O que é uma Ghost Distillery – O Cão Historiador

Apologias. Mais uma vez, falarei de cinema. E eu sei que às vezes parece que isso aqui é um blog sobre filmes ao invés de whisky. Mas a analogia é boa demais para ser desperdiçada sob alegação de extenuação. Temo, aliás, que o pedido de perdão seja duplo – porque a relação também é tão direta que é até óbvia. O filme Parte dos Anjos, de Ken Loach.

Parte dos Anjos conta a história de um grupo de jovens marginalizados, que descobre o prazer de degustar a água da vida. E que, por conta de uma série de coincidências, fica sabendo de um raríssimo barril de whisky, de uma destilaria há muito demolida. Malt Mill. Sabendo como whiskies raros são valiosos, o time traça um plano para furtar algumas garrafas e vender no mercado paralelo.

O filme de Loach, neste aspecto, é de uma sutileza incrível. Personagens reais do mundo do whisky, como Charles MacLean, estão perfeitamente incorporados à história a ponto de parecerem ficcionais. E o mesmo acontece com o objeto de desejo e pivô de tudo. A Malt Mill.

A obra inteira de Ken Loach, aliás, tem um curioso paralelo com o tema ora apresentado. O cineasta, nascido no Reino Unido, apresenta em quase todas as suas películas uma imagem não romantizada do que é seu país. De Ventos da Liberdade (quiçá seu filme mais conhecido) a Eu, Daniel Blake, Loach mostra a desgraça de guerras civis à falência de políticas sociais sob um enfoque desagradavelmente realista. Algo que impactou também na indústria do scotch whisky. Afinal, destilarias, como qualquer negócio, estão propensas às condições socioeconômicas de seu país.

É difícil para nós imaginar, no cenário atual, uma boa razão para qe uma destilaria encerre suas atividades. Afinal, atualmente, o whisky escocês é uma das bebidas mais conhecidas e queridas do mundo. Mas a ascensão ao sucesso não foi linear. O scotch whisky passou por maus momentos durante sua história. E, em diversas situações, para que determinado grupo ou companhia sobrevivesse, foi necessário o sacrifício de uma ou mais destilarias. São a estas, desativadas, demolidas ou (raras vezes) explodidas que damos o nome de Ghost Distilleries, ou Silent Stills (alambiques silenciosos). Vamos contar a história de algumas delas e as razões por trás de suas quedas aqui.

A começar pela Malt Mill, objeto do filme de Ken Loach. A destilaria fora fundada em 1908 por Peter Mackie, proprietário também da hoje desejada Lagavulin. Naquela época, era sua empresa, a Mackie & co., que distribuía os maltes de uma de suas vizinhas, a Laphroaig, por conta de uma parceria comercial. Uma parceria que ruiu quando em 1907 – um ano antes da fundação da Malt Mill – a Laphroaig resolveu realizar a venda de seus produtos por conta própria.

Enraivecido, Mackie tentou sabotar seu vizinho de infinitas formas – chegou, até mesmo, a bloquear o fornecimento de água para a Laphroaig. Por fim, num acesso de raiva tão estúpido quanto pródigo, construiu uma destilaria inteira igualzinha à Laphroaig, somente para tentar tirá-la do mercado. Esta destilaria era a Malt Mill. A ideia – obviamente – deu errado, e, em 1962, a Malt Mill foi demolida e seus equipamentos incorporados à Lagavulin.

A garrafa de Malt Mill (e eu, subliminar).

De legado, sobrara apenas uma pequena garrafa de new-make, que é atualmente orgulhosamente apresentada no centro de visitantes da Lagavulin. Não havia, até pouco, qualquer registro de um engarrafamento de Malt Mill – exceto por seu uso em blends da companhia, com White Horse e Mackie’s Ancient Scotch. Por conta disso, aliás, que o mercado internacional valoriza White Horses da década de sessenta e setenta. Pela possibilidade de conterem Malt Mill. Nenhum barril foi preservado – e a descoberta ficcional de um que serve de pano de fundo para o filme de Loach.

Mas houve (e há) uma infinidade de motivos que fizeram com que uma destilaria absolutamente saudável interrompesse sua produção e se tornasse apenas parte da história. Um deles foi Pattinson’s Crash de 1896. No final do século dezenove, o cenário do whisky parecia o atual. Investir em garrafas de whisky caras e raras havia se tornado uma tendência, e diversas empresas foram abertas para explorar este nicho de mercado.

Dentre elas, estava a Pattison, Elder & Company. De acordo com uma matéria do historiador de whiskies Gavin D. Smith, seus sócios utilizaram de diversos subterfúgios pouco honestos para inflar o valor de seus estoques e sua empresa. Porém, em 1896, a companhia começou a entrar em default – e as práticas vieram a tona. Ao declarar falência, mais de uma dezena de outras empresas do ramo foram com ela – em parte por serem credores daquela, e, em parte, pela perda de confiança do mercado no scotch whisky.

E embebedar papagaios era de boa

Mais dramas seguiram. Alguns deles, fatores históricos externos, como o Volstead Act, que dizimou as destilarias de Campbeltown, por exemplo. Ou as duas grandes guerras. Foco na Segunda Guerra Mundial, quando dezenas de destilarias interromperam sua produção para auxiliar na fabricação de combustível e insumos para guerra. A Laphroaig foi uma das atingidas, por exemplo. A destilaria somente existe hoje por conta da genialidade de sua proprietária na época, Bessie Williamson (leia mais sobre isso aqui).

Outras vezes, a derrocada de uma futura Ghost Distillery se deu por elementos inerentes a indústria e ao mercado de consumo. Como, por exemplo, a queda de popularidade do scotch whisky em favor da vodka nas décadas de sessenta e setenta do século vinte, aliado ao excesso de produção da indústria. Isso, aliás, foi o fenômeno responsável por silenciar destilarias que hoje fazem parte da imaginação romântica de todo entusiasta – Port Ellen, Brora e Rosebank. Cada uma com uma história diferente. Mas, em comum, o excesso em uma época de retração.

Port Ellen foi fechada em 1985, e convertida em malting floor por sua proprietária, a Diageo. Na época, o consumo de whisky no mundo estava muito aquém do que é hoje. E a Diageo possuía três destilarias somente em Islay – Port Ellen, Lagavulin e Caol Ila. Não havia razão para manter as três, mesmo porque a produção era voltada quase inteiramente para a produção de blends. A escolha foi natural. Pode parecer absurdo hoje em dia, mas Port Ellen era a menor – em volume de produção – e a menos conhecida e amada das três.

Brora teve também uma história semelhante, sendo consequentemente substituída – inclusive em sua logomarca – pela querida Clynelish. E a Rosebank, considerada a rainha das destilarias das Lowlands, foi preterida em favor da Glenknichie (leia mais sobre isso aqui) que tinha um centro de visitantes bonitinho numa colina que remonta aos Teletubbies. Por fim, Glenury, também foi outra vítima da resposta à retração do mercado, em 1985.

Brora, atualmente parte dos Special Releases da Diageo

E houve também alguns poucos casos em que a queda da tal ghost distillery se deu por pura má sorte. Como é o caso da Banff, fundada em 1824. Que pegou fogo em 1877. Cujos donos faliram em 1932. E que foi bombardeada pela Luftwaffe em 1941 (aliás, há um curioso episódio sobre vacas embriagadas aqui). E que explodiu de novo em 1959, até finalmente começar a ser demolida – voluntariamente – em 1983, somente para, durante a demolição, pegar fogo e explodir numa magnífica bola de fogo uma terceira vez.

Todas estas destilarias, atualmente ghost distilleries, foram vítimas de seu tempo – ou do azar, no caso da desafortunada Banff. E talvez sua desgraça tenha se tornado sua maior glória. Porque, com o tempo, elas viraram espécies de mártires da indústria. De legado, na maioria dos casos, restaram seus barris. O estoque em maturação, pacientemente aguardando para serem engarrafados. E hoje, os engarrafamentos justamente destes estoques que são disputados por colecionadores como – e desculpem pela metáfora clichê – ouro líquido.

A razão da procura não é única, também. Em primeiro lugar, há um certo romantismo em provar um líquido que jamais será substituído. Ainda mais para um apaixonado por aquela bebida. Em segundo, há a curiosidade. Curiosidade de saber qual era o sabor daquele líquido. Para os mais aficionados, traçar comparações e finalmente saciar a curiosidade. Comprovar, na língua, que Port Ellen é tão bom quanto Lagavulin. Que Clynelish é superior a Brora. Ou não.

Será que teremos mais destilarias silenciosas no futuro? Não sei. Provavelmente – a história mostra que o movimento é pendular. Mas, se tivermos, espero que também sejam produzidos excelentes filmes sobre elas.

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