Starman – Johnnie Walker Black Label

 

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Talvez eu tenha más notícias. Quer dizer, más notícias caso você seja um extraterrestre, um ermitão, ou tenha se isolado em um local sem internet, televisão, rádio ou telefone pelas últimas três semanas. Mas, olha, eu duvido que você já não saiba o que vou dizer. Afinal, você está lendo este post, o que indica que há uma conexão ativa entre vossa senhoria e o mundo exterior. De qualquer forma, aí vai.

David Bowie faleceu.

E nem me venha falar que isso não faz diferença, e que você nem gostava tanto de David Bowie assim. Porque até pode ser que você não seja um apreciador de suas músicas, mas sua influência em nossa sociedade é absolutamente incontestável. O homem por trás de Ziggy Stardust antecipou e criou tendências na música, na moda e na cultura de nosso tempo. Aliás, Bowie era um camaleão de tendências, adaptando-se com maestria e potencializando-as como ninguém.

Ainda bem que nem todas as modas pegaram.
Ainda bem que nem todas as modas pegaram.

Bowie vendeu mais de cento e quarenta milhões de gravações ao longo de sua vida. Ganhou nove álbuns de platina, onze de ouro e oito de prata. Atuou em grandes sucessos, como O Grande Truque e Labirinto e compôs canções antológicas, como The Man Who Sold the World, Heroes, Under Pressure, Ashes to Ashes, Life on Mars, Modern Love, Ziggy Stardust, Starman e minha preferida, Space Oddity. Sob o alter ego de Ziggy Stardust, o compositor lançou The Supermen e Ziggy Stardust. Bowie era o cara. Mesmo quando ele estava se passando por outro cara.

Então, meu caro, se você me disser que não gosta do David Bowie, é melhor que você realmente saiba do que está falando.

No mundo dos whiskies, o mesmo vale para o Johnnie Walker Black Label. O Black Label é, sem a menor sombra de dúvida, o whisky mais conhecido do mundo. Ele está por toda parte. Ele estava naquela festa de casamento que você foi, no restaurante que você jantou, na prateleira do supermercado em que você fez suas compras do mês e – porque não – na dispensa da sua casa. Mas este sucesso não é gratuito.

Ele é um blended whisky composto por mais de quarenta single malts e grain whiskies. Todos eles – sejam eles single malts ou de grãos – devem ser maturados por um mínimo de doze anos. Os single malts mais importantes em sua composição advém das destilarias Cardhu, Talisker e Lagavulin (a mesma destilaria que alimenta o coração do White Horse). E ainda que a Diageo anuncie que Talisker é seu núcleo, a língua deste Cão suspeita que seja Cardhu.

Talvez isso se dê porque, ao longo do tempo, a fórmula do Black Label foi sendo alterada. Acontece que blended whiskies dependem de disponibilidade dos single malts que o compõe. Além disso, o objetivo de um blended whisky é que haja constância. Assim, sua composição pode ser alterada em prol do sabor final, caso, em determinada época, certo single malt esteja rareando. E não há nenhum mal nisso. Assim como Bowie, o Black Label deslizou irrepreensível por décadas de vida.

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Sério mesmo?

Aliás, uma vida bem longa. O Black Label foi criado há mais de um século. Mesmo antes da Johnnie Walker se chamar Johnnie Walker, ele já existia. Seu nome era Walker’s Old Highland, mais tarde rebatizado de Extra Special Old Highland. Foi apenas em 1909, quando a companhia já estava sob o comando de Geroge e Alexander Walker, netos de John Walker, que o whisky recebeu o nome que tem hoje.

Além de estar em toda parte, ele é também uma celebridade incontestável. Ele fez aparições em filmes como Blade Runner, Tinker Taylor Soldier Spy (O Espião Que Sabia Demais) e O Clube de Compras Dallas. Mais filmes bons do que o Nicholas Cage fez em toda vida dele.

Entre os prêmios mais recentes, Johnnie Walker Black Label recebeu classificação de ouro liquido pela Jim Murray’s Whisky Bible de 2014, e conquistou medalha de ouro na Scotch Whisky Masters do mesmo ano.

E tudo bem, você tem todo o direito de não gostar do Black Label. Mas, admita, ele merece respeito. Ele é provavelmente o primeiro whisky que passa a ser tratado com desprezo quando se começa a experimentar single malts. Mas é também o primeiro que volta a ser admirado quando atingimos uma certa maturidade de gosto pela bebida. Ele é o eterno porto seguro, que sempre estará lá, em constante transformação, mas sempre excelente.

O Black Label é realmente o David Bowie dos whiskies.

JOHNNIE WALKER BLACK LABEL

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 12 anos

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: especiarias, levemente frutado e defumado.

Sabor: frutado, levemente cítrico, com baunilha e nozes. Sabor residual defumado e de especiarias. É incrível como ele funciona bem, mesmo puro.

Com água: A água torna o whisky menos frutado e aumenta a impressão de defumação e dulçor. Funciona bem com água também (veja só!).

Preço: R$ 160,00 (cento e sessenta reais)

 

14 thoughts on “Starman – Johnnie Walker Black Label

  1. Outro texto dulcíssimo de se ler.

    O Black Label é muitas vezes encarado como aquela canção da moda – toca de cinco em cinco minutos e, por alguma razão cerebral, passa-se a detestá-la, Hello?

    Mas, a verdade é que a banalização do bom whisky fora acelerada pelo processo do ‘boom energético’. Não me leve a mal, vez ou outra faço um drink com as duas bebidas.

    Entretanto, a juventude alucinada e ‘ostentadora’ acredita ser irrepreensível e indispensável o consumo de whisky com energético e, o alvo preferido para isso é o Black Label.

    O Double Black veio para mostrar que o rótulo tem poder, amplitude, capacidade (não repare, Double Black é um dos preferidos da minha lista) e deve ser tratado com carinho.

    Realmente deixamos o Black Label um pouco de lado quando começamos a subir a escada ‘evolutiva’ do whisky, realmente nos irritamos em vê-lo em toda mesa de bar, realmente nos causa pavor observar a variação de preço dos últimos 10 anos (pagava-se menos de R$ 100,00 a garrafa).

    Mas ele é aquele amor antigo, guardado. Você deixa de lado, mas quando precisa faz bem relembrar. É a famosa amiga step – quando não existe nada disponível, os dois se beneficiam.

    1. Exatamente. Acho que deve ser encarado sem preconceito. Na verdade, tudo, né? É importante ter a ruptura do “status quo” para descobrir mais, entender mais, pesquisar mais. Mas ele continua sendo o benchmark de tudo. Não é porque agora sabemos o que estamos bebendo (mais ou menos) que o Black Label, que era ótimo, ficou com sabor ruim. É o mesmo sabor. E continua ótimo.

  2. Se o Cardhu, que eu adoro, é a alma do Black Label, fico imaginando o que é o Strathisla, que é a alma do Chivas Regal 12 anos, o meu blended 12 anos preferido.
    Existe para alguns uma certa rivalidade entre o Chivas 12 e o Black Label. Dizem que quem gosta de um não gosta do outro. Bobagem. Gosto dos dois, principalmente o que estiver mais à mão, mesmo preferindo o primeiro. Isso me faz lembrar que na minha adolescência (eu sei, faz tempo) havia uma certa rixa entre Beatles e Rolling Stones. Se dizia na época que quem gostava de um não deveria ou poderia gostar do outro. Em sã consciência dá pra dizer que os Fab Four são melhores ou piores do que os Stones? O que vale mesmo é ‘Satsfaction’ ‘Eight Days a Week’.

    1. Concordo plenamente Antonio, ainda que minha preferência seja, de leve, pelos Rolling Stones! ahahaha. Acho, entretanto, que as duas bandas são excelentes, e não existe uma melhor. Existe gosto.

      O Strahisla lembra mais o Chivas 18 do que efetivamente o Chivas 12. É um whisky excelente. Se for viajar e passar por algum duty free, procure uma edição especial do Chivas 12 chamada “Brother’s Blend”. Ela leva mais Strahisla na composição. Aquele sabor floral que você sente no Chivas é dele.

  3. Primeiramente, parabéns pelo post, mais uma vez, muito bom!

    Sou novo e com pouca experiência no mundo do whisky, e seu penúltimo parágrafo descreveu muito bem minhas impressões. Comecei a “torcer o nariz” para o Black Label depois de começar a provar single malts, mas, como blended de 12 anos, ainda prefiro o Chivas (ainda mais se pegar uma promoção boa kkkkkkk). O Black Label tem seus méritos, e deve ser respeitado por isso, pena que seu consumo foi banalizado por essa onda de “ostentação”.

    1. É isso aí, Marcelo!

      Eu gosto também bastante do Chivas 12. É um ótimo custo-benefício. Já provou o Chivas Extra?

  4. Sou iniciante na arte do whisky, e ainda não tenho gabarito para avaliar como meus ilustres companheiros que sempre comentam neste site. Sendo assim tenho uma pergunta: é possível elencar, no atual cenário, os melhores 12 anos de prateleiras de mercado? Obrigado e parabéns pelo texto.

    1. fala Marcus, tudo bem?

      Meu caro, impossível, por dois motivos. Primeiro: a idade não é tão relevante. Eu poderia dizer que um Balvenie 12 anos ou um Macallan 12 Fine Oak é muito melhor do que um Ballantine’s 12. Mas essa comparação seria justa? Um deles é um single malt que custa 300-400 reais. O outro, um blend que não chega aos R$ 200,00. A história fica ainda mais surreal se você pensar que o MAcallan Sienna (que nem idade estampada no rótulo tem) custa mais de R$ 600,00.

      Em segundo, porque MESMO que eu elencasse, isso refletiria meu gosto pessoal. Que não tem nada a ver com a qualidade da bebida, ou custo-benefício. Apenas o quanto um whisky me agrada. Só que gosto é como derriére, todo mundo tem um diferente. Então, minha opinião não é boa para nada. Aliás, é ruim: eu estaria impondo para você algo. O melhor caminho é experimentar e criar, por si, seu gosto. Vá atrás do que tem curiosidade e não tenha muito medo de errar. Whisky é como pizza (e outras coisas) – mesmo quando é ruim, é bom.

  5. Caro Maurício,

    Você tem total razão, o Black Label tem sim seus encantos . Muito fácil de beber mesmo puro , com aquele sabor defumado no ponto .

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