Drops – Springbank 15 anos

Se você gosta de carros, deve já ter ouvido falar do Nissan GT-R. O Nissan GT-R é o herdeiro do Skyline, um superesportivo japonês ora produzido pela Prince Motor Company. Em 2009, o GT-R entrou para o Guinness como a aceleração mais rápida de 0-100km/h (0-60mph) por um carro com quatro lugares. Mas isso não é importante. O importante é que o GT-R (e seu progenitor, o Skyline) é um dos carros mais desejados e defendidos por qualquer auto-geek.

Talvez seja porque o carro tenha sido vedete de algum jogo de videogame, ou tenha ganhado fama ao desbancar carros bem mais caros quando o assunto é performance. Mas fale mal de um GT-R para algum entusiasta, e você estará em maus lençóis. O GT-R é a versão automobilística daquela piada do dry martini. Se algum dia estiver sozinho, perdido em um deserto, ou terrivelmente sozinho, simplesmente recite com determinação. O Porsche Carrera é melhor que o GT-R. Algum apaixonado pelo último sairá de dentro de um buraco ou pulará de trás de uma pedra para provar o contrário.

No universo do whisky, a Springbank é o Nissan GT-R. Um single malt muito bom, mas cuja fama o torna além de irrepreensível. A Springbank possui status de malte cult entre os entusiastas, e suas edições limitadas praticamente sublimam das estantes, quase instantaneamente depois de terem sido lançadas.

Tamanho sucesso raramente possui um único motivo. Este Cão, porém, suspeita que seja uma conjuntura de dois. O primeiro, a indiscutível qualidade e regularidade dos lançamentos. Ainda que nem todos sejam extraordinários, é praticamente impossível encontrar um que seja ruim. E, em segundo, porque a Springbank é uma das únicas destilarias independentes de toda Escócia, e também uma das poucas que realiza todo o processo – da maltagem ao engarrafamento – totalmente em casa. Há uma certa sensação romântica em saber que aquele malte é produzido de forma artesanal, em um mundo cada vez mais automatizado e dominado por grandes conglomerados.
A Springbank é uma das únicas três destilarias sobreviventes de Campbeltown, cidade que fora, por muito tempo, considerada a capital mundial do whisky. A região, que chegou a contar com trinta e quatro destilarias durante a década de cinquenta, hoje possui apenas três delas. As outras duas são Glengyle e Glen Scotia.
Campbeltown
Apesar do ar artesanal, a destilaria possui uma boa variedade de whiskies. São três linhas distintas. A primeira, homônima – Springbank, da qual o tema desta prova faz parte – é muito levemente turfada. Já a segunda, Hazelburn, não possui qualquer defumação, e é triplamente destilada, dando origem a um whisky adocicado e extremamente leve. Já a terceira – batizada de Longrow – é o oposto da segunda. É um whisky bastante defumado e relativamente oleoso.

O Springbank 15 é, antes de qualquer coisa, extremamente equilibrado. É um whisky complexo, oleoso, frutado e levemente defumado, com final achocolatado e amadeirado. É indiscutivelmente bom. Porém, e na polêmica opinião deste canídeo, não é nada que mudará seus paradigmas alcoólicos para sempre e estragará a experiencia de beber qualquer coisa que não venha da destilaria. É um malte correto, acima da média e produzido com muito esmero. Mas – assim como o GT-R – está longe de se impor sobre outros maltes excelentes.

Seja como for, o Springbank 15 anos – ou, para falar a verdade, qualquer Springbank – é uma passagem necessária para todo entusiasta de whiskies. E é uma belíssima demonstração de como os métodos tradicionais de produção de uma bebida secular como o whisky ainda tem espaço nos dias de hoje. Enfim, é um malte que emana admiração e respeito ainda que, na maioria dos dias, prefira os Porsches.

SPRINGBANK 15 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 15 anos

Destilaria: Springbank

Região: Campbeltown

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Levemente enfumaçado. Frutado, com uvas passas e nozes.

Sabor: Frutas secas, ameixa seca. Final levemente enfumaçado e longo. Oleoso e bastante complexo.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Meritocracia – Glenkinchie 12 anos

Se você for um engenheiro ou metereólogo, provavelmente conhece a Teoria do Caos. Mas se não, eu explico. A Teoria do Caos postula que em sistemas complexos, onde há grande número de variáveis, a sensibilidade torna certo resultado imprevisível a longo prazo, devido a ação e iteração, ainda que haja recorrência destas variáveis, ou elementos.

Se não entendeu, permita-me exemplificar com um singelo objeto. O guarda-chuvas. Decidir se levará ou não um guarda-chuvas depende de muitos fatores. A temperatura, a quantidade de nuvens no céu, a umidade do ar, entre outros. E talvez você acerte. Mas talvez você erre e fique terrivelmente molhado. Ou esqueça aquele equipamento absolutamente inútil em um restaurante, durante um belíssimo dia ensolarado de verão. A verdade é que impossível prever o tempo com certeza absoluta, porque há muitas variáveis.

Mas a teoria do Caos não serve apenas para explicar fenômenos meteorológicos. Ela pode ser aplicada a tudo em nossa vida. E a indústria do whisky não é exceção. Um bom exemplo é a história da Glenkinchie e de sua finada – e agora renascida – irmã Rosebank. É que no começo do século XVIII, quando ambas foram fundadas, nunca alguém imaginaria que a eutanásia de uma dela se daria por um fator tao frívolo quanto sua beleza. Mas foi justamente o que aconteceu.

A Rosebank foi fundada em meados do século XVIII, apenas algumas décadas após sua irmã Glenkinchie. Ambas ficavam na região das Lowlands. A Rosebank, no entanto, ficava em um lugar mais ou menos feio próxima ao canal Forth & Clyde. O fluxo de água do canal chegou a ser interrompido, muitos anos mais tarde, devido ao acúmulo de detritos. Já Glenkinchie se localiza até hoje no vale de Kinchie Burn (daí Glen-Kinchie), um lugar belíssimo, próximo à – também bonita – vila de Pencaitland.

Feio para os padrões escoceses, claro.

Acontece que em 1914 a Rosebank, Glenkinchie e mais três outras destilarias da região resolveram fundar um grupo comercial, chamado Scottish Malt Distillers. Este grupo foi comprado em pela Distillers Company Limited  em 1919, que mais tarde se tornou a gigante Diageo. Reza a lenda que em 1993, o grupo resolveu que fecharia uma de suas destilarias das Lowlands, para concentrar o investimento na outra. A Rosebank era considerada a rainha de todas as destilarias daquela região. Seus whiskies estavam entre os melhores da Escócia. Os da Glenkinchie, porém, eram considerados apenas bons. A lógica teria sido fechar Glenkinchie, e manter a coroa sobre a metafórica cabeça da Rosebank.

Mas eu não teira começado este texto falando sobre a Teoria do Caos, se isso tivesse ocorrido. Como havia dito, a Rosebank ficava em um canal feio. A Glenkinchie, em uma paisagem escocesa de cartão postal. Além disso, alguns anos antes, a Glenkinchie fora escolhida para fazer parte dos Classic Malts of Scoland, um grupo de destilarias da Diageo representativas de suas respectivas regiões (que conta com Talisker, Lagavulin e Oban, entre outros). Aliás, um dos projetos da Diageo seria construir um belo centro de visitantes, para que turistas pudessem conhecer de perto os processos de suas destilarias mais importantes. E nesse assunto, não havia qualquer discussão. O destino da Rosebank foi selado por sua aparência, algo que jamais poderia ter sido previsto.

É claro que há outros fatores em jogo. A Glenkinchie era uma destilaria mais conhecida, graças à sua inclusão no seleto grupo dos Classic Malts. Sua capacidade produtiva também era superior. A Rosebank, por sua vez, tinha papel apenas coadjuvante, fornecendo maltes para blended whiskies. Sua única expressão fazia parte da – um tanto obscura – linha Flora & Fauna. Já a Glenkinchie possuia expressões próprias, como sua espinha dorsal na época, o Glenkinchie 10 anos. Este, que foi recentemente substituído pelo Glenkinchie 12 anos, tema deste post, e único representante das Lowlands que chega oficialmente ao Brasil.

O Glenkinchie 12 anos é um whisky com corpo leve, e bastante delicado. Muitos atribuem isso à tripla destilação, prática comum nas Lowlands em um passado não muito distante. Porém, a Glenkinchie emprega apenas dupla destilação – a praxe da indústria escocesa. O pouco corpo se deve ao tamanho e ao formato de lâmpada de seus alambiques, que incentivam o refluxo. Os condensadores em forma de serpentina ajudam a trazer um certo sabor de enxofre ao malte.

Alambiques da Glenkinchie

A destilaria não divulga com clareza o processo de maturação de seu Glenkinchie 12 anos. Porém, pelas características sensoriais, o palpite educado deste Cão é que seja inteiramente feito em carvalho americano que antes contivera bourbon whiskey. Isso faz sentido, se pensarmos que a outra expressão de seu portfólio – o Glenkinchie Distiller’s Edition – é finalizado em barricas de carvalho europeu de ex-jerez, e possui a mesma idade.

No Brasil, uma garrafa do Glenkinchie 12 anos custa, em média, R$ 250,00. Sensorialmente, o Glenkinchie 12 anos é floral e levemente amargo, com final um pouco sulfúrico e curto. Ainda que não seja um malte muito complexo e (discutivelmente) caro pelo que oferece, é também um whisky muito fácil de ser bebido, e que agradará à maioria dos paladares. Um daqueles whiskies que dispensam a Teoria do Caos e podem ser bebidos a qualquer hora e em qualquer situação, faça chuva ou faça sol.

GLENKINCHIE 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos

Destilaria: Glenkinchie

Região: Lowlands

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: sulfúrico e floral (vegetal).

Sabor: levemente amargo e picante, com uma nota vegetal bastante clara. O final é seco e curto, com quase nenhuma fumaça.

Com água: o whisky se torna ainda mais seco, e final mais curto.

Bebendo o Oscar 2018 – Comparando whiskies e filmes – O Cão Engarrafado

Quando era criança, fazia todo tipo de atividade inútil. Não academicamente inútil, como aprender sobre nematelmintos e platelmintos, mas realmente inútil. Como, sei lá, tentar não pensar numa coisa que eu acabei de pensar. Ou adivinhar a cor do próximo carro que passaria pela janela. Ou – uma das minhas preferidas – repetir uma palavra um zilhão de vezes até que a impressão de seu significado se esvaísse completamente, restando somente a sonoridade.

À medida que cresci, essas atividades se sofisticaram. Uma das mais elaboradas envolve uma lombada eletrônica quase em frente ao meu prédio. Toda vez que passo por ela de carro, tento chegar o máximo que posso perto do limite de velocidade, que é de quarenta quilômetros por hora. É um joguinho legal, especialmente quando marco trinta e nove ou trinta e oito. Sorrio por dentro em reconhecimento de minha precisão com o pedal do acelerador. Mas é tão legal quanto inútil, porque, quando eu venço, eu não ganho nada. Mas quando eu perco, levo uma multa.

Outra atividade da mesma natureza é tentar relacionar coisas quase não relacionáveis. Encontrar pontos de tangência entre John Lennon e papel higiênico ou entre McRib e loucura. Ou ainda filmes e whiskies. E foi justamente essa prosaica atividade que fiz pela primeira vez em 2017, quando falei sobre os filmes do Oscar de 2017. E que, para minha surpresa, teve uma repercussão bem positiva. Então, resolvi retomá-la para a festa deste ano.

Escolhi quatro indicados ao prêmio de melhor filme, que assisti e relacionei com suas almas gêmeas do mundo da melhor bebida do mundo. Então, caros leitores, preparem-se para um texto tão inútil quanto tentar encontrar padrão nas placas dos automóveis no trânsito ou – este mereceria o Oscar de atividade mais ridícula – tentar engolir a própria língua.

 

THREE BILLBOARDS OUTSIDE EBBING, MISSOURI

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, traduzido como Três Anúncios para um Crime (sério, quem inventa esses nomes?), é uma espécie de comédia-negra-dramática-policial dirigida por Martin McDonagh. O mesmo cara que dirigiu também as comédias-negras-dramáticas-policiais In Bruges e Seven Psicopaths. Mas, ao contrário destas, o humor é bem mais sutil. A película conta a história de Mildred, uma mãe que desafia a polícia da cidade de Ebbing a solucionar o assassinato de sua filha de uma forma bastante improvável – colocando uma mensagem em três outdoors de uma estrada que leva à cidade.

O filme, a princípio, parece um drama. Mas há um certo humor casual, irônico e pouco espalhafatoso. Ele se constrói sobre personagens que percorrem o longo caminho entre pontos opostos. Como vingança e conformismo, violência e passividade, resiliência e esgotamento, impulsividade e reflexão. E aí talvez esteja seu maior valor – certas atitudes levam a outras, e influenciam na vida de todos. O filme até explica demais isso, com a piadinha “anger begets more anger” (assista para entender). O roteiro é bem construído, ainda que, algumas vezes esteja um pouco ao sul da sanidade. As atuações de Frances McDormand e Sam Rockwell são irretocáveis.

A alma gêmea de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri no mundo do whisky é o Woodford Reserve. Um bourbon relativamente complexo, equilibrado, acessível e bem construído.

TRAMA FANTASMA

Phantom Thread, ou Trama Fantasma, em português, se passa na década de 50, em Londres. Reynolds Woodcock – estrelado por Daniel Day Lewis- é um famoso costureiro, amargo e metódico, que se apaixona por Alma, uma jovem voluntariosa. Descrevendo dessa forma, parece a versão dramática adaptada de Melhor Impossível. Mas não é. Phantom Thread se assemelha muito a um Hitchcock, com a diferença de que o mistério é substituído por um frágil equilíbrio de poder, que está na relação entre os dois protagonistas.

A relação deles, aliás, já começa meio estranha. Woodcock conhece Alma durante um café da manhã, em um hotel no interior do Reino Unido. Alma é sua garçonete desajeitada, que por alguma razão que me foge à lógica fica terrivelmente encantada por aquele velho esquisito que pede mais da metade do menu. Woodcock galanteia Alma lhe pedindo suas anotações sobre sua refeição, e a convida para jantar consigo. O primeiro encontro dos dois ocorre no mesmo dia, quando Reynolds à leva para sua casa e fala de sua mãe. Enfim, um cara esquisito, num encontro com assuntos meio constrangedores. Mas o amor tem dessas, eu acho.

Apesar dessa passagem – que, aliás, é a premissa para o filme acontecer – a película é belíssima. A direção de Paul Thomas Anderson nos coloca no apaixonante e insular mundo da alta costura e da elite financeira de Londres, ambos de friezas encantadoras. Na singela opnião deste Cão, isso, aliada à atuação de Day Lewis, torna a Trama Fantasma um dos mais envolventes filmes a concorrer ao Oscar deste ano.

Se Phantom Thread fosse um whisky, seria provavelmente um Glenfiddich 26 anos. Um whisky que parece delicado, mas extremamente complexo, sutil e, claro, aristocrático.

LADY BIRD

Lady Bird, o segundo filme sob direção de Greta Gerwin, conta a trivial história de uma garota comum. Saoirse Ronan vive uma adolescente de dezessete anos, que inventa uma alcunha – Lady Bird – para parecer menos ordinária. O filme cobre seus últimos meses antes de se tornar maior de idade e, naturalmente, trata de imaturidade e amadurecimento. Fala sobre as complexas relações familiares e sobre tudo aquilo que não é dito, mas que é sentido.  Lady Bird é indiscutivelmente autobiográfico – Greta nasceu na mesma cidade em que o filme se passa, e trilhou boa parte das mesmas experiências. Aliás, aí está uma atividade inútil para se fazer ao ver o filme: tentar adivinhar o que realmente aconteceu e o que foi inventado.

A película tem pouco mais de uma hora e meia. Os trechos que exploram a relação entre Lady e sua mãe são, de longe, os melhores. Mas o resto não passa muito de uma versão bem melhorada de algum seriado de high school. Veja bem, não é que o filme é ruim. Mas ele também não é nada genial. E, na humilde opinião deste Cão, o problema está justamente em sua premissa – ele é um longa metragem comum, sobre uma adolescente banal. Não há nada de extraordinário na protagonista. E a gente sabe que toda adolescente comum é chata e infantil, então, o filme adquire exatamente o mesmo tom. A salvação acontece nos últimos vinte minutos, que compensam os outros setenta de marasmo e prosaísmo. Quer dizer, se você tiver filhos.

Para este Cão, Lady Bird é um White & Mackay the Thirteen. Um whisky razoável, mas com uma finalização meio inesperada.

A FORMA DA ÁGUA

Shape of Water, no original, é uma versão anfíbia de A Bela e a Fera. A película conta a história de Eliza Esposito (Sally Hawkins), uma faxineira sem voz, que trabalha em uma organização supersecreta (OCCAM) e se apaixona por um monstro antropomorfo anfíbio, levado para lá e mantido em cativeiro para ser estudado.

Mas o filme não é apenas isso. Para este Cão, seu tema principal não é amor, mas preconceito. De muitos tipos. Contra o amigo gay de Eliza, brilhantemente estrelado por Richard Jenkins, a colega de trabalho negra, Zelda, funções de trabalho consideradas triviais e a criatura em si – que apesar de se assemelhar muito com uma pessoa, é tratada como um animal e objeto de estudo. Há um paralelo longínquo mas bem interessante com uma película que talvez já tenha sido esquecida: Coisas Belas e Sujas, de Stephen Frears. Ainda que, neste último, o único anfíbio seja um coração humano.

A direção de A Forma da Água é de Guillermo Del Toro, que constrói um mundo todo de fantasia ao redor da história. Enquanto ele tenta nos lembrar constantemente que estamos no mundo real – com notícias sobre a guerra fria ou a cena das mangueiras molhando manifestantes na televisão, por exemplo – o universo de Shape of Water é indiscutivelmente mágico, a ponto de superar o realismo fantástico. É como se a fantasia assistisse o mundo real pela televisão. O equilíbrio funciona, mas cria um certo ar de estranheza.

Se a Forma da Água se liquefizesse (viram o que eu fiz aqui?) em whisky, ele provavelmente seria um Johnnie Walker Blender’s Batch Red Rye. Um whisky que fica entre o centeio norte-americano e o blended whisky escocês, mas que funciona relativamente bem para os dois papéis.

Drops – Laphroaig 10 Cask Strength

Uma vez falei aqui do Ariel Atom, um automóvel que quase não poderia ser considerado um automóvel. Não há rádio, nem pára-brisas, tampouco ar-condicionado. Não tem teto também, nem portas. Bagageiro, nem pensar. O Ariel Atom é tipo aquela casa muito engraçada da musica infantil, que não tinha nada. E assim como a casa, não tem pinico para fazer xixi. Mas deveria ter, porque dá um medo desgraçado. O Atom possui um volante, um motor violento e o poder de arrancar a pele da sua cara ao acelerar, ao estilo motoqueiro fantasma.

O Atom acelera de 0-100 em menos de três segundos. É muito rápido. Mas como para alguns loucos isso não parece o suficiente, a empresa resolveu que lançaria um carro ainda mais forte. O Atom 500, com um motor V8 com 507 cavalos, capaz de sublimar o carro até cem quilômetros por hora em 2,3 segundos. Além de aumentar a potência, a Ariel o deixou ainda mais leve – para compensar o bloco mais pesado – e adicionou uma asa, para aumentar o downforce. O carro ficou a cara de um brinquedo de criança. Um brinquedo muito rápido e absolutamente insano.

No mundo do whisky, talvez o paralelo perfeito para o Ariel Atom seja o Laphroaig 10 anos Cask Strength. Ele é a versão turbinada de um whisky que já não tem nada de delicado. A versão tradicional – o Laphroaig 10 – é bastante defumada e medicinal, com sabor de iodo e couro. Sensorialmente, não é lá o whisky mais acessível. Mas como o desafio de bebê-lo parece fácil para muitos, a destilaria possui também uma edição limitada – O Laphroaig 10 anos Cask Strength. É o mesmo monstro enfumaçado, mas com graduação alcoólica de mais de 55%, ao invés dos tradicionais 40%.

Laphroaig

O Laphroaig 10 anos Cask Strength é uma edição limitada anual. A cada ano, um lote é lançado. Cada um deles é o resultado da mistura de barris cuja maturação mínima é 10 anos. Maturação que ocorre principalmente em barricas de carvalho americano, que antes continham Bourbon whiskey. No caso específico da Laphroaig, a vasta maioria das barricas deste tipo vêm da Maker’s Mark, famosa produtora de whiskey dos Estados Unidos. O whisky não sofre qualquer diluição antes de ir para a garrafa. Por isso, a graduação alcoólica de um lote para outro varia. O whisky da foto é do lote 007, lançado em 2015, e sua graduação é de 56.3%.

Laphroaig já foi extensamente revista neste blog. Como sabem – ou não – seus whiskies têm caráter defumado por conta do processo de secagem da cevada maltada utilizando uma fogueira abastecida por turfa (peat). Ela foi fundada em 1815, pelos irmãos Donald e Alexander Johnston, e comemora em 2015 seu ducentésimo aniversário. Atualmente, pertence à Beam-Suntory, juntamente com a Maker’s MarkBowmore, Auchentoshan, e, claro, os japoneses HibikiHakushu e Yamazaki.

Como você já deve ter presumido, o Laphroaig 10 anos Cask Strength não está disponível em nosso país. E, para falar a verdade, ele está quase indisponível no mundo. A Laphroaig é uma das mais queridas destilarias da Escócia, e suas edições especiais são bastante concorridas. É possível, porém, com alguma sorte ou pesquisa, encontrar garrafas em certas lojas europeias ou americanas, ou diretamente no website da destilaria. Mas se tudo isso para você parecer um exagero, procure o Laphroaig 10 anos tradicional, à venda em nosso país por aproximadamente R$ 350,00. Não é uma pechinha, mas se você me perguntar, direi que correria mais rápido que um Atom para comprar um.

LAPHROAIG 10 ANOS CASK STRENGTH BATCH 007

Tipo: Single Malt com idade definida – 10 anos.

Destilaria: Laphroaig

Região: Islay

ABV: 56.3%

Notas de prova:

Aroma: turfado e defumado. Muito picante, com iodo.

Sabor: Início defumado e seco, salgado e medicinal. Final progressivamente mais enfumaçado.

Com Água: Adicionar agua torna o whisky mais adocicado, o torna menos picante e permite que as notas de iodo e medicinais se intensifiquem.

Disponibilidade: Apenas lojas internacionais

 

O Cão Geek – Corante Caramelo no Whisky

Semana passada fui ao dentista. Coisa de rotina. Higienização, selante, flúor. E ainda que não houvesse nada de extraordinário a ser feito na minha visita, fiz uma constatação até otimista. Que os dias que você vai ao dentista te fazem valorizar mais todos os outros que você não vai. E nem é por conta da consulta. Nao tenho medo do motorzinho, nem daquele sugador e nem daquele negócio que parece uma mini-picareta e faz um barulho agudo irritante enquanto espeta sua gengiva. E nem por causa da profissional também, porque minha dentista é um amor de pessoa. O problema é o after.

Quando terminei a consulta, veio a recomendação. Nada de café, chocolate e de coisas com corante até amanhã. Não pode coca-cola, nem ketchup ou gelatina. E nem pensar naquela balinha do pessoal do Uber, a não ser que você queira um dente com um visual meio verde radioativo. Tranquilo, porque essas coisas não fazem muito parte da minha rotina mesmo. E whisky? Whisky tem corante, é? A maioria tem sim. Bom, então melhor não. Meu mundo caiu. Nunca tive trauma de dentista até hoje, mas acabei de criar um. Ainda bem que eu não bebia whisky quando era criança, porque senão detestaria o dentista pro resto da vida.

Mas é a mais pura verdade. A maioria dos whiskies que bebemos possuem corante. O chamado corante caramelo, ou cor de caramelo. Ele é um corante alimentício, produzido pelo aquecimento de carboidratos ou açúcares na presença de ácidos, bases ou sais. Em palavras mais simples, é a queima de algum açúcar, como frutose ou glucose, para que adquiram uma coloração escura. Há mais de uma espécie, mas o mais comum é conhecido nos Estados Unidos como Class 1, e, na Europa, E150. O E150 é também dividido em classes, que vão de A para D, de acordo com cor e processo produtivo. O mais utilizado na indústria do whisky é o E150A.

De acordo com a regulamentação da Scotch Whisky Association, para que um whisky possa ser rotulado como scotch whisky, somente água e corante caramelo poderão ser adicionados ao destilado. Ainda, conforme a regulamentação, apenas “plain caramel” (E150A) pode ser usado no Reino Unido. Na Europa, por outro lado, é permitido que se use outras classes de E150.

Tonalidades

Nos Estados Unidos a história é mais complicada. De acordo com o Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau, certos whiskeys podem utilizar até 2,5% de corante caramelo em sua composição. Esse percentual pode ser maior, porém, se o uso for de costume para certa bebida (algo como a tradição de adicionar quantidades copiosas de corante caramelo ao whiskey). Mas nada é tão simples. De acordo com o Code of Federal Regulations – a lei que estabelece as regras relativas aos whiskeys americanos – bourbons (sejam eles straight ou não) não podem utilizar qualquer corante. O que significa que a cor daquele seu belíssimo bourbon é cem por cento natural, proveniente da maturação nos barris. Talvez devesse ter ressalvado isso à minha dentista.

Quase mesma regra se aplica às demais classes de whiskey americano. Porém, para estes, o uso de corante caramelo somente é proibido se utilizarem a expressão “straight” no rótulo. Assim, Rye, Corn e Wheat whiskeys podem utilizar corante Class 1 em sua composição. Só que, se o fizerem, não podem ser rotulados como Straight Whiskey. O que, para falar a verdade, não me parece algo tão grave. Convenhamos, consumidor nenhum percorrerá o espinhoso caminho do conhecimento em relação a tantas regras, exceto se for um whisky geek. Que imagino que você, leitor, seja, já que chegou ao sexto parágrafo deste texto.

Whisky!!!

Certas legislações exigem que se declare o uso do E150. O exemplo mais conhecido é a Alemanha. Todos os whiskies comercializados no país que levam corante caramelo devem trazer em seus rótulos – ainda que na parte de trás – os dizeres “mit farbstoff” (“com caramelo”). Como certos produtores possuem rótulos voltados para o mercado global de exportação, raras vezes, mesmo no Brasil, pode-se encontrar um whisky que leve a expressão em sua embalagem.

A POLÊMICA

Muitos afirmam que o uso de corante caramelo no whisky afeta seu sabor. Outros juram por seus destilados que não. Há excelentes argumentos para os dois lados. De acordo com uma matéria vinculada no Vinepair recentemente, um painel de dez funcionários do website Master of Malt (especializado em whisky) tentou identificar o sabor do corante em diversos whiskies, mediante uma série de testes sensoriais, e não conseguiu. Há, por outro lado, o argumento de que o corante caramelo em si, possui um sabor bastante característico. E que, ainda que tímida, há alteração no sabor da bebida por conta disso.

Talvez você esteja se perguntando o motivo de se usar corante caramelo no mundo do whisky. Afinal, seria mais fácil simplesmente abandonar a prática e evitar polêmicas. Mas o mudo, meu caro, não é tão simples. Há tons de cinza. Ou melhor, tons de barris. É que a maturação de um whisky não é uma ciência exata. No caso de single malts, certas barricas transferirão ao destilado mais cor do que outras. Na vasta maioria dos single malts, essas barricas são misturadas, dando origem a lotes. O problema é que, como cada barrica possui uma tonalidade diferente, a coloração da mistura delas poderá ser diferente de lote para lote. Então, para assegurar que aquele single malt tenha sempre aquela mesma cor que você conhece, utiliza-se corante caramelo. Para padronização. Muitos maltes renomados adotam essa prática, como Dalmore, Glenlivet, Glenfiddich e Lagavulin.

Mit Farbstoff

No mundo dos blends, a razão é a mesma. Mas o motivo é ainda mais justificável. O que se busca em um blended whisky é consistência. É por isso que as receitas de blended whiskies não costumam ser claramente divulgadas. Porque o produtor pode simplesmente substituir um single malt por outro com características sensoriais parecidas na mistura, de acordo com a disponibilidade do estoque. Pode-se, inclusive, mudar a proporção para que o sabor do blend permaneça inalterado. Só que manter o mesmo padrão de sabor talvez possa levar a uma alteração de cor. E a forma de evitar que lotes diferentes de blends tenham cores diferentes é pela utilização do E150.

Este Cão não tem uma opinião formada sobre o corante caramelo. Porém, acredita que – como muita coisa – preocupar-se com isso é desnecessário. É claro que o corante caramelo pode ser usado para disfarçar a má qualidade de uma barrica, ou para fazer com que um whisky absurdamente jovem se passe por algo bem mais maturado. Ainda mais nos dias de hoje, com o aumento do consumo e do lançamento de whiskies jovens.

Mas acima de tudo isso, há algo que não é afetado pelo corante caramelo, e que deveria superar qualquer discussão sobre o assunto. A satisfação. Se certo whisky é agradável para seu paladar – seja ele jovem, maturado, simples ou complexo – isso deveria ser irrelevante. Quer dizer, a não ser que você tenha ido no dentista. Aí, melhor ficar com água mesmo.

 

Seis coquetéis refrescantes de whisky para o verão

Ah, o verão. O suor, a praia lotada, a aderência meio nojenta das coisas. Aquela inconveniente temperatura em que é quase impossível beber qualquer coisa a temperatura ambiente. Mesmo porque a temperatura ambiente é a mesma do sétimo círculo do inferno. E ainda que, para mim, beber whisky em qualquer temperatura seja no mínimo agradável, devo assumir que é bem melhor quando ele quase não queima seus lábios.

Pensando nisso – e reticente em abandonar o hábito – pedi ao mestre Marco de La Roche que preparasse uma lista de coquetéis refrescantes e que levam whisky. Perfeitos para essa transpirante época do ano. Marco é atualmente um dos expoentes da coquetelaria e mixologia brasileira e tem um currículo e tanto. É proprietário da Drink.Lab, embaixador das marcas YVY Gin e 1883 Maison Routin. Idealizou o projeto Mentes Brilhantes e faz parte do juri do 50 Best Bars. Foi editor chefe da revista Rabo de Galo e é proprietário do website Mixology News – onde, a convite de Marco, este Cão já escreveu uma matéria.

Bem, sem mais sudorese verbal. Com vocês, seis coquetéis refrescantes de whisky para o verão. Por Marco de La Roche. E tem até drink exclusivo do Cão!


Preste atenção. É só o verão chegar que a gente começa a procurar destilados brancos ou bebidas alcoólicas mais “leves” como os fermentados, seja uma cerveja, um espumante ou até os vermutes na forma de spritzers.

Se é um coquetel nossa memória pede um drinque frutado, cítrico e cheio, muito cheio de gelo.
E é aí que o whisky normalmente fica um pouco para trás. Nós vamos atrás de destilados como tequila, vodka, gim, cachaça entre outros.

À convite do Cão Mestre, fui convidado para compartilhar com vocês uma grande verdade.
Whisky é um grande destilado para se beber no verão. Eis aqui cinco drinques clássicos importantíssimos e uma receita autoral para que vocês possam concluir isso nesse verão.

WHISKY SOUR

Pode-se dizer que um Whiskey Sour é o primeiro passo para os iniciantes. Um clássico que mistura um destilado forte, um cítrico e um dulçor. E assim você pode experimentar com outros destilados, com Rum e Daiquiri, Cachaça e a Caipirinha e Gim e o Gimlet, só para ficar nos fáceis.

Esse drinque apareceu pela primeira vez 1870 em um jornal de Wisconsin, EUA. Mais tarde, foi-se creditado à Elliott Stubb a criação do clássico. É possível encontrar uma série de variações, que abordaremos abaixo da receita sugerida.

  • 60 ml de whisky
  • 25 ml de suco de limão tahiti
  • 25 ml de xarope de açúcar 1:1

Em uma coqueteleira com cubos de gelo, coloque os três ingredientes e bata vigorosamente.
Coe para uma taça martini ou um copo baixo com uma pedra de gelo e finalize com um twist de limão tahiti ou se quiser, uma cereja.

Uma variação possível, não incomum de encontrar nos bares é o uso de clara de ovo. Se quiser experimentar, tente 25 ml de clara de ovo. Outra chance é você encontrar gotas de angostura por cima da clara, também não está nem certo nem errado, é um estilo. Bares e bartenders mais antigos costumam colocar uma cereja como guarnição. Por fim, ainda é possível encontrar uma borda de copo ou taça crustada com açúcar. Quer dar um twist, experimente trocar o xarope de açúcar por um xarope de elderflower, por exemplo.

WHISKEY SMASH

Um dos representantes da coquetelaria com rye whiskey, à base de centeio (e tão raro no Brasil), o Whiskey Smash é uma consequência natural dos Sours. A simples adição de uma erva aromática em um sour e temos um smash. Drinque para os puristas, sem muito malabarismo. Um drinque muito parecido e mais conhecido é o Mint Julep, nesse caso, feito com bourbon, sem limão, montado direto e normalmente servido em uma caneca.

  • 60 ml de rye whiskey
  • 20 ml de suco de limão siciliano
  • 20 ml de xarope de açúcar 1:1
  • 8 folhas de hortelã frescas

Em uma coqueteleira, coloque o hortelã levemente amassado com os dedos, rye whiskey, limão e açúcar.
Acrescente cubos de gelo e bata vigorosamente. Coe para um copo baixo e complete com gelo picado ou então um cubo grande de gelo (dependendo do calor do dia). Finalize com um ramo de hortelã e se quiser uma fatia de limão siciliano.

NEW YORK SOUR

Um dos drinques com whisky que tem crescido muito nos bares é o New York Sour. Datada do século XIX, esta inovação de coroar um Whiskey Sour com um float de vinho tinto iniciou-se em Chicago, EUA e ao início do sec XX já era conhecida bem como New York Sour.

  • 60 ml de bourbon whiskey
  • 30 ml de suco de limão siciliano
  • 15 ml de xarope de açúcar
  • 2 dashes de Angostura
  • 15 ml de vinho tinto (para o float)

Bata vigorosamente os ingrediente com gelo e coe para um copo on the rocks com gelo novo. Flutue o vinho e decore, se quiser, com uma casca de laranja.

BOURBON RICKEY

Mais de um século atrás, adicionar suco de limão em um destilado era uma grande inovação. A receita, registrada em 1883, no Shoomaker’s, um antigo bar de Whashington, EUA, onde o bartender George Williamson e o coronel Joe Rickey tiveram a brilhante ideia de misturar limão e um toque de água com gás em um bourbon, deixando-o mais leve, refrescante e saudável.

  • 60 ml de bourbon whiskey
  • 25 ml de suco de limão tahiti
  • 75 ml de água com gás / club soda

Em um copo longo com cubos de gelo, coloque o bourbon e o limão e mexa rapidamente para homogenizar.
Finalize com água com gás, mexa novamente e sirva com uma rodela fina de limão tahiti.

PENICILLIN

O Penicillin é uma das receitas modernas mais importantes para a coquetelaria. O drinque, foi criado em 2005, por um dos maiores nomes da coquetelaria australiana, Sam Ross, que fez sua carreira e história na capital da coquetelaria mundial, Nova York. Foi lá que esteve à frente da barra de bares míticos como Mik & HoneyPegu Club e agora, à frente do Attaboy, e junto com seu par, Michael McIlroy.

  • 60 ml de scotch whiskey
  • 22 ml de suco de limão siciliano
  • 22 ml de xarope de mel 1:1 (água e mel diluído em partes iguais)
  • 2 fatias de gengibre fresco
  • 7 ml de Islay single-malt Whiskey

Em uma coqueteleira, coloque o gengibre fresco, o xarope de mel e limão siciliano e amasse bem. Acrescente o scotch whiskey e cubos de gelo e bata vigorosamente.
Coe para um copo baixo com novos cubos de gelo e finalize com o Islay whiskey.
Ou você coloca o Islay por cima do líquido ou simplesmente borrifa o whiskey por cima do líquido. Decore com uma fatia de gengibre cristalizado e sirva sem canudo.


DRINQUE EXTRA ESPECIAL PARA O CÃO ENGARRAFADO
APPLE, CORN & GINGER 

Este drinque criado especialmente para essa matéria por Marco De la Roche, e tem como objetivo apresentar notas refrescantes de gengibre, maçã junto com o bourbon whiskey.

  • 60 ml de bourbon whiskey
  • 25 ml de suco de maçã clarificado
  • 50 ml de ginger beer
  • 3 dashes de angostura bitter
  • fatia de maçã desidratada

Em um copo longo com cubos de gelo, coloque o bourbon, maçã e um dash de angostura e mexa bem até gelar e homogenizar. Finalize com ginger beer, mexa novamente. Sirva com uma fatia de maçã desidratada e 2 dashes de angostura por cima.

International Scotch Day – Ou #lovescotch

Hoje é véspera de Carnaval – afinal, estamos em Fevereiro, e Fevereiro inteiro é véspera de Carnaval. Este são já é um excelente motivo para beber whisky, mesmo que para mim, não seja necessário qualquer pretexto para isso. Entretanto, se para você isto não for suficiente, não há razão para pânico. Hoje é um dia especial para o whisky. Hoje é o Dia Internacional do Scotch (International Scotch Day).

Além do Dia Internacional do Scotch, a melhor bebida do mundo é celebrada em outras duas datas. No dia 20 de maio (World Whisky Day) e no dia 27 de março (International Whisky Day). Parece confuso e é. Mesmo porque, essencialmente, os dias comemoram a mesma coisa e do mesmo jeito, ainda que suas histórias sejam diferentes. Mas também, quem reclamaria de beber whisky por mais um dia do ano, não é mesmo?

O International Scotch Day foi criado em 2017 pela Diageo, que – caso você tenha a sorte de estar na Escócia – abrirá todas as suas destilarias para visitação gratuita. Estamos falando de Clynelish, Talisker, Lagavulin, Cragganmore, Cardhu, Glenkinchie e Oban, entre outras. E, se você morar no futuro, Brora e Port Ellen também. Mas as comemorações não acontecerão apenas por lá. Neste ano, mais de setenta países celebrarão o International Scotch Day.

Donald Colville, Embaixador global de maltes da Diageo, disse em entrevista ao website Master of Malt “Nós queremos que as pessoas pensem, falem e bebam Scotch. É sobre recrutar novas pessoas para a categoria, mas também dar àqueles que amam whisky, os conhecedores e verdadeiros amantes de Scotch, a oportunidade de aproveitar o International Scotch Day também“.

E a declaração de Donald não tem nada de blefe. Como tudo produzido pela gigante dos destilados, a campanha de 2018 pelo International Scotch Day tomou ares megalomaníacos. A empresa contratou os atores Shanina Shaik, James Marsden e Suki Waterhouse como embaixadores do dia. Eles viajarão para diversas cidades – Manila, Déli, Joanesburgo e Cidade do México – para promover a bebida. Além disso, as celebridades participaram de uma sessão de fotos na Cambus Cooperage. Para deixar o dia, diremos, mais ilustrado.

O trio

A ideia é colocar o whisky em evidência, especialmente para o público jovem. A data – 10 de fevereiro – não é aleatória. É o dia de nascimento de Alexander Walker, filho do John Walker que, como você já deve ter deduzido pelo sobrenome, criou a mais famosa marca de blended whiskies do mundo. A Johnnie Walker. Além disso, a empresa lançou uma campanha online com a hashtag #lovescotch . A ideia é que as pessoas compartilhem online o que está no copo delas. Como se ninguém fizesse isso nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano.

Ainda que tenha partido da Diageo, segundo a empresa, todos devem se envolver “Nós pensamos que o International Scotch Day é uma oportunidade para celebrar o whisky preferido do mundo e fazer com que o scotch whisky brilhe como categoria – por isso, incentivamos e acolhemos toda a indústria para se envolver“, diz uma declaração do grupo de bebidas

Assim, meus caros, munam-se de seus smartphones e garrafas de whisky. Comemorem, bebam (com moderação!), compartilhem. Porque para falar a verdade ninguém precisa de desculpa para beber com os amigos. Mas quando temos um pretexto, aí fica ainda melhor!

A Educação faz o Whisky – Dalmore 18

A Educação faz o Homem. Foi o que o escritor britânico William Horman reproduziu em seu livro Vulgaria, de 1519 – um compêndio de citações e provérbios de sua época. No original arcaico “manners maketh man“, o aforismo pode parecer algo cavalheresco e ultrapassado, mas possui um significado tão simples quanto atual. Ele diz que a cortesia, educação e as boas maneiras são essenciais para se conviver em sociedade. E o homem aqui tem sentido amplo. É toda a humanidade.

Mas isso tudo é um detalhe. O importante mesmo é que a citação de Horman – que na verdade nem de Horman é – tornou-se a frase de efeito de Colin Firth, em Kingsman. O filme, dirigido por Matthew Vaughn em 2014 é, ao mesmo tempo, uma paródia e uma homenagem a todos os filmes de espião de todos os tempos. Mas, especialmente, James Bond. Assim como nos filmes de 007, a película é forrada de ternos bem cortados, explosões e vilões megalomaníacos. E muitas vezes é até melhor que Bond. O polêmico plano-sequência da igreja, por exemplo, é absolutamente incrível. E Samuel L. Jackson como um cruzamento entre Mark Zuckerberg e Elon Musk coloca qualquer Blofeld no chinelo.

Mas, acima de tudo isso, há o whisky. James Bond está para The Macallan assim como Kingsman está para Dalmore. Mais especificamente, um Dalmore Sinclair 62. Em uma das cenas do filme, o precioso liquido é expressamente citado por um agente secreto prestes a ser fatiado em dois. 1962 Dalmore. Seria uma pena derramar nem que seja uma gota. Este Cão não poderia concordar mais. O Dalmore Sinclair foi por muito tempo o detentor do recorde de whisky mais caro vendido. É uma garrafa preciosíssima, que hoje vale mais de cem mil libras.

Really astonishing, motherfucker.

A escolha do whisky é irrepreensível. Afinal, a Dalmore é conhecida por produzir alguns dos mais elegantes single malts da Escócia. Obra de Richard Paterson, que até pouco tempo capitaneava o processo de produção da destilaria, como seu master blender. Richard, mais conhecido como “The Nose” (O Nariz) é uma lenda na indústria do whisky. Seu olfato é tão preciso e treinado que há uma apólice de seguro sobre seu nariz, no valor aproximado de 2,5 milhões de libras, pelo Lloyd’s Bank of London.

No Brasil, a Dalmore, importada pela Casa Flora, conta com três expressões com idade declarada – 12, 15 e 18 anos. Este último, o tema desta prova. O Dalmore 18 é maturado em barricas de carvalho americano por 14 anos e transferido para passar  três anos em barricas de jerez Matusalem. Ele é então finalizado por mais um ano em barricas de carvalho europeu de ex-jerez e engarrafado a 43% de graduação alcoólica.  Tudo bem até aqui, pelo jeito. A descrição parece perfeita. Porém, aqueles mais inclinados para o mundo das parreiras notará algo curioso. Matusalém.

É que a maioria dos whiskies finalizados em jerez utilizam as variedades Oloroso ou Pedro Ximenes para o processo, mas pouco se ouve falar em Matusalem. Matusalem é, na verdade, um Oloroso adoçado, conhecido como Oloroso Dulce. Sua idade média é de 30 anos, e sua base é uma mistura de Oloroso e PX. A maturação inicial do vinho ocorre nessas barricas posteriormente utilizadas pela Dalmore – depois, ele é transferido para soleras, onde passa mais um par de décadas até ser engarrafado.

Uma maturação afiadíssima.

Os Dalmore são, tradicionalmente, single malts bastante oleosos com claríssima inclinação vínica. Mesmo os blends mais jovens da destilaria transpiram este caráter. Mas é no 18 que, na opinião deste Cão, ele encontra a maturidade. Há a troca do dulçor e do sabor de malte por algo mais elegante. Um sabor seco, perfeitamente equilibrado com o adocicado e frutado do vinho fortificado.

O caráter oleoso dos Dalmore se deve ao formato dos alambiques da destilaria. Os de primeira destilação são curtos e seus pescoços são achatados. Já os de segunda destilação possuem uma espécie de reservatório de água (water jacket) ao redor dos seus pescoços, que são preenchidos por água fria. Isso faz com que as moléculas mais leves condensem, favorecendo a passagem apenas da parte mais densa do destilado.

Se você é apaixonado por whiskies com aroma e sabor de vinho fortificado, ou se gosta de harmonizar o whisky com um charuto, o Dalmore 18 anos será seu companheiro por muito tempo. Elegância, equilíbrio e personalidade. Se William Hornam estiver certo e a educação realmente fizer o homem, então o Dalmore 18 anos é um verdadeiro cavalheiro.

DALMORE 18 ANOS

Tipo: Single Malt 18 anos

Destilaria: Dalmore

Região: Higlands

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutas cristalizadas, canela, vinho fortificado.

Sabor: Frutas em calda, uvas passas, panetone. Vinho fortificado. Final longo e vínico. Oleoso.

Com água: o sabor de especiarias fica menos evidente e a característica vínica ainda mais clara.

Preço: Em torno de R$ 800,00 (oitocentos reais)

 

Compass Box Three Year Old Deluxe

Janeiro é o mês de meu aniversário. Fiz trinta e três, com fígado de sessenta e muitos. E percebi algo. Meus trinta últimos anos não foram, nem de perto, tão importantes quanto meus três primeiros.

Vejo isso pela minha filha,  a Cãzinha. A Cãzinha tem três anos, com uma habilidade social que não consegui em vinte. Não sei se é porque ela é uma criatura incrivelmente sociável ou se isso se a minha total inépcia social. Mas ela é capaz de conversar com qualquer pessoa, desafiar, mentir, fazer conversinha de elevador e pedir pão de queijo na lanchonete de uma forma absolutamente encantadora. Tudo isso ela aprendeu em três anos.

É claro que há algumas coisas que ainda são complicadas. A Cãzinha tem uma certa dificuldade em entender assuntos abstratos e não é muito convincente para argumentos elaborados. Como, por exemplo, quando ela tenta me convencer que pode comer brigadeiro duas vezes por dia, não consegue e fica agressiva. Mas observando sua evolução, chego a uma conclusão quiçá otimista. Que somos quem somos desde os três. O resto é só sofisticação. Aparar as arestas mais pontudas e aprender uma porrada de coisas que jamais usaremos, como íons, nêutrons, animais endotermos, exotérmicos e a era mesozoica.

No mundo do whisky isso também é quase verdade. A idade mínima para que um whisky seja considerado whisky, de acordo com as regras da Scotch Whisky Association, é de três anos. O tempo, porém, o deixa menos agressivo. Na maioria dos casos, é uma troca da pungência da juventude pela complexidade trazida pelos anos de barril.  Exceto, claro, se falarmos do Compass Box Three Year Old Deluxe, que apesar da idade mínima apresentada no rótulo, transparece uma maturidade quase balzaquiana.

O Compass Box Three Year Old Deluxe é blended malt produzido pela Compass Box Whisky Co., uma boutique de blended whiskies premium, fundada pelo executivo John Glaser. A Compass Box, desde sua fundação, teve um posicionamento iconoclasta no mundo do whisky. Muitos de seus lançamentos eram provocações ou desafios a dogmas impostos pela Scotch Whisky Association. Como, por exemplo quando decidiram maturar um whisky com chips de carvalho – algo proibido – ou lançar um blended whisky que é formado apenas por dois componentes: um single malt e um whisky de grão.

John, pensando em como sacanear a SWA.

Mas talvez a provocação mais descarada da Compass Box até hoje seja mesmo o Three Year Old Deluxe. Ele é um whisky produzido com 0,4% de um Clynelish de apenas três anos, 90,3% Clynelish e 9,3% Talisker ambos bem mais maturados. Mas enfim, um whisky com uma idade média bem razoável. Porém, por conta da regulamentação da SWA, ele não pode declarar essa idade. Deve dizer que possui apenas três anos. É que, como disse, pelas regras, a idade estampada no rótulo de um whisky deve ser aquela de seu componente mais novo. No caso dele, o Clynelish de 3 anos de idade.

O Three Year Old Deluxe é na verdade o resultado de uma campanha da Compass Box Whisky Co. por mais transparência no mundo do whisky. Ela encorajava outros produtores a se juntar, e possuía um abaixo-assinado para consumidores. Em menos de um dia, três mil pessoas haviam assinado a petição, e marcas de renome se juntaram à ela. Uma delas foi a Bruichladdich, famosa destilaria de Islay, conhecida por suas posições progressistas.

Mas, no final, a SWA se manteve resiliente. E a Compass Box teve que encontrar um meio-termo. De acordo com Glaser “Por muitas razões (incluindo, acredite ou não, o Brexit) é improvável que qualquer mudança satisfatória nas leis Européias ou Britânicas aconteçam a curto prazo, mas isso não significa que não podemos continuar fazendo o que sempre fizemos, e misturar whiskies de idades variadas para criar complexidade e equilíbrio. E, com isso em mente, temos o prazer de apresentar nossa edição limitada, o Three Year Old Deluxe

E continua ” Um whisky composto por menos de 1% de malte de três anos, um pouco mais de 90% de malte consideravelmente mais velho da mesma destilaria e 9% de um whisky turfado, produzido na ilha de Skye. A regulamentação nos permite que apenas divulguemos os detalhes do componente mais novo. Mas não importa. Porque o componente de três anos é muito especial, maturado por nós“.

mostra a linguinha para a SWA

Apesar do tom conformista do texto, o Three Year Old Deluxe é na verdade um proverbial tapa com luva de pelica líquida na SWA. Há uma certa hipocrisia nas palavras (mais ou menos) resignadas de Glaser. A proporção de malte jovem é muito pequena para fazer qualquer diferença relevante no sabor do blend. E tanto ele quanto a SWA sabem disso. O whisky é, assim, uma provocação muitíssimo bem elaborada. E uma provocação absolutamente incrível. O Three Year Old Deluxe é reminiscente de um finado Brora. Levemente defumado, com um toque de cera, mel e incrivelmente frutado.

Este Cão, porém, tem uma suspeita. Uma suspeita bem polêmica, ainda que não tão polêmica quanto produzir um whisky de mais de cem libras e estampá-lo com três anos. É que me parece que o Three Year Old Deluxe foi elaborado para não ser bebido. Tudo em sua embalagem demonstra isso. A cera dourada utilizada para selar a rolha e estojo de acrílico transparente colaboram para esta suspeita. A que Glaser já imaginava, ao lançar seu empurrão com ares de tapinha nas costas da SWA, que o Compass Box Three Year Old Deluxe se tornaria item de colecionador.

E foi justamente o que aconteceu. Desde seu lançamento, em 2014, seu preço mais que duplicou. E – acreditem, este Cão sabe bem – tem sido bem difícil encontrar uma garrafa. É que independente de nossa idade, uma coisa nunca muda. O apreço por uma boa história. E o Compass Box Three Year Old Deluxe é uma das melhores.

COMPASS BOX THREE YEAR OLD DELUXE

Tipo: Blended Malt com idade definida (esse é o ponto!) – 3 anos

Marca: Compass Box Whisky Co.

Região: N/A

ABV: 49,2%

Notas de prova:

Aroma: amadeirado e floral, com um pouco de fumaça.

Sabor: Seco e frutado, cítrico, com maçã e especiarias. A fumaça surge apenas no final, que é longo e seco.

Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

 

 

Drink do Cão – Whiskey Sour

Hoje, a caminho do trabalho, meu carro me disse que precisava de revisão. O módulo do controle eletrônico de amortecimento – ou algo assim – não estava funcionando. Chegando lá, liguei para a oficina enquanto preprava um café na nova máquina. Mas me confundi. A secretária atendeu bem na hora em que eu ajustava a temperatura e escolhia se meu expresso seria longo, normal ou ristretto. Acabei fazendo um chafé escaldante. Marquei a revisão do carro às pressas, e, irritado, fui à cafeteria. Pedi um café e um brigadeiro. A caixa então perguntou qual brigadeiro eu queria. Sei lá, brigadeiro não é tudo igual, retruquei. Não, agora temos uma seleção de mais de dez diferentes, tem, por exemplo, paçoca, chocolate belga, pistache, doce de leite, café.

Sabe, não sou um nostálgico da desafetação. Mas naquele dia queria apenas um pouco de simplicidade. Um café espresso, um brigadeiro de brigadeiro e um carro que não sabe falar e que não tira peças com nomes esquisitos da sua metafórica cartola eletrônica. Mas eu sei que esse é um movimento natural das coisas em nossa sociedade. Elas começam simples, mas à medida que o tempo passa, vão se sofisticando. É uma característica que não é exclusiva de cafés, carros e brigadeiros. O whisky sour é um exemplo bem claro no mundo da coquetelaria.

É que a primeira receita escrita do Whiskey Sour figurou no livro The Bartender’s Guide, de Jerry Thomas. E com a graça singela de tudo aquilo que começa a tomar forma, a mistura continha apenas três elementos: açúcar dissolvido em água, suco de meio limão e uma taça de bourbon e rye whiskey. Com o tempo, porém, o drink foi se sofisticando – ou melhor, complicando – e ganhando versões. Cereja em calda, calda de cereja, água com gás. A adição destes elementos na verdade tem uma função clara. Destaque. É uma forma de fugir do comum e criar uma identidade. E todo mundo quer isso hoje em dia.

Whisky Sour

Mas o elemento mais polêmico adicionado ao Whiskey Sour foi, sem a menor sombra de dúvida, a clara de ovo. Este – que muitos atualmente afirmam caracterizar o coquetel – porém, somente figurou em sua receita quase um século mais tarde. E até hoje permanece debatido. Por exemplo, a versão do coquetel ilustrada no Joy of Mixology de Gary Regan (2003) não contém a clara de ovo. E o The Essential Cocktail de Dale DeGroff (2008) a menciona como opcional. A ideia da clara não é alterar o sabor do coquetel, mas melhorar sua textura.

A polêmica a respeito da clara de ovo não tem nada a ver com a originalidade da receita, mas sim com saúde. O ovo cru pode transmitir salmonela, uma desagradável bactéria que causa vômitos, diarreia e todo tipo de sintoma gastro-escatológico. Em alguns casos, a salmonela pode ser até fatal. Acontece, no entanto, que somos bichos bem resistentes, e – considerando um bar que respeita os padrões de higiene – o risco da salmonela é bem pequeno para a maioria de nós.  Ele é relevante apenas quando a saúde estiver bem debilitada, ou para crianças. Aliás, um parêntesis aqui: se você estiver muito doente ou for uma criança, por favor, não consuma coquetéis. Com ou sem ovo.

Originalmente, o Whiskey Sour levava rye whiskey como destilado base. A escolha não era sensorial. Ele era o produto mais fácil de ser obtido na época de sua criação. Criação, esta, que é ligada à do Gimlet e do Grogue. É que durante as longas viagens intercontinentais marítimas, muitos marinheiros sofriam de escorbuto, causado pela falta de vitamina C no corpo. Como não havia suplementos alimentares naquela rudimentar época, o jeito era consumir de frutas. Frutas, porém, podiam apodrecer. Então, o álcool funcionava como um conservante, enquanto o açúcar tornava a mistura mais palatável.  Incrivelmente – e maravilhosamente, em minha opinião – uma coisa complementava a outra também em sabor. E, por isso, a panaceia tornou-se um sucesso. A marinha britânica inventou o Gimlet (com gim) e o grogue (com rum), enquanto os americanos usaram o whiskey de centeio e chegaram ao querido coquetel tema deste post.

Bem, sem mais afetação, meus caros leitores, aí vai a receita de um dos mais famosos coquetéis de todos os tempos. Notem, por favor, que a receita abaixo não é a clássica. Mas é aquela que, na opinião deste canídeo, apenas aperfeiçoa sua singeleza. Sem frugalidades, cafés, brigadeiros e automóveis falantes. Apenas um pouco de clara de ovo, calda de açúcar, whiskey e limão.

WHISKEY SOUR

INGREDIENTES

  • 2 doses de bourbon whiskey
  • 1 dose de sumo de limão siciliano
  • 3/4 doses de calda de açúcar (1:1) – aprenda a prepará-la aqui.
  • 1 colher de sobremesa de clara de ovo
  • gelo
  • Copo baixo
  • coqueteleira

PREPARO

  1. Coloque o bourbon, o sumo de limão, a calda de açúcar e a clara de ovo em uma coqueteleira. Chacoalhe bem forte. Isso se chama dry shake. A ideia aqui é formar a espuma característica da clara.
Não confunda com o harlem shake.
  1. Abra a coqueteleira com cuidado e adicione gelo. Bata vigorosamente.
  2. Desça o conteúdo eum um copo baixo, com algumas pedras de gelo ou – preferencialmente – uma pedra grande.
  3. Beba e brinde à simplicidade.