Como (não) escolher um whisky – Do Storytelling

Este, talvez, seja o post mais metalinguístico já escrito neste blog. Há alguns anos, uma marca conhecida de sorvetes recebeu um puxão de orelha abstrato por conta da história estampada em suas embalagens. História que, para usar um eufemismo, eram uma versão alternativa da verdade, com personagens fictícios. Tipo aqueles filmes como Rain Man e American Hustle – que aconteceram mais ou menos daquele jeito, mas com gente mais feia. Só, que no caso da tal fabricante de picolés, não tinha a Amy Adams e o Tom Cruise.

Enfim, aconteceu que, após a revelação de haver poucos pontos de tangência entre a realidade e a história do antepassado do fundador, a empresa achou melhor tirá-la do ar. Apagou a memória do velhinho que jamais existiu, deu uma explicação semelhante àquela que minha filha quando tenta explicar por que não fez a lição de casa e seguiu em frente. Mas, do caso, extrai-se uma lição óbvia – contar uma história, de preferência uma com lampejos de verdade, é importante. E não só com picolés. Em tudo, na verdade. Quando enrolo você, querido leitor, por três breves parágrafos com algum assunto aleatório antes de falar sobre determinado whisky, quero, na verdade, afinar o tom da prova por meio daquela analogia.

Ou isso.

Com whiskies, este storytelling é importante também. Não se trata apenas de uma historinha bonitinha, romantizada, que irá lubrificar seu interesse e fazer com que escolha uma garrafa em detrimento de outra. Bem, é isto também, e o resultado final é este. Mas, na verdade, é bem mais. É a coisa mais essencialmente humana que há – identificação. Quando você escolhe uma garrafa de Bruichladdich porque eles são obcecados por terroir – mas assumem que padronização não é o forte – ao invés de um The Macallan, que fala sobre padrão de qualidade e luxo, há um julgamento de valor. Ou não também, porque às vezes você é só um maluco que pensa que degustar é um numbers game.

Na maioria das vezes, há um juízo. Um juízo baseado em conhecimento ou identificação. A paixão por whiskies raramente é algo racional – fosse assim, beber qualquer coisa funcionaria bem. Pelo contrário, ela trata de experiências e conceitos. Você pode gostar de The Glenlivet por ter sido uma das destilarias pioneiras da Escócia, ou dos blends da Suntory por terem introduzido o whisky no Japão. Pode gostar de Bruichladdich pela transparência, e de Springbank pela autenticidade e ligação com os métodos mais artesanais e tradicionais de produção. Storytelling pode ser um papo vazio de marketing, claro. Mas, pode também, transmitir valores reais, que contextualizam aquilo que está no seu copo.

E há, também, aqui, a faceta pessoal. Você pode ser apaixonado por determinada destilaria por algum episódio significante em sua vida. Eu, por exemplo, tenho uma leve queda por Lagavulin, por ter sido o whisky que fez minha cabeça rodar – literalmente – e consolidou minha paixão por whiskies. E Bowmore, claro, como vocês sabem, que me surpreendeu absurdamente durante uma visita à destilaria, e, mais tarde, se mostrou um dos maiores ícones do meu estilo favorito de whisky. Os vínicos e turfados.

A história pode ou não envolver submarinos.

E é por isso também – veja bem, este não é um sofismo – que degustações às cegas geralmente não funcionam. Degustações às cegas servem para remover preconceitos infundados. Como, por exemplo, que whiskies sem idade declarada são todos engodos, ou que blends são piores que single malts. Mas, por focarem totalmente no líquido, removem boa parte da paixão. Um whisky de oito anos maravilhoso é muito mais admirável do que um single malt de três décadas sensorialmente incrível. Na verdade, é como gente – ninguém assistiria aquele programa do Raul Gil cheio de criança se isso fosse mentira.

Simplificando (mas não muito): há um discurso que justifica aquilo que você está para beber. Um whisky no copo é muito mais do que uma combinação de congêneres, etanol, água e talvez E-150. É a culminação do trabalho, conhecimento e posicionamento de todo um grupo. O storytelling, ouso dizer, é metade de toda a importância. Jamais uma história inflamada de qualquer entusiasta começou ou terminou com “eu bebi um whisky extraordinário outro dia em casa, mas, não faço a mais rasa ideia do que ele seja, de onde ele veio ou de seu sabor.” É a pesquisa, o conhecimento e o interesse que valem.

Há, entretanto, uma ressalva. Assim como no caso dos whiskies sem idade declarada (NAS) e quase tudo na vida, o discurso pode ser usado para o bem ou para o mal. Produzir um single malt turfado, sem filtragem a frio e cuja cevada e barris podem ser rastreados até a última gota é algo extraordinário. Assim como manter a qualidade e padrão sensorial de um blend com mínimo de vinte e um anos de idade.

Calma!

O que não é nem um pouco extraordinário é inventar uma historia qualquer que não tenha qualquer relação com a verdade – ou utilizar artifícios linguísticos como “premium” e uma porção de outros que não vem ao caso. Estampar atores ou fazer garrafas em forma de submetralhadora também. A não ser que, claro, o artista seja um grande entusiasta de determinado whisky, como o Nick Offerman com Lagavulin.

Resume, por favor.

Na verdade, tudo se resume a uma única palavra. Autenticidade. O storytelling é importantíssimo. Ele é a razão pela qual escolhemos uma garrafa, e, muitas vezes, o motivo de nossa admiração. Mas, ele, sozinho, não vale. O argumento deve se sustentar sob escrutínio. Todos nós conhecemos a história daquele bourbon que foi criado pelo bisavô de certo empresário, mas na verdade o bisavô sequer existiu – quer dizer, existiu, porque todo mundo tem bisavô, mas não daquele jeito. Ou o rye whiskey feito numa destilaria que não existe, porque é comprado da MGP.

Assim, meu caro leitor, deixe-se levar pela emoção. Ou pela razão, claro. Não escolha apenas pelo sabor. Escolha com base em sua experiência, em seu conhecimento, e em seus valores. Escolha pela afinidade – seja ela qual for. Não há nada mais esclarecido do que isto.

4 thoughts on “Como (não) escolher um whisky – Do Storytelling

    1. Às vezes é né, as vezes não é. Como a vida.

      – Sartre
      (nao, na verdade não é Sartre)

  1. Bom dia!
    Você deve estar cansado de ler coisas do tipo, mas farei questão de engrossar o coro ao parabenizá-lo pelo blog e por seus textos.
    Sou um admirador de longa data da “água da vida” e vez ou outra acesso seu site em busca de novidades, ou simplesmente para me divertir com os recursos linguísticos (como odeio a ausência da trema!) tão bem empregados em seus textos.
    Parabéns, desejo vida longa a você, sua família e a esta deliciosa página.
    Forte abraço!

    1. Caro Ramon, muito obrigado!! Nada de engrossar o caldo ou cansado – é esse tipo de feedback que é nosso combustivel para seguir em frente (e whisky, claro!)

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