Das Aves – Wild Turkey 101 Bourbon

Ah, a águia de cabeça branca. Um animal belíssimo, forte e atoz. No topo da cadeia alimentar, ela é temida e respeitada por todos. Não é a toa que foi o animal escolhido para representar os Estados Unidos da América, o maior poderio bélico do mundo, e um país completamente obcecado por poder.

Mas mesmo antes, a águia – e outras aves de rapina de diferentes tamanhos – já era utilizada como um símbolo de força. O império bizantino possuía uma águia de duas cabeças como seu emblema, que, mais tarde, foi adotada também por Ivan III, da Rússia. E no oriente médio, a conhecida Águia de Saladino tornou-se o brasão de armas da Palestina e do Iraque. No Egito, o falcão era a representação antropozoomórfica de Horus.

Mas não foram apenas nações que adotaram esta imponente ave de rapina como seu símbolo animal. Muitas empresas e organizações também o fizeram. A American Eagle Outfitters, por exemplo. A Eagle Pharmaceuticals. E claro, como não poderia faltar, o bourbon whiskey Eagle Rare. Nada mais apropriado. Somos naturalmente induzidos a relacionar poder e força a este animal – valores bem buscados por corporações.

Uma escolha bem menos óbvia, porém, é o peru selvagem. O peru selvagem é um bicho grande, meio desajeitado, meio feio e meio bonito, mas bem brega. Um bicho que não é muito bom em nada, exceto no prato. E, finalmente, um animal que – ao menos na língua portuguesa – possui um sentido meio ambíguo. Um bicho que quase qualquer pessoa relacionaria mais com farofa e uvas passas do que com um símbolo de poder.

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Acontece que o mundo do whisky parece ter uma estranha fixação com o peru. Não estou falando de nada freudiano aqui. Mas simbólico mesmo. Na Escócia, temos a famosa Famous Grouse (tá, eu sei, é um tetraz). E na terra da águia de cabeça branca, há a Wild Turkey, uma das mais conhecidas marcas de whiskey americano, e hoje pertencente ao Grupo Campari.

Talvez você tenha se perguntado por que alguém batizaria seu whisky de peru selvagem. Bem, a história da Wild Turkey começa em 1891, quando um cavalheiro chamado Thomas Ripy construiu a Old Hickory Distillery na cidade de Tyrone, no Kentucky. A destilaria operou até a época da Lei Seca, quando fechou suas portas. Com a queda da proibição, a família de Ripy passou novamente a produzir whisky, e vender a grandes lojas. Por enquanto, não havia qualquer relação com nenhum peru.

Entra em cena Thomas McCarthy, presidente da Austin Nichol’s, importante loja da década de 40, que vendia o bourbon produzido pela Old Hickory. Reza a lenda que Thomas uma vez levou algumas garrafas para uma sessão de caça ao peru selvagem com amigos. E seus confrades gostaram tanto do whiskey que passaram a pedir a ele “aquela garrafa do peru”. O nome pegou, e acabou sendo adotado pela destilaria. A expressão escolhida por Thomas e venerada por seus amigos era, justamente, o Wild Turkey 101, tema desta prova.

O Wild Turkey 101 é, talvez, até hoje, o mais conhecido whiskey do portfólio da marca. Possui graduação alcoolica de 50% – bem alta para um bourbon em sua faixa de preço – e é composto por milho (75%), centeio (13%) e cevada maltada (12%). Ele é maturado em barris de carvalho americano virgens e torrados. A torra – de nível quatro – aliás, é a mais intensa possível. O whiskey sai das barricas com graduação alcoólica bem semelhante àquela do engarrafamento. 54,5%. Ainda que ele não possa ser considerado “barrel proof”, em que não há qualquer diluição, o Wild Turkey 101 chega bem perto disso.

Apesar do galináceo no rótulo, a Wild Turkey passou por uma revitalização recente. A identidade visual da marca foi atualizada, e Matthew McConaughey foi nomeado seu diretor criativo. O ator inclusive dirigiu alguns curta-metragens para a marca. A estratégia assemelha-se àquela da Jim Beam, que contratou Mila Kunis como sua face exposta. O que, naquele caso, não fez muita diferença para a marca e nem para a Mila, exceto pelo fato de que há uma certa satisfação meio lasciva em vê-la bebendo bourbon.

Hum hum, não, só funciona com a Mila mesmo.

 

O Wild Turkey 101 possui sabor adocicado e ao mesmo tempo picante, com caramelo e mel. O final é médio, seco e também picante. O álcool é um pouco agressivo – mas muito menos do que se poderia esperar de um whiskey com sua graduação alcoólica e faixa de preço. É um bourbon whiskey que funciona tanto para ser tomado puro quanto para coquetelaria, onde sua graduação alcoólica elevada é muito bem vinda.

Se você gosta de bourbon whiskeys com alta octanagem, ou se está procurando alo com perfil de sabor versátil para utilizar em seus coquetéis, o Wild Turkey 101 Bourbon é uma excelente opção. Pode ser que ele não seja lá tão imponente quanto certas águias. Porém, é um peru com tradição, qualidade e preço de combate. Um peru capaz de brigar até com a mais imponente ave de rapina.

WILD TURKEY 101 BOURBON

Tipo: Bourbon Whiskey

Marca: Wild Turkey

Região: N/A

ABV: 50,5%

Notas de prova:

Aroma: Caramelo, açúcar mascavo, bala de avelã.

Sabor: Caramelo e mel, açúcar mascavo, um certo frutado adocicado. Final longo e picante, com álcool relativamente aparente, mas não excessivamente agressivo.

Com Água: A água reduz um pouco a impressão picante.

5 thoughts on “Das Aves – Wild Turkey 101 Bourbon

  1. Como vai, mestre?
    Eu gosto do Wild Turkey 81 e acredito que gostaria mais ainda do 101.
    É um tanto trágico e talvez cômico a marca, mas considero um Bourbon bem sólido haha.
    Alguma previsão de analisar o Rare Breed? Eu vi este para vender outro dia e estava bem avaliado, além de ser provavelmente o mais próximo de um Cask Strength que vou chegar.
    Abraço!

    1. Mestre, recebi um bom numero de pedidos para falar do Rare Breed. Engraçado que nem está à venda no Brasil, mas o pessoal encantou. Vou tentar arrumar uma garrafa para providenciar um review! 🙂

  2. Buenas, Cão! Mais um review extremamente agradável de ler! Qual a sua escolha, entre a expressão 101 e a 81?

    1. Fala Fabiano! Dessa vez não vou ficar em cima do muro, meu caro. 101. É um whiskey bem mais interessante e com mais personalidade. Ainda que o 81 não seja ruim.

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