahaha. Impressionante como ficamos defasados por aqui, perdendo até mesmo para países vizinhos com mercado bem menores. Li uma vez que o Lagavulin é tão vendido, que a destilaria nem se preocupa em enviar ao Brasil, preferindo manter o atendimento aos mercados que já contam com ele. Quem sabe uma política de redução aos absurdos impostos não mudaria todo esse cenário? Infelizmente, ficamos só na imaginação.

    Grande abraço!

    1. João Pedro, verdade. É que os blended malts da Grouse não apenas saíram do Brasil como deixaram de ser fabricados pela Famous Grouse. Então, bom, ele faria parte de uma lista de “seis whiskies que fazem muita falta no mundo”…rs

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