Entrevista com Sandy Hyslop – master blender da Royal Salute

Sábado passado fui pegar minha filha numa festinha infantil. Quando ela entrou no carro, notei que estava radiante. Mais do que de costume. Indaguei da razão de todo aquele entusiasmo. É que a festa era de Star Wars, e eu conheci a Leia. Quando crescer, quero ser igual a Leia – respondeu.

Não entendi bem se ela queria ser princesa, controlar a Força, se apaixonar por um malandro ou ser sequestrada por um slime gigante com um tesão meio doentio por fêmeas de outras espécies. Mas, no fundo, compreendi a razão do arrebatamento. A Leia era um ídolo absoluto de minha pequena.

Seria como se, um dia, um entusiasta automobilístico conhecesse Sir Stirling Moss. Ou um aficionado por filmes visse Jean-Luc “Cinemá” Godard. Ou certo admirador das artes plásticas conversasse com Jackson Pollock. Ou, finalmente, um entusiasta de whiskies como este Cão tivesse a oportunidade de entrevistar um grande master blender. Como, diremos, Sandy Hyslop – o diretor de blending da Chivas e responsável pela criação dos Royal Salute.

E foi justamente isso que aconteceu, graças a um incrível convite da Royal Salute. Durante sua viagem para a Coréia do Sul, este Cão teve a oportunidade de entrevistar Sandy, que foi extremamente simpático, e nos contou sobre a reestruturação do portfólio permanente da marca, sua trajetória como master blender e alguns de seus interesses fora do mundo dos whiskies. E é essa conversa que você confere a seguir.

1) Seu trabalho é provavelmente o mais cobiçado por todos os entusiastas do uísque. O que é preciso para se tornar um Master Blender? E como é isto?

É absolutamente fabuloso ser um master blender para a Royal Salute. É uma grande honra para mim ser responsável por um uísque tão prestigiado com uma história e linhagem tão fabulosa.

Para se tornar um master blender, você precisa ter um bom olfato. Você precisa ser um apaixonado por whisky. Você precisa entender que um blender trabalha com todo o espectro do processo de fabricação de whisky. Muita gente acha que um blender está sempre produzindo novos whiskies, trabalhando com whiskies maturados por mais de 21 anos. Mas estou trabalhando desde o dia em que o whisky é destilado. Quando um novo whisky é destilado, ainda que tenhamos gerentes em nossas destilarias, sou eu o responsável pela qualidade do que eles produzem.

Sandy trabalhando

E eu divido minha semana, eu trabalho dois dias em Speyside e três dias em Glasgow. Então, eu cuido do gerenciamento do processo de fabricação de whisky em ambas as extremidades. Eu sou responsável pela qualidade (do new-make), mas também pelos barris que compramos. Portanto, há uma qualidade sobrejacente a ser satisfeita durante todo o processo.

2) Conte-me um pouco sobre as novas expressões, e o que os consumidores devem esperar de cada uma delas. Você revelaria os single malts base de cada uma dessas criações excepcionais?

Absolutamente. É pessoalmente muito emocionante para mim poder introduzir duas novas expressões da Royal Salute sob o meu mandato como um master blender. Porque não é frequente que existam novos lançamentos permanentes adicionados à família de whiskies da Royal Salute.

Obviamente, pretendemos continuar com o clássico Royal Salute (que agora se chama The Signature Edition), que tem sabores ricos, aveludados e frutados. E que é incrível, é super cremoso e suave.

A nova cara do clássico

Nós vamos adicionar a isso (a linha) o Malts Blend, que é realmente emocionante para mim, porque eu acho que para pessoas que bebem malt whiskies, isso vai ser algo especial, porque é muito complexo. Estamos usando uma gama de diferentes single malts.

Estamos usando mais de 21 single malts diferentes na mistura. É complexo. Cada barril é individualmente analisado, e no final você tem algo que é bastante frutado. É como pêssegos e xarope. É bem doce. Assim como aqueles doces cozidos à moda antiga, em uma jarra. E tem um certo apimentado também. É muito luxuoso. Muito sabor, muito concentrado.

O Lost Blend é interessante também. Eu queria que todas as três expressões fossem muito diferentes. Seja o clássico Royal Salute, seja algo concentrado em ricos e frutados (em referência ao Malts Blend).

Então para o Lost Blend, eu queria ter um pouco de nozes e tempero, mas eu também queria que fosse esfumaçado. Estamos usando algumas destilarias que não existem mais misturadas com outras destilarias. Então, tem alguns uísques muito raros em sua composição. Há whiskies como Imperial, Caperdonich e Dumbarton Green entre muitos outros no Lost Blend.

Por isso é chamado de Lost Blend?

É por isso. Porque tem algumas destilarias que são silenciosas, não existem mais, maltes que são realmente difíceis de encontrar.

Eu também queria que (o Lost Blend) tivesse alguma sensação tradicional. Eu queria que ficasse um pouco de fumaça, mas também usei um pouco mais de madeira tradicional, alguns hogsheads (barricas) e botas (butts, de sherry) em vez dos barris de carvalho americano. Por isso ele também tem aquele maravilhoso tipo de sabor de avelã.

Já o Malts Blend usa mais carvalho americano. Tem Strathisla na mistura, também Longmorn. Alguns maltes verdadeiramente clássicos. Mas, obviamente, sendo um blended malt, ele foi para o lado frutado. Absolutamente fantástico se você quiser misturá-lo. Nós vamos tomar um coquetel (com ele) hoje à noite. É incrível, será sem dúvida o coquetel mais luxuoso que você jamais terá.

Curioso que o Lost Blend é turfado. No portfólio da Pernod, há algum malte turfado?

Atualmente, temos o Allt-a-Bhainne. Nós turfamos Allt-a-Bhainne. Mas também trocamos (maltes) com nossos concorrentes todos os anos. Na Escócia, não gostamos de comprar, não gostamos de gastar dinheiro. Então nós trocamos para obter sabores extras. Para mim, é como comprar ingredientes extras para o portfólio. E nós os trazemos como new-make spirit, nunca os compramos maturados. Nós os compramos novos e os colocamos em nossos próprios barris, e administramos o sabor desde o primeiro dia. Portanto, temos controle total desde o início. Isso torna o resultado final muito mais fácil.

Blends de luxo tendem a receber críticas de whisky geeks, especialmente aqueles que apreciam single malts mais do que blends. Qual a sua opinião sobre tal preconceito?

Eu acho que single malts, bem. Se você gosta de um tipo particular de sabor, você vai adorar single malts, e você será atraído para esse sabor o tempo todo. Mas eu acho que algo como um blended malt da Royal Salute é muito mais complexo do que um single malt. Vai ser muito mais multidimensional, tem muito mais camadas de sabor quando você bebe esse uísque. Não será apenas uma explosão de um sabor particular. Você terá doçura, um pouco de frutas cítricas, e o nível de finalização que você terá – quando o uísque começar a desaparecer no paladar – é muito maior. Um pouco de fumaça lá também.

É sobre equilíbrio, complexidade e suavidade também. Você pode alcançar um ótimo nível de suavidade, juntando todos esses maltes diferentes.

Whiskies sem idade declarada são uma tendência na indústria de whisky. No entanto, a Royal Salute permaneceu fiel à idade mínima de 21 anos. Você prevê isso no futuro?

Absolutamente. É a referência da Royal Salute. Se fôssemos fazer algo que não tivesse 21 anos – o que não temos hoje – teria que ser algo bem especial. Seria algo de um barril muito exótico.

Eu acho que nossos consumidores entendem a qualidade. Há 21 anos, estabelecemos o estoque e nos comprometemos a fazê-lo. É o único uísque no mundo que está continuamente disponível com 21 anos de maturação desde 1953. Nenhum outro whisky conseguiu isso.

E há alguns whiskies no mercado que têm uma imensa reputação, mas em nenhum deles há a garantia de que cada gota dentro da garrafa possua 21 anos. E isso é o mínimo. Este ano estou usando whiskies de 21 a 25 no blend. Então, há uma mistura de idades nesse blend, mas cada gota tem mais de 21 anos de idade.

Por último, uma questão mais pessoal. Eu vi o seu Instagram. Então, Nissan Cubes e relógios. Quaisquer outras paixões / hobbies?

Oh, eu realmente amo o formato deles ( dos Nissan Cubes), eu acho que eles são realmente estilosos. No Japão eu vi muitos deles, e senti que tinha que ter um. Então aquele veio de Tóquio. E ele tem rodas azuis. Minha esposa não gosta tanto das rodas azuis. Ela diz para mim “o carro é okey, mas ele tem que ter rodas azuis?”

Meu pai tinha seu próprio negócio de antiguidades, então, colecionar antiguidades e coisas antigas está realmente no sangue. Eu tenho muitas coleções de coisas. Eu tenho canetas, sou um acumulador. E enlouqueço minha esposa trazendo coisas que comprei em minhas viagens. Às vezes eu deixo (a coisa) na garagem primeiro, e depois de alguns dias eu vagarosamente introduzo na casa.

Essa é uma boa estratégia!

É, funciona!

7 thoughts on “Entrevista com Sandy Hyslop – master blender da Royal Salute

  1. Fico muito feliz de ver um conteúdo de tamanha qualidade e tão informativo em nosso idioma, mestre!
    Excelente trabalho e muito legal ter a visão de cada fase do processo, através dos olhos do Master Blender. Algo que acompanho em alguns perfis no IG, por exemplo.
    O Royal Salute contém só destilados de malte?

    Grande abraço e parabéns pela entrevista. Bom, eu mesmo já me imaginei um Master Blender hahaha

    1. Opa, muito obrigado, mestre.

      Não, não. Dois são blends classicos, com whisky de grão. Outro, o Malts Blend, leva apenas destilado de malte!

  2. Como foi a passagem de Comando do grande Collin Scott para o senhor Sandy Hyslop ? Ms Hyslop foi disciplo de ms Scott e aprendeu a fina arte ? É lenda ou é verdade que os experts de uma marca não viajam juntos num mesmo avião? Uma fatalidade não condena junto o sabor de uma marca de séculos de idade e bilhões de libras ?

    1. Haha, mestre, não sei bem se eles não viajam juntos. Na verdade, a rotina deles é bem diferente, então não vejo por que viajariam juntos.

      Na verdade foi um remanejamento de todas as funções na Pernod. Sandy é uma espécie de diretor de blending. É uma posição diferente da de Colin!

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