Drink do Cão – Flying Scotsman

Há uns cinco anos atrás viajei para o Peru com a querida Cã. Uma viagem que no papel parecia no máximo interessante, mas que superou muito minhas expectativas. Muito provavelmente porque, também, eu não tinha tantas expectativas assim. Aliás, talvez este seja o segredo para a repentina alegria. Não esperar nada. Nunca. É como aquele whisky barato, que não promete muita coisa, mas entrega o mundo.

Mas estou a digressionar. De volta à viagem que muito me surpreendeu. Fiquei apaixonado pelas ruínas de Macchu Picchu – ainda que ruínas de civilizações antigas não sejam muito minha preferência – e adorei voar sobre as linhas Nazca. Mas o ponto alto, o melhor mesmo, foi a viagem ferroviária entre Cuzco e Aguas Calientes, à bordo do Hiram Bingham. Um trem incrível, decorado no estilo dos Pullmans da década de vinte, que conta com um vagão-bar, inteiramente de vidro. Achei aquela ideia magnífica. Era a união de três elementos: a tontura causada pelo mal de altitude, o sacolejar do vagão sobre os trilhos e um balcão open-bar de coquetéis. A receita perfeita para um Cão confortavelmente trôpego.

Ah, mas infelizmente tinha música ao vivo.

Achei aquela a melhor experiência que alguém poderia ter sobre trilhos. Quer dizer, até descobrir que a mesma empresa que operava aquele comboio também possuía outra locomotiva. Na Escócia. É o Royal Scotsman, criado com base em outro incrível trem, o incrível Flying Scotsman. E será sobre ele – e sobre o coquetel em sua homenagem – que falarei hoje. Mais sobre o trem do que sobre o coquetel, mesmo porque há poucos registros sobre este último.

Considerado por muitos como o mais famoso trem de todos os tempos, o Flying Scotsman (em uma tradução direta, o Escocês Voador) entrou em serviço em 1862, como ligação entre as cidades de Edimburgo e Londres e uma parada na cidade de York, para o almoço. Em meados de mil oitocentos e oitenta, ele foi modernizado e reformado. A viagem inteira, que originalmente levava pouco mais do que dez horas, passou para oito horas e meia. Tempo suficiente para comer bem e se embriagar.

Talvez você esteja se perguntando quão veloz era a locomotiva, para levar este sugestivo nome. Bem, sua incrível velocidade era de, aproximadamente, cento e vinte quilômetros por hora. O que na nossa realidade não parece muita coisa, mas que era algo fora do comum no começo do século XX. Porém, com o avanço tecnológico, e a medida que o tempo passava, as locomotivas foram reformadas ou mesmo trocadas. Atualmente, a máquina a vapor cedeu espaço para uma elétrica, e a viagem passou a ser feita em menos de quatro horas.

O clássico trem

A conexão entre o trem e o coquetel é um mistério. Poderia dizer que ele fora criado no bar sob trilhos que leva seu nome. Mas isso seria apenas uma conjectura. O que sabemos é que o Flying Scotsman é uma versão um pouco diferente de outro coquetel que leva scotch whisky. O Rob Roy.  Como a expectativa – e quase tudo na vida – o importante é a dosagem. A receita mais conhecida pede duas partes iguais de vermute e whisky, com apenas 1/4 de colher de chá de calda açúcar. O que já é bem pouco. Porém, o dulçor dos vermutes disponíveis no mercado varia bastante. Assim, teste e adapte a receita para seu gosto, sem temor. Um vermute mais doce demandará ainda menos calda, já um mais seco exigirá mais calda.

Assim, prezados leitores, preparem-se para embarcar em um coquetel que faz jus às mais incríveis viagens férreas de todos os tempos. E podem manter as expectativas altas. Ele é excelente.

FLYING SCOTSMAN

Antes de explicar o preparo, é preciso advertir. Há uma bifurcação no trilho de sua escolha. A forma mais frequente de serviço deste coquetel é em uma taça coupé ou de martini. Mas você pode preferir servi-lo em copo baixo com uma pedra grande de gelo, ou algumas menores, à moda de um negroni ou Old Fashioned. O que faz sentido também. Ninguém irá te repreender. Dê asas a seu escocês voador.

INGREDIENTES

  • 1 e 1/2 dose de scotch whisky (pode ser o blended whisky que preferir. Note que whiskies mais adocicados, como os Chivas Regal ou o Johnnie Walker Red Rye demandarão reduzir a calda de açúcar. Este Cão recomendaria algo como um Johnnie Walker Black Label ou até um Teacher’s)
  • 1 e 1/2 dose de vermute tinto (Este Cão usou o Miró Etiqueta Negra, bastante seco e um pouco ácido. Se utilizar um vermute adocicado – como o Martini Rosso, por exemplo – também será necessário diminuir o açúcar para atingir o equilíbrio).
  • 1/3 colher de chá de calda de açúcar (aprenda a prepará-la aqui)
  • 2 dashes (sacudidelas) de Angostura Bitters
  • gelo (bastante. Sério)
  • copo baixo, taça coupé ou de martini
  • strainer
  • mixing glass

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes em um mixing glass – ou algum recipiente para misturar – com bastante gelo. Mexa, com o auxílio de uma colher bailarina ou algo equivalente.
  2. Desça o coquetel coado (com ajuda de uma peneira ou strainer) em uma taça coupé ou de martini, ou no copo baixo com gelo, conforme sua escolha.

 

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